05/11/09

Jardins do Paraíso XVII ( Chris Bell )


Os últimos 12 meses foram especialmente generosos para os Big Star e para a herança que nos deixaram. A saber: a compilação da Ardent Records “Thank you friends”, a caixa “Keep an eye in the sky”, a reedição dos dois primeiros discos da banda de Memphis e, por fim, a recuperação revista e aumentada de “I am the cosmos”, um trabalho assinado postumamente por Chris Bell.

Um dos paradigmas secretos do “power pop introspectivo” ( se a ideia faz algum sentido ), o conjunto de temas de constitui o único registo a solo do guitarrista, apesar de gravado entre 1973 e 1975, só foi publicado em 1992, 14 anos após um acidente de viação ocorrido em Dezembro de 1978 e que prematuramente tiraria a vida ao autor.

De facto, Chris Bell, uma personagem conturbada e insegura, não chegou a ter propriamente uma carreira. Depois de abandonar os Big Star em 1972, logo após o insucesso comercial de “#1 Record”, experimentou uma vivência algo nómada sendo que, de quando em vez o “phatos” criativo conduzia-o ao estúdio ( Memphis, Paris, Londres, Itália) para gravar. “I am the cosmos” reflecte essa realidade, apesar de um indisfarçável fio condutor: a desoladora beleza das canções.



Escutar pela primeira vez o tema “I am the cosmos” representa uma experiência única. Significa quase sempre a identificação de uma faceta interior (porventura incómoda) que cada um procura esconder; independentemente do tempo e do espaço – em 1978 quando o single foi editado, em 1992 quando integrou o álbum ou agora com a respectiva reedição -, a canção, uma das mais desoladas e tristes de que me recordo, é sempre uma revelação.

Porém, a seu lado existem outras pérolas: filigranas acústicos como “Speed of sound”, “You and your sister” ou “Look up”, rocks como “Get away” ou “I got kinda lost”, bem como alguns daqueles invólucros melódicos que fazem as delícias dos apreciadores dos Beatles.

Dividido entre as vertentes estética, vizinha de “#1 Record” ou “Radio City” e temática, que compara com “Pink Moon”, “Bill Fay” ou “Tonight’s the night”, “I am the cosmos” é uma obra que ontem como hoje não deve ser negligenciada.

Relativamente ao original de 1992, a Rhino acrescenta um segundo CD que inclui títulos gravados por Bell com os Icewater e Rock City, além de um conjunto de versões e misturas alternativas.

01/11/09

Killers, Angels, Refugees ( 4 )



"Badlands" ( Bruce Springsteen )

Lights out tonight, trouble in the heartland.
Got a head-on collision, smashin in my guts man.
Im caught in a crossfire that I don't understand.
But there's one thing I know for sure girl:
I don't give a damn for the same old played out scenes
I don't give a damn for just the in-betweens.
Honey I want the heart, I want the soul, I want control right now.
You better listen to me baby:
Talk about a dream; try to make it real.
You wake up in the night with a fear so real.
You spend your life waiting for a moment that just don't come.
Well don't waste your time waiting

Badlands you gotta live it every day
Let the broken hearts stand
As the price youve gotta pay
Well keep pushin till it's understood
And these badlands start treating us good

Workin in the field till you get your back burned
Workin `neath the wheels till you get your facts learned.
Baby I got my facts learned real good right now.
You better get it straight darling:
Poor men wanna be rich, rich men wanna be kings,
And a king aint satisfied till he rules everything.
I wanna go out tonight, I wanna find out what I got.
Now I believe in the love that you gave me.
I believe in the faith that could save me.
I believe in the hope and I pray that some day it
Will raise me above these

Badlands...

For the ones who had a notion, a notion deep inside
That it aint no sin to be glad you're alive.
I wanna find one face that aint looking through me
I wanna find one place, I wanna spit in the face of these

Badlands...


