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13/01/14

Asteroid # 4 "The Asteroid nº 4"



Cósmica. Será talvez a melhor forma de definir a música dos Asteroid # 4. Posicionada algures entre os Rain Parade e Spacemen 3, com um ouvido em Popol Vuh e outro nos Grip Weeds, a matriz sonora da banda californiana adiciona à estrutura melódica uma  componente lisérgica e “The Asteroid nº 4 opta por não questionar aquela realidade.

Depois de em 2012, com “The Journey”, ter ensaiado uma insuspeita colaboração com Peter Daltrey - força criativa dos Kaleidoscope  (UK)-, o colectivo de Los Angeles fecha 2013 com uma edição de antologia. “The Asteroid nº 4” tem tudo o que fez de “These Flowers of ours” um dos mais fascinantes registos da década transacta, acrescentando-lhe a sabedoria entretanto acumulada.

Atente-se na hipnótica melancolia  de “The Windmill of the Autumn Sky”. Para além da beleza esfusiante do tema, comprova que as linguagens  musicais não cabem em espartilhos e que Rain Parade é compatível com Opal, Kaleidoscope ou Quarter After.

E se mais exemplos são necessários, então escute-se  “Monte Meru” ou “Ode to Cosmo” para constatar como “Lord Krishna von Goloka” ( 1974 ) de Sergius Golowin,  permanece um dos discos mais marcantes que a “kosmische musik” produziu.

 Persistentes e contagiantes os Asteroid nº 4 sugerem uma nova  “journey to the center of our mind”.

12/05/13

Deutsche Elektronische Musik 2


 
Cerca de três anos depois, segundo volume da compilação Deutsche Elektronische Musik.  O período de recolha é basicamente o mesmo, 1971-1983 ( e não podia ser de outra forma ).
Alguns nomes repetem – Can, Gila, Amon Duul, Popol Vuh, Conrad Schnitzler, Neu, Faust -, outros surgem aqui pela primeira vez – Agitation Free, Broselmaschine, Sergius  Golowin, Roedelius, Electric Sandwich – e, tal como no Volume I, a história não fica completa.

Mas, salvo outra opinião, também não é para isso que as compilações existem. Antes sim para chamar a atenção para algo que deve a seguir ser procurado e estudado com o devido rigor.
E, essa função, “Deutsche Elektronische Musik I e II” cumprem com acerto.

16/04/13

Flowers Must Die "S/t"


 
Chamam-se Flowers Must Die ( um título retirado aos Ash Ra Tempel de “Schwingungen” , 1972 ) chegam da Suécia, gravam quando têm material que o justifique e publicam cuidadas edições limitadas em formato vinil.
Flowers Must die é o terceiro registo do quinteto de Malmo e foi gravado algures entre 2008 e 2012. Um duplo álbum onde o som e a matriz space-kraut-jam-fuzz-rock são instrumentais para atingir o resultado final.

O lado A, incluindo o metronómico “Jamfota” e a space jam “Ennio”, funciona como uma espécie de aquecimento dos motores para o que vem a seguir. Já em alta rotação, o lado B, através dos abrasivos “Spindlarnas Trad” e “Koket Brinner”, tanto sugere o presente californiano de Residual Echoes como o passado nipónico  de Flower Travelling Band ou Speed Glue & Shinki. “Okenvandring” faz ou deverá fazer as delicias dos kraut fãs. Soa germânico até às entranhas, espraia-se por memórias várias, terrenos monolíticos e levita em torno das inesgotáveis guitarras de Jonas Hoglund e Sven Walan. Qualquer coisa enorme, inusitada e absolutamente incontornável.
Depois disto, o lado D teria sempre vida difícil, mas bate-se com galhardia, com um “Blagylta”, que parte de Hamburgo e aterra em São Francisco com passagem por Rabat, e um “Mot and Ra Vaggen” que coloca de novo os Hawkwind no olho do furacão, local de onde parece nunca terem saído.

