04/02/10

Broadcast and The Focus Group "Investigate witch cults of the Radio age"


Cheguei algo atrasado a “Investigate witch cults of the radio age”. Mea culpa, pois esta criação dos Broadcast , um duo de Birmingham ( Trisha Keenan e James Cargill ), aqui acolitado pelo Focus Group de Julian House, encaixa na perfeição dentro dos parâmetros que norteiam o Atalho.

Esotérico, especulativo, visionário, excêntrico, simultaneamente novo e antigo, este registo é como um carrossel psicadélico, maioritariamente construído a partir de colagens, uma técnica que embora não sendo nova - Burroughs e os situacionistas usaram-na nas letras enquanto na música os Faust e os United States of America por exemplo, também por lá andaram – quando usada com talento e inteligência produz resultados extraordinários.

Neste caleidoscópio de fragmentos sonoros cabe tudo, ou quase tudo: psicadelismo barroco, “library music”, folk pagão, “acid pop”, o este, o oeste, “sunshine pop” tal como Marine Girls, Stereolab ou Antena o entenderam e ainda o psych-rock americano puro e duro (escute-se a peça “Ritual/Looking in” e atente-se na forma como foi samplada a introdução de “Time M”, uma das canções do seminal “Another day, Another lifetime” dos The David.



Quem restritivamente procurar aqui canções irá sentir-se defraudado. O formato não fez parte da linguagem criativa de Broadcast e no conjunto de 23 miniaturas, com esforço, encontrar-se-ão 4 ou 5 trechos a que poderemos chamar de canções.

Não obstante uma cintilante harmonia subsiste, indiciando que neste autêntico puzzle de sons, todas as peças se encontram no seu devido lugar. E no final resta a convicção de que o arrojo e o experimentalismo, quando suportados por um razoável lastro cultural, podem ser largamente recompensadores.

Um futuro clássico?

31/01/10

Killers, Angels, Refugees ( 9 )


"Bangla Desh" ( George Harrison )


Numa altura em que os concertos e as iniciativas de solidariedade se banalizaram e as participações nesses eventos são cientificamente preparadas por forma a que os benefícios para a carreira e imagem dos “famosos” ( um conceito horripilante ), compensem o incómodo - atente-se no ridículo da cena haitiana de John Travolta, mulher de Travolta, jacto de Travolta e religião de Travolta -, convirá recordar um dos pioneiros, talvez O Pioneiro, das causas de solidariedade.

George Harrison escreveu, gravou e fez publicar “Bangla Desh” a 28 (UK) e 30 (USA) de Julho de 1971. No dia 1 de Agosto estava em cima do palco do Madison Square Garden com Dylan, Clapton, Ravi Shankar, Klaus Voorman, Badfinger, Leon Russell e Ringo Star, para um concerto que as câmaras de Saul Swimmer guardaram para memória futura.

A crise política com o Paquistão terminou pouco tempo depois, mas o Bangla Desh permanece um dos países mais pobres do mundo. O idealismo altruísta de Harrison teria seguidores como é sabido. Mas também aproveitou a muita gente.


"Bangla Desh", edições originais: UK (em cima), USA (em baixo)



28/01/10

John Cale & Friends


Reencontrei este pedaço de história, captado pela objectiva de Bob Gruen, quando abri uma velha pasta repleta de fotos de que já não me recordava. O que eu teria pago para estar perto do palco do Ocean Club em Nova Iorque naquele 21 de Julho de 76…

Uma noite em que John Cale, Patti Smith, Lou Reed e David Byrne, se auto-denominavam “The Loft Dwellers” e, consta, receberam a ajuda dos “irrelevantes” Chris Spedding, Alan Lanier e Mick Ronson.

Para além de um “bootleg” – “John Cale & Friends at The Ocean Club, July 1976” -, cuja qualidade áudio repele mais do que cativa, não há notícia de que algo de mais substancial tenha emergido dos ensaios/sessões. Uma pena.

