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28/04/13

Horace "Waiting for the moon"


 
Criada em 1990 por Nigel Cross  (editor e fundador da revista Bucketfull of Brains ) a Shagrat Records é uma pequena editora cujo trabalho consiste em prospectar e publicar gravações inéditas do psych underground dos 70s.
Com o faro do cão pisteiro e a minúcia própria dos arquivistas, tem localizado fitas que se julgavam perdidas ou de que, simplesmente, nunca se ouvira falar. E já publicou gloriosos pedaços de história assinados por Mad River, Lawrence Hammond, Formerly Fat Harry, Larry Wallis, Bridget St. John ou Darrow Mosley Band.  

Recentemente,  o EP “Waiting for the moon fez soar a bateria de alarmes dos melómanos e colecionadores. Da responsabilidade de Horace – uma obscura banda inglesa, formada por veteranos do underground  ( Horse / Atomic Rooster ) e que permaneceu activa entre o verão de 1970 e Janeiro de1971 – o EP inclui três temas, ao que se sabe os únicos que o colectivo gravou.
“Waiting for the moon” é uma pequena preciosidade bucólica, salpicada por tonalidades psicadélicas. A espaços, o baixo lembra o “rolling” de Phil Lesh, o violino remete para Don Sugarcane Harris em “Hot Rats” de Zappa e o tema, no final, mais parece ter saído de uma sessão dos Traffic ou dos Caravan.  “See the Sun”, atmosférico e estruturalmente rico, traz de volta à memória as complexas criações de David Crosby e, aqui, “Déjà vu” ou “A Tree with no leaves” são referências óbvias. A terminar  “Mongrel Polyop” assume a forma de um instrumental psych, adornado por um violino Seatrain e um piano Nicky Hopkins, período Quicksilver.

A capa do EP é dupla, o grafismo e o design fabulosos e a edição é limitada a 250 exemplares. Se se apressarem talvez ainda cheguem a tempo.

19/12/12

Crystal Syphon "Family Evil"


E nunca se pode dizer nunca que já se ouviu tudo.
Na verdade, quando se pensava que havia sido dito tudo, escrito  e ouvido sobre o psicadelismo californiano, eis que surge “Family Evil”. E voltamos ao principio. Que é como quem diz, aos mid-sixties.
Crystal Syphon, uma banda originária de Merced, California, esteve activa entre 1965 e 1970. Não obstante, até há poucos meses era totalmente desconhecida dos amantes do psicadelismo californiano, nunca tendo sido tão pouco mencionada em nenhuma das enciclopédias do género.  Family evil” é no entanto a prova cabal de que em história não é uma ciência exacta e muito menos definitiva.

Mais de quatro décadas depois de terem sido escritos e registados, ao escutar os 10 temas que integram a primeira e última ( julgamos ) edição dos Crystal Syphon, questionamo-nos sobre o que poderia ter acontecido à época caso esta banda tivesse recebido o apoio de uma editora e/ou os favores da imprensa/público.
Partilhar os palcos com os Grateful Dead, Quicksilver, Country Joe & The Fish, Big Brother & The Holding Company, Buffalo Springfield, Creedence, Santana ou Lee Michaels, não terá sido ao que parece suficiente e os Syphon nunca usufruiram dos seus 15 minutos de fama. Desaparecem nos radares em meados de 1970.


Nascidas no período compreendido entre 1967 e 1968, estas canções são do melhor e mais genuíno que o paradigma californiano produziu na época.  Se se partir para a audição de “Family Evil” sem preconceitos e com a mente aberta, torna-se evidente e fácil de perceber que qualquer uma destas canções poderia e deveria ter constituído um ex-libris da música californiana.

“Marcy, your eyes” a abrir, ostenta um insidioso riff de guitarra pairando como um falcão sobre um órgão hipnótico. Os Brogues ou os Savage Resurrection não fizeram melhor. “Paradise” e “Have more of everything”, são  os Jefferson Airplane de “Crown of Creation” sem Grace Slick e com Tom Salles a fazer de Jorma Kaukonen. “Try something different” ecoa uma melodia de Randy California para o primeiro álbum dos Spirit, as harmonias vocais repousando sobre um baixo em registo solo, mais Phil Lesh que Jack Casidy. “Fuzzy and Jose”  e “Family Evil” ( o tema )  são jams psicadélicas do género Quicksilver Messenger Service “meets”  Airplane, para as quais até o (bom) fantasma de John Cipollina parece ter sido convocado. “Are you dead yet” é a necessária “garage song”, enquanto “In my mind” oferece um dos mais cristalinos intro de guitarra californiana da época.  “Fails to shine” sugere o edifício musical aparentemente desconexo que foi a imagem de marca dos Mad River. A terminar os fabulosos 6m e 56s de “Winter is Cold” oferecem-nos um bilhete apenas de ida para o nirvana do psych-rock, exactamente no momento do apogeu do respectivo processo evolutivo.
O Atalho reconhece o porventura excessivo entusiasmo deste texto, penitencia-se pela profusão das hipérboles, mas a verdade verdadinha é que desde há muitos anos não  recordo ter-me divertido tanto ao escutar um álbum oriundo da Califórnia.