E a edição foi apenas de 500 exemplares …

23/02/13

Mugstar "Axis"


E no entanto ela move-se”, afirmou Galileu acerca do movimento de translação da Terra, defendendo a sua teoria heliocêntrica, apesar da oposição da ortodoxia católica e perseguição da Inquisição.

Exageros comparativos excluídos, acerca dos Mugstar, apetece-me dizer: “E no entanto eles existem”, apesar da indiferença quase total dos órgãos de divulgação mainstream e promotores de concertos, alternativos inclusos. Através de “Axis”, a banda de Liverpool  terá atingido a maioridade na vertente criativa e o zénite no campo interpretativo. A fórmula mantém-se inalterável -  doom-psych-space-acid-kraut-rock – numa paleta caleidoscópica capaz de fazer inveja a veteranos como Dave Brock ou Nik Turner.  A sonoridade metronómica herdada dos Neu, quase sempre aliada à narrativa guerrilheira resgatada aos Hawkwind, constitui o ADN Mugstar. Ama-se ou detesta-se, ponto.

Depois das experiências “outer limits” que revestiram a banda sonora “Ad Marginem”, “Axis” regressa ao paradigma Mugstar, puro e duro. E está mais próximo do homónimo cd estreia ou de “Sun, Broken”, que de “Lime”, o qual procurou o seu espaço junto do krautrock.

Com três temas arrasadores a abrir – “Black Fountain”, “Hollow Ox” e “Tangerina”, -  Axis” não faz prisioneiros. Encanta tanto quanto hipnotiza. Provoca uma incontrolável vontade de regressar às memórias seminais de “Space Ritual” ou “Vincerus Eruptum”. A abrir o lado B, para quem optar pelo versão em vinil, “Axis Modulator”, alicerçado numa secção rítmica tonitruante e ferozmente tribal é uma peça demolidora, um patamar de barbaridade sonora que bandas como Black Keys, Psychic Ills ou Ty Segall nunca lograrão atingir. Soberbo.

28/11/12

Mugstar "Ad Marginem" OST


Ad Marginem” constitui a banda sonora de um projecto assinado a meias por duas raising stars do actual underground de Liverpool : Liam Yates, membro dos Black Magician (filme) e Mugstar (música).
A par dos Dead Sea Apes, os Mugstar são uma dos mais interessantes e promissoras propostas instrumentais a emergir em Inglaterra nos últimos anos.  Esteticamente, os psiconautas de Liverpool tenderão a ser colocados próximos do paradigma Hawkwind, ainda que qualquer um dos seus 3 CDs deixe em aberto muitas outras pistas; desde logo as que conduzem ao doom, ao drone e, mais vincadamente, ao krautrock.

Ad Marginem” mantém-se dentro das baias atrás referidas, porém aproveita o facto de se tratar de um projecto experimental para ir mais longe. Até onde? Bom, para além da sonoridade habitual, o quarteto  perscruta os caminhos da “kosmische musik”, percorre espaços abertos por “Live at Pompeii” e retorna às paisagens pungentes dos Slint. Tudo, sem abdicar da sua personalidade musical, patente por exemplo na emergência das guitarras propulsivas do histriónico “Death Hunter”, desde já um clássico.
Envolvente e algo lisérgico, “Ad Marginem” é absolutamente aditivo. Depois de o escutar, dei por mim a cogitar sobre as bandas sonoras  de “More” e “Obscured by clouds

15/11/12

Martin Eden "Dedicate Function"


Depois de Eluvium, Martin Eden é o novo pseudónimo de Matthew Robert Cooper. A separação de identidades faz todo o sentido pois, enquanto o primeiro se expressa numa linguagem neo-clássica, aqui e ali matizada pelo minimalismo e pela vertente cósmica, Martin Eden projectou debruçar-se apenas sobre a música electrónica.
Depois da estreia através do single “Worker”, Martin Eden acaba de publicar o cd “Dedicate Function com selo da Lefse. E confirma tudo aquilo que dele se esperava. Trata-se de um projecto absolutamente dedicado à escola electrónica, com tudo o que de bom e menos bom, tal escolha implica.

