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21/03/16

Uther Pendragon "San Francisco Earthquake"



 
Procura-se nas enciclopédias do género, nos sites e bases de dados das revistas da especialidade, livros …, nada. É como se Uther Pendragon nunca tivesse existido. E no entanto a banda de São Francisco, sabe-se agora, esteve activa entre 1966 e 1978, venceu inclusive uma das edições da Bay Area Battle of the Bands e deu concertos amiúde ( ao lado de Country Joe & The Fish por exemplo ).
Com a edição de “San Francisco Earthquake” ficam finalmente a conhecer-se as gravações que ao longo dos anos o colectivo californiano foi metodicamente colecionando sem outro objectivo que não o prazer de tocar com e para os amigos. E, note-se, os 24 temas que fazem este “primeiro” disco dos Uther Pendragon são uma autêntica revelação.


Gravados em Outubro de 1967 e destinados a um single estreia que nunca seria publicado, “Peter Pan Blowup” e “Love Lock Temperature Drop”, são dois  “garage nuggets” perfeitamente alinhados com o que de melhor se fazia na época e no local.
Acresce que a generalidade das composições escritas e gravadas entre 1966 e 1969 ( nove para sermos precisos ) incorpora aquela vibração particular que tornava o som das Bay Area Guitar Bands algo de absolutamente distinto e perene. Neste contexto será exagero comparar Uther Pendragon aos Quicksilver Messenger Service  de John Cipollina, mas Oxford Circle ou Savage Resurrection são referências óbvias.


Longos, épicos e mais próximos do “hard rock” ( “10 Miles to freedom” ou “Man of means” por exemplo), os temas gravados nos 70s acolhem incendiárias “guitar jams” que deixarão deliciados os fãs de Michio Kurihara e do neo-psych.
Mais um caso típico de um passado que não deixa de nos surpreender.
 

05/10/15

Crystal Syphon "Elephant Ball"




O filão parece inesgotável. Numa altura em que o que resta da instituição Grateful Dead acaba de comemorar os 50 anos de carreira, continuam a vir à superfície verdadeiras pérolas do psicadelismo da época de ouro de São Francisco.

Até há pouco, Crystal Syphon era apenas um nome que surgia nos cartazes que anunciavam   eventos musicais nos ballrooms de Frisco entre 1967 e 1969. Em 2012 porém  tudo mudou.

Quatro décadas volvidas, “Family evil” foi a primeira publicação oficial do quinteto de Merced. Textos e música sem tempo, ambos denotando uma criatividade pouco comum. A colectânea era de tal forma superlativa que, pensou-se, a coisa ficava por ali.


A recente edição de “Elephant Ball” encarregou-se de o desmentir. Constituído por três temas gravados no estúdio em 1967 e seis prestações ao vivo no Fillmore West em 1969, este álbum apela directamente aos fãs do som da west-coast.

Mestres nos arranjos ( complexos  ) e nas harmonias vocais ( notáveis, mesmo para os elevados padrões da época ) os Crystal Syphon foram ou poderiam ter sido alter-egos dos Quicksilver Messenger Service, desde logo porque a guitarra de Tom Salles soa quase geminada com o lendário instrumento de John Cipollina. Empática e hipnótica, tivesse esta extraordinária música sido publicada no seu tempo e estaríamos agora a falar de um clássico do rock californiano.

19/12/12

Crystal Syphon "Family Evil"


E nunca se pode dizer nunca que já se ouviu tudo.
Na verdade, quando se pensava que havia sido dito tudo, escrito  e ouvido sobre o psicadelismo californiano, eis que surge “Family Evil”. E voltamos ao principio. Que é como quem diz, aos mid-sixties.
Crystal Syphon, uma banda originária de Merced, California, esteve activa entre 1965 e 1970. Não obstante, até há poucos meses era totalmente desconhecida dos amantes do psicadelismo californiano, nunca tendo sido tão pouco mencionada em nenhuma das enciclopédias do género.  Family evil” é no entanto a prova cabal de que em história não é uma ciência exacta e muito menos definitiva.

Mais de quatro décadas depois de terem sido escritos e registados, ao escutar os 10 temas que integram a primeira e última ( julgamos ) edição dos Crystal Syphon, questionamo-nos sobre o que poderia ter acontecido à época caso esta banda tivesse recebido o apoio de uma editora e/ou os favores da imprensa/público.
Partilhar os palcos com os Grateful Dead, Quicksilver, Country Joe & The Fish, Big Brother & The Holding Company, Buffalo Springfield, Creedence, Santana ou Lee Michaels, não terá sido ao que parece suficiente e os Syphon nunca usufruiram dos seus 15 minutos de fama. Desaparecem nos radares em meados de 1970.


Nascidas no período compreendido entre 1967 e 1968, estas canções são do melhor e mais genuíno que o paradigma californiano produziu na época.  Se se partir para a audição de “Family Evil” sem preconceitos e com a mente aberta, torna-se evidente e fácil de perceber que qualquer uma destas canções poderia e deveria ter constituído um ex-libris da música californiana.

