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14/11/18

Graham Nash "Over The Years"



 ( foto de Michael Putland )

Ao contrário de Neil Young, com quem o Atalho persiste em manter uma relação conflituosa, os seus três sobredotados companheiros de viagem ( Crosby, Stills e Nash ) há muito que foram arrumados na respectiva prateleira dourada da história.

David Crosby, desde que lhe secou a criatividade, vai coleccionando episódios caricatos, uns atrás dos outros. Stephen Stills arrasta-se como pode e são os velhos amigos que lhe estendem  a mão ( Judy Collins por exemplo ). Graham Nash  por seu lado cultiva uma inteligente e sensata discrição. Não foi pois difícil esquecê-lo ainda que, constata-se agora, talvez não tenha sido a mais acertada das opções.

Ainda que inspiradas e por vezes brilhantes, as criações de Crosby ( “If I Could Only Remember My Name” é um disco superlativo ) e Stills soam hoje algo datadas porque escutadas fora do contexto artístico e social que as motivou. Até há pouco, presumimos que algo de semelhante se passaria com as canções de Graham Nash. Nada de mais errado, como a espuma dos dias e a compilação “Over The Years” se encarregam de demonstrar.

Plasmadas em cima da realidade do mundo de hoje, estas canções ( a maioria escrita há mais de 35 anos ) são de uma actualidade incomodativa. Naquele registo a meio caminho entre o  trovadoresco e o pacifista, regressam para inquietar de novo as consciências daqueles que estiverem disponíveis para se inquietarem, de facto.

Revisão da matéria dada? Porventura. Não é todavia possível desvalorizar a inesperada conexão que, depois de décadas, temas como “Immigration Man”, I Used to be a King”, “Military Madness”, “Chicago” ou “Teach Your Children” mantém com a  realidade que hoje observamos, por entre um oceano de sombras e muita incredulidade. Acresce ainda o facto nada despiciendo de muitos deles possuírem um carácter autobiográfico.

Over The Years” são 30 temas. Metade recuperada aos álbuns originais, ainda que aqui e ali experimentando misturas diferentes; os restantes sob a forma de “demos”  inéditos até à data. E não deixa de ser um exercício curioso – diria inspirador -, constatar como a aparente simplicidade destas “demos” conduziu às versões “definitivas”, amiúde preenchidas pelo talento instrumental de gente como Jerry Garcia, Phil Lesh, Dave Mason ou David Lindley.

Sendo primeiramente um testemunho artístico, “Over The Years” acaba  muito justamente por ser algo mais do que isso. 

01/05/18

Neil Young "Roxy, Tonight's The Night Live"



Tonight’s the Night” encerra um extraordinário conjunto de canções.

Escrito e composto em cima dos falecimentos de Danny Whitten e Bruce Berry, sendo por isso frequentemente retratado como um álbum “negro”, 43 anos após a primeira publicação, assume-se a par de “On The Beach”, como um dos discos mais consistentes de Neil Young. Onde “Harvest” era luz, esperança, algum humor  e  ingenuidade quanto baste, “Tonight’s” habita o campo oposto: é sombrio, triste, quase desesperado ... Não obstante, sobreviveu como poucos ao teste do tempo.

A melhor prova do que atrás fica escrito é “Roxy, Tonight’s the Night Live”.

Podia pensar-se - e muitos de nós, os que não estiveram no Roxy nas noites de 20 e 22 de Setembro de 1973 tê-lo-emos seguramente cogitado -, que o formato e personalidade daquelas canções estava traçado; seriam sempre agrestes, angulosas e sombrias. Nada que incomodasse muito, aprendemos a gostar delas assim.

Mas o aparentemente “impossível” aconteceu. As gravações captadas no concerto de West Hollywood naquele princípio de outono trazem-nos “outras” canções. Resgatadas ao estúdio e libertadas em palco, “Tonight’s the Night I e II”, “Albuquerque” ou “Speakin’ out” adquirem uma outra dimensão; menos cinzenta, mais ampla, quase cinematográfica.


