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18/07/16

Matt Valentine "Blazing Grace"




Matt Valentine parece ter uma espécie de devoção perene por Neil Young. Um facto que por si só nada tem de negativo, pelo contrário. Desde que se atenha ao Young que mais importa, porque há vários,  como facilmente se percebe num artista com quase 50 anos de carreira.

Em “Blazing Grace” o novo disco a solo de Valentine, alguns dos temas remetem-nos para a chamada “trilogia doom” do autor canadiano. O lado A, acústico e mais atmosférico, com “Shine a light” e “Blasted in the Haze” em destaque, clama por “Ambulance” e “Revolution Blues” de “On the Beach”. “Slang yr life” e “Merge” enfeitadas  pela guitarra de Pat Gubler ( P.G. Six ) e sobretudo “River Run”, hesitam entre a concisão sombria de “Tonight’s the Night” e a desbunda semi-anárquica de “Time fades away”.

Tudo isto poderá não parecer óbvio nas audições iniciais, mas está lá tudo, ainda que camuflado pela utilização de alguma electrónica. Erika Elder, Meg Baird e J. Mascis também ajudam a fazer de “Blazing Grace” um álbum muito interessante, embora fundamental seja uma outra coisa.

19/03/14

The Kitchen Cynics: "Yesterday Perhaps, Songs of The Kitchen Cynics", "The Orra Loon" e "Wooden Bird ... plus".



Ao perscrutar a capa do vinil de “Yesterday Perhaps, Songs of The Kitchen Cynics”,  retornam  da memória aquelas fantásticas capas da velhinha Topic Records. Muita da história e tradição orais de Inglaterra, Gales e Escócia passaram pelo catálogo daquela editora independente, quando o significado da palavra encontrava similitude na prática. A música era ancestral, as interpretações austeras e os arranjos regra geral espartanos. Os discos eram porém quase sempre brilhantes.
Alan Davidson encarna na perfeição o espírito e o legado do que atrás foi dito. Nas canções que escreve, na forma simples como as veste, no design das edições, nas amizades que cultiva, inclusivé nas fotografias que tira no acaso do quotidiano.

Sob o “nom de plume” de The Kitchen Cynics, o autor escocês anda por aí há um quarto de século, num culto alimentado boca a boca e do mais não se mostrando necessitado. As publicações, maioritariamente privadas, são às dezenas. As canções às centenas.
Uma escassa dúzia foi agora recuperada e proposta a um conjunto de amigos, entre os quais Pat Gubler ( P.G. Six ), Josephine Foster, Tom Rapp, Adam Leonard, Sharron Kraus, Alasdair Roberts ou Kathleen Baird. Na contracapa do álbum, Simon Lewis escreveu: ”focus on local history, a sense of place and life’s small pleasures is the perfect antidote for the chaos and confusion of modern day living”. E as canções de Alan Davidson são isso mesmo. Simultaneamente novas e antigas ficam bem em qualquer voz ou arranjo.
 

Yesterday Perhaps” é um daqueles discos que quanto mais se escuta mais se gosta. As prestações de Tom Rapp, P.G. Six , Adam Leonard e Alasdair Roberts são tão aditivas quanto se esperaria. Mas para além delas, Sharron Kraus trata com rara singeleza um tema difícil como “When father hanged the children”; Major Matt Mason torna abrasivo um etéreo “She’s growing old disgracefully” e até a voz habitualmente cinzenta de Josephine Foster brilha em “Winter in her bones”, acompanhada por uma guitarra portuguesa que com ela dialoga com discrição e parcimónia.
Mas, nestas coisas das canções, nada como escutar o próprio. Daí “The Orra Loon”.  Espécie de Best of, o álbum combina temas novos com versões de canções já anteriormente publicadas. E é um prazer reencontrar “I am the orra loon”, “The place you hide” ou o belíssimo “Richard of Bedlam”.

E é todo um conjunto de peças como “The Wilhemina Gabb” ( uma melodia debruçada sobre uma tragédia marítima ) aqui sustentada por um piano assombrado, “Flies” ( epitáfio para amigos que partiram demasiado cedo ), “Now’s the time” um quadro familiar pincelado por uma cítara inspirada. A terminar, “Me, Jack and Lee, and the ghost of Skip James” uma comovente evocação de dois saudosos pioneiros: Jack Rose e Lee Jackson. Tivesse chegado mais cedo e seria uma escolha óbvia para 2013.