25/01/10

Black Flowers "I grew from a stone to a statue"


Por vezes, as repetidas escutas quase nos fazem esquecer a qualidade de uma canção. “Calvary Cross” é um desses casos. A versão “garage-folk” que os Black Flowers praticam do tema de Richard Thompson como que nos faz descer à terra e olhar a canção na sua verdadeira dimensão, não tanto pela imagem que o hábito e a memória moldaram. Sublime o original. Absolutamente velvetiana a versão.

A referência do Atalho aos Black Flowers surge na sequência da abordagem anterior aos Trembling Bells. Os nomes de Alex Neilson e Lavinia Blackwall são comuns aos dois projectos, sendo que aqui Alasdair Roberts é membro permanente, um pormaior que faz toda a diferença. A guitarra cavernosa na canção de Thompson é a prova acabada disso mesmo.



Mas para além de “Calvary Cross” há “Polly on the shore”, esta também numa versão mais radical - relativamente ao tradicional que conhecemos aos Trees em “On the shore”, aos Fairport em “Nine” ou a Martin Carthy em “Prince Heathen” -, embora não menos essencial. O órgão de Lavinia é um verdadeiro achado e o solo de guitarra é de antologia.

“Hot crosses” enquadra-se nas prestações experimentais de Alex Neilson. Por seu lado “And the words fell like malting blossom” remete-nos para as vocalizações atonais que David Crosby inventou em “I’d swear there was somebody here”, o título que encerra o legendário “If I could only remember my name”. A terminar, “Sweet rivers of redeeming love” regressa à harmonia melódica da canção folk tradicional e são curtos os seus 4m 11s para tanta beleza e simplicidade.


I grew from a stone to a statue” é um disco essencial para quem apreciou “Carbeth”, ainda que o seu ADN seja algo diverso. Depois de dois trabalhos com esta dimensão, mal podemos esperar pelo próximo Trembling Bells, apontado para a primavera.

Nota: o artwork criado para a capa do Cd e aqui reproduzido é da autoria de Lavinia Blackwall.

20/01/10

Philippe Garnier "Freelance, Grover Lewis à Rolling Stone"


Os textos que Philippe Garnier publicou na revista Rock & Folk entre 1976 e 1984 contribuíram para mudar a minha vida.

Se alguém, aparentemente com a mesma facilidade com que respira, escreve várias e absorventes páginas sobre temas tão diversos como: filmes de Série B, as estradas da Califórnia, o romance negro ( Dashiell Hammett, John Fante, James Cain, William Burnett ), a máfia, Patti Smith, X, Punk, Wall of Voodoo, Hollywood ( Coppola, Ford, Capra, Dirty Harry, Peckinpah, Burt Lancaster, Mitchum, Bogart ), Cramps, J. J. Cale, Plimsouls, Montana e os seus escritores ( McGuane, Rick Bass, Richard Brautigan ou Jim Harrison, este muito antes de Anthony Hopkins e Bradd Pitt terem ajudado a fazer do seu “Legends of the fall” um sucesso )…., então eu também deveria investir o meu tempo na pesquisa, conhecimento e divulgação daqueles temas, ainda que no caso fosse óbvia a ausência daquele ”pequeno detalhe” que dizem ser importante nestas coisas: talento.

(Philippe Garnier)

Garnier deixaria o Rock & Folk quando a linha editorial, eventualmente condicionada pela ausência de matéria prima de qualidade, começou a tergiversar. Continuei a segui-lo. No Libération, Les Inrockuptibles e, mais tarde, nos periódicos de Los Angeles. Raramente me desiludiu. São significativas e habitualmente certificado de garantia as traduções que efectuou de obras de escritores como John Fante, James Crumley, Bukowski, James Salter ou Chris Offutt .