Tudo isto, exactamente com os mesmos músicos ( Neil, Ben Keith, Nils Lofgren, Billy Talbot e Ralph Molina ), os mesmos arranjos e praticamente as mesmas deixas trazidas do estúdio. “New Mama” presenteada com um arranjo de maior pendor acústico é talvez a excepção, mas ainda assim uma excepção positiva.

Quando comparado com a edição de estúdio de 1975 ( o álbum ficara retido dois anos, a ponto de “On The Beach” ainda que gravado posteriormente, ter saído no ano anterior ), “Roxy” deixa cair “Borrowed Tune”, “Come on Baby let’s go Downtown” e “Lookout Joe”; em contrapartida acrescenta uma versão “countryficada” de “Walk on” com a pedal steel de Ben Keith a bordejar a mestria de Jerry Garcia no instrumento.

Analisado e ponderado o conjunto, será justo salientar que “Roxy, Tonight’s the Night Live” é tudo menos uma redundância. O esplendor sonoro que transmite ( falamos da versão em vinil ) é algo de “novo” e totalmente inesperado, prova provada que a lendária casmurrice do canadiano no que respeita a edições e, sobretudo, a reedições, acaba por fazer todo o sentido.

Um absoluto deslumbre.

09/07/17

"English Weather"



Qualquer idiota, mesmo o mais imbecil, receberá toda a minha atenção; bastará para tal que mencione “Refugees” dos Van der Graaf Generator.


Desde há muito considero que o tema de Peter Hammill - a par por exemplo de “Laughing” de David Crosby, “Spanish Guitar” de Gene Clark, “Keep a close watch” de Cale, “Revolution Blues” de Neil Young, “Late November” de Denny, “Day is done” de Drake ou “Road to Cairo” de Ackles - , constitui um padrão a partir do qual se mede o bom gosto musical ou a ausência deste.

Assim uma compilação que inclua qualquer uma das misturas de  “Refugees” merece destaque.  English Weather” porém, justifica-o muito para além disso.

Curado pelos Saint Etienne  Bob Stanley e Pete Wiggs, “English Weather” é o chamado “labour of love”. Por outras palavras, não era possível chegar a este resultado caso não se gostasse genuinamente destas músicas

O tema mais antigo ( Caravan ) data de Janeiro de 69 e o mais recente ( Daevid Allen ) de 1976. Entre eles desfilam mais 16 composições do período iluminista da música inglesa. Umas razoavelmente conhecidas no circuito underground, outras nem tanto.

Stanley conta no booklet que um dia, retido numa discoteca devido a uma intempérie, ( daí o título desta colectânea ) escutou pela primeira vez um disco que o cativou de imediato: “Shape of the rain”, o álbum homónimo da banda de Sheffield. Impressionado, o dono da loja deu-lhe a conhecer de seguida Parlour Band, Aadvark e T2. E, como não há amor como o primeiro, estas bandas têm lugar na compilação. Shape of the Rain, ficamos sem saber porquê, não.

Britânicos até à medula, abaixo são descriminados os 18 títulos de uma edição que se reputa de essencial para quem se interessa pela matéria ou para aqueles para fazem do bom gosto uma forma de estar.


Quanto a “Refugees”, a opção aqui incluída, faz a ponte entre as versões do single e do do álbum “The least we can do is wave to each other”; a mistura no entanto retira algum protagonismo ao sax de David Jackson e evidencia as prestações dos instrumentos de sopro e dos arranjos de cordas. Sumptuoso.

