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15/07/18

The Myrrors "Lunar Halo"



Oriundos de Tucson no Arizona, os The Myrrors têm na tradição regional do  “desert rock” uma inspiração óbvia. Porém, a música que com invulgar tenacidade perseguem e o desafio que lançam ao ouvinte, encontram-se envoltos em roupagens muito mais sofisticadas e radicais.

Tucson repito. Todavia depois de escutar o hipnótico “Lunar Halo”, poderiam muito bem ser outros locais como por exemplo Dusseldorf, Hamburgo, a Factory de Andy Warhol ou Estocolmo nos idos 60 / 70s do século anterior.   

Lunar Halo”: 28 minutos e 55 segundos densamente preenchidos por um drone que ora o é, como logo a seguir se metamorfoseia num absorvente raga, cúmplice do rock cósmico e da improvisação psicadélica. Pelt, Velvet Underground, Parson Sound e Swans são alguns dos nomes que saltam imediatamente das prateleiras da memória.


Exigente e visceral, “Lunar Halo”, publicado em formato cassete no final de 2017, conhece agora uma edição limitada em vinil. À data deu seguimento ao álbum “Hasta la Victoria” ( Junho 2017 ), agora antecipa o próximo “Borderlands” ( Agosto 2018 ).

Uma audição obrigatória para todos aqueles que apreciam as músicas e os nomes atrás referidos.

03/08/17

House and Land "S/t"


 
Asheville, encaixada num vale confinado ao sopé das Smoky Mountains, é um dos lugares mais encantadores da Carolina do Norte.  

Provavelmente a cidade americana com mais cervejarias e galerias de arte per capita, transpira talento nas ruas geométricas  e arrumadas, quase bostonianas de tão europeias.

Um refúgio perfeito para artistas e criadores que encontram ali uma sofisticação que o sul tradicionalmente conservador não privilegia.  Sally Anne Morgan e Sarah Louise Henson são autóctones. Multi-instrumentistas ambas, a primeira já veterana dos Pelt e Black Twig Pickers, Sarah dando os primeiros passos, optaram por juntar os respectivos talentos e dar corpo ao projecto House and Land.


Construído em percentagens equilibradas de tradição e experimentalismo, o álbum de estreia homónimo “House and Land”, é um trabalho que não irá ser um êxito comercial, antes um daqueles discos de músicos para músicos e que, como tal, prevalecerá para além da espuma dos dias.

Entre a vertente apalachiana, o finger-picking, o impressionismo drone e as seculares melodias folk britânicas, “House and Land” estabelece uma conexão perfeita entre o novo e o antigo, nunca abdicando de uma hipnótica simplicidade que o torna verdadeiramente especial.


Num tempo em que tudo é processado até à exaustão, Sally e Sarah inventaram um disco minimalista nos adornos, que nos remete para as gravações transgeracionais de Shirley e Dolly Collins nos 70s ( a versão de “False True Lovers” não surge aqui por mero acaso ).

Thom Nguyen ajuda nas percussões, mas são sobretudo as prestações de Sarah ( voz, guitarra acústica e bouzouki ) e Sally ( voz, violino e banjo ) que cativarão a atenção e sentidos daqueles que optarem por prestar atenção a pequenas preciosidades como “The day is past and gone”, “Home over Yonder” ou “Rich Old Jade”.

06/10/16

Nathan Bowles "Whole & Cloven"



Depois do desaparecimento de Jack Rose, Nathan Bowles é hoje olhado por muitos como o “maverick” da chamada “american primitive guitar music”. 

Glenn Jones é excelente, mas “sofisticado”; William Tyler joga nos “sub 21”; Jack Fussell nos juniores e Daniel Bachman ainda tem muitos frangos para virar. Bowles por seu lado tem quase tudo o que Rose tinha, excepto, talvez, o apetite pelo bourbon.

Militou no colectivo Pelt ( tal como Jack Rose ), andou pelos Pigeons e pelos appalachianos Black Twig Pickers. Actualmente integra a banda de suporte de Steve Gunn, com o qual já gravou dois álbuns soberbos.

Depois de “Nansemond” em 2014, “Whole & Cloven” é o novo disco para a editora da Carolina do Norte Paradise of Bachelors. E tem dentro tudo o que nesta altura se poderia esperar de Nathan Bowles. A sonoridade inóspita que os vales das Blue Ridge Mountains albergam, a vertigem desafiadora que só os Appalaches propiciam, a desconstrução da música tradicional que os Black Twig Pickers perseguem a cada prestação e, claro, o virtuosismo de um instrumentista notável que, como poucos, utiliza banjo e guitarra acústica para dar som à iconoclastia.


“Gadarene Fugue” é um carrocel acústico que, entre o banjo, a guitarra e uma percussão primitiva, recua até um pretérito quase perfeito que, entre outras coisas, nos deixou “Deliverance”, o emblemático filme de John Boorman.  Em “Chiaroscuro”, sensorial, o piano substitui os instrumentos presentes no tema anterior, mas é igualmente avassalador na interacção que estabelece com o ouvinte.

“Blank Range: Hog Jank II” e “I miss my dog” regressam ao banjo appalachiano e caso fossem vocalizados por Steve Gunn poderiam ter sido incluídos no álbum que gravou com Black Twig Pickers. “Moonshine is the sunshine” ( uma versão do esquecido Jeffrey Cain ) e “Burnt Ends Rag” ( inspirado em Jack Rose ) encerram um disco que, juntando o melhor de dois mundos maravilhosos – “american primitive guitar” e o “avant-garde” –, se encontra muito perto da perfeição.