04/07/22

"Frabjous Days, The Secret World of Goodley and Creme 1967 - 1969"

 


O Atalho nunca dedicou particular entusiasmo ao legado dos 10CC, aos anteriores Hotlegs, ou aos posteriores Wax.

Não obstante por aqui sempre persistiu a secreta curiosidade de saber como soariam as canções que a dupla Godley & Creme gravou ( sob a designação Frabjoy & Runcible Spoon ) em 1969 para a fugaz Marmalade. A independente liderada por Giorgio Gomelsky faliu pouco tempo após e o planeado álbum nunca foi publicado.  Testemunhos até à data, apenas um single ( “I’m beside myself / Animal song” ) e dois temas incluídos na compilação “Marmalade 100 Proof” publicada em Junho de 1969.

Frabjous Days, The Secret World of Godley and Creme 1967 – 1969” vem finalmente matar aquela curiosidade e de alguma forma fazer justiça a um trabalho que não sendo indispensável do ponto de vista histórico merecia ser conhecido.

Gomelsky “imaginava” a dupla Kevin Godley & Lol Creme como os Simon & Garfunkel ingleses. A dupla de Manchester possuía inegáveis qualidades como o futuro amplamente se encarregou de demonstrar, mas a comparação era no mínimo megalómana e manifestamente excessiva.

Através da presente edição, ficamos agora a saber que com a esparsa colaboração de Graham Gouldman e para além dos títulos atrás referidos, Godley e Creme gravaram mais nove temas naquele outono de 69.

De entre eles, embora mais Paul McCartney que Paul Simon, os impressionantes “Take me back” e “Today”; autênticos patchwork de ideias, melodias e ritmos, destacam-se dos restantes ainda que “Chaplin House”, “Cowboys and Indians” ou “Virgin Soldiers” ( este da autoria de Graham Gouldman ) mereçam também particular atenção.

Na generalidade, o desempenho instrumental, tal como o áudio são imaculados pelo que não se torna difícil prever que face ao estatuto de “collectable” que a generalidade dos álbuns editados pela Marmalade hoje ostenta, caso este disco tivesse sido publicado no seu tempo, um exemplar original facilmente mudaria hoje de mãos por valores muito acima dos três dígitos.

Ps: a presente edição inclui ainda as duas canções de um obscuro single que Godley & Creme publicaram em 1967 na CBS sob o nome de The Yellow Bellow Room Boom.

27/06/22

Artefactos ( 124 )







Algumas das mais icónicas capas do jornal "Musicalíssimo" no seu período de maior impacto e influência, pré e pós 25 de Abril de 1974.

17/06/22

"Heroes and Villains, The Sound of Los Angeles 1965-68"

 


Existem diversas compilações ilustrando a música feita em Los Angeles no período áureo dos 60s, quando o respectivo paradigma artístico rivalizava com a mais florida e etérea cena de São Francisco.

Uma das mais aturadas e criteriosas é “Where The Action is! 1965 Los Angeles Nuggets 1968” datada de 2009 e produzida pelos insuspeitos Andrew Sandoval, Alec Palao e Cheryl Pawelski.

Mas o tema, longe de ser consensual, seja do ponto de vista musical, histórico ou sociológico, presta-se sempre a revisitações e, dependendo do curador, umas mais conseguidas que outras.

A mais recente dá pelo nome de “Heroes and Villains, The Sounds of Los Angeles 1965-68” e tem a marca competente e diferenciada do historiador David Wells.

 


E se “Where the Action is!”, à data incluindo apenas 3 temas inéditos ( Stephen Stills & Richie Furay, Tim Buckley e Tommy Boyce & Bobby Hart ), era uma espécie de parente próximo da lendária criação de Lenny Kaye Nuggets, Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968”, “Heroes and Villains”, longe de descurar os inéditos ( 16 num total de 90 títulos ) procura enquadrar a criação musical nos acontecimentos históricos e artísticos que a cidade e arredores ( Laurel Canyon sobretudo ) viviam na época:

Before 1969, my memories were nothing but fun and excitement and shooting to the top of the charts and loving every minute of it. The Manson murders ruined the LA music scene. That was the nail in the coffin of the freewheeling, let’s get high, everybody welcome, come on in, sit right down. Everybody was terrified. I carried a gun in my purse. And i never invited anybody over to my house again” ( Michelle Phillips, The Mamas and The Papas ).



