Mostrar mensagens com a etiqueta Mark Kozelek. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mark Kozelek. Mostrar todas as mensagens

07/11/14

Greanvine "Mark you that and noat you wel"


Uma versão raramente atinge a excelência do original respectivo. É mais ou menos consensual. Contudo, é extraordinária a capacidade que alguns músicos possuem para, através de versões, criarem “novos” temas. Mark Kozelek é um desses casos. Mas há mais.
Recentemente, através do projecto Greanvine, Steven Collins e Diana Collier, veteranos do defunto colectivo folk Owl Service, publicaram ”Mark you that and noat you wel”, uma colectânea de doze canções, oito das quais versões. A novidade não está tanto no número de covers, antes na natureza das mesmas.
Os Owl Service recuperaram dezenas da melodias populares e tradicionais e fizeram-no bem. Desta vez porém, para além destas e de “Child among the weeds” escrita por Lal Waterson para o seminal “Bright Phoebus”, de “Idumea” imortalizado  pelos Watersons e Young Tradition, bem como de “Winter is blue” de Vashti Bunyan, Greanvine extrapolou as fronteiras naturais do folk tradicional. “Listen the snow is falling” de Yoko Ono, “Long way around the sea” e “Kind of girl” dos Low e, sobretudo, “Remember Tomorrow” publicado em 1980 no álbum homónimo dos Iron Maiden, surpreendem.


Dito isto, perguntarão: e “Mark you that and noat you wel”? Exactamente o tipo de disco que se poderia esperar dos autores. Inovador no conteúdo, sereno na forma, subtil nos pormenores. Steven Collins revela mestria ao colocar a electrónica ao serviço da linguagem tradicional e a voz de Diana Collier nunca soou tão madura e imprescindível. As recuperações dos Low e Iron Maiden ( Long way around the sea” e “Remember tomorrow” ), por fugirem à norma, são a melhor legenda para o que fica dito. Sons que o outono muito irá apreciar.

10/01/12

Meg Baird "Seasons on Earth"


Depois de “Leaves from off the tree” (uma colaboração com Helena Espvall e Sharron Kraus) e de Dear Companion (2007), Meg Baird, a voz feminina dos Espers, o projecto neo-psicadélico de Greg Weeks, está finalmente de regresso com “Seasons on Earth”. Dito de outra maneira: temos de novo o privilégio de escutar, interpretando uma dezena de temas de uma forma muito próximo do sublime, aquela que será porventura a melhor voz feminina a surgir na folk americana em muitos muitos anos.

Para ser absolutamente sincero, ao Atalho sobram emoções e faltam palavras para descrever com critério e objectividade os sons e sensações que emergem de “Seasons on Earth”. Logo a abrir, “Babyon” dá o tom. A beleza singela da voz e a delicadeza da guitarra de Meg conquistam a mais distraída das atenções. “Stars climb up the vine” , “Share”, “The Finder” seguem a mesma via, mas sempre em crescendo.



As versões de “Friends” (um magnifico tema de 1971 escrito por Jon Mark, e desde então perdido no interior do álbum homónimo do duo Mark-Almond) e “Beatles and the Stones” (um original dos House of Love) são tão peculiares e idiossincráticas como o são por norma as versões das canções trabalhadas por Mark Kozelek, isto é: são como que novas canções, construídas em cima de uma estrutura pré-conhecida.

E no final pouco importa tergiversar sobre as steel guitars , dobros, ou percussões dos músicos convidados para este festim silencioso e quase intimista. O palco está refém da voz, guitarra acústica e talento de Meg Baird – “Stream” quase a terminar é outra peça de antologia -, e tudo o resto é pouco mais que supérfluo.

No interior da capa Meg escreveu: “for Jack Rose, who is missed more than can be expressed here or elsewhere”, uma dedicatória que diz tudo o que precisa ser dito.

18/02/09

Mark Kozelek "The Finally LP"


Poderá parecer uma associação abusiva, mas sempre que escuto um disco de Mark Kozelek recordo-me das imagens que as fotos de Dorothea Lange ou Robert Frank transformaram em ícones, na América do século passado.

Nas gerações mais recentes não é fácil encontrar um artista ( Howe Gelb anda lá por perto ) que chegue genuinamente ao âmago das idiossincrasias rurais, suburbanas, prosaicas, dos americanos. Daí que cada abordagem de Kozelek ( seja através de temas originais ou de versões ) nos sugira um mergulho no realismo social captado pela objectiva de Dorothea Lange ou no quotidiano folclórico que Robert Frank perpetuou em “The Americans”.



( Dorothea Lange, San Francisco 1937 )

Dir-se-à: mas Mark Kozelek anda há anos a fazer o mesmo disco. E daí, se quase todos têm uma história para contar? De resto, existem diferenças significativas entre as matrizes Red House Painters e Sun Kill Moon. Tal como existem entre estes e os discos a solo, espaços onde Kozelek vai normalmente direito ao osso das canções, sem tergiversações.

E depois, caramba, Kozelek é o único que consegue fazer-me ouvir uma música dos AC/DC até ao fim, facto que, tendo em conta a apreciação que faço da banda australiana, tem um enorme significado.



Nos seus escassos 30 minutos, “The finally LP”, uma compilação de temas gravados avulso para álbuns tributo ou rádios ( como a Antena 3 ), é mais um capítulo a juntar a “Rock ‘n’ roll singer” ou “What’s next to the moon”.

Simultaneamente minimalista e denso, “The finally LP”, que a espaços recorda “The circle game” de Tom Rush, recupera canções de Will Oldham como “New partner” de “Palace songs”, “Celebrated summer” dos Husker Du de “New day rising”, “Lazy dos Low the “I could live in hope”, AC/DC “If you want blood” ( não me perguntem de que disco ) e o célebre “Send in the clowns” de Stephen Sondheim, um tema que toda a gente importante cantou desde Frank Sinatra a Barbra Streisand, mas de que só me consigo lembrar da versão de Judy Collins no álbum “Judith”.



( Robert Frank, Rodeo, NYC 1955 )

The finally LP” é como quase sempre em Kozelek, um manancial de texturas silenciosas, amplas melodias, espaços vazios e recantos desalinhados. A melancolia pintada em tons de sépia.