E quer se goste ou não, é mais do que evidente que a vertente mais planante e menos interessante do krautrock ( leia-se Klaus Schulze ou Tangerine Dream pós 1972 ) está em vias de ser recuperada tal como têm acontecido com outros sub-géneros dos 70s. Aqueles menos familiarizados com a história poderão sentir-se tentados pelos contornos pós-modernos da coisa, os outros (onde o Atalho se inclui) não poderão deixar de esboçar um sorriso e encolher os ombros.

A abrir, o curto “Vlad” ilude, na vã esperança de que as espirais electrónicas se desloquem até às fronteiras da “kosmische musik” mas, logo a seguir, “Short cut” atira-nos para o regaço dos inenarráveis Pet Shop Boys. E aí, dois passos atrás não são apenas uma mera precaução. São uma medida necessária para a preservação da sanidade mental.

“Verions” estrutura-se no “drone” e durante cerca de 8 minutos veste-se com sintetizadores a condizer, sem que em algum momento se possa dizer que descola. “Plantes” poderia sem esforço integrar um álbum de Eluvium e “Etc … etc” reveste um interessante momento outer-space.  “Hum” nada adianta relativamente a “Short cut”, adiciona-lhe inclusive pedaços do pior New Order (“Blue Monday” ???) e é no mínimo descartável.
Por fim “Return life”, o melhor dos sete temas. Ancorado na música ambiental, cativa na justa medida em que evolui à medida que vai crescendo no espaço. Uma peculiaridade comum à criação do Brian Eno  de  “Before and after scince” ou “Another green world” e à quase totalidade do projecto Eluvium.

Sintetizando: no futuro, dos sete temas incluídos em “Dedicate function”, muito provavelmente apenas dois contrariarão o esquecimento. Manifestamente pouco para um criador brilhante como Matthew Cooper.

07/11/12

Rock & Folk


 
Não, a Rock & Folk não surge no Atalho a propósito de Neil Young, muito embora o inegável interesse que as 10 páginas dedicadas à sua autobiografia possa despertar.
 
A chamada de atenção é feita, apenas e só, porque no número 543 do magazine francês, está publicado um texto de Philippe Thieyre sobre os Can, a propósito da recente edição das "The Lost Tapes".
 
Mesclado com extractos de uma entrevista feita a Irmin Schmidt, o artigo, inteligente e esclarecedor, é um dos mais felizes textos de que me recordo acerca da banda de Colónia. E merece ser lido ...

01/10/12

Moon of Ostara "The Star Child"


No intervalo das actividades da Earthling Society, Fred Laird e Jon Blacow deram corpo ao projecto  Moon of Ostara do qual “The Star Child” é o primeiro e muito interessante capítulo.

Nesta nova operação, o epicentro sonoro deslocou-se do psicadélico para o krautrock e ao invés do que habitualmente sucede com a Earthling Society, o paradigma é agora exclusivamente cósmico.

Constituído por quatro longos temas, “The Star Child” é um registo que não sendo denso ou demasiado exigente, se percorre com agrado, trazendo subtilmente à memória o passado de bandas germânicas como La Dusseldorf, Ash Ra Tempel ou Floh de Cologne. A seguir os próximos capítulos …

18/08/12

Can "The Lost Tapes"


Até há pouco tempo nenhuma colecção estaria completa sem um, dois ou mais, discos dos Can. Após a publicação de “The Lost Tapes”,  nenhuma colecção ficará completa sem este.