( para o António Sérgio, com um imenso obrigado )


("Badlands" foi publicada em "Darkness on the Edge of Town", CBS 2/6/1978)

30/10/09

Pastiches ( 8 )



"Were only in it for the money" (Mothers of Invention, 1968 ). Sempre me pareceu que quando avançou para esta paródia, Zappa não pretendia apenas ter piada...

27/10/09

Manassas "Pieces"


O facto de “Manassas”, um dos mais extraordinários trabalhos a emergir da música americana no inicio dos anos 70, permanecer uma semi-obscuridade para as gerações que não lhe foram contemporâneas, constitui um enigma difícil de entender. Tanto mais incompreensível quanto se sabe ter sido nele que legiões de músicos americanos se inspiraram, desde Nashville nos anos 80 até tempos mais recentes : Uncle Tupelo, Lambchop, My Morning Jacket, Black Mountain, Vetiver, Monsters of Folk, etc.

Manassas” nasceu quase por acaso, como por vezes acontece com os grandes discos. Em 1971, Stephen Stills um instrumentista dotado e compositor de mérito, vivia asfixiado com as constantes birras de Neil Young. Por outro lado as cenas hippies de Crosby e Nash também não lhe diziam muito. Grosso modo, as relações dentro dos Crosby, Stills, Nash & Young tinham chegado a um ponto de não retorno.

( reconstituição da batalha em Manassas, "Gods and Generals", 2003 )

Daí que quando um dia se cruzou com Chris Hillman ( cujos Flying Burrito Brothers agonizavam ), a ideia de trabalharem em conjunto surgiu naturalmente. O ex-Byrds trouxe Al Perkins e Byron Berline e Stills propôs os velhos compadres Paul Harris, Calvin Samuels, Dallas Taylor e Joe Lala. Todos instrumentistas fora do comum, formaram um grupo orgânico muito difícil de bater e que se expressava com o mesmo à vontade no blues, no rock, no bluegrass e na música latina.

Ao fim de um ano, entre Miami e Surrey/Inglaterra, tinham criado e gravado 21 temas, o suficiente para um duplo álbum – “it was probably a mistake to release a double album, but what the heck, everybody was doing it” (S. Stills). Só faltava um nome para a banda.

Um obcecado pela Guerra de Secessão, Stills conduziu o grupo até à Virginia e fê-lo fotografar numa velha estação ferroviária, perto do local onde a Confederação reclamou a primeira grande vitória contra a União em Bull Run. A foto mostrava os sete músicos no apeadeiro da velha gare, por baixo de um enorme letreiro onde estava escrito “MANASSAS” ( “That’s how things happened back then and shit worked all the time. For no apparent reason! And now they spend hundreds of thousands of dollars on focus groups and research on stuff that we just went out and did”)

Manassas” saiu na primavera de 72. É provavelmente o melhor disco em que Stephen Stills esteve envolvido e, apesar de ter sido bem acolhido, nunca recebeu o reconhecimento que os seus méritos e influência futura justificavam. Até hoje.

A recente publicação de “Pieces” prenuncia a chegada do reconhecimento para Manassas. Constituído por outtakes das sessões de 71, “Pieces” não é de modo nenhum obrigatório para aqueles que já conhecem o duplo álbum ou para quem seja compelido a fazer opções.

Não obstante, transmite a atmosfera criativa que se respirava nas sessões e proporciona a descoberta daquilo que foi a génese de canções como “Lies”, “Pensamiento” ou “Do you remember the Americans” (mais tarde incluídas em “Down the road”, o segundo Manassas ), avaliar a forma como Stills olhava para temas já publicados como “Sugar Babe” e “World game” ( ambos de “Stephen Stills 2” ) ou escutar pela primeira vez “Like a Fox” ou “I am a brother”, dois títulos que seriam certamente primeiras escolhas para muitos músicos. O facto de terem ficado de fora do alinhamento dos álbuns de Stills diz muito, quase tudo, sobre o talento deste.

