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12/02/25

Jeannie Piersol "The Nest"

 


Genuíno produto de época, “The Nest”, o single, poderia ter constituído a porta de acesso para uma carreira de sucesso. Resultado das idiossincrasias da sua interprete acabou como uma curiosa, embora muito interessante, nota de rodapé na história do psicadelismo de São Francisco.

Contemporânea e amiga do clã Slick ( Grace, Darby e Jerry ) Jeannie Piersol chegou a integrar a formação inicial dos The Great Society -  Darby equacionava explorar a complementaridade das vozes de Grace e Jeannie. Esta última porém, abandonaria o projecto de forma precoce, manifestando incómodo face às “substâncias ilícitas” presentes nos ensaios do grupo.

Continuou no entanto a frequentar a cena psicadélica emergente na Bay Area, tendo integrado os The Yellow Brick Road com os quais actuou no Matrix em Março de 1967. No entretanto, o então cunhado Darby Slick, recém regressado da India, lança uma Opa musical sobre o colectivo que se metamorfoseia, troca alguns dos membros e passa a denominar-se Hair.



( The Yellow Brick Road )

Mais tarde, em Maio de 1968, ainda apoiada na criatividade de Darby, publica o primeiro dos seus dois únicos singles a solo: “Gladys / With Your Love”. Em Fevereiro de 1969 segue-se o segundo: “The Nest / Your Sweet Inner Self”.

A recente compilação “The Nest” integra ambos para além de oito inéditos: dois temas captados no palco Matrix com os Yellow Brick Road, outros dois títulos gravados nos estúdios da Golden State em São Francisco pelos Hair e ainda quatro composições resultantes de sessões  levadas a cabo em 1968.

O denominador comum à maioria das gravações é Darby Slick: toca guitarra e sarod, assina quatro composições e produz a larga maioria.



 ( Hair )

Mais do que oportuna, “The Nest” é uma compilação estimulante. Nem todos os títulos possuem igual densidade / criatividade. Porém a voz ( talvez mais do que as próprias composições ) de Jeannie Piersol cola o conjunto das partes, separadas pelo tempo e intervenientes diversos.

“The Nest”, a canção, é uma composição aditiva, maioritariamente acústica, até a guitarra fuzz de Darby Slick nos recordar que o ano era 1969. “Joined In Space” e “Heading For The Sun”, ragas psicadélicos, poderiam ter sido assinados por qualquer uma das grandes bandas da Bay Area. Quanto a “Gladys”, “Quivering” ou “Light Sinking Down” não destoariam nos alinhamentos de “Takes Off” ou “After Bathing At Baxter’s”.

A homogeneidade é uma característica difícil de concretizar na maioria das compilações. “The Nest” não é excepção.  Todavia permite descobrir um talento que durante anos se recolheu por trás da caixa de uma agência do Bank Of America / São Francisco, para além da sonoridade marcante de uma banda efémera – The Yellow Brick Road” – da qual até à data nada sabíamos.

25/10/21

Jardins do Paraíso ( LXX )

 


Uma absoluta barbaridade, o índice de talento que a foto acima, captada por Jim Marshall em 1970, encerra.

Volvidos 50 anos, a conjugação daqueles e de outros talentos ( não menos despiciendos note-se ) continua a fazer de “If I could only remember my name” um lugar único e irrepetível. Um disco que separa as águas e que diz muito sobre os seus indefectíveis e, quase tudo, sobre os seus detractores.

Música intensa, visceral, orgânica e, se quiserem, concedo, vizinha do improviso. Uma das alegadas facetas que mais parece incomodar os fãs da pop music fofinha.

Deve muito, embora não tudo, ao seu principal mentor e compositor  David Crosby.

Para além dele e dos restantes protagonistas da foto mencionada ( Jerry Garcia, Neil Young e Phil Lesh ) convirá não esquecer os demais: Grace Slick, Jorma Kaukonen, Paul Kantner, Joni Mitchell, Gregg Rolie, Laura Allen, Graham Nash, Bill Kreutzmann, Michael Shrieve, Jack Casady, David Freiberg  e Mickey Hart, sem o contributo dos quais o álbum talvez não tivesse sustentado a intemporal dimensão de que goza há cinco décadas.

Dito de outra forma, existe um antes e um depois de “If I could only remember my name”, ponto!



( foto de Joel Bernstein )

Perguntarão: mas depois de tanto tempo e de algumas recuperações, quer sobre a forma de reedição ou a propósito de uma ou outra compilação, ainda existe espaço para uma nova edição? Existe, de facto, e a explicação reside nas 8 demos e 5 sessões que acompanham os 9 temas originais ( o título “Kids and dogs” não entra na equação uma vez que já havia sido publicado numa reedição em 2006 ).

Escutam-se as demos ( voz e guitarra acústica ) de “Laughing”, “Song with no words”, Tamalpais High (All about 3), “Games”, “The wall song” ou “Where will I be?” ( as três últimas abandonadas neste projecto mas recuperadas no ano seguinte para o álbum “David Crosby / Graham Nash ) e aquilata-se do quão enorme era o talento do autor, independentemente do ângulo escolhido para a abordagem. Uma voz inigualável, harmonias e arranjos vocais pioneiros, atonalidade de muitas composições e uma sensibilidade interpretativa verdadeiramente incomum.

Quanto às sessões, e colocando de lado a versão alternativa de “Cowboy Movie” já  publicada em 2006 na box-set “Voyage”, destaque para um extraordinário “Coast Road” que não teria destoado no álbum original, bem assim como para as maquetas “Bach Mode”, “Dancer” e “Fugue”, vozes e guitarra acústica, sempre.

Cinco décadas passadas, pouco interessarão os contornos actuais da personagem de Crosby. Incongruências, equívocos, atitudes fora da caixa, quezílias com os antigos companheiros, ainda que reveladoras do carácter, são nada ou muito pouco quando comparadas com a grandeza que “If I could only remember my name” transporta no tempo.