21/07/17

Alison O' Donnell "Climb Sheer the Fields of Peace"



Uma “dubliner” de gema, Alison O’Donnell  não carece de apresentações.
Desde 1972 que “Swaddling Songs”, com os Mellow Candle constitui o seu eterno cartão de visita. Recentemente, emprestou a voz e acrescentou carisma a projectos alternativos como United Bible Studies ou Owl Service.
Acabado de publicar “Climb Sheer the Fields of Peace” é o regresso aos álbuns solo, um espaço que a cantora não frequenta amiúde.
Construído a meias com David Colohan ( United Bible Studies, Agitated Radio Pilot, Raising Holy Sparks ), o disco, como seria de prever face aos intervenientes, casa o folk com a electrónica e de caminho lança desafios novos. A quem o fez e a quem o escuta. Não inventa a roda, mas também não desilude. E a voz de O’Donnell posiciona-se bem, por cima dos subtis arranjos electrónicos de Coloham.

15/07/17

Alex Rex "Vermillion"



Recorrendo ao alter ego Alex Rex e aproveitando uma licença sabática dos Trembling Bells, Alex Nielson acaba de publicar  aquele que é verdadeiramente o seu primeiro álbum a solo: “Vermillion”.

Um criador de mente aberta, Nielson é já  um veterano no campo do experimentalismo e da improvisação. Apaixonado também pela folk e tradições pagãs que a corporizam, o músico inglês tornou-se sobretudo conhecido em 2008 quando criou os Trembling Bells e, mais tarde, os Death Shanties.

Para trás ficaram as parcerias experimentais com Richard Youngs; agora é o tempo de pendurar na parede as fotos de velhos ícones folk como Shirley Collins ou Norma Waterson.

Todavia, ainda assim, aquela que aparenta ser a sua paixão maior encontra-se no legado da Incredible String Band.  De facto é possível dissecar e virar do avesso os discos dos Bells, no final o que resta é quase sempre aquela sonoridade atonal e iconoclasta da banda escocesa.

Vermillion” não é nem poderia ser muito diferente. Nielson está apaixonado pela folk e o paganismo que celebra, mais não é que a sua forma particular de olhar a tradição. Desconfortável umas vezes ( “The Screaming Cathedral” ou “Postcards from a dream” ), sublime noutras ( “Lucy” ou “Please God make me good, but not yet” ), antigo noutras ainda ( “The perpetually replenished Cup” ), “Vermillion” é um disco extraordinário que como todas as obras do mesmo calibre não se esgota no tempo. E as velhas bandeiras da Incredible String Band e, já agora, também da Albion Country Band ondulam de novo ao sabor dos ventos.

09/07/17

"English Weather"



Qualquer idiota, mesmo o mais imbecil, receberá toda a minha atenção; bastará para tal que mencione “Refugees” dos Van der Graaf Generator.


Desde há muito considero que o tema de Peter Hammill - a par por exemplo de “Laughing” de David Crosby, “Spanish Guitar” de Gene Clark, “Keep a close watch” de Cale, “Revolution Blues” de Neil Young, “Late November” de Denny, “Day is done” de Drake ou “Road to Cairo” de Ackles - , constitui um padrão a partir do qual se mede o bom gosto musical ou a ausência deste.

Assim uma compilação que inclua qualquer uma das misturas de  “Refugees” merece destaque.  English Weather” porém, justifica-o muito para além disso.

Curado pelos Saint Etienne  Bob Stanley e Pete Wiggs, “English Weather” é o chamado “labour of love”. Por outras palavras, não era possível chegar a este resultado caso não se gostasse genuinamente destas músicas

O tema mais antigo ( Caravan ) data de Janeiro de 69 e o mais recente ( Daevid Allen ) de 1976. Entre eles desfilam mais 16 composições do período iluminista da música inglesa. Umas razoavelmente conhecidas no circuito underground, outras nem tanto.

Stanley conta no booklet que um dia, retido numa discoteca devido a uma intempérie, ( daí o título desta colectânea ) escutou pela primeira vez um disco que o cativou de imediato: “Shape of the rain”, o álbum homónimo da banda de Sheffield. Impressionado, o dono da loja deu-lhe a conhecer de seguida Parlour Band, Aadvark e T2. E, como não há amor como o primeiro, estas bandas têm lugar na compilação. Shape of the Rain, ficamos sem saber porquê, não.

Britânicos até à medula, abaixo são descriminados os 18 títulos de uma edição que se reputa de essencial para quem se interessa pela matéria ou para aqueles para fazem do bom gosto uma forma de estar.


