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07/05/26

Eclection "BBC Top Gear Sessions"


Never was a group more appropriated named. It is made up of one Canadian, two Australians, a Norwegian and an Englishman. They have a little of Jefferson Airplane in them, a little of The Seekers, a little of the Bee Gees, a little of everyone. Their sound is based on very complex four-part harmonies. Kerrilee Male, an Australian, looks and sings like Grace Slick of the Airplane when she isn’t looking and singing like Judy Durham of the Seekers.”  ( Lillian Roxon in “Rock Encyclopedia”, 1969 )


Consta que o nome da banda terá sido proposto por Joni Mitchell ao guitarrista Mike Rosen ( o canadiano do grupo ), segundo ela “they were such a eclectic bunch”.

Verdadeiro ou não o facto é que a música dos Eclection, pouco valorizada na época, acabou por se demonstrar terrivelmente resistente à erosão do tempo, a ponto de o seu único álbum homónimo ( “Eclection”, 1968 )  ser hoje um clássico, livre de todos os incómodos inerentes a peças claramente datadas.

BBC Top Gear Sessions” é o somatório de três gravações na BBC: 23 de Julho de 1968,  ainda com Kerrilee Male ( abandonaria o mundo da música no final do ano ), 19 Novembro de 1968 e 21 de Abril de 1969, ambas já com a contribuição vocal de Dorris Henderson, uma cantora de folk / blues originária da Califórnia e que à data  tinha já no activo duas magníficas colaborações com John Renbourn.



(ZigZag, 7 Novembro 1969)

A qualidade do áudio oscila entre o razoável e o bom ( não sendo propriamente um pirata, a edição não foi avalizada pelos músicos ou dos seus representantes ), um pormaior que se desvaloriza face ao evidente interesse das gravações.

BBC Top Gear Sessions” deve ser o único registo conhecido em que Trevor Lucas interpreta “Both Sides, Now” de Joni Mitchell; da mesma forma que é o único registo onde se pode desfrutar do fantástico “Put Your Face On”, um tema que os Airplane não desdenhariam ter composto e gravado.

Para além de “Neverthless”, “Will Tomorrow Be The Same”, “Violent Drew” e “Another Time Another Place”, todos do álbum “Eclection” e de “Please”, objecto duas versões em single, os restantes sete temas eram até agora inéditos. Permitem de resto conjecturar sobre e como seria um segundo álbum caso a Elektra Records tivesse corrido o risco de o promover.

Ficaram estas gravações de uma beleza imperfeita e sobretudo ficou Eclection”, esse disco extraordinário que o tempo não logrou corroer.

Em Dezembro de 1969, Trevor Lucas e Gerry Conway partiram para os Fotheringay e mais tarde para os Fairport Convention; John Palmer integrou os Family e George Hultgreen ( aka Georg Kajanus ) fundou os Sailor.

O resto encontra-se nas páginas da história.





26/07/21

Jardins do Paraíso ( LXVIII )

 


During those first few formative weeks and months we laboured to find whatever it might be that we all had to offer each other, and whatever it was we could assembler out of the disparate parts. We knew the end product lay somewhere between the smoky folk clubs of the 1960s, the browning pages of a crumpled copy of A. L. Lloyd’s Penguin Book Of English Folk Songs, and the thick cardboard jackets of the import vinyl we’d find at the unique Simon Stable’s record store on Portobello Road. We had to beat a trail through the middle, the dark heart of Albion on one side, mystic and brooding, and the new west coast electric psychedelia on the other, candy coloured and loud.” ( David Costa )


Há uns anos, numa entrevista e em sentido lato, Denzel Washington expressou o seguinte estado de espírito ( cito de memória ): “Ao envelhecermos tornamo-nos conservadores, na exacta medida em que temos mais coisas para conservar.” No caso do Atalho,  não havendo grandes bens materiais a preservar, guardam-se as memórias, as emoções e sobretudo o extremo bom gosto.

Aqui chegados, antecipo a curiosidade do leitor. Por que razão o Atalho tem consistentemente vindo a prestar mais atenção à música dita “antiga” em notório prejuízo de sons e autores contemporâneos?




Entre as várias respostas possíveis ( todas questionáveis naturalmente ), a música incluída na compilação dos The Trees lançada no ano passado poderia ( pode ) perfeitamente constituir uma das respostas àquela inquirição. Quem, detentor de um mínimo de critério e apreciável bom gosto será capaz de trocar aquelas músicas por algo do que se  (re)inventa hoje? E dito isto, sublinho: a velha e polémica questão geracional assume aqui um papel absolutamente irrelevante, pelo menos no que ao Atalho diz respeito.

Trees”, a compilação, é a tradução material da citação do criador e principal impulsionador do grupo que encima este texto. Os dois únicos álbuns da banda de Londres: “The Garden of Jane Delawney” ( Abril 1970 ) e “On The Shore” ( Janeiro 1971 ) resultam da paixão pela música folk britânica mesclada com a cromaticidade sonora da west coast ( confiram a título de exemplo os primeiros discos a solo de Paul Kantner e toda a constelação de estrelas itinerantes que por ali foram passando ).

Garden…” é um álbum extraordinário, mas “On the Shore” é superlativo. O pico da criatividade de uma banda que, nascida do acaso, teve a fortuna de a dado momento  alinhar com as estrelas. Num mundo mais justo, Celia Humphris poderia ter competido com Maddy Prior ou June Tabor. Confiram a este propósito “Sally Free and Easy”, a extraordinária versão do tema de Cyril Tawney. Quanto a “On The Shore” compara muito bem com “Unhalfbricking”, “Liege & Lief”, “Hark The Village Wait” ou “Fotheringay”.