Ademais e concretizando: onde será possível encontrar as esquizofrénicas composições de Captain Beefheart e Mothers of Invention? Ou uma versão de “Windy” pela respectiva autora  (Ruthann Friedman), um ano após o tema ter resgatado os Association do anonimato? Ou um inédito dylanesco, “The Wind Blows Your Hair por uns insuspeitos The Seeds? Ou um outro inédito e percursor “Computer Girl” gravado em 67 pelos Urban Renewal Project liderados por um jovem Russ Mael que anos mais tarde os Sparks imortalizaram? Ou um “Long time” escrito por Gene Clark e oferecido aos Rose Garden? Ou uma primeira versão de “Why” de David Crosby gravada pelos Byrds nos estúdios de RCA em Sunset Boulevard e cujas fitas foram recusadas pela Columbia, que obrigou a banda a regravar o tema nos seus próprios estúdios? Ou ainda uma versão de “Road to Nowhere” assinada pela dupla Goffin/King e interpretada pelos Hearts & Flowers uma das primeiras bandas de Bernie Leadon?

Poderíamos sempre continuar pois o filão não apenas parece; é verdadeira e compulsivamente inesgotável. “Heroes and Villains” é por isso uma edição marcante. Vai muito para além do tempo que os seus 90 temas demoram a escutar. As enciclopédicas notas que ilustram cada um deles, obrigam-nos a parar e a verificar cada detalhe, cada informação aduzida. Muita da qual, sobranceiramente afinal, julgávamos já conhecer.

 

Numa palavra: puro serviço público!

06/06/22

Artefactos ( 123 )



José Mário Branco na revista "Mundo da Canção"

De cima e da esquerda para a direita:

 "Mundo da Canção nº 25 ( 20-12-1971 ),
nº 34 ( edição confiscada pela PIDE,só vendido após 25 Abril de 1974 )
nº 58 ( Junho/Julho 1981 ) e
nº 62 ( Dezembro 1982 )

30/05/22

Jardins do Paraíso ( LXXVI )


Help Yourself is uniformly delightful. Malcolm Morley sounds more like Neil Young than Neil Young does. If your ears are shaped like mine, you’re adore Help Yourself’s shimmering, crystalline guitar sound so reminiscente of the first Springfield album, against which Help Yourself stacks up very well.” 
( John Mendelsohn, Rolling Stone magazine in a review of Help Yourself’s debut album ). 

Não abundam casos como os de Help Yourself. Gravaram o álbum de estreia em 1971 sem nunca terem feito uma actuação de palco, o que para a época era verdadeiramente invulgar; no espaço de dois, três anos produziram um consistente e inspirador conjunto de discos; deixaram uma inegável pegada no rock britânico e, no entanto, aparte um nicho de indefectíveis, permanecem uma, ainda que majestosa, nota de rodapé da história. 

Funcionaram quase sempre como um colectivo democrático, com profusas e reiteradas entradas e saídas de membros ( as interseções começam nos Eire Apparent e passam entre outros pelos Man, Sam Apple Pie, Brinsley Schwarz, Dukes Deluxe, Tyla Gang, Flying Aces, Green Ray ou Sean Tyla ). Todavia o espírito e o som mantiveram a espinha dorsal, muito por responsabilidade desse extraordinário compositor e músico que é Malcolm Morley


Entre álbuns originais, singles e outras participações, a tarefa de conseguir a totalidade do legado de Help Yourself tem vindo a revelar-se uma tarefa árdua e sobretudo dispendiosa. Facto agora minimizado por “Passing Through, The Complete Studio Recordings”, uma compilação que reúne pela primeira vez numa única edição todas as gravações de estúdio da banda, acrescentando os dois temas integrados no lendário evento “Christmas at The Patti” e “Lost and Found”, um dos quatro álbuns a solo de Malcolm Morley e aquele que mais se identifica com o paradigma sonoro dos Help Yourself. De fora ficou apenas a participação do colectivo em “The Amazing Zig Zag Concert”, um evento levado a cabo para homenagear o legado do Zig Zag Magazine de Pete Frame em prol do underground britânico. 

 Enquadramento concluído será justo reforçar “a delícia” que é toda a música dos Help Yourself . No conjunto da sua discografia não existe um mau álbum, ainda que uns sejam melhores que outros. O Atalho destacaria os três primeiros – “Help Yourself”, “Strange Affair” e “Beware the shadow”, por serem de uma inigualável eloquência. O álbum estreia por incluir “Old Man” ( sem relação com o tema de Neil Young ), “Deborah”, “To Katherine They Fell” e “Street Songs” entre outros. “Strange Affair” por via de “Brown Lady”, “Heaven Row” ou “The All Electric Fur Trapper” uma peça psicadélica onde as guitarras de Morley, Richad Treece, Ernie Graham e Jo-Jo Glemser disputam o protagonismo. Finalmente “Beware The Shadow” através dos clássicos “American Mother”, “Passing Through” e da semi-prog suite “Reaffirmation”. 


