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13/01/17

06/09/13

Grant Hart "The Argument"


 
Serão personalidades diferentes, com percursos de vida diversos, eventualmente com raízes e motivações culturais díspares. No entanto, sempre que penso em Grant Hart e Lee Ranaldo, quase instintivamente, estabeleço  entre eles um paralelismo que poderá muito bem ser apenas ficcional, mas que no ponto de vista do Atalho faz sentido.

Ambos integraram duas das mais histriónicas bandas do indie-rock americano dos 80s. Husker Du ( Grant Hart ), Sonic Youth ( Lee Ranaldo ). Do ponto de vista da imagem, ambos viveram sempre na sombra ditatorial dos líderes: Bob Mould na primeira, Thurston Moore na segunda.  Mas, mais importante, diria, ambos promoveram o equilíbrio necessário para que os dois projectos pudessem carburar sem sobressaltos de maior. Porque ambos são belíssimos melodistas e as respectivas composições, serviam de âncora perante a loucura atonal de Thurston Moore e a espiral apunkalhada de Bob Mould.  Volvidos todos estes anos, quando retorno a Husker Du ou Sonic Youth, são as canções que Hart e Ranaldo que procuro, quase exclusivamente.

Ranaldo diversificou o seu caminho. Nova Iorque permitiu-lhe isso. Grant Hart tem tido um percurso mais atribulado. Depois de um fabuloso álbum solo “Intolerance” ( 1989 ), o projecto Nova Mob foi um semi fracasso e os posteriores trabalhos a solo balançam entre o urgente e o fica para depois.



The Argument” partia como um desafio ambicioso. Inspirado em “Lost Paradise”, um manuscrito inédito de William Burroughs por sua vez inspirado em “Paradise Lost” de John Milton, reunia as condições mínimas para fazer história, mesmo considerando que os “concept álbuns” nem sempre são o que prometem.  Havia no entanto um pormenor, nada despiciendo por sinal: a música!

Aqui chegados, tiro o chapéu a todos os que conseguirem despir a pele do fã e usar exclusivamente a (in)sensibilidade do crítico. Gostaria de ser totalmente objectivo. Mas quando comparo ( e há sempre que comparar, mesmo que toda a gente diga o contrário ) estes 20 temas com as enormes canções que Grant Hart escreveu no passado, não é possível disfarçar a decepção.  Sim,  “Morningstar”, “Is the sky the limit?” e “I will never see my home” estão perto do sublime e farão facilmente parte do songbook do autor, mas quase tudo fica aquém do que Hart já fez e seguramente poderá voltar a fazer. Há inclusive, diversos painéis bowieanos que a mim me soam camaleónicos e desadequados.

Dito isto, gostaria de ter sido mais positivo, mas a mais pura da verdade é que escutar “The Argument” me foi algo penoso. Talvez volte a ele, daqui a uns meses. Quem sabe?

27/06/12

Lee Ranaldo "Between the times and the tides"


A mais que provável separação dos Sonic Youth, poderá vir a tornar-se uma oportunidade para Lee Ranaldo.
Com efeito, aquele que já foi apelidado o George Harrison da banda de NY ( sempre confinado a duas ou três canções por álbum nos SY ) poderá agora afirmar-se definitivamente como o compositor sólido e versátil que sempre foi, mas que muita gente não deu conta, ofuscada que estava pelo frenético jogo de sombras do casal Moore/Gordon. 

As composições de Ranaldo para os SY, raramente valorizadas, funcionavam como um pêndulo, ligavam à terra uma banda que, na opinião do Atalho, com demasiada frequência “se perdia” no atonal e no feedback. Neste aspecto particular, o  concerto de 2010 no Coliseu chegou a ser penoso.

Between the times and the tides” é um trabalho enérgico e inspirado. Por mera coincidência ou porque o guitarrista guardou para si as suas melhores composições, o facto é que qualquer destes 10 temas, respira melodia e preenche a alma como muito dificilmente as suas congéneres de “Demolished thoughts” (exceptuando talvez “Benediction” e “Illuminine”) alguma vez conseguirão.
Dito de outra maneira: “Between the times and the tides” é um trabalho imaginado, concebido e produzido (a meias entre Lee e John Agnello) para não soar datado daqui a uns meros seis meses. Equilíbrio é a expressão que emerge e com o decorrer das audições  “Waiting on a dream”, “Off the Wall”, Xtina as I knew her”, “Angles” ou “Lost” surgem cada vez mais e imprescindíveis. Curiosamente ou talvez não, conduzem-nos até “Daydream Nation” …