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04/09/26

Jardins do Paraíso ( 91 )


Orange County, Califórnia, 1970.

Seguramente ofuscada pela projeccão e estatuto de alguns dos seus colegas  singer-songwriters ( Tim Buckley, Judee Sill, Jackson Browne, Joni Mitchell … ), Kathy Smith não logrou nunca almejar o patamar de sucesso compatível com o seu talento. E, neste aspecto, nem uma participação no festival da Ilha de Wight em 1970 logrou ajudar.

Não obstante gravou para a Stormy Forest de Richie Havens dois álbuns cuja obscuridade caminha paredes meias com o talento da autora.

O segundo, prosaicamente titulado de “2”, data de Novembro de 1971 e acaba de receber a primeira reedição oficial.

É um disco belíssimo, simultaneamente arrojado e intimista. O intimismo não espanta, constituía a marca de água dos singer-songwriters; o arrojo por sua vez, radica numa inovativa fusão entre o folk psicadélico e o jazz.

As canções são maioritariamente escritas por Kathy Smith. A par destas, estão também presentes temas de Jimmie Spheeris ( a conferir o seu magnífico “Isle of View”, onde o tema “Seven Virgins” surge também ), Jackson Browne ( “It’s taking so long” constitui a única versão oficialmente editada do tema ) e de Pamela Polland ( que entre muitos outros escreveu “Tulsa County Blue” para os Byrds de “Ballad of Easy Rider” ).

Alguns dos músicos, parte deles ainda ilustres desconhecidos na época, davam pelos nomes de Jan Hammer, Tony Levin, Don Alias, Warren Bernhardt, Jimmie Spheeris ou Jeremy Steig.

Tudo dito, ou quase. Faltará apenas referir que a reedição inclui dois trechos inéditos: uma demo de “For Emily” da própria Kathy Smith e uma versão frugal  de “Hang On To A Dream” de Tim Hardin


07/05/26

Eclection "BBC Top Gear Sessions"


Never was a group more appropriated named. It is made up of one Canadian, two Australians, a Norwegian and an Englishman. They have a little of Jefferson Airplane in them, a little of The Seekers, a little of the Bee Gees, a little of everyone. Their sound is based on very complex four-part harmonies. Kerrilee Male, an Australian, looks and sings like Grace Slick of the Airplane when she isn’t looking and singing like Judy Durham of the Seekers.”  ( Lillian Roxon in “Rock Encyclopedia”, 1969 )


Consta que o nome da banda terá sido proposto por Joni Mitchell ao guitarrista Mike Rosen ( o canadiano do grupo ), segundo ela “they were such a eclectic bunch”.

Verdadeiro ou não o facto é que a música dos Eclection, pouco valorizada na época, acabou por se demonstrar terrivelmente resistente à erosão do tempo, a ponto de o seu único álbum homónimo ( “Eclection”, 1968 )  ser hoje um clássico, livre de todos os incómodos inerentes a peças claramente datadas.

BBC Top Gear Sessions” é o somatório de três gravações na BBC: 23 de Julho de 1968,  ainda com Kerrilee Male ( abandonaria o mundo da música no final do ano ), 19 Novembro de 1968 e 21 de Abril de 1969, ambas já com a contribuição vocal de Dorris Henderson, uma cantora de folk / blues originária da Califórnia e que à data  tinha já no activo duas magníficas colaborações com John Renbourn.



(ZigZag, 7 Novembro 1969)

A qualidade do áudio oscila entre o razoável e o bom ( não sendo propriamente um pirata, a edição não foi avalizada pelos músicos ou dos seus representantes ), um pormaior que se desvaloriza face ao evidente interesse das gravações.

BBC Top Gear Sessions” deve ser o único registo conhecido em que Trevor Lucas interpreta “Both Sides, Now” de Joni Mitchell; da mesma forma que é o único registo onde se pode desfrutar do fantástico “Put Your Face On”, um tema que os Airplane não desdenhariam ter composto e gravado.

Para além de “Neverthless”, “Will Tomorrow Be The Same”, “Violent Drew” e “Another Time Another Place”, todos do álbum “Eclection” e de “Please”, objecto duas versões em single, os restantes sete temas eram até agora inéditos. Permitem de resto conjecturar sobre e como seria um segundo álbum caso a Elektra Records tivesse corrido o risco de o promover.

Ficaram estas gravações de uma beleza imperfeita e sobretudo ficou Eclection”, esse disco extraordinário que o tempo não logrou corroer.

Em Dezembro de 1969, Trevor Lucas e Gerry Conway partiram para os Fotheringay e mais tarde para os Fairport Convention; John Palmer integrou os Family e George Hultgreen ( aka Georg Kajanus ) fundou os Sailor.

O resto encontra-se nas páginas da história.





25/10/21

Jardins do Paraíso ( LXX )

 


Uma absoluta barbaridade, o índice de talento que a foto acima, captada por Jim Marshall em 1970, encerra.

Volvidos 50 anos, a conjugação daqueles e de outros talentos ( não menos despiciendos note-se ) continua a fazer de “If I could only remember my name” um lugar único e irrepetível. Um disco que separa as águas e que diz muito sobre os seus indefectíveis e, quase tudo, sobre os seus detractores.

Música intensa, visceral, orgânica e, se quiserem, concedo, vizinha do improviso. Uma das alegadas facetas que mais parece incomodar os fãs da pop music fofinha.

Deve muito, embora não tudo, ao seu principal mentor e compositor  David Crosby.

