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26/09/17

Tomara "Favourite Ghost"



Existem discos que se escutam uma vez e que se arrumam na esperança de um dia, por uma razão ou por outra, serem de novo procurados. Há no entanto outro tipo de registos, aqueles que pedem para serem cuidados, curados, em permanência.  Não inventam a roda nem tão pouco irão mudar o curso da história, mas são perfeitos na sua função de entretenimento e cultivo de emoções. O que nos dias que correm, não é coisa pouca.

Favourite ghost” de Filipe C. Monteiro ( aka Tomara ) é um desses artefactos. Viajando com e por entre sombras, espaços intimistas vizinhos da melancolia e silêncios perfeitos, o álbum – curto e conciso como todos os grandes discos devem ser -, manobra todos os botões certos, deixando cativo o ouvinte, mesmo aquele que tem perfeita consciência de não estar perante nada de substancialmente novo.


Com os três temas de maior impacto ( “Hallow”, “Coffee and Toast” e a canção título ) estrategicamente colocados a abrir, “Favourite Ghost” revela-se um mar de inteligência e bom gosto a que não será estranha uma relevante cultura musical.

Feita para ser tocada no recato dos pequenos espaços  a música de Tomara apela aos fãs de Ida, Madrugada, Richmond Fontaine, Tindersticks, Mono ou mesmo Silver Scooter, os quais encontrarão aqui razões mais do que suficientes para se sentirem confortáveis.

Perfeito para ocupar os serenos fins de tarde de outono.
 

18/09/17

Behind the Shadows Drops "Harmonic"



Quando não se encontra na estrada com os MONO,  Takaakira Goto, o pequeno génio de Tóquio, mata o tempo com projectos alternativos.
Foi assim com os The Left ( álbum “I could stand here” em 2005 ), com o disco solo “Classical Punk and Echoes Under  the Beauty” uma década depois e é também assim com “Harmonic” dos Behind the Shadow Drops.
Takaakira Goto é um experimentalista que há muito ultrapassou as fronteiras estéticas do pós-rock de que os MONO são um dos maiores expoentes. Aqui, promove incursões no minimalismo, no clássico moderno, na música ambiente e, quase como uma consequência natural, nas paisagens inóspitas do kraut-rock.
Os espaços são tão amplos e inspiradores que apetece percorrê-los sem a interferência do tempo. John McEntire, veterano dos Tortoise e dos Sea & Cake, é o produtor que esta música solicitava; ainda que teria sido muito curioso verificar como outro experimentalista moderno,  Matthew Cooper ( Eluvium ) se comportaria na tarefa.
Um disco aditivo que ficará bem nos fins de tarde do próximo outono.

07/07/15

Takaakira Goto "Classical Punk and Echoes Under the Beauty"



2005. Sob o pseudónimo de The Left, Takaakira Goto publicou “I could stand alone here”, uma colectânea de belíssimas miniaturas pós-rock. Na altura poucos sabiam que dois anos antes, o mentor dos MONO havia gravado o corpo principal de “Classical Punk and Echoes Under the Beauty”. De acordo com o guitarrista, os temas não soavam a MONO ( não tinham necessariamente de soar ) e como tal ficaram por concluir e publicar.

Uma dúzia de anos volvidos, Goto regressou ao estúdio para terminar o projecto. O músico possui um talento inato, capaz de escrever temas que começam por parecer épicos para rapidamente se transformarem em clássicos. Em partes iguais, possuem significativas doses de melancolia e experimentalismo, características que fazem de Goto um dos grandes compositores japoneses.

Algures entre Ryuichi Sakamoto e Robert Fripp, “Classical Punk and Echoes Under the Beauty” é tão arrojado quanto exaltante. A marca de água dos MONO está lá ( estranho seria não estar ) mas os pontos de contacto são residuais. Takaakira Goto tinha razão em 2003, estas composições não têm muito a ver com o paradigma daquela banda.

Ao pouparem no épico, acrescentam lirismo: definem subtileza, encantam e são um conforto para os sentidos. Atente-se no caso de “Till the night comes”; nunca o genial “Starless” dos King Crimsom conheceu homenagem mais calorosa.

Certas sonoridades não se explicam, simplesmente contemplam-se.

15/08/14

Watter "This world"



Em modo atmosférico e algo misterioso, os 60 segundos iniciais de “This world” evocam a abertura de “Obscured by clouds”. Depois, ao contrário dos Pink Floyd, que blindaram o tema do álbum homónimo através de cascatas eléctricas e espessos muros de percussão, em “Rustic Fog”, os Watter optam por paisagens mais serenas, pautadas por um discreto ritmo metronómico. Não será sempre assim ao longo de todo o disco, mas a matriz, essa fica definida. 

Projecto novo integrando Britt Walford ( Slint ), Zak Riles ( Grails ) e Tyler Trotter ( Strike City ), “This World” é um espaço de compromisso entre o psicadelismo visionário dos Grails e o pós-rock pioneiro de Slint. Para além de compatíveis, as duas linguagens revelam-se aqui complementares, contribuindo ambas para a criação de seis peças de uma beleza rara e inspiradora.