- Caravan “Love song with flute”

- The Roger Webb Sound “Moon bird”

- The Parlour Band “Early morning eyes”

- Scotch Mist “Pamela”

- The Orange Bicycle “Last cloud home”

- T2 “JLT”

- Bill Fay “Til the Christ come back”

- Van der Graaf Generator “Refugees”

- Aardvark ”Very nice of you to call”

- John Cale “Big White cloud”

- Belle Gonzalez “Bottles”

- The Way We Live “Watching White Stars”

- Offspring “Windfall”

- Camel “Never let go”

- Daevid Allen “Wise man in your heart”

- Matching Mole “O Caroline”

- Prelude “Edge of the sea”

- Alan Parker and Alan Hawkshaw “Evening Shade”


06/08/16

Kikagaku Moyo "House in the tall grass"



Tradicionalmente um viveiro de bandas underground com janelas para o folk, o psicadélico e a música de vanguarda, o Japão juntou mais um nome à sua já longa lista de obrigatoriedades: Kikagaku Moyo.  Começando pelo fim de “House in the tall grass”, “Cardigan Song” encerra numa atmosfera encantatória e bucólica um álbum que ousa ser diversificado sem que com isso perca coerência e unidade.

Entre o que ficou de Syd Barrett, dos The Ghost, Amon Duul ou até Neil Young, o quinteto de Tóquio elabora uma música que não sendo intrinsecamente nova, desafia. Na exacta medida em que nos leva até paisagens sonoras perdidas no tempo e que se revisitam com prazer. No fundo trata-se de um elegante jogo de sedução que simultaneamente estimula e absorve.

“Green Sugar” é puro krautrock, com aquela guitarra no final a apelar ao inesquecível “Yeti” dos Duul. “Kogarashi” oscila entre o pastoral folk e o “motorik” com a cítara a ter a última palavra. Este instrumento é de resto estrutural na construção da sonoridade Kikagaku Moyo, como se pode conferir no longo raga psicadélico “Silver Owl”, de onde só é desalojado pela guitarra mutante que conduz o tema até ao seu epílogo. “Trad” é mais um prolongado olhar paisagístico sobre o kraut, preparando o caminho para a filigrana  que ornamenta “Cardigan Song”. Um final absolutamente perfeito para um disco singular.

18/07/16

Matt Valentine "Blazing Grace"




Matt Valentine parece ter uma espécie de devoção perene por Neil Young. Um facto que por si só nada tem de negativo, pelo contrário. Desde que se atenha ao Young que mais importa, porque há vários,  como facilmente se percebe num artista com quase 50 anos de carreira.

Em “Blazing Grace” o novo disco a solo de Valentine, alguns dos temas remetem-nos para a chamada “trilogia doom” do autor canadiano. O lado A, acústico e mais atmosférico, com “Shine a light” e “Blasted in the Haze” em destaque, clama por “Ambulance” e “Revolution Blues” de “On the Beach”. “Slang yr life” e “Merge” enfeitadas  pela guitarra de Pat Gubler ( P.G. Six ) e sobretudo “River Run”, hesitam entre a concisão sombria de “Tonight’s the Night” e a desbunda semi-anárquica de “Time fades away”.

Tudo isto poderá não parecer óbvio nas audições iniciais, mas está lá tudo, ainda que camuflado pela utilização de alguma electrónica. Erika Elder, Meg Baird e J. Mascis também ajudam a fazer de “Blazing Grace” um álbum muito interessante, embora fundamental seja uma outra coisa.

10/11/15

Elyse Weinberg "Greasepaint Smile"




Canadiana de Toronto, Elyse Weinberg, tal como muitos músicos seus compatriotas, emigrou no final dos 60s para Laurel Canyon. Frequentou o circulo de Neil Young e Cass Elliott, ganhou notoriedade e em 1969, aos 23 anos, publicou um promissor álbum de estreia. 

Aclamado, “Elyse” entusiasmou a editora ( Tetragrammaton Records ) que levaria Weinberg de novo para estúdio, desta vez acompanhada de Neil Young e de Nils Lofgren, um talento acabado de sair da puberdade. Produzido por David Briggs o álbum foi concluído, teve um número de catálogo atribuído e uma foto para a capa; não seria no entanto publicado porque a editora  faliu entretanto.

Mais de quatro décadas volvidas “Greasepaint Smile” conhece finalmente a divulgação que merecia. Trata-se naturalmente de um disco de época, sendo pois necessário enquadrá-lo no ambiente que se vivia em Los Angeles e em particular nas colinas de Laurel Canyon.