Porém, verdadeiramente obrigatórios, expoentes do melhor jornalismo cultural gaulês, são os livros que foi publicando ao longo do tempo. “Goodis, la vie en noir et blanc”, um ensaio sobre o romancista David Goodis; “Maquis”, uma lenta e apaixonante travessia das paisagens interiores da América, com paragens para visitas guiadas ao universo de autores como Rick Bass, Larry Brown ou Dan O’Brien; “Honi soit qui Malibu” , o regresso às obras , aos scripts e às histórias de William Burnett, James Cain ou Horace McCoy; “Les coins coupés” uma alegoria ao rock americano e ao circo que o rodeia, onde a subtileza do título ( “Cut corner” habitualmente caracteriza uma edição de vinil que foi descontinuada, um dos cantos da capa é cortada pela editora antes dos exemplares seguirem para o distribuidor ) remete directamente para o passado recente da música em suporte de vinil.



Em 2009 Garnier regressou ao nosso léxico. O motivo chamou-se “Freelance, Grover Lewis à Rolling Stone”. Um livro repleto de episódios e histórias deliciosas, no qual presta homenagem ao mentor e amigo Grover Lewis ( 1935 – 1995 ).

Este, uma personagem intensa, complexa e desalinhada, foi jornalista freelancer , actor demasiado fugaz, míope, filho de pais suicidas que em tempos frequentaram o “inner circle” de Bonnie e Clyde, casado aos 19 anos “deixando casamento e filhos para trás como garrafas vazias pelos passeios”. Era originário de Forth Worth, Texas, uma cidade e um estado demasiado acanhados e conservadores para a iconoclastia de um “maverick” como Lewis.

(Grover Lewis)

Como frequentador convicto das margens, a sua ligação à Rolling Stone em 1971 surgiu quase naturalmente. À data, o periódico fundado por Jann Wenner, apesar de Altamont, ainda se movimentava no underground, onde se manteve durante mais um par de anos. O abandono de Lewis em 1973 pode nada ter a ver com o facto, mas a especulação é legítima.

Ao longo de 440 páginas “Freelance” narra a história de Lewis e conta suculentos e inenarráveis episódios jornalísticos. Sejam eles acerca de Paul Newman, Lightnin Hopkins, Allman Brothers, Jack Nicholson , Peckinpah, Robert Mitchum ou sobre a sua turbulenta participação no filme “The last picture show” de Peter Bogdanovish .

Porém, como em tudo, nada melhor do que ouvir o autor:



17/01/10

Pastiches ( 8 )



No segundo álbum dos Blur, a contradição entre o título e o design da capa - a foto de um comboio cujo modelo aponta para um período anterior à 2ª guerra - é evidente e porventura propositada.

Quanto ao pastiche relativo ao disco de estreia a solo de Phil Manzanera ( 1975 ), poderá não ter sido voluntário. Mas lá que parece, parece.

13/01/10

Trembling Bells "Carbeth"


A abertura, “I listed all of the velvet lessons”, é absolutamente extraordinária! Como se a Incredible String Band de “The 5000 spirits or the layers of the onion”, os Fairport Convention de “Unhalfbricking” e os Steeleye Span de “Hark! The Village wait”, juntos, tivessem regressado ao futuro, em 2009. Estamos ainda no começo, no entanto este tema já justifica a audição de “Carbeth”.

Os Trembling Bells nasceram em Glasgow pela mão de Alex Neilson. Baterista, animador dos Scatter e Directing Hand, membro quase indispensável das entourages de Richard Youngs, Six Organs of Admittance, Bonnie Prince Billy, Alasdair Roberts ou Current 93, escreveu todos os temas e recrutou Lavinia Blackwell (membro dos colectivos Pendulums e Black Flowers ), aquela que se prepara para vir a ser uma das vozes da folk do Reino Unido. Pena que o guitarrista Ben Reynolds não seja um Richard Thompson …

Entretanto, “Carbeth” vai seguindo o seu caminho. “I took to you (like Christ to wood)” adiciona o experimental à “chamber folk” e o resultado está perto do sublime. “When I was young” não se afasta daquela matriz embora procure terrenos mais tradicionais. A vocalização de Lavinia, apesar de excessivamente pirotécnica ( a maturidade poderá vir a dar uma ajuda ), aponta para os melhores registos de Jacqui McShee com Pentangle.