Para além de tudo isto, “Pieces” mostra também que grande parte do passado continua por escavar. Algo que é necessário ir fazendo para melhor compreender o presente.

24/10/09

Killers, Angels, Refugees ( 3 )


"War Song" ( Neil Young )

In the morning when you wake up
You've got planes flying in the sky
Flying bombs made to
Break up other lies in your eye

There's a man who says he can
put an end to war

They shot George Wallace down
He'll never walk around

Mines are sleeping in the sea
Blow those bridges down
Burn that jungle down and kill those Vietnamese.

There's a man who says he can
put an end to war.

In the morning when you wake up
You've got planes flying in the sky
Flying bombs made to
Break up other lies in your eye.


( capa da edição portuguesa de "War Song" )

"War song", um tema construído em cima de um dos riffs mais "primários" de Neil Young, foi publicado em single a 5 de Junho de 1972. Tinha como objectivo apoiar a campanha de George McGovern, o homem que os democratas escolheram para tentar retirar Nixon da Casa Branca. O objectivo não foi conseguido mas a canção, uma das menos conhecidas do autor, nunca teve tempo para envelhecer.

21/10/09

Steve Hillage "Deeply Vale"


Numa altura em que os Gong abandonaram temporariamente o seu Planeta e se dispõem a partilhar connosco a sua actual visão do cosmos através do novo “2032”, é oportuno recordar a prestação de Steve Hillage, um dos mais proeminentes membros daquela banda transnacional, no Festival de Deeply Vale em 1978.

Parte das gravações efectuadas em Deeply Vale já haviam sido publicadas em 2004. Esta nova versão (uma sumptuosa edição em duplo vinil colorido com capa dupla) acrescenta temas diferentes e um depoimento de Steve Hillage sobre as memórias que retém da sua participação no Festival.

Constituída sobretudo por temas retirados dos álbuns “L”, “Fish rising” e “Green”, a participação do guitarrista num evento conhecido por conseguir aglutinar dois pólos sociológicos aparentemente inconciliáveis ( hippies e punks ) merece ser reavaliada. A guitarra do mestre atinge patamares instrumentais próximos da estratosfera, ainda que aqui e ali a performance seja traída pela deficiente captação de som.

Uma interessante curiosidade para arquivar ao lado de “Live Herald”, o grande disco ao vivo de Steve Hillage.

18/10/09

Compilação US 60's / 70's


Existem dois tipos de compilações. Aquelas que são elaboradas pelas editoras – as quais, salvo honrosas excepções, nos deixam absolutamente indiferentes -, e as outras, as que são “inventadas” pelos fãs e/ou experts. Em regra, estas últimas deixam-nos em pulgas, vergados aos índices de adrenalina que a descoberta de mais umas quantas pérolas, invariavelmente provoca.

Uma das mais extraordinárias compilações que o Atalho escutou recentemente , foi elaborada por Richard Morton Jack especificamente para Ethan Miller, depois do editor de “Galactic Ramble” ter assistido a um concerto dos Howlin Rain.

Debruça-se sobre o rock americano que floresceu no underground, entre a última fronteira do psicadelismo e a infância do “hard-rock” ( 1968 a 1971 ) e entre outros, agrupa temas dos David, Quatrain, Finchley Boys, Tin House, Dragonfly, Fallen Angels, Lazy Smoke, Sugar Creek, Ron Elliott ou Larry Corryell, este último num registo próprio de “artista enquanto jovem”.

Dentro do género, dificilmente encontraremos melhor.

Toda a história, bem como o link para o necessário download encontram-se em

16/10/09

Jack Rose & The Black Twig Pickers


Jack Rose & The Black Twig Pickers” é o companheiro perfeito para juntar a “Barbecue Bob in Fishtown”, o mais recente de Glenn Jones já aqui comentado no Atalho.

