18/09/17

Behind the Shadows Drops "Harmonic"



Quando não se encontra na estrada com os MONO,  Takaakira Goto, o pequeno génio de Tóquio, mata o tempo com projectos alternativos.
Foi assim com os The Left ( álbum “I could stand here” em 2005 ), com o disco solo “Classical Punk and Echoes Under  the Beauty” uma década depois e é também assim com “Harmonic” dos Behind the Shadow Drops.
Takaakira Goto é um experimentalista que há muito ultrapassou as fronteiras estéticas do pós-rock de que os MONO são um dos maiores expoentes. Aqui, promove incursões no minimalismo, no clássico moderno, na música ambiente e, quase como uma consequência natural, nas paisagens inóspitas do kraut-rock.
Os espaços são tão amplos e inspiradores que apetece percorrê-los sem a interferência do tempo. John McEntire, veterano dos Tortoise e dos Sea & Cake, é o produtor que esta música solicitava; ainda que teria sido muito curioso verificar como outro experimentalista moderno,  Matthew Cooper ( Eluvium ) se comportaria na tarefa.
Um disco aditivo que ficará bem nos fins de tarde do próximo outono.

14/09/17

Artefactos ( 69 )


"Les Pochettes Pop, des 45 tours deux titles parus en France de 1962 à 1972"

Stéphane Cahon,

Edição Privada, 360 páginas ilustradas, Novembro 2009

Heroes are hard to find ( 43 )


Grant Hart

( 1961 - 2017 )

10/09/17

"Milk of the Tree, an Anthology of Female Folk and Singer-Songwriters 1966-73"



Tradicionalmente, a indústria da música tem sido um espaço de prevalência masculina. Nos intervenientes e, sobretudo, nos decisores. Hoje o estado de coisas aparenta maior equilíbrio, mas na infância do pop e do rock a desproporção era avassaladora.

Porém, sobretudo a partir do final dos 60s, fruto da renascença folk no Reino Unido e do dealbar dos singer songwriters nos EUA e Canadá, o talento feminino iniciou a caminhada para o merecido reconhecimento.

Milk of the Tree, an Anthology of Female Folk and Singer-Songwriters 1966-73” procura ser o reflexo dessa realidade histórica. Numa edição de três cds que compilam exemplos do que de melhor se escutou naquelas áreas no período em apreço.

Contextualizadas pelas habitualmente enciclopédicas notas de David Wells, são-nos propostas 60 canções assinadas e / ou vocalizadas por nomes tão diversos como Margo Guryan, Bashti Bunyan, Mary-Anne, Nico, Judee Sill, Joan Armatrading, Anne Briggs, Marianne Faithfull, Mimi Fariña, Jaki Whitren, Laura Nyro, Bridget St. John, Carolanne Pegg, Baez, Denny ou Melanie, entre muitas outras obscuras e agradáveis surpresas.

Um pedagógico festim de talento e inspiração.

03/09/17

Heroes are hard to find ( 42 )



Mick Softley
( 1941 - 2017 )

31/08/17

Jardins do Paraíso ( LVI )



Durante décadas olhado como uma espécie de “Holy Grail” do folk britânico “Bright Phoebus” permanece um dos mais contundentes legados de Lal e Mike Waterson, os membros mais novos do clã Waterson ( Norma, Mike e Lal ).

Gravado em 1972 na Cecil Sharp House, sob a supervisão de Martin Carthy e Ashley Hutchings ( à época membros dos Steeleye Span ) o álbum, concluído numa semana, foi aplaudido pela crítica e repudiado pela maioria do público folk.

Dos Watersons era suposto esperar canções tradicionais, de preferência “a capella”, mas “Bright Phoebus” do alto da sua estranha genialidade fugia daquela ortodoxia. A inspiração é naturalmente folk, mas as canções escritas e interpretadas pelos irmãos Lal e Mike habitam uma penumbra moldada pelas vivências / memórias de uma infância marcada pela orfandade. Talvez por isso não seja um disco fácil. Catalogado de “folk noir”, ostenta aquele tipo de inspiração que só tempo permite reconhecer ( a saga de Nick Drake é outro exemplo maior deste fado ).


Ashley Hutchings e, especialmente Martin Carthy, contam ter ficado tão impressionados com as canções dos dois irmãos que partiram de imediato para as gravações. Convocaram Richard Thompson, Dave Mattacks, Maddy Prior e Tim Hart e, com a colaboração avulsa de Norma Waterson, nasceu ali uma liturgia que se manteve até hoje.

A canção mais conhecida será porventura “Fine Horseman” que Anne Briggs já havia incluído no seu álbum “The time has come” no ano anterior, mas “The scarecrow”, “Magical man”, “Never the same” ou o tema título, são outras das pequenas pérolas que ajudam a fazer deste um grande disco.

A reedição da Domino inclui uma opção que adiciona onze demos não constantes na prensagem original.

