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31/07/17

Heroes are hard to find ( 41 )



Sam Shepard
( 1943 - 2017 )

10/02/16

John Cale "Music for a new society / M:Fans"




Reconhecendo embora o enorme talento de Lou Reed, devo confessar que “o meu Velvet” foi e será sempre John Cale. Uma opinião evidentemente. Mas, do que se trata aqui  é realmente saber se falamos de talento ou se falamos de génio. E não, não é uma mera  questão semântica, existe de facto uma diferença entre o talento e o génio. O primeiro é constante, previsível; o segundo é absolutamente o oposto de ambos.

Comprei a minha cópia original de “Music for a new society” numa FNAC de Paris, em 1982. Produziu em mim o mesmo efeito hipnótico que os glaciares “Marble Index” e “Desert Shore ( coincidência, ambos produzidos por Cale ); uma espécie de mimetismo que se prolongava muito para além do tempo que duravam as canções/elegias que os integravam. Como todas as obras maiores “Music for a new society” não deixa ninguém indiferente. É o caso típico do clássico que, ou se ama, ou se detesta.

Há um par de anos, levei a capa do meu original a um “backstage” para que, entre o encantado e o surpreendido, o “big man himself” a autografasse.  Desde então não mais escutei o disco. Regressei agora, a propósito da reedição remasterizada do álbum original, acompanhada de “M:Fans” a transformação/recriação dos temas e a forma como Cale os olha hoje, 35 anos depois de terem sido escritos e gravados pela primeira vez.

Produzido num período complicado da vida do autor, “Music for a new society” é um disco denso e perturbador. A  frase “It’s a loving world to die in”, a encerrar essa extraordinária peça que é “Sanctus” e a ironia do cinzento “Damn life” incorporar notas da “Ode of Joy” de Beethoven, quase poderiam resumir toda a atmosfera do álbum.  Algures em 1983 Cale confidenciou numa entrevista que optou pelo título porque “The record is so dark, you’ve got to have something optimistic”.  


Distante, quer  de registos mais “amigáveis” como  Paris 1919” ou “Caribbean Sunset  ( aqui a maior proximidade reside no melódico “Close watch”  recuperado de “Helen of Troy” ) quer de brutais incinerações como “Honi Soit” ou “Sabotage”, “Music for a new society” está repleto de melodias envergonhadas que as colagens e os “overdubs” tornam quase imperceptíveis.

Inesgotável, este é um daqueles discos cuja audição nunca se pode afirmar completa. A cada nova investida existe sempre um detalhe, uma nesga de criatividade, que se descobre e   surpreende.  Tal como algumas das muitas curiosidades que encerra: a guitarra de Alan Lanier ( Blue Oyster Cult  ) em “Changes made”; a adaptação de “If you were still around”,  um poema publicado por Sam Shepard em “Motel Chronicles”, ou a colaboaração de John Wonderling,  muito provavelmente o autor do raríssimo “Daybreaks” ( 1973 ), um disco em cujo tema de abertura - “Long way home” - , são feitas elogiosas referências a Lisboa e ao Estoril.

Music for a new society” não é um disco para todas as horas nem para todos os dias. Antes um disco para sempre, porque na vida existirão sempre aqueles momentos de estranha cumplicidade, os quais nos conduzirão de novo até ele.

Nota: “M:Fans”, embora partindo das mesmas canções, é outra coisa muito diferente. Quem sabe, talvez um dia me sinta suficientemente confortável para sobre ele dissertar.

07/03/11

Bardo Pond "Bardo Pond"



Discos como este são a razão da existência do Atalho.

Os Bardo Pond andam por aí há quase duas décadas. Não tenho no entanto memória de os ter ouvido na rádio e muito menos sobre eles ter lido na imprensa escrita mainstream algo com dimensão significativa. Pese embora resistem. E ainda bem.

Procurem escutar “Don’t know about you” e depois, como pessoas inteligente e de bom gosto ( caso contrário já não estariam a ler este texto ) avaliem quão ridículo e inútil pode ser o tempo gasto a dar atenção aos “produtos” que os marketeiros de serviço nos procuram impingir ( atentíssimos, já começaram a destilar excitação com os anúncios dos novos Strokes e Radiohead …. ).

Mas vamos ao que realmente interessa. “Bardo Pond”, o álbum, é um monumento. Simultaneamente simples e sofisticado, como só a banda de Isobel Sollenberger sabe ser, principia com “Just once” uma espécie de “campfire song” inspirada na figura de Sam Shepard. A canção nasce no alpendre mas à medida que as guitarras se vão ligando à corrente eléctrica, transfere-se para a garagem. Logo a seguir, o referido “Don’t know about you” alapa-se ao nosso córtex de modo irreversível, tornando redundante grande parte do que MONO, Earth ou Grails haviam conseguido nessa matéria. Vai ser necessário andar com uma candeia acesa para no psicadelismo contemporâneo voltar a encontrar duas guitarras tão demolidoras. Um clássico.


Em “Sleeping” o colectivo de Filadélfia assume a faceta argonauta e parte em direcção ao planeta psicadélico outrora habitado pela tribo Airplane. “Undone” é por sua vez uma enorme palco onde evoluem sublimes guitarras atonais que a vocalização espartana de Sollenberger luta para manter contidas. É bem sucedida até cerca dos 10 minutos; aí a bateria não resiste à tensão acumulada e, ao explodir, propicia a libertação de largas camadas de fuzz e feedback , elementos responsáveis pelo desencadear da tempestade de meteoritos incandescentes que se vai seguir. A terminar, “Wayne’s Tune” é o regresso ao alpendre e à atmosfera melancólica, uma tela colorida em tons sépia pela flauta de Isobel Sollenberger.

Bardo Pond” foi publicado nos últimos dias de 2010 pelo que muito provavelmente só será contabilizado em 2011. Curioso, vou ficar a aguardar as famigeradas listas dos “melhores do ano”…

16/12/10

Killers, Angels, Refugees ( 21 )


"Risé, Sam and Rimsky Korsakov" ( John Cale / Sam Shepard )

I knew a guitar player once, who called the radio friendly
He felt a kinship, not with the music so much as with the radio's voice,
It's synthetic quality,
It's voices distinct from the voices coming through it.
Its ability to transmit the illusion of people at a great distance.

He slept with the radio,
He talked to the radio.
He disagreed with the radio.
He believed in four way radio land.
He believed he would never find this land.

So, he reconciled himself to listening to it only.
He believed he had been banned from the radio land,
And was doomed to vault the airwaves forever
Seeking some magical channel
That would reinstate him to his long lost heritage.



Uma absoluta obra-prima, "Music for a new society" ( Ze RecordsILPS 7019 ), é "O" álbum maldito de John Cale. E o mais secreto também ( foi objecto de uma fugaz reedição em cd há um par de anos e encontra-se desde então fora de catálogo).

O texto de "Risé, Sam and Rimsky Korsakov" é vulgarmente atribuído a Sam Shepard, embora o Atalho não tenha localizado provas inequívocas do facto.

Explicando melhor:

1 ) relativamente a este tema, o meu vinil original inglês não menciona Sam Shepard. No entanto atribui a co-autoria de "If you were still around" ao actor e dramaturgo americano.

2) à data da publicação, as críticas ao álbum, quer no New Musical Express quer no Melody Maker ( esta reproduzida abaixo ), também não faziam qualquer referência ao tema.

3) o sítio oficial de Sam Shepard é omisso quanto ao assunto.

4) para além do MySpace, John Cale não tem página oficial na net.

Não obstante, porque o álbum e o tema o merecem amplamente, aqui fica a referência.