A este respeito, o tema “City of Angels” é exemplar, retratando a forma como Elyse olhava à sua volta, em particular para a tribo de songwriters seus pares. “What you call it” e “Houses” ( este acolhendo a intervenção da famosa Gibson les Paul de Neil Young ) são tão luminosos quanto se pode imaginar, enquanto “Collection Bureau” e a canção que dá o título ao disco, fazem emergir a guitarra do prodígio Nils Lofgren.

Resumindo, um excelente exercício de hippie-folk-rock onde a vertente psicadélica nunca está longe, como de resto seria expectável. Por fim uma outra boa noticia: em 1971 Weinberg completou um outro álbum. Na altura a Asylum optou por não o publicar. Haja fé portanto …

16/09/15

Country Playground "Turdus Merula"


Uma agradável surpresa, “Turdus Merula”, o primeiro registo conhecido dos Country Playground.

Nos sete temas que o integram, Rodrigo Cavalheiro e Fernando Silva, um duo de Leiria, fazem do riff a sua língua materna ( eloquente “Grandpa’s Grave” ) e partem em direcção ao  “desert rock”.

As silhuetas que lhes servem de guia parecem-se com Townes Van Zandt, Johnny Cash, Waylon Jennings ou Steve Earl. Pelo caminho, enquanto ensaiam “Song for Neil”, cruzam-se com o que resta do espólio de “Cortez, The killer”.  

Mas o deserto, sabemo-lo todos, é percorrido por almas peregrinas que caminham ao sabor das estrelas, habitualmente sem norte. Sand Rubies, Gila Bend, Sidewinders ou os menosprezados Luminarios de Rich Hopkins, intencionalmente ou não, acabam por ser os mais fiéis companheiros de Country Playground  na abrasiva viagem que é “Turdus Merula”.

Para escutar em quinta ou sexta velocidades, de vidros em baixo e brisa no rosto, enquanto uma Budweiser bem gelada aguarda na paragem mais próxima; que pode muito bem ser “Down to Mexico”.

13/11/14

Jardins do Paraíso ( XXXIX)


Algures em 1973, Gabriola Island, costa oeste do Canadá. Huckle, então com vinte anos, escreveu as canções que viriam a fazer parte de “Upon a once time”. As gravações aconteceram ao acaso, aproveitando as datas locais da tournée do colectivo hippie Perth County Conspiracy.
Mais improvisadas que planeadas, parte delas ao vivo, as sessões produziram onze canções, material suficiente para a edição de um álbum. Mas apesar da valia dos temas, o contrato nunca surgiu e opção foi, como em muitos casos semelhantes, a edição privada, artesanal e limitada.
Em 1974, 300 exemplares de “Upon a once time” foram prensados mas, sem promoção ou air play, a edição ficou fora do alcance dos radares. Uma lástima, tendo em conta o valor intrínseco das canções. Os temas são naturalmente resultado do pensamento e modo de vida alternativo da época, mas estão muito para além dos horizontes da mediania, desafiam as fronteiras musicais dos 70s ( conferir “Get down”, “Hello sunshine” ou “Ocean” ) ainda que Perth County ou Neil Young surjam como inspirações óbvias.
Recém descoberto, com alguns dos artefactos originais a serem transacionados por valores insanos, e mercê desta cuidada reedição, o  folk cósmico/acústico de Huckle pode finalmente ser escutado com a atenção que já merecia em 1974.

29/09/14

Neil Young


"Neil Young, The Ultimate Guide to his Music & Legend" ( Rolling Stone )

De 1970 a 2014, recuperação de entrevistas históricas e ensaios publicados na Rolling Stone. A partir do imaginário e da pena de Cameron Crowe, David Fricke, Elliot Blinder, Alan Light e James Henke, é toda uma longa vida de talento, contradições e obsessões que nos é contada, e bem, uma vez mais.

E está lá o mito e estão lá também as inevitáveis 100 melhores canções ( com "Powderfinger" à cabeça ), bem como os 15 bootlegs que todos os fãs deveriam escutar.

