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16/12/09

"Every noise has a note"


A Trensmat Records é uma editora independente que se vem dedicado à publicação de edições limitadas de singles (em vinil) contendo alguns dos melhores temas que poderemos encontrar hoje nas margens do underground.

Com as edições maioritariamente esgotadas, a editora partiu para a compilação em CD de parte dos títulos publicados. Razões comerciais ditaram certamente a decisão, mas o simples facto destas músicas estarem de novo disponíveis em suporte físico é para o Atalho justificação mais do que suficiente.

( Bardo Pond )

Falo, por exemplo, do space-garage e do groove hipnótico dos Telescopes em “Dsm – 1V axis 1307.46 (Night Terrors)” , da distorção fogo à peça praticada pelos White Hills em “Be yourself”, do motorik incandescente que é “Bethany heart star” dos Mugstar ( o novo álbum está apontado para o inicio do ano ), do drone psicadélico de “Vaahto” responsabilidade dos finlandeses Circle ou do épico “Lord of Light” um original dos Hawkwind para “Doremi Fasol Latido”, aqui numa versão onde o space e o fuzz convivem sem sobressaltos.

Para além destes, há ainda convincentes incursões no território do krautrock com “Trick with a knife” dos Area C, a evocação dos Suicide nos Cave de “Machines & Muscles” ou o apocalíptico tratamento de resíduos cósmicos levado a cabo pelos Magnetize em “Noise to signal”.

( Cheval Sombre, poster Flora Wang )

A fechar, numa atmosfera mais serena, um hipnótico, quase velvetiano “Troubled mind”, numa remistura de um tema retirado de “Cheval Sombre” o álbum de um projecto homónimo que envolve Sonic Boom, Dean Wareham e Britta Phillips.

Em suma, “Every noise has a note” confirma o título e apresenta argumentos suficientes para se tornar absolutamente mandatório.

27/07/09

Jardins do Paraíso XV ( The Telescopes )


Numa altura em que se recupera o emblemático primeiro álbum dos Stone Roses, seria também interessante resgatar à história dos finais dos anos 80 algumas das bandas que integraram o chamado “shoegaze”. O pontapé de saída pode ter sido dado com a reedição em curso dos Loop, à qual se vem juntar agora algum do espólio dos Telescopes.

O grupo de Stephen Lawrie anda por aí desde 1987. O primeiro registo que se lhe conhece é um flexi-disc a meias com os Loop. À data, os “boys next door” davam pelo nome de Jesus & Mary Chain, Spacemen 3, Loop, Swervedriver ou My Bloody Valentine. Vizinhança a frequentar sem reservas.

O som, como se percebe pelos nomes citados, era preenchido por ecos do 60’s punk, garage drone e muito space-fuzz. No caso concreto dos Telescopes, à agressão do discurso Stooges, acrescentava-se uma atitude pesada, tipo “kick out the jams motherfuckers”, embora convenientemente disfarçada por biombos de fuzz.


The Telescopes singles compilation 1989-1991” agrupa os principais singles da primeira etapa do colectivo, incluindo os seminais “The perfect needle”, “Shr burn”, “To kill a slow girl walking” ou “You can not be sure”, exemplos perfeitos do que se escreveu atrás. A partir de meados de 1990 ( após o inicio da ligação à Creation ), Stephen Lawrie optou por reduzir a velocidade e evitar o colapso que se adivinhava a cada riff. Os temas afastaram-se do precipício recuando para terrenos mais melódicos, eivados de psicadelismo, mais ancorados no paisley sound, ainda que o reverb e o fuzz nunca se afastem mais do que o necessário (“I sense”, “Everso”, “Wish of you”, “Celeste”, “Flying” ).

The Telescopes, Singles #2” conta outra história. Resultado ou não das constantes mudanças de pessoal, Lawrie e os Copes praticam agora um discurso muito mais abstracto, onde o drone e o space são componentes mais tangíveis na definição de um som que se catapulta para a frente ( escute-se a nova versão de “The perfect needle”, por exemplo ).


Muito mais kraut e experimentalista o novo formato sonoro dos Telescopes desloca-se para o habitat de Flying Saucer Attack, Tarentel ou Jessamine e, a meio dos anos 90 desafia, ao manter um pé nas caves de Hamburgo e outro na São Francisco vanguardista e iconoclasta da época. “Winter #7”, “Another sky” ou “Where it comes from where it goes”, através da utilização das técnicas drone e de efeitos tecno desenhados em espiral, remetem para um galáxia de “electronic soundscapes” que os Telescopes, com o rigor de velhos artesãos, criaram a partir da respectiva garagem.

Embora diversa, esta outra linguagem do colectivo britânico é tão estimulante quanto a inicial e, a cerca de uma década de distância, mostra que o filão da história está longe de se encontrar esgotado. A vontade e o tempo investidos na sua redescoberta são, como no caso presente, largamente recompensados.