Quanto a “Refugees”, a opção aqui incluída, faz a ponte entre as versões do single e do do álbum “The least we can do is wave to each other”; a mistura no entanto retira algum protagonismo ao sax de David Jackson e evidencia as prestações dos instrumentos de sopro e dos arranjos de cordas. Sumptuoso.

- Caravan “Love song with flute”

- The Roger Webb Sound “Moon bird”

- The Parlour Band “Early morning eyes”

- Scotch Mist “Pamela”

- The Orange Bicycle “Last cloud home”

- T2 “JLT”

- Bill Fay “Til the Christ come back”

- Van der Graaf Generator “Refugees”

- Aardvark ”Very nice of you to call”

- John Cale “Big White cloud”

- Belle Gonzalez “Bottles”

- The Way We Live “Watching White Stars”

- Offspring “Windfall”

- Camel “Never let go”

- Daevid Allen “Wise man in your heart”

- Matching Mole “O Caroline”

- Prelude “Edge of the sea”

- Alan Parker and Alan Hawkshaw “Evening Shade”


03/07/17

Jardins do Paraíso ( LIV )



No inicio dos 70s, Larry Ray e Bill Szymczyk, dois profissionais dos estúdios californianos, tomaram uma decisão pouco comum; mudaram-se para Denver no Colorado.

A ideia de ambos era fugir à sofisticação de Los Angeles e criar uma corrente de “singer songwriters” de menor pendor elitista.

Lançaram a Tumbleweed Records e entre 1971 e 1973 publicaram nove álbuns de originais, um par de singles e um sampler da editora.

De entre estes, e porque sem dúvida o mereceram, a história guardou sobretudo os álbuns homónimos de Arthur Gee, Danny Holien e Michael Stanley, bem como “Abyss” de Robb Kunkel e “The man who ate the plant” de Pete McCabe.

Todavia, alguma ingenuidade e sócios muito pouco recomendáveis ( aka Mafia ) fizeram com que o projecto abortasse precocemente.

Sing it high, Sing it low” conta a respectiva história e convida a uma investigação mais aprofundada deste legado esquecido.

27/06/17

Lost Nuggets ( 114 )


Bob Bunting "You've got to go down this way" ( Transatlantic TRA 166 ) UK, 1968


- "You've got to go down this way"
- "Blues for Dominique"
- "Dynham Road"
- "Dulwich Song"
- "Once for Anna"
- "Bobby's Blues again"
- "Little Lady sometimes"
- "Soliloquy"
- "Cry from the inside"
- "Dreaming again"
- "Little soon lover"
- "Rocking horse blues"

Bob Bunting: canções e voz


Arranjos e direcção musical: Tony Visconti


Produção: Nathan Joseph


Capa: Fotos e design de Brian Shuel

16/06/17

Bardo Pond "Under the pines"


 

Existem algumas bandas, poucas, que não se explicam. São!

Os Bardo Pond nunca necessitaram de estar permanentemente na montra para manter o estatuto. São uma espécie de “anomalia”, mesmo no underground onde se movimentam. Gravam apenas quando têm algo de novo para dizer e é raro desiludirem.  Deles espera-se sempre um êxtase cósmico, resultado da fusão de elementos oriundos do jazz, avant-garde, rock e free-noise.

Under the pines”, é a mais recente expressão onírica daquele processo. Como é hábito no quinteto da Pennsylvania não existem limites, e o álbum é mais uma intensa experiência psicadélica.


A tempestade sonora que varre “Crossover” dinamita as  expectativas mais optimistas; “Out of reach” altera o rumo e assume-se como uma “big sky song” com a voz de Isobel Sollenberger a desafiar a perfeição. Diversa, “Moment to moment” toma a forma de uma “electric porch song”, desenhada por uma guitarra acústica e colorida pela flauta de Isobel. Lisérgico, o tema título, é o que mais se aproxima da matriz Bardo Pond, enquanto “Affigy” se rende a um estranho bucolismo.

A escutar no silêncio, por paradoxal que possa parecer.    

09/06/17

Toby Hay "The Gathering"




De Rhayader, uma pequena comunidade com cerca de 2000 habitantes situada no condado de Powys, País de Gales, chega  The Gathering”,  o álbum de estreia do guitarrista Toby Hay.

Completamente instrumental, o disco escuta-se como se contemplaria uma paisagem rural galesa.  Estrategicamente localizado entre a tradição musical britânica e a escola do  finger picking americana, Toby Hay  transporta para as melodias que escreve, décadas, séculos de um património musical, sendo que é virtualmente impossível dissociar estes sons do meio musical e social de onde são originários.