“Marcy, your eyes” a abrir, ostenta um insidioso riff de guitarra pairando como um falcão sobre um órgão hipnótico. Os Brogues ou os Savage Resurrection não fizeram melhor. “Paradise” e “Have more of everything”, são  os Jefferson Airplane de “Crown of Creation” sem Grace Slick e com Tom Salles a fazer de Jorma Kaukonen. “Try something different” ecoa uma melodia de Randy California para o primeiro álbum dos Spirit, as harmonias vocais repousando sobre um baixo em registo solo, mais Phil Lesh que Jack Casidy. “Fuzzy and Jose”  e “Family Evil” ( o tema )  são jams psicadélicas do género Quicksilver Messenger Service “meets”  Airplane, para as quais até o (bom) fantasma de John Cipollina parece ter sido convocado. “Are you dead yet” é a necessária “garage song”, enquanto “In my mind” oferece um dos mais cristalinos intro de guitarra californiana da época.  “Fails to shine” sugere o edifício musical aparentemente desconexo que foi a imagem de marca dos Mad River. A terminar os fabulosos 6m e 56s de “Winter is Cold” oferecem-nos um bilhete apenas de ida para o nirvana do psych-rock, exactamente no momento do apogeu do respectivo processo evolutivo.
O Atalho reconhece o porventura excessivo entusiasmo deste texto, penitencia-se pela profusão das hipérboles, mas a verdade verdadinha é que desde há muitos anos não  recordo ter-me divertido tanto ao escutar um álbum oriundo da Califórnia.

Family Evil” é o meu disco do ano. Seja lá o que isso possa valer.


Ps: de acordo com informação prestada ao Atalho por Bob Greenlee, baixista da banda, existem várias gravações de concertos no Fillmore West. Estão em processo de remasterização e muito provavelmente verão a luz do dia em 2013. Mais uma boa notícia.

17/12/08

Quicksilver Messenger Service


Na adolescência quando o meu grupo de amigos se reunia nas tardes de sábado em redor de um pequeno gira-discos, a disputa ocorria entre “Three friends” ( Gentle Giant ), “Volume IV” ( Black Sabbath ), “Foxtrot” ( Genesis ), “Kick out the jams” ( MC5 ) e “Happy Trails” (Quicksilver Messenger Service ). Invariavelmente, a levitar, acabávamos todos a escutar os delírios épicos de “Calvary” e o “vibrato” único de John Cipollina em “Mona”. Todo o glorioso lado B do vinil de “Happy Trails”, cujo exemplar ainda guardo, religiosamente.

Após a morte de Jerry Garcia em 1995, os Grateful Dead viram publicados dezenas de álbuns com gravações captadas ao vivo em diferentes períodos da respectiva história. Em anos recentes os Jefferson Airplane viram também editados alguns dos seus concertos mais marcantes ( embora a maioria sustente apenas significado histórico, pois a qualidade áudio é muito fraca ).

Dos três maiores grupos saídos de São Francisco/Haigh Ashbury 1965/67, Quicksilver Messenger Service era aquele que possuía publicado menor número de testemunhos ao vivo, excluindo naturalmente as dezenas de bootlegs que circulam entre fãs em circuito fechado e “Lost Gold and Silver”, uma fugaz e excelente edição Collector’s Choice de 1999.

Um facto que se estranhava pois é sabido que QMS foi à época o grupo da cidade que mais concertos promoveu, mesmo antes de gravar o primeiro álbum em 1968.

(esquerda para direita Gary Duncan, John Cipollina, Greg Elmore e David Freiberg)


A lacuna acaba de ser corrigida pela Bear Records que recorrendo aos arquivos dos Jefferson Starship/QMS publicou de uma assentada:

- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 9th September 1966
- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 28th October 1966"
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 6th February 1967
- “Live at the Carousel Ballroom, San Francisco, 4th April 1968".

Todos os registos ocorreram em data prévia à gravação do álbum estreia “Quicksilver Messenger Service” ( QMS foi a última das grandes bandas de São Francisco a assinar um contrato discográfico), e possuem excelente qualidade áudio, um pormaior que vai permitir aos fãs colocar finalmente de lado os piratas manhosos que escutam há décadas. Mais importante ainda: todos eles acolhem a formação seminal do grupo: John Cipollina, Gary Duncan, David Freiberg e Greg Elmore.

Sem qualquer motivo justificável, o Atalho optou por destacar “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967”. O Cd é duplo e regista as prestações de QMS no palco do Fillmore West naquele fim de semana.


( poster do concerto, autor Wes Wilson )

Estão ali todas as componentes do mítico som Quicksilver. A permanente tensão entre as guitarras gémeas de Cipollina e Duncan que quase sempre arrastam o grupo para jams épicas e lisérgicas; a percussão de Greg Elmore, quase tribal pela necessidade de se fazer ouvir; a fluidez rítmica e o esforço titânico do baixo de Freiberg para manter unido um grupo que albergava snipers do calibre de Duncan e, sobretudo, Cipollina.

QMS era no essencial uma banda de palco. Ali respirava como poucas e sem esforço arregimentava para o seu lado as audiências; uma cumplicidade que se pode comprovar nestas gravações agora recuperadas. Reflectem a dinâmica e as idiossincrasias da banda como os discos de estúdio raramente conseguiram.



As versões de “Codine”, “Dino’s Song”, “I hear you knocking” – nesta em particular pode desfrutar-se do génio de Cipollina e compreender o culto de que é objecto por parte de alguns músicos contemporâneos com o japonês Michio Kurihara (Ghost, Stars, White Heaven, Boris, Damon & Naomi) à cabeça - “Mona, “Pride of man”, “Walkin blues” ou “Who do you love”, possuem uma urgência e dimensão que, exceptuando o tratamento que algumas delas obtiveram em “Happy Trails”, não é possível encontrar em mais nenhum disco de QMS.

Uma banda e um património a rever ou descobrir, consoante a idade ou a vivência.