E ao lado destes 50 anos de lenda, quase tudo o resto parece insignificante ...

04/02/14

Artefactos ( 37 )


É no mínimo incompreensível o desconforto de Neil Young para com "Time fades away" ( julgo mesmo que é o único dos seus álbuns que nunca foi reeditado ). Não sendo perfeito, é equilibrado q.b. e o facto de ter sido gravado ao vivo não compromete.

Ao contrário, podia aqui dar exemplos de discos de Young que talvez nunca devessem ter sido editados. E não se trata de uma opinião, antes de matéria de facto. Mas a coerência nunca foi uma das qualidades do canadiano.

Em 1973, quando "Time fades away" foi publicado no Reino Unido, a Reprise avançou com um "one side promo sampler" que incluía extractos de "Don't be denied", "Love in mind" e "Last dance". Nada de absolutamente essencial para quem possui o álbum, mas ainda assim uma curiosidade à atenção dos coleccionadores.

 

05/12/13

Neil Young

 
A leitura é vasta, exigente e algo desequilibrada - tal como a carreira de Young -, mas, no final, poucas pedras deverão ter ficado por virar. Coleccionável, seguramente. E próximo do obrigatório.

04/10/13

Killers, Angels, Refugees ( 30 )


"Campaigner" ( Neil Young )

I am a lonely visitor
I came to late to cause a stir
Though I campaigned all my life
Towards that goal.
I hardly slept the night you wept
Our secret's safe and still well kept
Where even Richard Nixon has got soul
Even Richard Nixon has got soul.

The podium rocks in the crowded waves
The speaker talks of the beautiful saves
That went down long before
He played this role
For the hotel queens and themagazines
Test tube genes and slot machines
Where even Richard Nixon has got soul
Even Richard Nixon has got it,
Soul

Hospitals have made him cry
But there's always a free way in his eye
Though his beach just got
Too crowded for his stroll
Roads stretch out like healthy veins
And wild gift horses strain the reins
Where even Richard Nixon has got soul
Even Richard Nixon has got soul

I am a lonely visitor
I came to late to cause a stir
Though I campaigned all my life
Towards that goal.


Uma das canções mais "secretas" de Neil Young, "Campaigner" foi escrita em 1976 no decorrer do "Stills Young Band Tour".
Foi publicada originalmente na compilação "Decade" ( 1977 ) e, ao contrário do que possa parecer está longe de constituir um anacronismo.

02/04/13

Arbouretum "Coming out of the fog"


 
Depois de um álbum desiquilibrado, “The Gathering”,    que esteve longe de impressionar e de “Aureola”, uma  interessante colaboração com  Hush Arbors, os Arbouretum  regressam à matriz que os tornou populares por aqui: a linguagem Americana polvilhada pela tradição e o lado abrasivo retirado ao rock and roll dos bares anónimos e indiferenciados.
Ao contrário das bandas exclusivamente revivalistas em actividade o quarteto de Dave Heumann acrescenta valor às raízes musicais da América profunda “Coming out of the fog poderá muito bem ser o seu melhor registo desde “Rites of uncovering”.

 As canções impressionam. Concisas e convictas, mergulham no interior anónimo, acrescentam lirismo onde antes só o deserto parecia importar e são tudo menos vulgares. Tal como um bom vinho, precisam de algum tempo para respirar e degustar. Após isso, revestem um porte simultaneamente novo e antigo, tornam-se quase indispensáveis.
Tudo menos vulgares, transportam-nos para lugares mágicos outrora habitados por Neil Young uns, outros onde é possível cruzar-nos com Rich Hopkins ou Will Oldham.  E nunca a guitarra e as canções de Dave Heumann se confundiram tanto com o sol do deserto.  

07/11/12

Rock & Folk


 
Não, a Rock & Folk não surge no Atalho a propósito de Neil Young, muito embora o inegável interesse que as 10 páginas dedicadas à sua autobiografia possa despertar.
 