Ainda que nascidos como projectos autónomos “Ther Return of Ken Whaley” e “Happy Days” foram publicados em simultâneo e assumem-se como os mais iconoclastas dos registos Help Yourself considerando o até então paradigma sonoro. Mais experimentalistas e, sobretudo no caso do segundo, permeáveis à influência do então emergente pub-rock, integram ainda assim temas muito interessantes ( “Amy”, “Candy Kane” ou “Seashell” ) onde a guitarra do artesão Richard Treece atinge patamares de excelência. 

5” originalmente publicado em 2004 e beneficiando de uma capa concebida e desenhada por Rick Griffin, agrupa um conjunto de temas gravados no verão de 1973, mas não editados na época. É um disco bonito e essencialmente melódico. Tem dentro uma das canções mais brilhantes do colectivo – “Cowboy Song” – curiosamente uma das poucas de que Morley não é autor. Acrescem ainda quatro temas/jam sessions captados a 10 de Abril de 1972 numa sessão da BBC Radio One. 


( os dois únicos singles dos Help Yourself publicados com picture sleeve; "Brown Lady" na Alemanha e "Mummy won't be home for Christmas" em Inglaterra )

 Por fim “Lost and Found”. Cronologicamente as primeiras gravações a solo de Malcolm Morley levadas a cabo nos Foel Studios de Gales em 1976. Entretanto extraviadas, só seriam publicadas em 2002. Reúnem momentos de rara eloquência como “Grace”, “Romance in a Tin” ou o dylanesco “Naked as the Night” e são o corolário perfeito para esta iniciativa editorial. 

Help Yourself é uma banda fácil de gostar …, desde que devidamente conhecida. “Passing through” significa uma oportunidade única para os que nunca se cruzaram com estes sons e, também em simultâneo, para uma imensa minoria de incondicionais que encontrarão num lugar único todo o espólio de uma banda verdadeiramente excepcional.

 

25/05/22

Artefactos ( 122 )

 


Patrick Campbell-Lyons, Nirvana UK

(Revista "Cine Disco" nº 4, 1969 )

06/05/22

Jardins do Paraíso ( LXXV )

 


I’m absolutely delighted that the LP is getting its first release on vinyl in the UK. It might be 54 years late, but at least now you won’t need deep your pockets to get a copy!”
( Dana Gillespie, notas na capa da reedição de “Foolish Seasons” )

Foolish Seasons” corporiza mais um incompreensível exemplo dos critérios editoriais vigentes na música do Reino Unido dos 60s. Gravado para a Decca em meados de 1968 tinha tudo – talento, qualidade, coerência, oportunidade -, para se transformar num sucesso contemporâneo. À revelia de todas as evidências ( estas linhas são escritas à luz do que a história guardou, cinco décadas depois e isso pode fazer toda a diferença ), a editora não lhe terá valorizado os méritos e o álbum acabou apenas publicado nos Estados Unidos em Março de 1969. Passou despercebido num mercado que na área apresentava grande oferta e como tal vendeu próximo do zero.

No entanto “Foolish Seasons” é um disco brilhante, luminoso, oscilando entre o folk e o pop britânico e continental da época. Tal diversidade poderá todavia ter constituído o seu calcanhar de Aquiles.

Ao tempo Dana Gillespie já gravara uns singles para a PYE mas perseguia o estatuto de singer songwriter e ansiava gravar um LP. A oportunidade surgiu quando a Decca, na sequência dos referidos singles, lhe propôs um contrato. Dana e o produtor Wayne Bickerton começaram a reunir canções. O tema título e “He loves me, he loves me not” são originais da cantora, todavia a maioria são covers. De Donovan: “You just gotta know my mind”, que o próprio nunca gravaria; de Billy Nichols ( que entretanto publicaria as suas duas contribuições no magnífico “Would you believe” ); de Michel Polnareff ou de Richard Farina.

Os participantes arregimentados para as gravações incluíam membros dos Manfred Mann, bem como conceituados músicos de sessão: Big Jim Sullivan, John Paul Jones, Herbie Flowers e Jimmy Page.



( Flashback Magazine, 2017 )

“Foolish Seasons” o tema que dá título ao álbum é particularmente belo, a cover de Donovan permanece uma sólida curiosidade histórica, “Dead” ( assinado por Joe Huffman e Moses Dillard ) uma pérola que Dana certamente gostaria de ter escrito enquanto “Hard Lovin’ Looser” rivaliza com a interpretação que Judy Collins havia produzido para o álbum “In my life”.

O bónus são dois temas originais que Dana gravou para um posterior single e que até hoje permaneciam inéditos.

Por todas as razões aqui apontadas e, porque a edição original americana, é hoje transacionada por valores aproximados a vários barris de crude, a recente reedição, ainda que limitada, é muito bem vinda.