Quando, em 1980, escutei “My life in bush of ghosts” pela primeira vez julguei estar na presença de algo diferente e inovador. 30 anos volvidos e muitos álbuns dos Can depois, olho para a colaboração Brian Eno/David Byrne, como algo de realmente diferente. De inovador nem tanto.

À data, do colectivo de Colónia conhecia apenas “Soon over Babaluma” ( 1975 ) um registo pigmeu, quando comparado com álbuns como “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” ou “Future days”.  Com efeito, no período compreendido entre 1968 e 1973, os Can terão sido um dos mais criativos grupos continentais, bordejando simultaneamente o rock, o clássico, o avant-garde,  o (free)jazz e as músicas oriundas de África e do Médio Oriente. E, não me estou a esquecer que na Alemanha da época floresciam o krautrock e a kosmische musik, linguagens onde as idiossincrasias da banda de Irmin Schmidt e Holger Czukay nunca encaixaram verdadeiramente.

E a este respeito, para dissipar qualquer dúvida,  retorne-se  a  The Lost Tapes”. Para o efeito, bastará escutar os 16 m e 46 s que dura “Graublau”, um tema que quase faz soar a Procol Harum os dois primeiros álbuns dos Roxy Music.

A edição é composta por 3 CDs compilados a partir de 50 horas de fitas retiradas aos arquivos da banda. São cerca de 3 horas de material nunca publicado e cuja qualidade e pioneirismo são inquestionáveis. Fragmentos de peças pensadas/improvisadas para filmes, televisão, rádio, jam-sessions, gravações ao vivo … etc, “The Lost Tapes” não são, como se percebe pelo que atrás fica dito, propriamente fáceis de ouvir/assimilar. Todavia tal como a generalidade da discografia Can localizada entre 1968 e 1975, exemplificam aquilo que de mais moderno e radical se produziu na música europeia da época e que, alguns anos mais tarde, nos 80s, viria a inspirar diversas sonoridades, umas ilustres e perenes, outras nem por isso.

Indispensável será o adjectivo a aplicar aqui.

30/06/12

Dead Sea Apes "Lupus"


It’s brilliant!”

Foi assim que Julian Cope se referiu a “Lupus” o primeiro CD dos Dead Sea Apes , após um magnífico conjunto de EPs ( a que o Atalho se referiu na altura própria ) e várias colaborações dispersas por compilações que o tempo se encarregará de tornar seminais.

Nem sempre estou em completa sintonia com Julian Cope; na verdade serão mais as vezes em que estou em desacordo. Desta vez porém não me desvio um milímetro da sua apreciação. “Lupus” é  algo de verdadeiramente especial. Estrategicamente colocado naquela “no man’s land” onde se cruzam o drone,  o kraut, o pós-rock, o experimental e o psicadélico, este CD do trio de Manchester conduz-nos a caminhos arrojados onde a tradição compagina com o experimental e, quase sem se dar por isso, encontramo-nos no centro de uma galáxia habitada por estrelas ( Harmonia, Cluster, Pink Floyd, Emeralds, King Crimson, Spirit ... ) que a memória tratou se fazer perdurar e que “Lupus” revisita com mestria.  

Dos sete temas, três são pequenos interlúdios. Os restantes, oscilando entre os 7 e os 16 minutos, constituem detalhadas peças de artesanato, esculpidas no presente com ferramentas do passado, mas sempre com um olho no futuro.

Um registo desafiante, tão brilhante quanto exigente. 

19/03/12

Various "Head Music"


A agora lendária e iconográfica editora Brain ( mais conhecida por “Green” Brain ) nasceu na antiga Alemanha Ocidental em 1972 e permaneceu activa até meados de 1976. A par da Ohr, da Pilz, da Kosmische Musik ou da Sky foi das principais responsáveis pela divulgação e suporte de uma das mais importantes e inovadores correntes musicais dos 70s: o krautrock / kosmische musik.