Longe vão os tempos dos delírios atonais dos Pelt de “Empty bell einging in the sky” ou das florestas de ragas cósmicos que Rose protagonizou com Jason Bill em “Via St. Louis”. Hoje Jack Rose coloca o virtuosismo instrumental ao serviço da música tradicional americana. O “finger-picking” é o veículo, o “bluegrass” e o “appalachian” os enquadramentos.

De certa forma este registo com os The Black Twig Pickers - Mike Gangloff (Pelt, Spiral Joy Band ) , Nathan “Sean” Bowles (Spiral Joy Band) e Isak Howell - , apresenta-se como um trabalho versátil e diversificado, se comparado com os anteriores “Jack Rose” e “Dr. Ragtime & Pals”.



Maioritariamente constituído por temas tradicionais o disco sugere uma atmosfera absolutamente rural ( o “redneck” anda por perto ), sibilinamente definida quer pelo bluegrass de abertura (“Little Sadle”), quer pelo appalachian “Sail away ladies/I shall not be moved” que lhe sucede. “Hand me down my walking cane”, meio cantada meio rosnada, apenas confirma os territórios que já anteriormente delimitados.

“Soft steel Piston” introduz pela primeira vez o “slide picking” e a silhueta de Leo Kottke volta a perfilar-se na nossa memória, como se nunca se tivesse desvanecido. Um ambiente que se repete em “Some Happy day” onde uma sublime guitarra slide em glissando recebe a ajuda cúmplice da harmónica de Isak Howell.


“Revolt” e “Kensington Blues”, os dois únicos originais de Rose, miscigenizam as linguagens utilizadas nos temas anteriores e “Special Rider” concede algum espaço ao “country-blues” . Por seu turno, “Bright sunny South” tem aqui um tratamento muito diverso do que recebera em 2001 no álbum” Ayahuasca” dos Pelt.

Em síntese, este é um daqueles CDs que ao terminar nos compele a voltar ao inicio, sem nenhuma espécie de hesitação. Pela simplicidade dos meios e pela atmosfera que sugere. Também porque Jack Rose é hoje o instrumentista que se encontra mais próximo de Leo Kottke, depois do próprio Leo Kottke.

11/10/09

Killers, Angels, Refugees ( 2 )


Pilgrims” ( Peter Hammill )

Sometimes you feel so far away,

distanced from all the action of the play,

unable to grasp significance,

marking the plot with diffident dismay,

stranded at centre stage,

scrabbing through your diary for a lost page:

unsure of the dream.

Kicking a stone across the beach,

aching for love and comfort out of reach,

the way ahead seems to be so bleak,

there’s no-one with any friendship left to speak or show you any relation

between your present and future situations:

lost to the dream.

Away, away, away: look to the future day

for hope, some form of peace within the growing storm.

I climb through the evening, alive and believing:

in time we shall all know our goals and so, finally, home.

For now all is secret – though how could I speak it,

allow me the dream in my eye.

I’ve been waiting for such a long time just to see it at last,

all of the hands tightly clasped,

all of us pilgrims.


Walking in silence down to coast,

merely to journey – here hope is the most;

merely to know there is an end,

all of us – lovers, brothers, sisters, friends

hand in hand.

Shining footprints on the wet sand lead to the dream.

The time has come, the tide has almost run

and drained the deep: I rise from lifelong sleep.

It seems such a long time

i’ve dreamed but now, awake, I can see we are pilgrims and so

must walk this road,

unknown in our purpose,

alone, but not worthless,

and home ever calling us on.

We’ve been waiting here for so long,

all of our hands joined in hope,

holding the weight on the rope,

all of us pilgrims.



( "Pilgrims" foi publicado em "Still Life", Charisma 1976 )

08/10/09

Jardins do Paraiso XVI ( Julian Cope )


Há anos que paira sobre Julian Cope um anátema insidioso, preconceituoso. Em síntese, afirma-se que estamos na presença de uma personagem consumida pela droga, um excêntrico que se interessa e dedica a causas marginais e sem janela para o sucesso.