( Capa da edição original )

22/04/22

Lost Nuggets ( 161 )

 


Chrome "Red Exposure" ( Beggars Banquet  BEGA 15 ) Lyrics inner, UK, 1980

- "New Age"

- "Room 101"

- "Eyes on Mars"

- "Jonestown"

- "Animal"

- "Statik Gravity"

- "Eyes in the center"

- "Electric Chair"

- "Night of the earth"

- "Isolation"

Chrome: Damon Edge e Helios Creed ( canções. vozes e todos os instrumentos )

Produção: Damon Edge

Capa: design de Tony Escott e Mati Kiddia, foto de Ian Turner

14/04/22

"Le Rock Psychédélique en 150 Figures"

 


À primeira impressão poderá pensar-se que estamos perante uma mera revisão da matéria dada, porém o novo livro de Philippe Thieyre, ao invés dos anteriores, não se confina apenas à idade de ouro do psicadelismo anglo-americano dos 60s.

Em “Le Rock Psychédélique en 150 figures” o autor estende a sua análise ao art-rock / progressivo dos 70s ( Gong, Ash Ra Tempel, Milton Nascimento, Broselmaschine, Hawkwind, Television   ), ao abrangente neo-psicadelismo dos 80s e 90s ( Plasticland, Dream Syndicate, Bevis Frond, Sun Dial, Rain Parade,  Six Organs of Admittance … ), terminando com um criterioso roteiro das linguagens psicadélicas do presente século ( Espers, Psychic Ills, Black Angels, Wooden Shjips, Ty Segall … ).

Assim, balizado entre os Yardbirds ( 1965 ) e os Heron Oblivion ( 2016 ), “Le Rock Psychédélique en 150 figures” é um guia competente, estimulante, notoriamente pensado para atravessar barreiras e preconceitos geracionais.

Le Rock Psychélélique en 150 Figures” , Philippe Thieyre ( Editions Du Layeur, 2021 ) 400 páginas

11/04/22

Lost Nuggets ( 160 )

Paul Siebel "Woodsmoke and Oranges" ( Elektra EKS 74064 ) Lyric Insert, USA, 1970

- "She made me lose my blues"

- "Miss Cherry Lane"

- "Nashville again"

- "The ballad of honest Sam"

- "Then came the children"

- "Louise"

- "Bride 1945"

- "My town"

- "Any day woman"

- "Long afternoons"

Paul Siebel: canções, voz e guitarras; com: David Bromberg ( guitarras acústica e eléctrica ), Don Brooks ( harmónica ), Richard Green ( violino ), Jeff Gutcheon ( orgão e piano ), James Madison ( bateria ), Weldon Myrick ( guitarra slide ), Gary White ( baixo ).

Produção de Peter K. Siegel

Capa: design de Robert L. Heimall; ilustração de Bob Ziering, foto na contracapa de Robert Campbell

07/04/22

Heroes are hard to find ( 93 )


Paul Siebel 

( 1937 - 2022 )

06/04/22

Jardins do Paraíso ( LXXIV )

 


Em 1967, ainda antes de sucessivamente integrar os Please, Bulldog Breed, T2, Peter Dunton esteve na origem dos Neon Pearl, um trio, por vezes quarteto, que durante largos meses daquele ano logrou obter respeitável reputação nos palcos da Alemanha.

De regresso ao Reino Unido no final do ano, Peter Dunton, Bernard Jinks e Nick Spencer entraram em estúdio para gravar os originais do primeiro, os quais entretanto haviam tomado forma quase definitiva nas actuações germânicas.

Mas, como muitas vezes, demasiadas vezes, sucedeu na época as fitas não convenceram as editoras estabelecidas. A opção “independente” ainda não existia ( à data, a Island Records por exemplo, ainda usava babygrow ), pelo que as gravações foram relegadas para um limbo onde permaneceram até ao inicio deste século.  

A mais recente reedição ( a razão deste post ) data de há um par de meses e teve a infeliz coincidência de quase coincidir com o desaparecimento de Peter Dunton.

Envoltas numa magnifica capa vintage completada por folheto explicativo, as canções que compõem “1967 Recordings” constituem um harmonioso conjunto sonoro que impressiona pela intensidade dos temas e densidade dos arranjos.

Todas assinadas e vocalizadas por Dunton (uma voz tão próxima e quase tão melancólica quanto a de Robert Wyatt ), representam uma particular faceta daquele  “exquisite” psicadelismo britânico que por exemplo os Soft Machine desenhariam no ano posterior em “Volume One”.

Não sendo propriamente uma novidade editorial a presente reedição de “1967 Recordings” disponibiliza de novo um fabuloso conjunto de temas ( o Atalho aprecia especialmente “Out Of Sight”, “Just Another Day” ou “What to See” ), a melhor e mais oportuna homenagem à precoce partida do seu criador.