Nos 4 anos em que permaneceu activa enquanto “Green” Brain, editou obras seminais e suportou bandas como Neu!, Cluster, Guru Guru, Electric Sandwich, Os Mundi, Sperrmull, Harmonia, Klaus Schulze, Tangerine Dream, etc. Através destas edições ajudou a alterar o paradigma da música europeia, fez história, e hoje, os exemplares originais dos respectivos álbuns transaccionam-se nos mercados de coleccionadores a preços de ourives.

A Fruits de Mer Records (http://www.fruitsdemerrecords.com/head%20music.html ) decidiu comemorar os 40 anos da fundação da Brain com a edição de um duplo álbum em formato de vinil onde, com a ajuda e participação empenhada de bandas contemporâneas como os Earthling Society, Electric Moon, Vibravoid, Dead Sea Apes, Electric Orange e The Bevis Frond entre muitas outras, recupera e reactualiza temas que fazem a história do krautrock e da kosmische musik germânicas.

A grande maioria dos temas aqui relembrados não foram na origem sequer gravados para a Brain, não obstante entende-se e justifica-se a inclusão, em função da importância estética e histórica que a “Green” Brain teve (tem) na música moderna dos últimos 40 anos.

( Earthling Society )

Os incondicionais do kraut não precisarão de ler mais nada. Quanto aos outros, sempre direi que encontrarão em “Head Music” versões fabulosas de temas originais dos Amon Duul I ( “Paramechanical World” por Earthling Society ), Kalacakra ( “Nearby Shiras” por Vibravoid ), Neu! ( “Lila Engel” por Palace of Swords ), Can ( “I want more” por Saturn’s Ambush), Kraftwerk ( “Rukstob Gondoliero” por Dead Sea Apes). Ash Ra Tempel ( “Schizo” de Frobisher Neck ), Popol Vuh ( “Mantra II” de Zenith ), La Dusseldorf ( “Silver Cloud” por Frobisher Neck ) …, 19 títulos explanados pelas 4 faces de dois vinis coloridos e com publicação limitada a 700 exemplares, como é já tradicional na Fruits de Mer.

Brian Eno enquanto músico e Richard Branson enquanto homem de negócios ( a Virgin Records nasceu em 1972 muito por culpa das ondas de choque que chegavam da Alemanha ) foram os primeiros a perceber a importância pioneira do krautrock e afins. Hoje, mais de 4 décadas passadas ninguém tem a menor dúvida sobre o talento dos visionários que lhe deram forma e sobretudo conteúdo.

As mais sinceras felicitações à Fruit de Mer Records por esta oportuna e meritória iniciativa.

20/09/11

A Winged Victory for the Sullen "S/t"




A chamada “ambient music” funciona como uma espécie de albergue espanhol que serve para tudo acomodar. O que se sente, o que não se sente, e tudo o resto: o que não se sabe muito bem onde guardar. Trate-se da “music for airports” de Brian Eno, da “kosmische musik” germânica, da “lounge music”, da “elevator music”, de algumas das franjas da música de vanguarda …, whatever.


O Atalho tem um fraquinho pela música feita de grandes paisagens cósmicas ( “kosmische musik” se quiserem, e apenas para afastar o chavão “ambient” ) e respectivos sucedâneos onde, salvo melhor opinião, os norte-americanos Stars of the Lid se enquadram.


Em licença sabática dos Stars, Adam Wiltzie reuniu-se com o compositor Dustin O’Halloran e em conjunto deram corpo ao projecto A Winged Victory for the Sullen ( o nome em si mesmo é já peculiar), cujo CD de estreia circula já por aí.






De uma beleza indescritível, embrulhado em delicados mantos de lirismo, o álbum homónimo da dupla Wiltzie/O’Halloran alimenta-nos o espírito, transporta-nos para paisagens inóspitas e a mim, particularmente , convocou-me as mais gratas memórias de Brian Eno , Klaus Schulze, Pink Floyd ( período 1968 / 1971 bem entendido), Windy & Carl, Hammock, Eluvium e, naturalmente, Stars of the Lid.