Um exemplo disso mesmo poderá ser o tema de abertura, “Mayfair at Rhayader 1927”. Num momento de grande turbulência quando todas as dúvidas pairam sobre o quotidiano britânico, não deixa de ser significativa a tranquilidade que emerge de “The Gathering”.


As melodias correm à beira de riachos, sobre prados verdejantes, num cenário idílico que os ocasionais violinos, celos e violas apenas acentuam. Como mantos sonoros cobrindo lugares, acontecimentos, memórias, “Sketches of a Roman Fort”, “Starlings” e o tema título ilustram este cenário na perfeição.

Caberá a quem escutar “The Gathering” decidir se o sentimento ali prevalecente será a reacção, a nostalgia, ou ambos.

03/06/17

Trimdon Grange Explosion "S/t"


 
Em 2005 pouca gente terá prestado atenção ao excelente álbum dos The Eighteenth Day of May, uma banda transnacional que percorria os caminhos do folk-rock britânico.

Mais de uma década volvida, expurgado das componentes norte-americana e nórdica, o colectivo reteve os elementos ingleses e passou a denominar-se Trimdon Grange Explosion ( uma referência histórica ao acidente ocorrido em 1882 numa mina de Durham e que vitimou 69 trabalhadores ).

Agora liderada pelo guitarrista Ben Phillipson, a banda acaba de publicar o homónimo “Trimdon Grange Explosion”. A fonte de inspiração  permanece, as raízes estão ainda mais presentes e a pastoral tradição inglesa, mesclada com a melancolia, paira sobre as melodias.


Alison Cotton, para além da viola, ganha maior protagonismo nas vocalizações e o projecto só lucrou com isso. A versão do tradicional “Poor Wayfaring Stranger” por exemplo,  arrasta consigo uma elegância pouco comum, através da qual facilmente chegará à eternidade.
Os restantes tradicionais, “The Bonnie Banks of Fordie” e “Glass and Sand”, ostentam uma tensão quase marcial que lhes é conferida pelo intrigante diálogo que o violino e a viola, respectivamente, travam com a secção rítmica. De uma beleza extrema, os dois só por si justificam a audição do álbum.

No género, tão cedo vai ser difícil encontrar melhor.

29/05/17

Heroes are hard to find ( 40 )


Gregg Allman


( 1947 - 2017 )
 

25/05/17

Jardins do Paraíso ( LIII )



A fazer fé na respectiva biografia, terá sido um capricho o motivo que levou Dorris Henderson, uma cantora de folk e blues, a trocar Los Angeles e Nova Iorque por Londres a meio dos 60s.

Ao chegar encontrou a cena folk em plena ebulição. Davy Graham por exemplo, recém chegado da India, começara a introduzir as linhas melódicas do raga indiano na tradição inglesa.

Em Londres, Dorris cruzou-se com John Renbourn e os dois álbuns que gravaram juntos são hoje clássicos. O segundo “Watch the stars”, agora reeditado, data de 1967 e registou para memória futura a simbiose perfeita entre dois talentos aparentemente inconciliáveis.

John Renbourn era já um soberbo tecnicista e Dorris estava tão à vontade no blues como no folk. Danny Thompson acrescentou o baixo acústico; a tradição, Anne Briggs, Bob Dylan e Gordon Lightfoot as canções.

Para a posteridade ficou um belíssimo álbum.

19/05/17

Richard Morton Jack "Psychedelia, 101 Iconic Underground Rock Albums 1966-1970"


Estamos todos um pouco fartos de compilações oportunistas do género: "os 100 melhores álbuns para escutar antes de morrer" ( na maior parte dos casos é mais para escutar depois de morrer, mas adiante ). "Psychedelia 1966 - 1970" todavia, ainda que pisque o olho ao mercado dos incautos, é diferente.

Richard Morton Jack, o editor da Flashback Magazine, habituou-nos ao detalhe e ao rigor histórico. E este livro não foge à norma. Os textos que ilustram os 101 discos que escolheu, sempre que tal se demonstrou possível, foram cruzados com os diversos intervenientes ( músicos, produtores, engenheiros de som ) e, em bastos casos, foi-lhes solicitado um comentário / depoimento.

Acresce uma pequena introdução ao fenómeno do psicadelismo, bem como uma abordagem aos singles mais emblemáticos, jornais e publicações da época, principais festivais e filmes.

Tudo somado, 250 páginas de opinião e rigorosa informação histórica a que o tempo seguramente fará justiça. Tal como sucede já hoje com a esmagadora maioria dos álbuns ali mencionados.