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12/07/16

East of Venus "Memory Box"



A gestação de “Memory Box” é quase passível de ser classificada como homérica. Resultado da conjugação de esforços de um grupo de amigos, os  East of Venus: Michael Carlucci ( Winter Hours ), Glenn Mercer, ( Feelies, Wake Ooloo ), Stan Demeski ( Feelies, Luna, Speed the Plough e Yung Wu ) e Rob Norris ( Bongos ), nasceram e principiaram as gravações ainda na primeira década deste século.

Sem prazo limite, as sessões correram ao sabor do tempo e disponibilidade dos membros. Algumas das melodias que fazem o disco foram anteriormente experimentadas nas bandas onde os músicos estão ou vão passando. Outras foram escritas para o efeito, ao correr da pena.

Percebe-se no entanto que “Memory Box” foi um parto difícil. Michael Carlucci é responsável por 7 dos 10 temas, as covers: “Reason to believe” ( Tim Hardin ), “Citadel” ( Rolling Stones ) e “Jane September” ( Red Buckets ) são mais ao jeito daquilo a que os Feelies nos foram habituando.


O equilíbrio, sente-se, é esforçado, quase mecânico. A este facto não deve ser estranha a adição de uma outra componente da tradição grega: a tragédia. Em Outubro do ano passado, Carlucci sucumbiu a um ataque cardíaco. O álbum foi finalizado sem a presença física do seu principal criador. Apenas. O essencial estava feito e registado.

Por essa razão, ou por não ser possível ignorar todos estes factos, “Memory Box” soa como um epitáfio, ao talento de Michael Carlucci.

25/11/15

Heroes are hard to find ( 30 )


Michael Carlucci

( 1957 - 2015 )

14/06/10

Jardins do Paraíso XXI ( Winter Hours )


O Atalho nutre particular admiração pelo trabalho de Lenny Kaye. A seminal e influente compilação “Nuggets, Original Artyfacts from the first psychedelic era” e a continuada presença no Patti Smith Group são por si só factos mais do que suficientes para o justificar. Mas, para além deles, existem ainda as lendárias produções do homem.

Aqueles que para o efeito a ele recorreram ao longo dos anos , sabiam exactamente o que pretendiam. Procuravam sobretudo um artesão, não um mero “hit-maker”. E, entre outros, Suzanne Vega (“Suzanne Vega”), Weather Prophets (“Mayflower”), James (“Stutter”), Andy Zwerling (“Spiders in the night”), Kristin Hersh (“Hips and makers”) ou Sidewinders (“The Sidewinders”) bem podem agradecer a Kaye os “lost nuggets” que este ajudou a fabricar e que a história cuidou de guardar para memória futura.

Também produzido por Lenny Kaye, o álbum homónimo dos Winter Hours, passou à margem do meu radar ( do meu e do de muito boa gente ) à data da respectiva publicação em 1989. Finalmente reeditado em CD, “Winter Hours”, tecnicamente o único álbum desta banda de New Jersey, revela-se um sublime conjunto de canções que, a esta distância, não se entende como foi possível passar despercebido. Não consta que a Chrysalis fosse uma editora com falta de recursos, pelo que no caso, a mais pura incompetência, deva ser a explicação mais plausível.


Quanto ao disco, a produção cristalina, enxuta e atenta aos detalhes, determina o elevado grau de empatia que as canções estabelecem com o ouvinte. Um trabalho de ourives que “apenas” ajuda a potenciar a notável matéria prima saída da inspiração de Joseph Marques, Michael Carlucci e Bob Perry, os três compositores do grupo que aqui demonstravam: 1) conhecer muito bem o “songbook” dos Buffalo Springfield e os primeiros discos de Elliott Murphy ( a quem de resto agradecem na contracapa do disco); 2) enorme devoção pelos R.E.M. (atenção, estamos ainda em 1989; 3) que os Hoodoo Gurus, Bongos, Miracle Legion, dB´s ou Fetchin Bones eram observados não como um ponto de chegada mas como plataformas criativas, capazes de desencadearem a fusão do folk-rock, do pop, do rural-rock e do “paisley underground” numa linguagem a que mais tarde genericamente se chamaria “Americana”.

Dito isto, tenho para mim que “Winter Hours” deve ser um dos melhores discos de guitarras que os R.E.M. não gravaram nos anos 80. “Roadside flowers”, “Smoke rings”, “Carpenter’s Square” e “Longest Century” são destaques óbvios; mas a textura sonora dos instrumentos, aliada à calorosa elegância que emerge das interpretações, fazem de “Winter Hours” um disco essencial na sua época e um artefacto muito curioso duas décadas volvidas.

Insisto, custa a entender como uma banda constituída por músicos tão talentosos ( o ex-Feelies Stan Demeski chegou a fazer parte da formação ), pode ter desaparecido em combate tão abruptamente e sem deixar qualquer rasto. Também por isso não resisto a evocar os Jolene de John Crooke e o seu notável “In the gloaming”. Felizmente Crooke ainda se encontra entre nós e lidera os Lamps. Joseph Marques não teve tanta sorte. Faleceu em 2003 vitima de overdose.