Constituído por sete peças instrumentais, “A Winged Victory for the Sullen” é um daqueles projectos onde é difícil colocar as palavras certas, sendo que cada um “de per si”, de acordo com a respectiva sensibilidade, experiência e/ou memória, o sentirá de outra forma.


“Beleza sensorial” será porventura a mais consensual das imagens que me ocorre neste momento. Quem sabe amanhã ou depois, a emoção despoletada não seria de índole diversa.


Não deixem de procurar escutar … Em silêncio!


05/09/11

Wooden Shjips "West"



Pode discutir-se o modelo. Inclusive a oportunidade. Nunca a eficácia

Para o Atalho, os Wooden Shjips são de momento a banda que melhor comunica entre o legado do krautrock germânico e a herança californiana dos 60s, com ou sem a componente psicadélica pelo meio. Um facto patente nos registos áudio e óbvio nas prestações de palco ( para aqueles que como eu já usufruíram desse privilégio ).

Ao terceiro CD, o colectivo de São Francisco, à equação Neu + La Dusseldorf / Doors + Mad River, decidiu adicionar os desvarios lisérgicos dos 80s, sendo que para tal procurou os serviços do músico/produtor Sonic Boom ex-mentor dos Spacemen 3. “West”, o resultado desta opção, soará porventura mais contemporâneo a ouvidos mais jovens e/ou apressados. Outros referirão porventura que terá perdido alguma da espontaneidade que fez de “Wooden Shjips” ( 2007 ) um dos registos mais interessantes dos últimos anos. O mérito porém está lá todo – bem entendido. A questão poderá colocar-se na(s) forma(s) escolhida(s) para o expressar.




Dito isto, e por ser verdade, convirá sublinhar que “West” é constituído por um conjunto de temas muito acima da média. “Black Smoke Rise” por exemplo, combina na perfeição o ritmo Neu com o paradigma Suicide, sendo que a ligação entre ambos é estabelecida através do inimitável órgão inventado por Ray Manzarek para os Doors. “Crossing” é uma fuga para a frente, em direcção aos Telescopes e aos Loop. E Sonic Boom e os seus Spacemen 3 sempre ali por perto.

"Home” é um monumental e riffeiro “killer track” que deveria obrigatoriamente rodar nas rádios “alternativas” deste país , caso estas o fossem de facto. Por seu lado, “Flight” é genericamente o somatório de tudo o que atrás fica dito, mais a fortíssima possibilidade dos Shjips terem escutado “The Piper at the Gates of Dawn” antes de entrarem em estúdio. “Rising”, a terminar, poderá muito bem ser o caleidoscópio planante que vai incendiar as audiências nos “encore” que inevitavelmente irão ter lugar por esses palcos fora.

Pena que a tournée dos Wooden Shjips não contemple datas portuguesas. Ou será que ainda nos é permitida uma ténue esperança …?

06/05/11

"Roqueting through Space"



Observando os padrões de qualidade e exigência gráficas outrora patenteados pelas capas das edições da Island ou da Vertigo, a Fruits de Mer Records acaba de publicar "Roqueting through Space", uma compilação de versões de temas "psych / space / kraut" que, desde já, configura um futuro "collector".

Os temas:

- Vibravoid - "No silver bird", original de Hooterville Trolley
- Vert.x - "I came from another planet, baby" de Julian Cope
- Helicon - "Hallogallo" de Neu!,
- Cranium Pie's - "Blacksand" de Brainticket,
- The luck of Eden Hall - "Lucifer Sam" de Pink Floyd
- Frobisher Neck - "Isi" de Neu!,
- The Grand Astoria - "Oh Yeah" de Can,
- Diarmuid MacDiarmada - "Telstar" de Tornados
- Alpha Omega - "Transdimensional man/Paradox" de Hawkwind,
- Sendelica - "Urban Guerilla" de Hawkwind


Os dois últimos títulos fazem o single que, junto com um "insert" incluindo todos os detalhes, acompanha a edição. A capa do LP é dupla e o design, magnífico, da autoria de Gregory Carvey.