Por esta altura, o fôlego já vai escasseando e “Carbeth” ainda vai no primeiro terço.

Estão para chegar o “psychedelic noise” de “The end is the beginning born knowing”, as melodias de “Summer’s waning” ou “Willows of Carbeth” (quase que dá para imaginar Sandy Denny e Judy Collins juntas, no mesmo estúdio ) e “Your head is the house of your tongue” uma espécie de retorno à Incredible String Band e a Changing horses”.

“Garlands of Stars” são as quatro estações num só dia; rock experimental, psicadélico, folk-rock e melodias celtas, coabitam e interagem com graciosidade e inteligência. E a terminar, “Seven years a teardrop”, com Lavinia e Neilson “a cappella” num registo muito próximo da matriz que Shirley Collins desenvolveu com talento e mestria, antes de as suas cordas vocais cederem, ao que parece em definitivo.

No passado recente não me recordo de um conjunto de canções que fizessem tanto sentido juntas. Por essa via, “Carbeth” atinge uma dimensão que a história saberá por certo acolher. Deveria ser distribuído em todas as escolas de música.

10/01/10

Killers, Angels, Refugees ( 8 )


"George Jackson" ( Bob Dylan )

I woke up this mornin'
There were tears in my bed
They killed a man I really loved
Shot him through the head
Lord, Lord
They cut George Jackson down
Lord, Lord
They laid him in the ground

Sent him off to prison
For a seventy-dollar robery
Closed the door behind him
And they threw away the key
Lord, Lord, they cut George Jackson down
Lord, Lord
They laid him in the ground

He wouldn't take shit from no one
He wouldn't bow down or kneel
Authorities, they hated him
Because he was just too real
Lord, Lord
They cut George Jackson down
Lord, Lord
They laid him in the ground

Prison guards, they cursed him
As they watched him from above
But they were frightened of his power
They were scared of his love.
Lord, Lord
So they cut George Jackson down
Lord, Lord
They laid him in the ground

Sometimes I think this whole world
Is one big prison yard
Some of us are prisoners
The rest of us are guards
Lord, Lord
They cut George Jackson down
Lord, Lord
They laid him in the ground



George Jackson, um dos líderes do Partido Black Panthers, foi assassinado na prisão de San Quentin em Agosto de 1971. Nas semanas que se seguiram os motins proliferaram.

Dylan reagiu e escreveu a canção. Foi publicada a 12 de Novembro desse ano, talvez demasiado tarde para conseguir o impacto que o autor pretendia.

Durante muitos anos, foi um dos raros temas de Dylan que não integrava o alinhamento de um álbum.

( capa da edição portuguesa )

06/01/10

Chris Cacavas "Love's been discontinued"


Acompanho Chris Cacavas desde que os Green on Red publicaram um EP homónimo em 1982. Na época, já se percebia que o homem possuía mais e melhores recursos que Dan Stuart, o declarado líder do grupo. Os desenvolvimentos futuros – Stuart desapareceu dos radares e Cacavas projectou uma muito interessante carreira a solo -, provam-no inequivocamente.

De certa forma estou grato ao músico de Tucson. A dado momento da minha vida profissional, tive necessidade de percorrer diariamente cerca de uma centena de kms. Nessa altura, Cacavas e Rich Hopkins ( o último, um misto de maverick e filantropo, que terá inventado a melhor banda sonora que os desérticos céus do Arizona conheceram ), disputavam a aparelhagem áudio do meu carro. Dois conceitos muito peculiares de “road music”, diria.