28/08/17

Lost Nuggets ( 116 )


Tramp "Put a record on" ( Spark SRLP 112 ) UK, 1974

- "Too late for that now" ( Bob Hall )
- "Now I aint a junkie anymore" ( Hall / Dennis Cotton / Dave Kelly )
- "What you gonna do" ( Hall / Bob Brunning / Cotton )
- "Like you used to do" ( Hall / Cotton )
- "You gotta move" ( Hall / Kelly )
- "Put a record on" ( Hall / Cotton )
- "Funky Money" ( Hall / Cotton / Kelly )
- "Beggar by your side" ( Hall / Cotton )
- "Maternity orders" ( Hall / Cotton )
- "It's over" ( Hall )

Tramp: Jo-Ann Kelly ( voz ), Danny Kirwan ( guitarra ), Bob Hall ( piano ), Bob Brunning ( baixo ), Mick Fleetwood ( bateria ), Ian Morton ( percussão ), Dave Kelly ( Voz ), Dave Brooks ( saxofone ).

Produção: Barry Kingston

Capa: foto de Vic Savage, design de Norman Batley

23/08/17

Artefactos ( 68 )


É sempre um prazer enorme abrir a caixa do correio e encontrar lá dentro um pequeno envelope expedido em Swindon / UK, por um tal de Mr. McMullen. A satisfação ( quase como uma sensação de se fazer parte de um clube restrito, cujos membros possuem um irrepreensível bom gosto ) traduz-se no facto de ter acabado de aterrar mais uma edição da inimitável Terrascopaedia. 

No caso, o número 8, impresso manualmente ( donde que muito dificilmente será possível encontrar dois exemplares iguais ) numa edição limitada de 100 exemplares.

A capa foi desenhada por Timothy Renner, o editor e artesão foi, como habitualmente, Phil McMullen.

Desta vez não há críticas de discos, mas as 24 páginas são preenchidas com um pequeno editorial e entrevistas a Piano Magic, aos suecos The Greek Theatre e aos Stereocilia do guitarrista e compositor John Scott.

E, como facilmente se induz, o Atalho ficará incontactável durante um bom par de horas.

20/08/17

Artefactos ( 67 )


 
Provavelmente a editora independente mais antiga do mundo, a Topic Records teve e ainda mantém um papel importantíssimo na divulgação e preservação da música tradicional do Reino Unido e República da Irlanda.

Nasceu em 1939 por iniciativa de uma associação de trabalhadores ligada ao Partido Comunista Britânico, tendo começado a vender os seus discos porta a porta e pelo correio.

Ajudou a consolidar a renascença folk britânica nos anos 60 e teve o seu apogeu no decorrer da década seguinte.

As fotos são de um catálogo de 1978 que o Atalho guarda religiosamente desde essa data. Os discos disponíveis eram apresentados por um pequeno texto, identificados pelo número de catálogo, as canções e músicos intervenientes descriminados. Coisa impensável nos dias de hoje.


15/08/17

Voigt/465 "Slights Still Unspoken"




Nos loucos anos idos do pós-punk tudo e o seu contrário era permitido.

Krautrock, avant-garage, punk, DIY, art-rock, free noise, industrial, todos os géneros podiam legitimamente fundir-se, criando uma linguagem híbrida que teve os seus momentos, mas que na maior parte dos casos não passou disso mesmo, de momentos.

Houve excepções claro, como em tudo na vida.

Activo entre 1976 e 1979 na Austrália,  Voigt/465, um obscuro colectivo de Sydney gravou um álbum que, de tão iconoclasta, acabou por passar praticamente despercebido.

Recém reeditado,  Slights Still Unspoken” escuta-se hoje como, se por milagre, fosse possível cruzar os Velvet Underground, com Can, Stooges, Pere Ubu, Throbbing Gristle, Comsat Angels, Joy Division, Devo, Faust, Art Bears ... e por aí fora.

Foram portanto necessárias quatro décadas para que esta  estimulante esquizofrenia sonora fosse decantada e devidamente apreciada.

09/08/17

Jardins do Paraíso ( LV )




No inicio da década de 70 do século passado, no Yorkshire, o casal Bob e Carolanne Pegg criou os Mr. Fox para, junto com os Trees, Steeleye Span ou Forest, integrar a segunda vaga da renascença folk britânica.

Em 1973, emergindo das cinzas dos Mr. Fox, Carolanne gravaria aquele que ainda permanece o seu único disco solo: “Carolanne Pegg”.

Dotada de uma voz sólida, porventura demasiado eclética para os padrões daquele tempo ( Kate Bush teve a sorte de surgir anos mais tarde ), Carolanne escreveu as canções, tocou violino, dulcimer, guitarra acústica e harmonium. O menosprezado Albert Lee fez de Richard Thompson e o álbum no seu conjunto é uma magnífica anomalia de época.

A inspiração radica no passado, mas o folk é quase progressivo, os temas cinzentos e esotéricos. Uma estrutura musical que os Spriguns de Mandy Morton desenvolveriam a seguir com bastante mais sucesso.

No fim de tudo, sobram épicos como “Fair Fortune’s Star” ou canções sem idade como “Man of War” ou “Winter People”.

Uma das reedições do ano.