A edição foi de apenas 500 exemplares e por esta altura já deverá ter esgotado.

19/12/10

Mugstar "Lime"


“Damn it !!!” Gosto tanto deste CD que estou quase tentado a colocar de lado os auscultadores e permitir que o som dos Mugstar se propague sem restrições. A minha única hesitação reside na fortíssima probabilidade de 5 minutos volvidos, os meus vizinhos de patamar, do andar de cima e muito possivelmente do de baixo, numa circunstancial aliança, se prepararem para violentar o botão da minha campainha. É que “Sunburnt Impedance Machine” sendo uma das mais extraordinárias peças de noise-rock psicadélico que escutei recentemente, é também por isso mesmo um albergue de riffs tonitruantes e apocalípticos.

Lime” é já o terceiro CD desta banda de Liverpool e aos meus olhos o seu melhor, o que é dizer muito, tendo em conta o que escrevi sobre o primeiro. A maturidade musical será sempre um conceito subjectivo e um momento em constante mutação. Logo um processo evolutivo que umas vezes corre bem, outras nem tanto. Neste âmbito, atrever-me-ia a dizer que “Lime” é por esta altura o estado de maturidade dos Mugstar.



Para além do já referido tema de abertura, algo capaz de separar os homens dos rapazes, os cerca de 13 minutos que dura “Serra” são do melhor e mais consistente que este quarteto já produziu. Seria preciso recuar até La Dusseldorf, Neu ou mesmo Kraftwerk para encontrar algo de semelhante.

“Radar King” principia com um “break” de antologia ( o meu leitor de CD deve estar perplexo e algo irritado, tantas as vezes que o obriguei a voltar ao inicio do tema ), desenvolve-se em ambiente metronómico - onde as guitarras lutam desesperadamente para não serem devoradas pela bateria - e termina num espaço outrora ocupado pelo space-rock psicadélico dos Hawkwind ou dos Man. A concluir “Beyond the Sun” é um lugar de ambiental acalmia que, não sendo diferenciador, de modo algum compromete.

Pelas melhores razões “Lime” é um daqueles raros álbuns de que em momento algum me irei esquecer. Seguramente o melhor que escutei este ano.

26/10/10

Eluvium "Static Nocturne"


"I have often been asked what artists and albuns are of influence to me
and although I am an avid consumer of music
I am ultimately a fan of sound in a much grander sense
the rain falling, the ocean swelling, the wind picking up,
cars driving by, train yards, box fans, etc ... etc ... etc ...
the amalgamation of these things creates a wonderful comfort to me
and it is in this 'static' that ideas for music suggest themselves
the mixture of these elements create the chord changes and melodies,
or are the foundation through which they are sought
I find nothing more comforting
than the flood of this vibration at a constant
Static Nocturne is an ode
to the process by which inspiration finds me
and an homage, of sorts, to this foundation of noise"

( Matthew Cooper, a.k.a Eluvium, no "insert" que acompanha "Static Nocturne" )


A caracterização, perfeita, fica feita pelo próprio.

Permitir-me-ia apenas acrescentar que "Static Nocturne" é talvez o mais visionário dos trabalhos do autor. As fronteiras são o kraut e a música de vanguarda. Entre elas existe tudo, até o silêncio.

A edição original, manual, numerada e completamente esgotada, contemplou apenas 200 exemplares.

20/04/10

"Deutsche Elektronische Musik"


E eis que chegou finalmente “Deutsche Elektronische Music – Experimental German Rock and Electronic Musik 1972-83”.

