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13/06/18

Sharron Kraus "Joy's Reflection is Sorrow"



Após mais de 15 anos de carreira, os trabalhos de Sharron Kraus já mereciam uma outra atenção.

Quando as Joannas Newsom deste mundo ainda não tinham decidido o que fazer à vida, já Sharron gravava discos seminais para a Camera Obscura do saudoso Tony Dale ( “Beautiful Twisted” e “Songs of Love and Loss” são, neste âmbito, particularmente impressivos e ajudam a definir o que na altura se convencionou chamar de “weird folk”).

Pelo caminho colaborou com os Iditarod de Jeffrey Alexander, com Christian Kiefer e  United Bible Studies. Em 2007 ao lado de Meg Baird e Helena Espvall publicou o bucólico “Leaves from off the tree”. No ano seguinte, com a colaboração de Greg Weeks e Gillian Chadwick, editaria “Rusalnaia”.

Em “Joy’s Reflection is Sorrow” Sharron experimenta novos caminhos. Distante está a paixão pelos Apalaches ou o ruralismo de inspiração galesa a que os dois discos anteriores davam corpo.   

Este novo álbum projecta um desafio, na justa medida em que busca o compromisso entre as raízes folk de contornos vincadamente espartanos e a sofisticação que a instrumentação electrónica proporciona ( curioso como “Figs and Flowers” faz recordar o “Broken English” de Marianne Faithfull e "The Man who says Goddbye" remete para os Spriguns de Mandy Morton ).

Dito de outra maneira: o paradigma mudou. “Joy’s Reflection is Sorrow” é um disco que necessita de tempo para ser digerido. Porque, ainda que acolha as pequenas pérolas habituais na escrita de Kraus, veste novas roupagens, muito próximas da  interpretação que os Tremblig Bells fazem hoje do folk embora prefira arranjos e formas mais subtis.

Nancy Wallace, outra das favoritas do Atalho, empresta a voz a alguns dos temas.

12/08/16

Artefactos ( 44 )


Acabado de "aterrar" o # 6 da Terrascopedia.
18 páginas manualmente impressas pelo editor, como já é habitual.
Entrevistas com Sharron Kraus, Constantine e PSP. Críticas aos discos de Heron Oblivion, Constantine e à compilação "Paper Leaves"; todos já comentados aqui no Atalho.
100 exemplares apenas. Logo, mais um artefacto coleccionável.  



29/12/15

United Bible Studies "The Ale's what cures ye - Traditional songs from the British Isles"



Há anos que o colectivo mutante United Bible Studies percorre os roteiros ancestrais da música das ilhas  britânicas. Com um pé na Irlanda natal outro na Inglaterra rural, David Colohan, Michael Tanner e Richard Moult deambulam pela tradição, estudam-na criteriosamente e em seguida adicionam-lhe uma perspectiva moderna.

 The Ale’s what cures ye – Traditional Songs from the British Isles” é mais um delicioso entalhe numa obra que principiou a ser esculpida em 2001. Contando entre outros com a colaboração de Sharron Kraus, Alison O’Donnell e Alison Cotton, neste novo álbum, os UBS ficam a um pequeno passo de atingir a perfeição.

The Ale´s what cures ye” é um disco de rara, dilacerante, beleza. Resultado de uma escolha tudo menos óbvia, as canções projectam-se numa tela pintada por silêncios cúmplices. Décadas, séculos de melodias antigas, desfilam envoltos em sons do presente, estimulando a curiosidade e potenciando o exercício da comparação.

“Farewell Nancy”, “Sullivan’s John”, “The sweet streams of Nancy”, “The recruited collier”, “Twa Corbies”, “Waiting for another day”… Martin Carthy, Sweeney’s Men, Anne Briggs, Nic Jones, Tim Hart & Maddy Prior já passaram por elas em tempo, porém o que os United Bible Studies agora lhes aportam é algo de quase definitivo. Um dos álbuns mais bonitos do ano.

03/04/15

Sharron Kraus "Friends and enemies, lovers and strangers"



Em Sheffield, na Inglaterra profunda, Sharron Kraus vai fazendo o seu caminho em direcção à história da canção folk da ilha. Trata-se de um percurso tranquilo onde o futuro se confunde com o passado, mas do qual faz parte, sempre, uma transcendente beleza.

Friends and enemies; lovers and strangers”, é ainda um dos ecos da sua passagem por Gales, da qual já tinha resultado entretanto “Pilgrim Chants & Pastoral Trails”.
Estas novas melodias são inspiradas nos contos celtas de Mabigoni e retornam ao universo medieval que Sharron Kraus tanto preza e que só abandona para abordar a sua outra paixão: a música dos Appalaches.
Espartano nos meios mas caloroso nos resultados, “Friends and enemies” é um daqueles discos de que intimamente precisamos quando à nossa volta tudo se prepara para ruir.

19/03/14

The Kitchen Cynics: "Yesterday Perhaps, Songs of The Kitchen Cynics", "The Orra Loon" e "Wooden Bird ... plus".