Wooden Bird” foi publicado em Itália em 2011 numa edição limitada de 110 exemplares. Cada uma das capas foi fabricada manualmente e ostenta um pássaro diferente, cortesia de Luigi  Falagario que os desenhou. Agora conheceu uma reedição em cd, “Wooden Bird … plus incluindo 7 temas extra.
Equilibrado no seu conjunto, representa uma outra faceta do “songwriting” de Davidson. Menos próxima da sonoridade folk, mais comprometida com paisagens atmosféricas, telas preenchidas por uma guitarra que nos transporta até aos primeiros acordes de Vini Reilly com os Durutti Column. “Davy” foi pedida emprestada a Roy Harper e Robert Burns contribuiu com “Now westlin’ winds”.  Do conjunto dos temas “plus” emergem “Vineger Tom” e “Tardy Lover”, destaques óbvios de um belíssimo naipe de canções. À espera de serem devidamente apreciadas …


 

12/09/11

P. G. Six "Starry mind"

Comprem, ripem, partilhem … Façam o que for preciso, mas não percam este álbum.



Perdoem a hipérbole e a mais do que provável imprecisão histórica, mas “Starry mind” será um dos melhores discos de guitarras folk-rock, desde que Richard Thompson se mudou de Inglaterra para os EUA ( e não, não me estou a esquecer de Dave Schramm, Matt Valentine ou Ben Chasny ).



Pat Gubler é já um “habitué” aqui pelo Atalho, mas nada do que se escutou antes pode comparar com o extraordinário trabalho de ourives que emana de “Starry Mind”. A referência a Thompson não é inócua. Existe aqui um ambiente que remete para o folk inglês / irlandês, facto que conjugado com a evidente presença de uma componente “west-coast”, produz resultados esteticamente brilhantes e de grande efeito.



“January” por exemplo. Trata-se da adaptação de uma canção tradicional irlandesa. O intro da guitarra sugere o Richard Thompson de “A sailor’s life” ( Fairport Convention “Unhalfbricking” ) e estaria tudo dito, não fora ainda um intenso e quase antológico diálogo entre as guitarras de Pat Gubler e Bob Bannister . “Letter” é puro psicadelismo “west-coast” inicio dos 70’s esplanado ao longo de 5 deliciosos minutos. A bateria avança em modo jam session, logo seguida pelas 3 guitarras ( Tara Key é convidada neste tema ), enquanto lá atrás o baixo de Debby Schwartz sustenta tudo o que há para sustentar. Não terá sido certamente por acaso que este título me fez lembrar “If I could only remember my name” de David Crosby.





“Days hang heavy” regressa à beleza acústica da balada de inspiração tradicional e abre espaço para “Palace”, o verdadeiro “tour de force” do cd. O break da bateria é convicto, preciso, e o refrão introdutório ( que traz à memória “Lawyers, Guns and Money” de Warren Zevon ) indiciam que a coisa só pode melhorar. E de facto só melhora a cada nova audição. Para além disso, o trabalho de filigrana das duas guitarras deve ser sublinhado, pois artesãos deste calibre não abundam por aí. Um jardim suspenso de beleza, sensibilidade e destreza técnica, “Palace” é uma escuta obrigatória.



"Talk me down” regressa ao paradigma folk-rock com perfume psych, enquanto “Crooked way”, alicerçado num delicioso órgão Hammond, deixa espaço para a deriva preguiçosa das guitarras gémeas. Um tema a dois tempos e que deverá ser espectacular quando amplificado em palco. A terminar , “This song” conforta-nos com mais um precioso conjunto de guitarras solo, pairando sobre uma melodia serena e uma excelente vocalização de Pat.



A religião professada pelo Atalho não permite a elaboração das famigeradas listas “dos melhores do ano”. Caso assim não fosse, “Starry Mind” seria aqui o álbum do ano. Pouco importando o tempo que ainda falta para que este chegue ao fim.




29/03/10

P.G. Six "Live at VPRO Amsterdam"


Com origem em New Jersey a Perhaps Transparent Records é uma editora que de forma intermitente se dedica a publicar edições limitadas de artefactos musicais aparentemente inócuos mas que, com o passar do tempo, adquirem justificada relevância. Exemplo óbvio é “Parlor Tricks and Porch Favorites” (2001) o primeiro registo a solo de P.G. Six/Pat Gubler, um objecto de culto cada vez menos silencioso.

A editora acaba de regressar a P.G. Six com “Live at VPRO Amsterdamuma edição embrulhada num magnífico “artwork” de Kim Jones e limitada a 100 exemplares.



As fitas foram gravadas em Novembro de 2004 e captam um concerto em que o mais fervoroso discípulo americano de Bert Jansch actuou a meias com o percussionista Tim Barnes. Três dos temas - “The divine invasion”, “The shepherd” e o original de Anne Briggs “Go your way” - , são oriundos de “Parlor Tricks”, mas há também uma versão de Townes Van Zandt ( “High, low, and in between” ) e uma estimulante suite ( “Old man on the mountain /Evening comes” ) onde Gubler na guitarra e Barnes no ukelin inventam uma colorida sonoridade oriental, mesclada pelas tonalidades cinzentas do John Cale de “Velvet Underground” ou “Marble Index”.



Somadas as componentes áudio e visual, “Live at VPRO” é um artefacto a considerar, mesmo para aqueles que já conhecem a música de Pat Gubler.