Family Evil” é o meu disco do ano. Seja lá o que isso possa valer.


Ps: de acordo com informação prestada ao Atalho por Bob Greenlee, baixista da banda, existem várias gravações de concertos no Fillmore West. Estão em processo de remasterização e muito provavelmente verão a luz do dia em 2013. Mais uma boa notícia.

20/12/11

Mad River "Jersey Sloo"



Quem conhece o psicadelismo californiano sabe da enorme importância, embora quase nunca relevada, dos Mad River. O álbum homónimo “Mad River” ( 1968) e “Paradise Bar and Grill” (1969), sobretudo o primeiro, são dois artefactos incontornáveis, absolutamente compatíveis com a cena musical local da época e no entanto diferenciadores o suficiente para justificarem uma análise autónoma relativamente aos óbvios Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Quicksilver ou Big Brother .

A ligação afectiva e efectiva ao escritor e guru da contracultura Richard Brautigan também ajudou e hoje, quando à tranquila distância de 40 anos, se olha para o psicadelismo californiano não há como ignorar as páginas escritas em São Francisco pelos Mad River.

O Atalho não irá debruçar-se excessivamente sobre a história da banda . A chamada de atenção tem sido feita amiúde e por gente muito mais qualificada. Os discos existem e estão reeditados. E com a multiplicidade das actuais opções tecnológicas podem ser escutados sem qualquer dificuldade.





Este texto pretende apenas noticiar e primeira edição legal de 5 temas míticos gravados algures em 1967 e que apenas haviam circulado através de artefactos piratas com maior ou menor relevância áudio.

Sob a forma de um 33 rotações, o EP inclui no lado A “Jersey Sloo”, um clássico do “Bay Area Sound” , com as duas guitarras ora soltas ora entrelaçadas no mais puro estilo Quicksilver. Pena que o tema dure pouco mais de 2 minutos. O flipside integra as restantes 4 canções ( registadas nas chamadas Dayton Sessions ) e ainda que nenhum atinja a dimensão/concisão estilística de “Jersey Sloo”, acrescentam história à já enorme história dos Mad River.




Quanto ao package, diria: já não se usa. A front-cover, respeitando o artwork da época ( os autores são John Hurford e Jonathan Hill ), acolhe um fabuloso booklet de 36 páginas a cores, com dezenas de fotos inéditas, e onde, após uma introdução de Phil McMullen, David Biasotti contando com a colaboração dos ex-membros do grupo, enquadra e relata TODO o legado dos Mad River.



Eventuais interessados devem procurar em ( http://www.starryeyelandlaughing.com/madriver.htm
) quanto antes, pois a edição é limitada e também por essa razão potencialmente coleccionável.

10/01/11

Killers, Angels, Refugees ( 23 )


"Love's not the way to treat a friend" ( Richard Brautigan / David Robinson )

"Love's not the way to treat a friend
I wouldn't wish that on you.
I don't want to see your eyes forgotten
on a rainy day, lost in the endless purse
of those who remember nothing.

Love's not the way to treat a friend.
I don't want to see you end up that way
with your body being poured like wounded
marble into the architecture of those who make
bridges out of crippled birds.

Love's not the way to treat a friend.
There are so many better things for you
than to see your feelings sold
as magic lanterns to somebody whose body casts no light."


É conhecida a ligação do escritor Richard Brautigan ao grupo californiano Mad River. Uma das etapas mais brilhantes do psicadelismo americano, o álbum de estreia "Mad River" ( 1968 ) nasceu e cresceu sob a influência artistica e espiritual do poeta/romancista. O segundo, "Paradise Bar and Grill" ( 1969 ) inclui aquele que é o primeiro registo gravado por Brautigan: "Love's not the way to treat a friend".

Tendo embora resultado das sessões que estiveram na origem de "Mad River", o poema ( que David Robinson musicou ) apenas faria parte do alinhamento de "Paradise Bar and Grill".

No entretanto, em Maio de 69, Richard Brautigan permitiu a respectiva publicação na Rolling Stone nº 32 ( foto acima ). "Not the way" foi o título escolhido.