A chamada de atenção é feita, apenas e só, porque no número 543 do magazine francês, está publicado um texto de Philippe Thieyre sobre os Can, a propósito da recente edição das "The Lost Tapes".
 
Mesclado com extractos de uma entrevista feita a Irmin Schmidt, o artigo, inteligente e esclarecedor, é um dos mais felizes textos de que me recordo acerca da banda de Colónia. E merece ser lido ...

11/06/12

Patti Smith "Banga"


É oficial !!! O Atalho está obcecado com “Banga”.
Desde há uma semana,  a mais recente produção de Patti Smith não para de rodar, em modo “repeat”. E não se prevê nenhum  timing para retorno à normalidade.

Há duas formas de abordar “Banga”. Agarrá-lo pelos cornos, ou seja pela música, ou começar por ler o delicioso booklet explicativo que acompanha o CD e que a própria Patti (d)escreveu com um detalhe e minúcia impares.

Comecei pela música, como aliás faço sempre. Fiquei agarrado. Mas rapidamente percebi que estas canções fabulosas, épicas, contemporâneas, e no entanto repletas de história e referências a culturas ancestrais, necessitavam de ser compreendidas na sua plenitude. E só a autora o podia ajudar a fazer .

Ao ler o booklet percebe-se que cada um destes opus ( e é disso que se trata, pois este é o melhor Patti Smith desde há muitos anos ) tem por trás, para além da vertente sensitiva, um trabalho de pesquisa que nalguns casos tem anos.

 E paradoxo dos paradoxos, algumas destas canções ( “Seneca” por exemplo ) ganharam vida a bordo do “Costa Concórdia” o transatlântico que recentemente naufragou na costa de Itália. “Fuji-San” nasceu no rescaldo da tragédia do recente terramoto no Japão, “This is the girl” ( um tema que a própria Smith afirma que gostaria nunca ter escrito ) foi inspirado no desaparecimento de Amy Whinehouse, “Maria”  resulta  da reflexão  de Patti quando confrontada com o anúncio da morte da actriz Maria Schneider …

Mas nem todos os temas têm uma correlação com factos históricos de conotação negativa. “Nine” nasceu em  Porto Rico ao lado de Johnny Depp quando das filmagens de “The Rum diary”. “Constantine’s dream” ganhou vida a partir da obsessão  peregrina de Patti e do guitarrista Lenny Kaye, em busca do local onde se encontraria uma pintura original de Piero della Francesca . Finalmente  descoberta  por acaso nas paredes de uma igreja em Arezzo, no final de uma tournée em Itália….

Banga” são 12 canções de uma extraordinária riqueza. Feito de paixão, dor, alegria, história, poesia muita poesia, trata-se de uma obra que para ser devidamente compreendida e assimilada necessita de ser escutada no recato do silêncio. 

Só assim será possível perceber as nuances que a escrita de Patti lhe confere. Só assim é possível interiorizar  o lirismo que os instrumentistas lhe emprestaram sempre que tal lhes foi pedido -  Tom Verlaine tem aqui duas intervenções à sua altura (“April Foll” e “Nine”) , Lenny Kaye para além de também compor, continua a ser a coluna vertebral de uma banda que conta com os fiéis Jay Dee Daugherty e Tony Shanahan. “Acessórios” são ainda Johnny Depp (na guitarra acústica), os filhos Jesse e Jackson Smith, este com um solo de guitarra antológico em “Maria”, a primeira responsável pelo piano na versão de “After the Gold Rush”; um momento de rara magia, não apenas pela escolha da canção – já em si significativa -, mas também pelo coro infantil que a envolve e que transmite ao tema uma atmosfera de esperança e optimismo que o original de Neil Young talvez não tenha conseguido à época.

Haveria certamente outras formas mais pragmáticas de abordar “Banga”. É até bastante provável que o tempo e a distância me levassem a escrever algo diferente, embora, creio, nada de muito substancialmente diferente do que aqui fica. Porém hoje, 11.6.2012, é assim que o sinto e é assim que vai ficar. Um trabalho enorme.