Substâncias, cada qual escolhe as suas e quanto a causas, no estado de letargia colectiva em que vivemos, qualquer uma é bem-vinda. Por mim, para além de polémicas laterais, Julian Cope será sempre recordado como o criador de dois dos mais perfeitos álbuns que a música britânica conheceu nos anos 80: “World shut up your mouth” e “Fried”. Para além disso, o que já não seria pouco, o compositor galês é um dos grandes responsáveis pela divulgação de fenómenos artísticos como o “krautrock” alemão ou o “psych rock” nipónico. Os seus livros “KrautrockSampler” (1995) e “JaprockSampler” (2007) são dos melhores ensaios que se escreveram sobre aqueles temas.

Tanto crédito gerou naturalmente uma considerável margem de tolerância. Aos meus olhos Cope podia falhar. Fê-lo algumas vezes. Mas no grosso das situações esteve para além do expectável, como em “Saint Julian” ou no recentemente reeditado “Peggy Suicide”.

Espécie de Manifesto onde os principais tópicos são a ecologia, a política e os costumes, “Peggy Suicide” ( alegoria inventada por Cope para retratar a natureza ) é uma obra panfletária que reage sobretudo aos anos de chumbo do Tatcherismo. Libertário nos temas, o álbum (originariamente duplo) mantinha intacta a veia psicadélica do autor, mas surpreendeu ao abrir janelas para o “soul” e para o “funk”.



Logo a abrir, “Peggy Suicide” diz ao que vem, através de um “Pristeen” singular, uma cápsula perfeita de “psych” e “drone”. Adiante, após o mini road movie ecológico que é “East Easy Rider”, “Promised Land” é o retrato de um passeio pelos trilhos interiores da Inglaterra de Tatcher; musicalmente os parâmetros situam-se entre Springsteen e os The Sound. O resultado é sublime.

“Hanging out & Hung up on the line” é, segundo o autor, uma “psychic driving song”; outros recordarão os Teardrop Explodes abrasivos e em altíssima rotação. Colocados no inicio do lado B do disco original, os 8 minutos de “Safesurfer” constituem uma obra-prima. O leitmotiv é o vírus do HIV mas, apesar de toda a carga dramática associada, o tema ostenta aquela velha elegância ostentada por Ian Hunter, sempre que se sentava ao piano e tocava as baladas que escreveu para os primeiros Mott the Hoople.

Mais adiante “Drive, she said” é puro Velvet Underground num texto acutilante (“driving is cool, if you want to be uncool, walk or use public transports”). “Soldier Blue” e “Western Front 1992 CE” alinham por parâmetros similares. Por sua vez e a terminar “las Vegas Basement” será o “When the music’s over” segundo Julian Cope; a tal ponto que a certa altura damos por nós à espera de ouvir a voz teatral de Jim Morrison vociferar “… What have we done to the Earth?...” ou, no caso vertente, “What have we done to Peggy Suicide?”.



A cada um a sua obra-prima. Para o Atalho “World shut up your mouth” e, em menor grau “Fried”, são inultrapassáveis. “Peggy Suicide” não é uma obra uniforme, porém integra peças notáveis. Oportunos retratos de época da sociedade inglesa, nada despiciendos quando encarados numa perspectiva histórica. Daí a convicta e consistente adesão dos fãs.

Quanto aos extras da reedição ( todo o CD 2), um desabafo: “não havia necessidade”. A remasterização dos cerca de 76 minutos de duração do duplo álbum original era mais do que suficiente.

05/10/09

The Future Kings of England "The viewing point"


É certamente um cliché mas, depois de escutar o novo CD dos The Future Kings of England, não pude deixar de reflectir sobre os ciclos da história e na forma como esta periodicamente se repete.

