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06/09/22

"Before The Day Is Done, The Story of Folk Heritage Records 1968-75"

 


The term ‘underground’ was borrowed later on by other people to talk about Pink Floyd, Fairport Convention, Jethro Tull, stuff like that, but there had been an ‘underground’ going on since 1960/61. When the folk boom took shape and gained momentum by the mid-sixties, you’re talking about millions of people going to clubs. You’re actually talking in millions.” ( Martin Carthy )


Nos sixties, a renascença da música folk britânica não teria atingido a dimensão artística e cultural sem as centenas de clubes folk e, em menor grau, dos pubs locais. Proprietários, animadores residentes ou meros artistas itinerantes que ensaiavam nas traseiras e actuavam a troco da bebida ou de uma refeição quente, raramente atingiram a fama / sucesso comercial, mas o seu entusiasmo e sinceridade contribuíram de forma determinante para o regresso da tradição folk.


A visibilidade relativa que grupos como Incredible String Band, Pentangle ou Fairport Convention conseguiram nos tops funcionou como catalisador para que uma imensidão de jovens artistas amadores tentasse a sua sorte, geralmente ou quase sempre no club da zona, grande parte deles recuperados para o efeito.

Alan Green, um jovem licenciado em química, viu aqui uma oportunidade e partiu para a criação de um pequeno estúdio e de uma editora: a Folk Heritage. A partir do final dos 60s e durante cerca de uma década a Folk Heritage, a par das subsidiárias Westwood, Midas e Sweet Folk and Country, gravou e publicou alguns dos mais genuínos e brilhantes discos de folk tradicional da Grã Bretanha. As edições raramente ultrapassavam as duas centenas de exemplares, razão pela qual estes artefactos são hoje muito raros e caros.


Before The Day Is Done, The Story of Folk Heritage Records 1968-75” compila pela primeira vez 88 temas criteriosamente retirados dos catálogos mencionados. A homogeneidade é patente ainda que nem todos os títulos ostentem a mesma dimensão artística. E se Music Box, Minor Birds, Michael Raven, Folkal Point, Gallery, Saraband, Saga, Rosemary Hardman ou Jancis Harvey são nomes já familiares, existe aqui uma significativa parcela de artistas ( Penny Wager, Peregrine, Parke, Pendlefolk, Blue Water Folk, Raggerty, Rod Neep, Stuart Marson, Dave Lewry ) que mais do que merecer, justifica uma investigação urgente e aturada.

No final, e bem vistas as coisas, é para isso mesmo que servem as compilações … “Before The Day Is Done” é, no género, uma das melhores.


26/12/21

Jardins do Paraíso ( LXXII )

 


Ainda no seguimento do comentado no post anterior, assinalar uma nova reedição de um dos mais extraordinários álbuns publicados em 1971, “Hush”.

Naturais de Sydney, os Colins, Drysden e Campbell formavam um duo que em meados dos 60s actuava nos clubes folk da cidade. Em 1969, com a chegada de Shayna Karlin, Bob Lloyd e Jim Stanley, o colectivo adoptou o nome de Extradition, permanecendo no centro do  circuito folk australiano.

Dois anos volvidos a núcleo da banda sofre alterações, fruto da permanente colaboração de alguns dos seus membros com músicos da banda Tully e vice-versa. Quando em 1971 “Hush” foi publicado, quase de forma incógnita, os Extradition já não existiam enquanto projecto. Campbell e Shayna já estavam de corpo e alma nos Tully, cujo álbum “Sea of Joy” é também ele um disco icónico e de escuta obrigatória.



Nos tempos que correm, “Hush” seria provavelmente considerado um disco “acid-folk”, encontradas similitudes que remeteriam para ISB, Pentangle ou Synanthesia. Não pretendendo branquear estas ou outras eventuais influências, dir-se-á que “Hush é mais um álbum de “free-folk”, uma obra especial e diferenciada que, por isso mesmo,  não tinha muito por onde ser comparada.

Trata-se de um álbum que valoriza o silêncio, releva a tradição musical britânica, mas em simultâneo respeita os valores regionais, estabelecendo pontes entre sonoridades ocidentais e orientais, facto patente na utilização equilibrada de instrumentos oriundos de ambas as culturas musicais.