Passados largos anos e escutados para cima de uma dezena de discos a solo, um criador de “road music”, é ainda como vejo Chris Cacavas.



Em “Love’s been discontinued”, a estrela polar continua a ser Neil Young ( como de resto sempre foi ), mas existe a latente preocupação de suavizar a sonoridade. O equilíbrio entre os principais protagonistas sonoros - guitarras ácidas e piano acústico -, constituía uma das principais imagens a emergir das canções de Cacavas. O desequilíbrio em favor da electrónica e a inclusão nos coros de uma significativa percentagem de sacarina, poderão não ser uma boa notícia para o futuro. Um detalhe que ainda assim não retira a “Love’s been discontinued” o encanto e charme “laid back”.

O álbum, inócuo ao princípio, cresce a cada nova audição. Está para “Junk Yard Love” ou “Six String Soapbox”, como “Harvest Moon” está para “Harvest”, ou “Greendale” e “Silver & Gold” estão para “American stars and bars” e “Zuma”. Sólido e consistente ainda que despido daquele carisma que outrora nos agarrava e tornava absolutamente dependentes.

Não obstante, um excelente disco para fazer quilómetros. Despreocupadamente.

31/12/09

Sonic's Rendezvous Band


Com grande afã, há quem elabore listas com os "seus" melhores do ano, da década, do século ... Outros preparam-se para enfrentar a ressaca dos shots de pastel de nata ou as dores de cabeça causadas por espumantes manhosos.

Aqui pelo Atalho, para exorcizar 2009 e receber condignamente 2010, não me ocorreu nada melhor do que voltar a Fred 'Sonic' Smith. Sorry!

Se alguma vez for obrigado a definir “rock-and-roll”, então “City Slang” será.


(http://www.youtube.com/watch?v=SKHhYGJvcWM)


28/12/09

Jardins do Paraíso XIX ( Spirit )


Um dos aspectos que sempre me aborreceu nos Led Zeppelin – para além da megalomania rock-and-rolleira típica dos anos 70 e das dezenas de “babes” com que Robert Plant de forma mais ou menos lânguida coloria as vocalizações, - tinha a ver com aquela atitude de rapina quase institucional que o grupo, e em particular Jimmy Page, praticava relativamente a “malhas”, riffs ou melodias criadas por outros músicos. E não falo tão pouco da “inspiração” que foram procurar nos velhos bluesman norte-americanos e que foi bastante, conforme é comummente aceite. Falo por exemplo de “Dazed and confused”, um original de Jake Holmes para o álbum “The above ground sound”. Falo do instrumental “Taurus”, da autoria de Randy California para o LP de estreia dos Spirit em 1968 e que três anos mais tarde fomos reencontrar na introdução de “Stairway to heaven”; uma decisão que se viria a revelar muito rentável para os Zeppelin mas que nada trouxe a Califórnia, excepto uma justificada antipatia por Page que haveria de durar até à morte do americano em 1997.

Relativamente aos Spirit, afinal a razão da existência deste post. Há alguns dias, quando lia um dos muitos obituários sobre o recente desaparecimento de Jack Rose, uma história recordou-me os Spirit. Nick Castro contava que em 2004, aos 25 anos, conheceu Rose. Este perguntou-lhe o que achava dos Allman Brothers. O jovem guitarrista, meio embaraçado, lá foi dizendo que não apreciava especialmente a banda sulista ao que Rose, rindo, retorquiu: “quando fizeres 30 anos vais adorá-los!” “Tinha razão”, acrescentou Nick Castro a terminar o seu obituário.

Passou-se o mesmo comigo relativamente aos Allman Brothers. Mas, sobretudo, sucedeu-me o mesmo com os Spirit. Excluindo porventura aqueles que lhes foram contemporâneos, ninguém aos 20 anos aprecia os Spirit. Aos 30, a banda californiana passa a ser olhada de forma diferente e alguns anos mais tarde, integra em definitivo o Top dos grupos californianos, ao lado dos Quicksilver Messanger Service, Byrds, Grateful Dead, Doors, Love ou Jefferson Airplane.

