Mostrar mensagens com a etiqueta Lou Reed. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lou Reed. Mostrar todas as mensagens

10/02/16

John Cale "Music for a new society / M:Fans"




Reconhecendo embora o enorme talento de Lou Reed, devo confessar que “o meu Velvet” foi e será sempre John Cale. Uma opinião evidentemente. Mas, do que se trata aqui  é realmente saber se falamos de talento ou se falamos de génio. E não, não é uma mera  questão semântica, existe de facto uma diferença entre o talento e o génio. O primeiro é constante, previsível; o segundo é absolutamente o oposto de ambos.

Comprei a minha cópia original de “Music for a new society” numa FNAC de Paris, em 1982. Produziu em mim o mesmo efeito hipnótico que os glaciares “Marble Index” e “Desert Shore ( coincidência, ambos produzidos por Cale ); uma espécie de mimetismo que se prolongava muito para além do tempo que duravam as canções/elegias que os integravam. Como todas as obras maiores “Music for a new society” não deixa ninguém indiferente. É o caso típico do clássico que, ou se ama, ou se detesta.

Há um par de anos, levei a capa do meu original a um “backstage” para que, entre o encantado e o surpreendido, o “big man himself” a autografasse.  Desde então não mais escutei o disco. Regressei agora, a propósito da reedição remasterizada do álbum original, acompanhada de “M:Fans” a transformação/recriação dos temas e a forma como Cale os olha hoje, 35 anos depois de terem sido escritos e gravados pela primeira vez.

Produzido num período complicado da vida do autor, “Music for a new society” é um disco denso e perturbador. A  frase “It’s a loving world to die in”, a encerrar essa extraordinária peça que é “Sanctus” e a ironia do cinzento “Damn life” incorporar notas da “Ode of Joy” de Beethoven, quase poderiam resumir toda a atmosfera do álbum.  Algures em 1983 Cale confidenciou numa entrevista que optou pelo título porque “The record is so dark, you’ve got to have something optimistic”.  


Distante, quer  de registos mais “amigáveis” como  Paris 1919” ou “Caribbean Sunset  ( aqui a maior proximidade reside no melódico “Close watch”  recuperado de “Helen of Troy” ) quer de brutais incinerações como “Honi Soit” ou “Sabotage”, “Music for a new society” está repleto de melodias envergonhadas que as colagens e os “overdubs” tornam quase imperceptíveis.

Inesgotável, este é um daqueles discos cuja audição nunca se pode afirmar completa. A cada nova investida existe sempre um detalhe, uma nesga de criatividade, que se descobre e   surpreende.  Tal como algumas das muitas curiosidades que encerra: a guitarra de Alan Lanier ( Blue Oyster Cult  ) em “Changes made”; a adaptação de “If you were still around”,  um poema publicado por Sam Shepard em “Motel Chronicles”, ou a colaboaração de John Wonderling,  muito provavelmente o autor do raríssimo “Daybreaks” ( 1973 ), um disco em cujo tema de abertura - “Long way home” - , são feitas elogiosas referências a Lisboa e ao Estoril.

Music for a new society” não é um disco para todas as horas nem para todos os dias. Antes um disco para sempre, porque na vida existirão sempre aqueles momentos de estranha cumplicidade, os quais nos conduzirão de novo até ele.

Nota: “M:Fans”, embora partindo das mesmas canções, é outra coisa muito diferente. Quem sabe, talvez um dia me sinta suficientemente confortável para sobre ele dissertar.

23/09/15

Nap Eyes "Whine of the Mystic"


As surpresas encontram-se ao virar da esquina. Acontecem quando menos se espera. Whine of the mystic” é um desses casos.

Oriundos da Nova Scotia, os Nap Eyes são de facto “the greatest band you’ve never heard”. Numa altura em que pouco ou quase nada se inventa e tudo se recicla, o quarteto canadiano faz valer a sua mestria neste difícil enquadramento.

Dito de outra maneira; esteticamente este disco de estreia nada traz de realmente novo, não obstante é quase perfeito de tão simples. Gravadas sem “overdubs” ( afirmam ), as nove canções que o compõem são um enorme espelho retrovisor que nos  permite olhar o histórico de Modern Lovers, Verlaines, The Clean, Go-Betweens ou Pin Group; até mesmo para o Lou Reed de “Walk on the wild side”.

Whine of the mystic” ( objecto em 2014 de uma primeira e restrita edição privada de 200 exemplares ) tem sido catalogado como um “drinking album”. Excessivamente diria. Os textos de Nigel Chapman resultam da observação do quotidiano e, não sendo  propriamente pesados, também não são ingénuos. Donde que, as canções, inquietas todas elas, umas vezes encaixem em Jonathan Richman ou Grant McLennan, outras se aproximem mais de Lou Reed ou de Peter Perrett.

Tudo ponderado, procurem escutar “Dark Creedence”, estrategicamente colocado a abrir o álbum. Se nada vos disser, esqueçam. Passem à frente porque são um caso perdido.

01/05/13

Killers, Angels, Refugees ( 29 )


"Dirty Boulevard" ( Lou Reed )

Pedro lives out of Wilshire Hotel
Looks out a window without glass
Walls are made of cardboard, newspapers on his feet
The old man beats him 'cause he too tired to beg
He's got nine brothers and sisters
They're brought up on their knees
Hard to run when a coat hanger beats you on the thighs
Pedro dreams of being older killing the old man
Slim chance he's going to the boulevard
He gonna get in, to the dirty boulevard
I'm gonna get out, to the dirty boulevard
Going down, to the dirty boulevard, get it on
This room cost two thousand dollars a month
You believe it baby, it's true
Somewhere there is a landlord living that wets his pants, wets his pants
No one dreams of being a doctor or lawyer or anything
They just dream of dealing on the boulevard
Give me your hungry, your tired, your poor piss on 'em
That's what the statue of bigotry says
All you poor huddled masses
Why don't you just go club 'em to death?
Get it over with
Dump 'em on the boulevard, and get it out now
I'm going down
Get it, get it, get it out
Going down
You ever had rage in your heart?
You ever had some rage in your heart?
You ever had rage in your heart?
Have you ever had rage in your heart?
Outside it's a bright night
There's an opera, Lincoln Center
The klieg lights shoot out over the Manhattan skyline
But the lights are out on the mean
Small kid stands by the Lincoln Tunnel
Selling plastic roses for a buck
Traffic's backed up to Thirty-Ninth Street
The TV whores are calling the cops out to get sucked
Back at the Wilshire, Pedro sits there dreaming
Found a book on magic in a garbage can
Looks at the pictures, looks up at the cracked ceiling
By the count of three I'll get outta here and fly away
I wanna fly, fly away
I wanna fly from this dirty boulevard
Fly, fly, I wanna get outta, get outta, get outta here
Fly fly, fly away
Fly fly, fly away
Fly fly, fly away
I wanna fly, fly, fly
I wanna fly, fly, fly
Fly away


Dir-me-ão: sempre foi assim! É verdade. Mas o estado do mundo hoje, assemelha-se cada vez mais ao Dirty Blvd do Lou Reed dos três ismos - pessimismo, niilismo, cinismo. "New York" é um álbum enorme, ainda que muito cinzento.