25/03/12

Lost Nuggets ( 45 )


Neil Young "Time fades away" ( Reprise Records MS 2151 ) 1973 USA

- "Time fades away"
- "Journey thru the past"
- "Yonder stands the sinner"
- "L.A."
- "Love in mind"
- "Don't be denied"
- "The bridge"
- "Last dance"

Neil Young ( cancões, voz, harmónica e guitarras ), com Tim Drummond ( baixo ), Johnny Barbata ( bateria ), Jack Nitzsche ( voz e piano ), Ben Keith ( guitarra slide ), David Crosby & Graham Nash ( guitarra e vozes )

Produção de Elliot Mazer e Neil Young.

Inclui poster gigante com letras e detalhes das gravações.

Capa: direcção artística de Gary Burden; Fotos de Joel Bernstein

14/11/10

Killers, Angels, Refugees ( 20 )


"Revolution Blues" ( Neil Young )

Well, we live in a trailer at the edge of town
You never see us 'cause we don't come around.
We got twenty five rifles just to keep the population down.
But we need you now, and that's why I'm hangin' 'round.
So you be good to me and I'll be good to you,
And in this land of conditions I'm not above suspicion
I won't attack you, but I won't back you.

Well, it's so good to be here, asleep on your lawn.
Remember your guard dog? Well, I'm afraid that he's gone.
It was such a drag to hear him whining all night long.
Yes, that was me with the doves, setting them free near the factory
Where you built your computer, love.
I hope you get the connection, 'cause I can't take the rejection
I won't deceive you, I just don't believe you.

Well, I'm a barrel of laughs, with my carbine on
I keep 'em hoppin', till my ammunition's gone.
But I'm still not happy, I feel like there's something wrong.
I got the revolution blues, I see bloody fountains,
And ten million dune buggies comin' down the mountains.
Well, I hear that Laurel Canyon is full of famous stars,
But I hate them worse than lepers and I'll kill them in their cars.



Hoje, durante a minha caminhada matinal, regressei a "Revolution Blues". Um facto recorrente desde que "On the Beach" foi publicado em 1974.

Não obstante, descubro sempre algo de novo, como se escutasse o tema pela primeira vez. E nunca me cansarei da guitarra ritmo de David Crosby, tal como é impossível alguém ficar indiferente perante uma das mais extraordinárias performances de um baixo eléctrico em estúdio; cortesia de um tal Rick Danko.

24/10/09

Killers, Angels, Refugees ( 3 )


"War Song" ( Neil Young )

In the morning when you wake up
You've got planes flying in the sky
Flying bombs made to
Break up other lies in your eye

There's a man who says he can
put an end to war

They shot George Wallace down
He'll never walk around

Mines are sleeping in the sea
Blow those bridges down
Burn that jungle down and kill those Vietnamese.

There's a man who says he can
put an end to war.

In the morning when you wake up
You've got planes flying in the sky
Flying bombs made to
Break up other lies in your eye.


( capa da edição portuguesa de "War Song" )

"War song", um tema construído em cima de um dos riffs mais "primários" de Neil Young, foi publicado em single a 5 de Junho de 1972. Tinha como objectivo apoiar a campanha de George McGovern, o homem que os democratas escolheram para tentar retirar Nixon da Casa Branca. O objectivo não foi conseguido mas a canção, uma das menos conhecidas do autor, nunca teve tempo para envelhecer.

12/12/08

Neil Young "Sugar Mountain, Live at Canterbury House 1968"



Retirado do enorme baú que é a carreira de Neil Young e não estando previsto integrar o projecto editorial dos “Arquivos”, “Sugar Mountain, Live at Canterbury House 1968”, acaba de ser resgatado aos “bootlegs” e conhece finalmente uma edição legal.

Cronológicamente as fitas que perpetuaram este concerto, situam-se entre o fim dos Buffalo Springfield, no verão de 68, e a publicação de “Neil Young” no Natal desse mesmo ano. Os concertos acústicos que o canadiano protagonizou serviram para testar a reacção do público face às canções que iriam integrar o primeiro álbum solo. E, a avaliar pelo que nos é possível escutar em “Sugar Mountain”, o teste só pode ter sido um sucesso.