Ao perscrutar a capa do vinil de “Yesterday Perhaps, Songs of The Kitchen Cynics”,  retornam  da memória aquelas fantásticas capas da velhinha Topic Records. Muita da história e tradição orais de Inglaterra, Gales e Escócia passaram pelo catálogo daquela editora independente, quando o significado da palavra encontrava similitude na prática. A música era ancestral, as interpretações austeras e os arranjos regra geral espartanos. Os discos eram porém quase sempre brilhantes.
Alan Davidson encarna na perfeição o espírito e o legado do que atrás foi dito. Nas canções que escreve, na forma simples como as veste, no design das edições, nas amizades que cultiva, inclusivé nas fotografias que tira no acaso do quotidiano.

Sob o “nom de plume” de The Kitchen Cynics, o autor escocês anda por aí há um quarto de século, num culto alimentado boca a boca e do mais não se mostrando necessitado. As publicações, maioritariamente privadas, são às dezenas. As canções às centenas.
Uma escassa dúzia foi agora recuperada e proposta a um conjunto de amigos, entre os quais Pat Gubler ( P.G. Six ), Josephine Foster, Tom Rapp, Adam Leonard, Sharron Kraus, Alasdair Roberts ou Kathleen Baird. Na contracapa do álbum, Simon Lewis escreveu: ”focus on local history, a sense of place and life’s small pleasures is the perfect antidote for the chaos and confusion of modern day living”. E as canções de Alan Davidson são isso mesmo. Simultaneamente novas e antigas ficam bem em qualquer voz ou arranjo.
 

Yesterday Perhaps” é um daqueles discos que quanto mais se escuta mais se gosta. As prestações de Tom Rapp, P.G. Six , Adam Leonard e Alasdair Roberts são tão aditivas quanto se esperaria. Mas para além delas, Sharron Kraus trata com rara singeleza um tema difícil como “When father hanged the children”; Major Matt Mason torna abrasivo um etéreo “She’s growing old disgracefully” e até a voz habitualmente cinzenta de Josephine Foster brilha em “Winter in her bones”, acompanhada por uma guitarra portuguesa que com ela dialoga com discrição e parcimónia.
Mas, nestas coisas das canções, nada como escutar o próprio. Daí “The Orra Loon”.  Espécie de Best of, o álbum combina temas novos com versões de canções já anteriormente publicadas. E é um prazer reencontrar “I am the orra loon”, “The place you hide” ou o belíssimo “Richard of Bedlam”.

E é todo um conjunto de peças como “The Wilhemina Gabb” ( uma melodia debruçada sobre uma tragédia marítima ) aqui sustentada por um piano assombrado, “Flies” ( epitáfio para amigos que partiram demasiado cedo ), “Now’s the time” um quadro familiar pincelado por uma cítara inspirada. A terminar, “Me, Jack and Lee, and the ghost of Skip James” uma comovente evocação de dois saudosos pioneiros: Jack Rose e Lee Jackson. Tivesse chegado mais cedo e seria uma escolha óbvia para 2013.

Wooden Bird” foi publicado em Itália em 2011 numa edição limitada de 110 exemplares. Cada uma das capas foi fabricada manualmente e ostenta um pássaro diferente, cortesia de Luigi  Falagario que os desenhou. Agora conheceu uma reedição em cd, “Wooden Bird … plus incluindo 7 temas extra.
Equilibrado no seu conjunto, representa uma outra faceta do “songwriting” de Davidson. Menos próxima da sonoridade folk, mais comprometida com paisagens atmosféricas, telas preenchidas por uma guitarra que nos transporta até aos primeiros acordes de Vini Reilly com os Durutti Column. “Davy” foi pedida emprestada a Roy Harper e Robert Burns contribuiu com “Now westlin’ winds”.  Do conjunto dos temas “plus” emergem “Vineger Tom” e “Tardy Lover”, destaques óbvios de um belíssimo naipe de canções. À espera de serem devidamente apreciadas …


 

30/10/13

Sharron Kraus "Pilgrim Chants & Pastoral Trails"


 
Seguramente um dos artefactos sonoros mais bonitos que o Atalho escutou nos últimos tempos, “Pilgrim Chants & Pastoral Trails” é resultado da estadia de Sharron Kraus no Mid Wales.

No silêncio profundo dos vales e montanhas, no linguajar das aves, no borbotar das cascatas e, sobretudo, na atitude amistosa das gentes ( “I wander in lonelly valleys, feeling like the only person alive, then emerge onto a path and meet a stranger who greets me like an old  friend” ), encontra-se a verdadeira alma do Gales rural que inspirou Sharron Kraus e que a levou até estas composições, projectadas no horizonte da terra que as viu nascer.

A essência da tradição folk foi respeitada, as canções serpenteiam através das lendas que a alma colectiva guarda: segredos sombrios, alegrias pueris, vivências simples.



A instrumentação é escassa e a voz discreta. O resultado é porém eloquente.  Pilgrim Chants”, para além de belo, será talvez o mais sereno dos discos da cantora -  a par de Diana Collier e Nancy Wallace, uma das principais herdeiras da ilustríssima Shirley Collins.

A edição, um cuidado bookcase incluindo um booklet explicativo, é também ela belíssima e absolutamente colecionável.