Adicionalmente, o piano de Rachel Grimes acentua o bucolismo de  “Lord I want more” e “This world”, ao mesmo tempo que em “Small Business”, o baixo veterano de Tony Levin cimenta o “wall of sound” que resulta da irreverência das guitarras ( Zak Riles ) e da exuberância da bateria ( Britt Walford ). Com “Obscured by clouds” lá atrás,  de novo, à espreita.

Mais próximo de Tortoise ou Brokeback que de Explosions in the Sky ou MONO, Watter não é a reinvenção da roda, mas está perto da perfeição e é belíssimo, o que é mais do que suficiente nos tempos que correm.

01/01/14

Artefactos ( 36 )

 
"Hello and welcome to the third issue of the The Terrascopaedia, a limited edition hand crafed letter press periodical that provides a glimpse, as if through vintage spectacles, into the analog world of Terrascopic music." ( do editorial, por Phil McMullen )
 
Número 3 da "The Terrascopaedia". Simples e austero, como os dois anteriores. Mas de novo magnificamente pensado e melhor executado. Artwork antigo, impressão manual, textos brilhantes e um gosto musical absolutamente irrepreensível ( Horace, MONO, Six Organs of Admittance, Wolf People, Bardo Pond, Lawrence Hammond, Green Pajamas e Bevis Frond ).
 
100 exemplares apenas ( já esgotados seguramente ) mas muita devoção, pela música e pelos músicos. São artefactos como este mantêm o Atalho no ar.
 
 

18/09/12

MONO "For my Parents"


Ali, à saída da adolescência, a juventude é habitualmente um espaço onde florescem arrogância e preconceitos vários, alguns de natureza quase tribal. Comigo não foi naturalmente diferente.

Em concreto, hoje lamento não ter na devida altura prestado atenção a bandas e artistas, fulcrais no seu tempo, mas cuja atitude e forma exibicionistas a par de uma massiva adesão por parte do público, “valorizei” mais que o respectivo conteúdo. Black Sabbath e Led Zeppelin são apenas dois dos vários casos.  Mas há mais. “Tubular Bells” por exemplo.

Quase 40 anos depois e muitos kms de vinilo percorridos, olho para o épico de Mike Oldfield de uma forma totalmente diferente. Já não é apenas um mastodôntico êxito de vendas, antes uma interessante peça musical, construída instrumento a instrumento, camada a camada, até desaguar num climax apoteótico, quase cinemático.

Vem tudo isto a (des)propósito do novo MONO, “For my parents”.  Hoje, o chamado “post-rock” é quase tão polémico quanto o foi todo o movimento  que gerou peças como “Tubular Bells”, contudo não me parece que a sublime música criada pelo colectivo de Tokyo possa (deva) ser enclausurada num qualquer colete de forças estético que obrigatoriamente a menorizaria e tornaria redutora.

Goste-se ou não, a música dos MONO é algo de grandioso – bigger than life – possui um lirismo e um sentimento que não se compaginam com o estereotipo musical contemporâneo, por mais alargada e esforçada que a busca possa ser. As respectivas prestações de palco são algo de verdadeiramente especial, momentos únicos que “dão sentido à vida” de quem a elas assiste. Se o quarteto voltar a Portugal aproveitem para tirar as dúvidas…

No entretanto investiguem as cinco peças que integram “For my parents” e imaginem um horizonte cinemático, longínquo, preenchido por uma música tão bela como comovente. Música clássica no puro sentido epistemológico do termo, onde a emoção e o sentimento caminham lado a lado com a criação e o talento dos artesãos (Taka Goto, Takada, Tamaki e Yoda ).

E sinceramente, embora gostando muito  de “Hymn to the Immortal Wind”, pouco me importa que o registo anterior possa ser considerado um trabalho mais sólido/consensual. “For my parents” é um projecto construído em cinemascope, enorme, com todo glamour e magia inerentes. E seja de “Legend”, “Nostalgia”, “Dream Odyssey”, “Unseen Harbour” ou “A quiet place”, indiferentemente, brota de qualquer um daqueles temas, um sentimento e uma atmosfera de quase religiosidade que, aqui sim, aconchegam o espírito e alimentam a alma.

E de “For my parents” fica o essencial. Tudo o resto serão tergiversações de carácter estético, academicamente interessantes, mas redundantes face ao que está verdadeiramente em causa: os SENTIDOS.

07/03/10

MONO


A coisa está para breve: dia 9 em Lisboa / dia 10 no Porto



Dia 15 de Abril, publicação em suporte áudio e video dos concertos nova-iorquinos de Maio de 2009.


10/04/09

MONO "Hymn to the Immortal Wind"



Existem dois tipos de bandas: as que crescem penduradas na excitação de legiões de adolescentes e aquelas que embora não penetrando nessa faixa, deixam a sua marca gravada no tempo. As primeiras raramente conseguem libertar-se das fronteiras de delimitam as gerações. As segundas estão para além das condicionantes temporais, serão revisitadas e estudadas no futuro.