Não será ainda o olhar definitivo sobre o tema ( admitindo que um dia será possível atingir tal desiderato ), mas é indiscutivelmente um excelente contributo para lá chegar.

Fundamental escutar enquanto se lê ou relê o que de melhor se escreveu sobre o fenómeno.

23/03/10

Enumclaw "Opening of the dawn"


Norman Fetter é um cidadão da Pensilvânia que divide o seu tempo e interesses pelos Niagara Falls ( onde toca ), a Honeymoon Records ( que dirige ), os Espers ( que acompanha em tournée ) e Enumclaw, um projecto que criou recentemente para matar as horas livres que lhe sobravam.

Opening of the dawn”, o LP de estreia de Enumclaw é uma delícia para os ouvidos e para a mente.

Adepto convicto e praticante inspirado da “música cósmica”, Fetter abre o disco com o tema título, uma longa e hipnótica peça onde os sintetizadores tecem mantos de electrónica aqui e ali matizados por uma percussão discreta mas presente. “Join inn” dos Ash Ra Tempel e “Blackdance” de Klaus Schulze estão certamente à cabeceira de Fetter. “Third prime”, logo a seguir, mantém o ouvinte no nirvana. O órgão à deriva e os sintetizadores, agora em registo drone, fazem “rewind” até “Atem” e “Zeit”. E os Tangerine Dream ali tão perto.


O lado B surge menos focalizado mas nem por isso menos interessante. Do glissando das guitarras de “Harmonic convergence”, à melodia lisérgica de “Blue Star Kachina”, com passagem fugaz pelas percussões tribais de “Evening’s Empire”, é parte do melhor catálogo da “kosmische musik” que nos é proposto revisitar nos cerca de 23m50s que dura a face B deste álbum.

Refúgio seguro para os viajantes do Atalho, “Opening of the dawn” deve também ser recomendado a todos os que fazem da música a sua principal terapia quotidiana. Para além disso, é absolutamente mandatório para os fãs dos discos/grupos referidos no texto.

28/11/09

"Krautrock, Cosmic Rock and its Legacy"


(1ª Edição, Black Dog Publishing, London, UK, 2009)

"KrautrockSampler”, o ensaio que Julian Cope publicou em 1995, permanece uma referência incontornável no campo dos textos dedicados à música moderna alemã pós 1967. Está lá tudo, ou quase tudo, o que qualquer fã gostaria de ter escrito sobre o tema.

Quinze anos passados, embora naturalmente sem o mesmo impacto, a mais valia de “Krautrock, Cosmic Rock and its legacy” reside no facto de concretizar uma abordagem mais profissional e estruturada ao assunto. Sendo que, o aumento da distância relativamente ao tempo e aos acontecimentos retratados, também ajuda.

A Introdução, da responsabilidade de David Stubbs (um dos vários jornalistas/experts que contribuem para o livro), é o enquadramento sócio-político que faltava no livro de Julian Cope. Stockhausen foi sem dúvida importante, mas Stubbs chama a atenção para outros factores históricos que não podem ser negligenciados.

("KrautrockSampler" 1ª edição Head Heritage, UK, 1995)


A contribuição de Erik Davis é igualmente importante para finalmente se perceber que Krautrock e Kosmische Musik não são exactamente sinónimos em matéria de forma e conteúdo.

Ainda que num registo demasiado conciso, alguns dos artistas mais importantes do período (não necessariamente os mais conhecidos), têm aqui o perfil talhado. Mais interessante e inovador é o trabalho sobre os produtores e editoras discográficas. Destaque merece também a introdução de uma “timeline” que, de 1967 a 1975, recorda o que de mais importante sucedeu na Alemanha: na politica, no cinema e na música.

Se juntarmos “Krautrock, Cosmic Rock and its legacy” a “KrautrockSampler” ficaremos a saber tudo o que realmente interessa sobre uma das linguagens musicais mais radicais da segunda metade do século XX. De caminho, convirá também regressar aos discos…