No passado, o blues-rock e o psicadélico constituíram o código genético do progressivo, um género que nos deixou memórias soberbas como “Aqualung”, “Pawn Hearts”, “Foxtrot”, “Three friends ou “In the Court of the Crimson King”, embora também gongorismos execráveis como “Trilogy”, “Five Bridges”, “Tales from topographic oceans” ou “Crime of the century”.

Numa altura em que o género mostra cada vez mais vontade em regressar, o respectivo ADN sofreu nova metamorfose, passando a incluir componentes do Kraut e da Kosmische musik, escolas cujo legado (discos notáveis, alguns dos quais permanecem subavaliados), voltou e bem a estar “in”.



A música incluída em “The viewing point”, grosso modo, identifica-se com o que atrás fica dito. Trata-se de um “concept album” (um homem sentado ao volante de um carro imobilizado em frente ao mar, percorre mentalmente o passado) “contado” em seis instrumentais de qualidade e inspiração desiguais. O primeiro, “Go”, caso incluísse vozes, poderia confundir-se com um outtake de “Nursery Cryme” tal a semelhança estilística e instrumental com o grupo de Peter Gabriel. O tema título, a fechar o CD, é um longo instrumental que ora se aventura por paisagens cósmicas, ora regressa a terrenos mais seguros mas porventura menos estimulantes. Pelo meio residem instrumentais onde com alguma benevolência poderemos identificar o paradigma Caravan. A maioria das situações porém, remete apenas para os Camel.

Claramente um passo atrás relativamente ao anterior “The fate of old Mother Orvis”, “The viewing point”, mais prog do que psych, é referido no Atalho apenas pelo que significa, não pelos seus méritos intrínsecos.

O colectivo The Future Kings of England dá aqui nota de querer fazer parte da guarda avançada da enésima (e tudo indica eminente) carga do prog-rock. Uma nova sublevação silenciosa que poderá dar origem a obras interessantes, sobretudo se se inspirar mais na escola da electrónica germânica, mas que em simultâneo nos poderá obrigar a voltar às trincheiras cavadas pelo punk, há 30 anos.

30/09/09

Glenn Jones "Barbecue Bob in Fishtown"

Soul first … technique later” ( Robbie Basho )


Do conjunto de guitarristas americanos contemporâneos que se dedicam ao “finger picking”, Glenn Jones é provavelmente aquele que melhor encarna o aforismo de Robbie Basho.

Vindo do avant-rock e do vizinho discurso psicadélico que os Cul de Sac exercitaram nos anos 90, Jones construiu uma reputação de visionário na qual o rigor pela tradição e a precisão técnica são as principais características. Contudo, a liberdade da alma e a expressão dos sentimentos de que falava Basho, localizam-se num patamar superior do edifício criativo de Jones. Encontram-se por isso devidamente assegurados (protegidos). Uma asserção que é facilmente comprovável em qualquer registo do guitarrista, o novo “Barbecue Bob in Fishtown” incluído.


Neste terceiro CD a solo, o instrumentista de New England materializa a admiração pelo génio de Basho –, o tema “1337 Shattuck Avenue, Apartment D” é-lhe dedicado e “Redwood Ramble Misremembered” teve a sua origem numa malha do álbum “Rainbow Thunder” de 1981, daí a co-autoria.

Em simultâneo e provavelmente em resultado das amizades de palco com Paul Metzger e Jack Rose, Glenn Jones inicia-se no banjo (“Keep it a hundred years” e “A Lark in earnest”) com resultados igualmente encorajadores.

Incluindo 9 temas soberbos, alguns compostos no estúdio, “Barbecue Bob in Fishtown” é um daqueles trabalhos que fascina do primeiro ao último acorde. Ao mesmo tempo inspirador e terapêutico, é perfeito para nos resgatar à galopante demência colectiva que, como um vírus, ameaça a saúde da nossa organização política e social.