A nova digitalização dos dois álbuns supera em qualidade as reedições de 2008 e os CDs extra disponibilizam misturas de temas que ficaram de fora daquelas reedições, bem como várias demos e sessões na BBC datadas de 1969/1970 e prestações de palco captadas no Café Oto em 2018.

A apresentação da box é cuidada e suficientemente elegante para alinhar com a qualidade e sofisticação da música que inclui. Um deleite.

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

11/06/15

Jardins do Paraíso ( XXXXIII )




O castelo de Fotheringhay em Northamptonshire foi construído no início do século XII. Como era próprio na época teve uma existência agitada e, entre escoceses e ingleses, mudou de mãos amiúde até que, segundo a lenda, foi a residência última de Mary Stuart of Scotland, tendo assistido à sua execução em 1587.

Por volta de 1630 o castelo seria desmantelado e nunca reconstruído. Fotheringay (sem H) foi o nome escolhido por Sandy Denny para o seu grupo pós-Fairport Convention. Anátema ou não, a verdade é que a carreira dos Fotheringay nunca se aproximou daquilo que seria expectável, tendo nascido e morrido em 1970, no curto espaço de um ano.


Ficou um álbum homónimo e outro inacabado ( “Fotheringay 2” seria publicado em 2008 ) e algumas prestações avulso na BBC e em festivais de verão. “Nothing More, The Collected Fotheringay reúne o mais significativo legado da banda de Sandy e Trevor Lucas. Três cds: “Fotheringay”, “2”, as prestações de palco na BBC e em Roterdão; e um DVD reproduzindo um concerto em Bremen. As versões alternativas acrescentam história à história e o som é absolutamente fenomenal.

06/10/08

Fotheringay "2"


Durante anos julgou-se que o trabalho de estúdio associado aos Fotheringay se resumia aos “takes” das canções que integraram o álbum homónimo de 1970. Em 2004, quando o disco foi reeditado, principiaram a circular rumores que apontavam para a existência de fitas com temas inéditos e que resultariam de sessões destinadas à gravação de um segundo álbum. No ano seguinte, o produtor Joe Boyd confirmou a existência das ditas sessões no livro autobiográfico “White bicycles, making music in the 1960’s”.

O interesse foi tanto que os três Fotheringay sobreviventes, impulsionados Jerry Donahue, decidiram iniciar uma cruzada tendo em vista a recuperação das fitas e maquetas dispersas. O resultado chamou-se “2” e está finalmente disponível.

Os Fotheringay ( Sandy Denny, Trevor Lucas, Jerry Donahue, Gerry Conway e Pat Donaldson ) nasceram em Março de 1970, pouco tempo depois de Sandy abandonar os Fairport Convention. À data, a cantora tinha todas as condições para se lançar numa carreira a solo de sucesso – Joe Boyd de resto apostava nisso -, mas preferiu refugiar-se na maior segurança que uma banda proporciona; opção que seguramente deverá ter tido em conta a relação emocional que mantinha com Trevor Lucas.

( capa interior de "Fotheringay" )

Quando editado no verão de 1970, o álbum “Fotheringay” foi objecto de atenção e experimentou um relativo sucesso, porém uma série de equívocos promocionais relacionados com datas, locais e bandas de suporte para concertos, aliados ao problema que constituía a aerofobia de Denny, hipotecaram, praticamente aniquilaram, o futuro da banda.

Ainda assim, no outono de 1970 os Fotheringay voltaram ao estúdio. Gravaram um conjunto de maquetas e quando em Janeiro seguinte se preparavam para iniciar as misturas, Sandy Denny anunciou a saída. A aventura terminara ali e as fitas das sessões mergulharam no esquecimento.
Hoje, após um trabalho de recuperação brilhante, escutar as onze canções que integram Fotheringay “2” constitui certamente um prazer enorme quer para os fãs, quer para os interessados neste tipo de factos históricos.

Do ponto de vista musical “2” é um artefacto notável. Tendo em conta que as vocalizações que ouvimos foram gravadas ao vivo com a secção rítmica, com o objectivo nunca concretizado de serem trabalhadas mais à frente, o resultado é extraordinário. Mesmo considerando que poderão ter sido ajustadas com recurso às actuais tecnologias.


No conjunto, “2” propõe 11 temas. 5 dos quais inéditos absolutos no universo de Sandy Denny: os tradicionais “Eppie Moray”, “Wild mountain thyme” e “Bold Jack Donahue” ( um título já gravado em 1966 por Trevor Lucas em “Overlander”, um disco a solo muito referido mas que pouca gente viu e menos ainda escutaram ), “Knights of the road” e a versão “basement tapes” da composição “I don’t believe you” de Dylan.

Depois, as primeiras versões conhecidas de “John the Gun” e “Late November”, que haveriam de ser regravadas para “The North star grassman and the ravens” a estreia a solo de Denny. “John the Gun” aparece aqui sem a guitarra de Richard Thompson e o violino de Barry Dransfield, componentes que a inclusão do saxofone de Sam Donahue não consegue fazer esquecer. A versão de “Late November”, lenta e intimista, é já conhecida do sampler “El Pea” e da compilação “Who knows where the time goes?”. “Two weeks last summer” de Dave Cousins revela aqui uma versão inédita em estúdio, “Restless” integra as bases do tema de Lucas desenvolvido mais tarde em “Rising for the moon”, enquanto “Gypsy Davey” e “Silver threads and golden needles” repetem as versões já publicadas em “A boxful of treasures”.

No todo, “2” não estará porventura à altura de “Fotheringay” mas, mais do que uma nota de rodapé no universo da arte de Sandy Denny, representa uma etapa necessária e muito relevante no percurso que a levaria ao topo em “The north star grassman and the ravens” e “Sandy”.