Neil Young é um artista multifacetado, caprichoso, imprevisível e frequentemente incoerente. Mas é exactamente quando se apresenta rigorosamente a solo ( acompanhado pela guitarra acústica e/ou piano ) que atinge o cume da “sua” autenticidade. Por outras palavras: existem vários “Neil Young”, uns muito bons outros um pouco menos, porém é quando surge mais “desprotegido”, sem as guitarras em “feedback” e longe das cavalgadas apocalípticas Crazy Horse ou outros jogos de espelhos sonoros de inspiração “country” que Neil nos deixa perceber a verdadeira dimensão do seu talento. Como aqui.



Sugar Mountain” acolhe em inspiradas versões lo-fi as grandes contribuições do músico para os Springfield (“Mr. Soul”, “Expecting to fly”, “Broken arrow”, “Out of my mind”, “On the way home”) e adiciona-lhe “The loner”, “I’ve been waiting for you”, “The old laughing lady”, “If I could have her tonight” todas incluídas no disco de estreia, “Birds” (que surgiria em “After the goldrush”) e “Sugar Mountain”, esta só publicada em álbum através da compilação “Decade”.

O curioso e hoje talvez motivo de surpresa para muitos, reside no facto de ao escutarmos estas canções, interpretadas de forma simples e despojada ( sem os arranjos de matriz barroca que de alguma forma ajudaram um pouco a datar o álbum “Neil Young”), nos ser sugerida uma espécie de paragem no tempo. Afinal, não terão passado 40 anos. Paradoxalmente ou talvez não, os temas que Young abordou nestas canções são hoje, individual e colectivamente, tão importantes como o eram em 1968.

Porventura a melhor prova da sua extraordinária dimensão.



*** Nota a propósito da anunciada edição do 1º Volume dos “Arquivos”***


Mesmo para os apoiantes da primeira hora como eu, começa a faltar a paciência para o comportamento errático manifestado por Neil Young a propósito da publicação dos seus famosos "Arquivos".

Anunciada há mais de 10 anos, a edição já teve apontadas meia dúzia de datas. Todas alteradas porque o velho Neil não estava satisfeito com determinado pormenor ou simplesmente aguardava a última novidade tecnológica para suportar fisicamente a edição.

Agora, ao que parece, decidiu-se pelo DVD e pelo Blue-Ray e a data avançada para o lançamento é o final de Janeiro 2009. Só que os preços previstos ( nomeadamente pela Amazon e já contemplando o desconto promocional ), 310 dólares para a versão DVD e 324 dólares para o Blue- Ray, são no mínimo especulativos, para não lhes chamar obscenos. Como o primeiro volume dos “Arquivos” terá 10 discos, estamos a falar de uma média de 31 dólares cada, o dobro do que é normal e expectável. Um livro e uns quantos posters não justificam este desvario, sobretudo quando ao cabo e ao resto o que interessa aos fãs é basicamente a música.





Mais, de acordo com relatos oficiais, a caixa incluirá também “Live at Massey Hall 1971” e “Live at Fillmore East 1970” ambos recentemente publicados. E aqui uma de duas, ou Young não os integrava nos “Arquivos” ou, se o queria fazer, não os tinha lançado antes. Querer simultaneamente sol na eira e chuva no nabal é algo que um artista com o passado e a idade de Neil devia saber que não fica bem.

Com tanto tempo dedicado à preparação da edição dos “Arquivos” o músico deveria ter pensado numa solução que do ponto de vista do custo fosse menos ofensiva para todos aqueles que lhe apoiaram a carreira durante 4 décadas.

Dito isto, o Atalho não voltará a abordar o tema dos “Arquivos”.

Ps: enquanto ultimava estas linhas soube que, fruto das abundantes críticas ou simplesmente porque mudou de novo de opinião, o homem voltou a usar a barriga e empurrou a data de lançamento dos “Arquivos” para Abril / Maio 2009. Mais do mesmo portanto.