(Spirit, no Grande Ballroom, Detroit 1968, poster de Carl Lundgren)

Em 1968, na estreia com “Spirit” e a seguir com o enorme The family that plays together”, a banda de Randy California, Jay Ferguson, Mark Andes, John Locke e Ed Cassidy, configurava uma daquelas desconfortáveis situações em que se tem razão antes de tempo. Com efeito, o colectivo de Topanga Canyon era na época uma espécie de laboratório, um local de ensaio e experimentação onde o jazz, o rock , o blues, o clássico, o folk e o avant-garde, interagiam dando origem a linguagens novas, demasiado adultas para se compaginarem com o psicadelismo reinante.

O primeiro single “Mechanical world” não podia ser pior compreendido e as respectivas ondas de choque encontraram dificuldades para ultrapassar o perímetro de Los Angeles. “Fresh-Garbage” também integrado em “ Spirit” corrigiu o tiro, mas temas como “Taurus”, Elijah”, “Gramophone man”, “Topanga Windows” ou “Water woman” ficaram enclausurados entre o génio do quinteto e a indiferença das audiências.

“I got a line on you”, é a perfeição compactada em 2 m e 39 s. The family that plays together” que o alberga, é um daqueles álbuns relativamente aos quais tenho dificuldade em ser objectivo e mesmo que o tentasse corria o risco de esgotar todos os superlativos do meu léxico. Daí que o melhor talvez seja ficar por aqui, não deixando no entanto de referir e sublinhar títulos como “It shall be”, “All the same”, “Dream within a dream” ou “Aren’t you glad”.

(Spirit, 1969 )

Clear” já de 1969, está um par de furos abaixo, sendo que ainda assim integra pérolas como “Dark eyed woman”, “So little time to fly”, “Ground hog”, “I’m truckin” ou “New dope in town”.

Twelve dreams of Dr. Sardonicus” já de 1970 constitui o legado definitivo dos Spirit, espaço onde todas as experiências anteriores são concatenadas. Do instinto primitivo de Hendrix (com quem de resto California tocou), até ao psicadelismo soft dos Love, passando pelo caldo de country blues que Jerry Garcia, Bob Weir e Phil Lesh gostavam de exercitar nos Grateful Dead, ou pelas sementes do que mais tarde se viria a chamar de “hard-rock” americano ( escutem por exemplo a barragem de guitarras em “When I touch you”).

Qualquer discoteca criteriosa deve incluir os quatro primeiros discos dos Spirit, provavelmente o melhor quarteto de álbuns sequenciais da história do rock. Se tal não for possível então a compilação da australiana Raven “Fresh from the time coast, The Best of 1968-1977”, a mais recente de entre as várias que já se debruçaram sobre os Spirit, pode suprir a lacuna. Com a vantagem adicional de estender a recolha até 1977 e por essa via, incluir temas publicados em formato single (“1984” inspirado no romance de Orwell ) e/ou oriundos de álbuns excelentes embora menos urgentes como “Feedback”, “Spirit of 1976”, “Son of Spirit”, Farther along” ou “Kapt. Kopter & The (Fabulous) Twirly Birds”, este último um retrato quase perfeito da obsessão de California pela guitarra do “buddy” Hendrix.

23/12/09

Four Quartets


Buscando por certo um suporte instrumental mais consistente para as suas canções, Rob Sharples acaba de formar uma banda: Four Quartets.

Um primeiro reconhecimento é já possível através dos quatro temas disponíveis na página do MySpace (www.myspace.com/fourquartetsband). “Pirouette”, “The Hoax”, “The Spirit level” e “Joke’s over” mantêm os padrões a que a composição do jovem Sharples nos habituou, contudo uma avaliação definitiva ficará para 2010, quando o prometido e desejado álbum de estreia for publicado.