Para além dele e dos restantes protagonistas da foto mencionada ( Jerry Garcia, Neil Young e Phil Lesh ) convirá não esquecer os demais: Grace Slick, Jorma Kaukonen, Paul Kantner, Joni Mitchell, Gregg Rolie, Laura Allen, Graham Nash, Bill Kreutzmann, Michael Shrieve, Jack Casady, David Freiberg  e Mickey Hart, sem o contributo dos quais o álbum talvez não tivesse sustentado a intemporal dimensão de que goza há cinco décadas.

Dito de outra forma, existe um antes e um depois de “If I could only remember my name”, ponto!



( foto de Joel Bernstein )

Perguntarão: mas depois de tanto tempo e de algumas recuperações, quer sobre a forma de reedição ou a propósito de uma ou outra compilação, ainda existe espaço para uma nova edição? Existe, de facto, e a explicação reside nas 8 demos e 5 sessões que acompanham os 9 temas originais ( o título “Kids and dogs” não entra na equação uma vez que já havia sido publicado numa reedição em 2006 ).

Escutam-se as demos ( voz e guitarra acústica ) de “Laughing”, “Song with no words”, Tamalpais High (All about 3), “Games”, “The wall song” ou “Where will I be?” ( as três últimas abandonadas neste projecto mas recuperadas no ano seguinte para o álbum “David Crosby / Graham Nash ) e aquilata-se do quão enorme era o talento do autor, independentemente do ângulo escolhido para a abordagem. Uma voz inigualável, harmonias e arranjos vocais pioneiros, atonalidade de muitas composições e uma sensibilidade interpretativa verdadeiramente incomum.

Quanto às sessões, e colocando de lado a versão alternativa de “Cowboy Movie” já  publicada em 2006 na box-set “Voyage”, destaque para um extraordinário “Coast Road” que não teria destoado no álbum original, bem assim como para as maquetas “Bach Mode”, “Dancer” e “Fugue”, vozes e guitarra acústica, sempre.

Cinco décadas passadas, pouco interessarão os contornos actuais da personagem de Crosby. Incongruências, equívocos, atitudes fora da caixa, quezílias com os antigos companheiros, ainda que reveladoras do carácter, são nada ou muito pouco quando comparadas com a grandeza que “If I could only remember my name” transporta no tempo.

25/09/21

Neil Young "Archives Vol. II ( 1972 - 1976 )"

 


Grande parte da produção musical de Neil Young permanece interessante, nalguns casos muito interessante. As mais recentes opções comerciais do canadiano mostram-se todavia bastante questionáveis, para dizer não dizer duvidosas.

Atente-se por exemplo em “Archives Vol II ( 1972 – 1976 )” e apenas para não ir mais longe.

Não parece aceitável que numa edição de 10 cds  ( que à partida se pretendia única e ilustrativa de gravações que, na sequência de decisões de enquadramento editorial ou outras de carácter mais pessoal, não foram objecto de publicação à época ), um terço seja constituído por discos já publicados individualmente na série Arquivos. Em concreto “Homegrown”, “Tuscaloosa” e “Roxy, Tonight’s the night” ( este último com uma “ligeira” nuance na inclusão de “Losing End” ).

Ademais, dos 132 temas que integram “Archives Vol II”, 46 são versões diferentes de canções já publicadas e apenas 12 constituem verdadeiros inéditos. Donde que, como se infere, o balanço poderá ser francamente questionável, sobretudo por aqueles que legitimamente esperavam a anunciada profusão de inéditos ( veja-se por comparação a série “Bootlegs” de Bob Dylan ).

Dito isto, “Archives Vol II” valerá a pena? Para os fãs, para os quais estes “pequenos” detalhes têm pouca relevância, claramente. Para os indefectíveis de Joni Mitchell também tendo em conta o inédito “Sweet Joni”, captado no Bakersfield Civic Auditorium a 11 de Março de 1973 e a curiosa versão de “Raised On Robbery”, suportada pela banda que acompanhou o canadiano em “Tonight’s the night”, além de Joni Mitchell herself.  

Quanto à esmagadora maioria, e tendo em conta o preço a que a box é comercializada, talvez seja de considerar a opção de esperar pela publicação isolada de “The Old Homestead”, agrupando gravações datadas de 1974  e que inclui 4 inéditos e 12 versões não publicadas, entre estas duas longas prestações de palco com Crosby Stills Nash & Young: “Pushed it over the end” e “On the Beach”.



24/06/21

Artefactos ( 112 )

 


TIME, 12 Fevereiro 1973


TIME, 16 Dezembro 1974

22/06/21

Joni Mitchell "Blue"



O Atalho não tem por hábito prestar-se a efemérides mas hoje, no dia em que "Blue" completa as suas bodas de ouro, abre uma excepção que todos por certo compreenderão. As demos abaixo substituem quaisquer adjectivos de circunstância. Era só!



29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

10/07/18

Artefactos ( 81 )


Jornal "Musicalíssimo" # 47
21 de Setembro de 1973

29/10/17

The Weather Station "S/t"



Tradicional viveiro de talentos, o Canadá produz com uma regularidade quase científica autores de canções de qualidade excepcional.

Relembrar alguns dos nomes mais proeminentes seria despiciendo, pelo que importa salientar desde já a mais recente jóia da coroa: Tamara Lindeman.

Ao quarto álbum, sob o “nom de plume” The Weather Station, a canadense ultrapassa o paradigma Aimee Mann que muitos se apressaram a atribuí-lhe e parte em direcção a outros patamares ilustres: Joni Mitchell e Raymond Carver, por exemplo. A primeira pelos detalhes vocais, estilísticos e emocionais; o segundo pela concisão e minimalismo na expressão dos estados de alma.

Dito isto, “The Weather Station” são 37 minutos de puro deleite; 11 canções enxutas que serpenteiam por entre sentimentos de amor e perda, fragmentos de memórias que recusam o esquecimento.

Para ir saboreando, como acontece com todos os grandes discos.