As vocalizações de Shayna Karlin são inqualificáveis de tão belas  e os temas, sobretudo os assinados por Colin Campbell, sem a mínima ponta de exagero, superlativos - a conferir por exemplo em “I Feel The Sun” ( recuperado mais tarde no álbum “Sea of Joy” dos Tully ), “Ice”, “A Water Song” ou “Minuet”.

É altamente provável que este disco nunca tenha sido objecto da atenção que merece. O facto de ter sido publicado em 1971, é, sublinha-se, apenas uma mera coincidência.

17/02/21

"Sumer Is Icumen In, The Pagan Sound of British and Irish Folk 1966-75"


 

We are reaching for something that doesn´t just sound modern but timeless

( Robin Williamson, 1967 )

Parceiro e complemento de “Dust on the nettles, a journey through the British underground folk scene 1967-72”, “Sumer is Icumen in, The pagan sound of British and Irish folk 1966-75” é uma estimulante e didáctica viagem através dos sons mais recônditos e, bastas vezes iconoclastas,  emergentes dessa música ancestral que a tradição tende a proteger enquanto a cultura vigente faz por ignorar.

E no entanto para que se recorde e celebre esta música ainda tão profundamente enraizada no tecido rural da Grã-Bretanha ( é uma evidência que apesar das “urgências” mediáticas e das efémeras futilidades, não são poucos os que persistem no caminho da sua preservação ) não é necessário descer apenas  ao underground ( escute-se o delicioso “On Horseback” de Mike Oldfield publicado em “Ommadawn”,  “Cruel Sister” dos Pentangle ou a versão dos Traffic para “John Barleycorn”) ainda que seja nesse espaço que são recuperados a maioria dos 60 temas que integram esta compilação.

Sumer is Icumen in”, é na origem, uma melodia inglesa datada do século XIII. Os artistas e as canções de maior ou menor pendor tradicional que nela se inspiraram e aqui lhe prestam homenagem – desde a mítica banda sonora de “The Wicker Man”, passando por Vulcan´s Hammer, The Celebrated Ratliffe Stout Band, Amber, Mighty Baby, Lal Waterson, Dave & Toni Arthur, Oberon, Stone Angel, Archie Fisher ou Anne Briggs -, assumem todos eles o papel de cicerone numa excitante viagem de regresso a um tempo que tem tanto de fantástico quanto de sombrio.

Como já é hábito, as notas explicativas de David Wells para cada um dos temas, enciclopédicas e repletas de humor, ajudam a justificar o investimento. Algo ainda mais valorizado pela inclusão de 15 títulos ( ou versões ) inéditos até agora.

20/12/17

The Lords of Thyme "Pellets"



Alvo de apressadas comparações com Pentangle e Fairport Convention, os The Lords of Thyme acabam de reeditar em vinil o seu primeiro álbum “Pellets” datado de 2016.

Colocando de lado a injustiça das similitudes ( porque coloca a fasquia num nível que complica mais do que facilita ) é verdade que existe na música deste quarteto inglês alguma magia; mas, por ora tão só, porque talento puro é outra coisa.

Oriundos dos esotéricos Circulus, Joe Woolley, Tali Trow e Pat Kenneally, recrutaram a vocalista Michelle Woolley e partiram em busca de uma linguagem musical que, dentro do padrão folk-rock, deixe de lado o paganismo e proporcione maior consenso.


A abrir, o tradicional “Bruton Town” está lá com esse fito, porém pouco ou nada acrescenta à maioria das versões conhecidas. A natureza serena de “George Collins” poderá ser uma das razões porque a banda foi convidada a integrar o projecto “Shirley Collins Inspired”. “The bird it sang” mantém a sequência mas, a partir deste, o rumo perde-se e o “song writing” tem dificuldade  em acompanhar o propósito inicial. “Coming down” por exemplo poderá até ser um bom tema mas o recurso ao órgão Hammond e à pedal steel guitar transforma-o num corpo estranho.

Após a necessária reflexão, aguardam-se os próximos capítulos.