Contam-se pelos dedos os artistas/grupos que cabem na segunda categoria. Os MONO fazem parte desse conjunto de eleitos e integram-na por direito próprio.

Quando o Atalho olha em volta, o quarteto nipónico surge como uma das escassas bandas, porventura a banda, cuja inspiração constitui um veículo único para atingir espaços e dimensões líricas. Daí que, através de massivos tsunamis de guitarras eléctricas, percussões retumbantes ou solilóquios de piano e guitarra clássica, tudo dentro do mesmo tema, faça apelos viscerais aos nossos sentidos, transportando o ouvinte para um mundo que não é deste mundo e, como tal, não se pode confinar aos formatos conhecidos. Posiciona-se francamente para além deles.

Peças como “Are you there”, “Palmless prayer/Mass murder refrain” e “The Phoenix Tree” chegavam para eternizar a banda de Takaakira ‘Taka’ Goto, porém no recente “Hymn to the immortal wind” o colectivo de Tokyo, retomando o percurso interrompido em “Palmless prayer” e ao lado do fiel escudeiro Steve Albini, agrega 10 violoncelistas, 9 violinos, flautas, xilofones, contrabaixo e violas. Uma orquestra de câmara, mais um instrumento utilizado para potenciar a carga sensorial da música. Em simultâneo, aumenta a vastidão do espaço e torna o horizonte inatingível.



Depois de um empolgante “Ashes in the snow”a abrir, “Hymn to the immortal wind” prossegue com a aparente quietude de “Burial at sea”. A introdução tricotada da guitarra clássica de Taka, abre alas ao ritmo marcial que a bateria de Yasunori Takada induz. A carga lírica é dramaticamente aumentada pela intervenção das cordas e a junção de todos os elementos projecta a muralha sonora para um patamar melódico onírico, explodindo mais à frente num caos de electricidade e feedback.

“Silent flight, sleeping Dawn” regressa ao romantismo desesperado de “Gone” e “Rainbow” ( ambos de “Phoenix tree” ) enquanto “Pure as snow (trails of the winter storm)”, estruturalmente um tema MONO típico, focando-se numa paisagem feita de neve, evoca luz e sombra, silêncio e vento, calma e tempestade, esperança e desespero.

“Follow the map” é um interlúdio luminoso que antecipa “The battle of heaven” ( o título não podia ser mais apropriado ), um tema que esboça introspecção e serenidade mas que cresce até explodir numa cacofonia épica, verdadeira batalha pelo paraíso.



Intenso, absorvente e hipnótico o quinto disco dos MONO termina com “Everlasting light” onde a dissonância que resulta da intervenção silenciosa do piano de Tamaki e o noise proporcionado pelas guitarras gémeas de Yoda e Goto, conduz a um amplo, enormíssimo, “wall of sound”.

Esqueçam as polémicas oportunistas e estéreis sobre a natureza do pós-rock. Se estará morto? Se é ou não “cool”… Nada disso interessa quando o tema se chama MONO. “Hymn to the immortal wind” é da melhor música que poderão escutar hoje, ou em qualquer outro tempo.

Nota: os MONO celebram os 10 anos de existência com dois concertos em Nova Iorque. Até lá, encontram-se em digressão pela Europa ocidental. Salvo melhor opinião, a Casa da Música ou o CCB seriam palcos excelentes para acolher esta música. Pena que os respectivos programadores observem outras prioridades.

14/06/08

MONO "The sky remains the same as ever"


Ao colectivo MONO tem sido insistentemente colada a etiqueta ”post-rock”. Talvez por que o quarteto japonês preenche os mínimos para integrar a fórmula ( sons em crescendo apocalíptico, versus momentos de silêncio ou desconcertante acalmia ).

Julgo que no caso a definição é redutora. Para além da previsibilidade, característica principal do grosso dos praticantes do género, a banda de Tokyo elabora uma música tão natural como o simples acto de respirar. Onde a surpresa é um elemento sempre presente, seja através da beleza onírica das melodias, da sustentação até ao limite do suportável das explosões sonoras, ou na sublime gestão dos silêncios.

O DVD “The sky remains the same as ever” publicado este ano, recolhe e compagina imagens de gravações de estúdio ( o produtor Steve Albini, explica na perfeição a dinâmica sonora do grupo ) e com maior detalhe incide sobre a tournée mundial de 2007, percorrendo os locais e respectivos públicos.

Não se trata apenas de um filme de concertos, mais uma derivação de um “road movie” onde o espectador é convidado a seguir os MONO num conjunto fragmentado de actuações, por vezes justapostas, onde o público assume o papel do actor principal. A música serve como banda sonora que alimenta e justifica o sentimento e pose litúrgicas que, como por hipnose, tomam conta das plateias.

Um fenómeno notável, tocante, nada comum em concertos de rock tradicionais. Mais um argumento a juntar à patente originalidade do quarteto e à perenidade de uma música a que alguns já ousaram chamar de clássica.