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15/07/17

Alex Rex "Vermillion"



Recorrendo ao alter ego Alex Rex e aproveitando uma licença sabática dos Trembling Bells, Alex Nielson acaba de publicar  aquele que é verdadeiramente o seu primeiro álbum a solo: “Vermillion”.

Um criador de mente aberta, Nielson é já  um veterano no campo do experimentalismo e da improvisação. Apaixonado também pela folk e tradições pagãs que a corporizam, o músico inglês tornou-se sobretudo conhecido em 2008 quando criou os Trembling Bells e, mais tarde, os Death Shanties.

Para trás ficaram as parcerias experimentais com Richard Youngs; agora é o tempo de pendurar na parede as fotos de velhos ícones folk como Shirley Collins ou Norma Waterson.

Todavia, ainda assim, aquela que aparenta ser a sua paixão maior encontra-se no legado da Incredible String Band.  De facto é possível dissecar e virar do avesso os discos dos Bells, no final o que resta é quase sempre aquela sonoridade atonal e iconoclasta da banda escocesa.

Vermillion” não é nem poderia ser muito diferente. Nielson está apaixonado pela folk e o paganismo que celebra, mais não é que a sua forma particular de olhar a tradição. Desconfortável umas vezes ( “The Screaming Cathedral” ou “Postcards from a dream” ), sublime noutras ( “Lucy” ou “Please God make me good, but not yet” ), antigo noutras ainda ( “The perpetually replenished Cup” ), “Vermillion” é um disco extraordinário que como todas as obras do mesmo calibre não se esgota no tempo. E as velhas bandeiras da Incredible String Band e, já agora, também da Albion Country Band ondulam de novo ao sabor dos ventos.

09/03/13

Alasdair Roberts & Friends "A Wonder Working Stone"


Há semanas que ando a escutar “A wonder working stone”, silenciosamente. Gosto tanto que tenho resistido a partilhá-lo. Uma atitude que se encontra nos antípodas de tudo o que o Atalho significa e totalmente ao invés do espírito que presidiu à sua criação.
Mas chegou finalmente a altura da respectiva partilha. Do meu ponto de vista, trata-se de um dos mais marcantes e porventura históricos registos da folk britânica deste século. E estou a pesar cada uma das palavras.

Não existe no novo cd de Alasdair Roberts um único momento débil. São dez peças musicais ( hesito em chamar-lhes apenas canções ) que ocupam um espaço único no tempo e na narrativa da música de inspiração tradicional contemporânea. Uma atmosfera de “Renaissance Fair”, claramente pagã, mesclada por arquitecturas antigas ( medievais ) que conduzem a resultados únicos, muito mais convincentes que companheiros de viagem como Trembling Bells por exemplo. E aqui chegados,é impossível não relembrar a herança de outras lendas escocesas como a Incredible String Band de Mike Heron ( pelo lado da melodia ) e Robin Williamson ( pela inspiração e experimentalismo ).

Semanas de audições silenciosas, dizia. Porque tinha de ser assim. A profusão de pistas e a riqueza estrutural que cada tema transporta, são tais que ao primeiro contacto, aqueles surgem difusos e aparentemente pouco distintos uns dos outros. É necessário tempo e paciência para que o processo desconstrutivo  tenha lugar e possa ser possível escutar cada nuance, cada melodia, cada recanto interpretativo, e no final se possa usufruir  de toda a riqueza e competência ( instrumental e vocal ) que Alasdair Roberts  tem para oferecer.
Salientar qualquer um dos temas seria, como se infere do que atrás ficou dito, despiciendo. O álbum vale como um todo e é como um todo que deve ser escutado e saboreado. Também porque é seguramente a melhor colectânea  que Alasdair Roberts já gravou.

07/12/10

Trembling Bells "New Year's Eve's the Loneliest Night of the Year / Feast of Stephen"


O "artwork" é de se lhe tirar o chapéu, o conteúdo nem tanto.

Bonnie 'Prince' Billy nunca foi muito popular por aqui pelo Atalho e não é com este "New Year's Eve's the Loneliest Night of the Year" que irá alterar tal estado de coisas.

O lado B arranca bastante mais consistente pois Mike Heron é farinha de outro saco. Não obstante a utilização avulsa dos metais e o protagonismo da bateria contribuem para desvirtuar a matriz da canção. De tal forma que no final não se percebe bem qual era a ideia.

Um single que serve sobretudo para marcar o terreno enquanto se aguarda pelo novo álbum, apontado para Março de 2011.

05/05/10

Trembling Bells "Abandoned Love"


Com “Adieu, England”, “Abandoned Love” começa exactamente onde terminou o anterior “Carbeth”. Uma alquimia sonora, inspirada no folk tradicional, organicamente executada com recurso à moderna tecnologia, salpicada por elementos oriundos do avant-garde e/ou territórios vizinhos da música improvisada. A sense of history and Britishness…”, segundo a avaliação do mítico produtor Joe Boyd disponibilizada no “inner sleeve” do CD.

Prossegue mais adiante com “Man is as a garden born”, mais uma vocalização sublime de Lavinia Blackwall e um notável desempenho da bateria de Alex Neilson. Ambos de tal forma estratosféricos que os metais, os órgãos e os restantes instrumentos como que passam a um plano secundário.

Em 1991 os Crowded House escreveram um hino pop a que deram o título de “Four Seasons in one day”. “Baby, lay your burden down” encaixa na perfeição na alegoria. Principia com a voz treinada de Lavinia, desliza pelo universo do “music hall”, encanta-se com o formato “sing- along”; tudo colado com um furioso solo de “acid-guitar”. Excelente e incaracterizável.

“Did you sing together?”, “September is the month of death”, “Love made an outlaw of my heart” e “All good men come last” incorporando atalhos para a música antiga, o fuzz-rock, Fairport período Dave Swarbrick / Richard Thompson ou Strawbs de “Grave new world”, são mais do mesmo, o que como por certo nesta altura o leitor já percebeu, é algo de muito bom.

Perguntar-se-á: mas “Abandoned Love” não tem pontos fracos? Claro que sim! “Ravenna” é um erro de casting, a ausência da guitarra de Ben Reynolds é ensurdecedora ( Mike Hastings recorre ao volume para o disfarçar, mas é manifestamente mal sucedido ), algumas prestações de Lavinia permanecem demasiado efusivas e “Darling” teria de crescer bastante para poder integrar o alinhamento de, por exemplo, “Like an old fashionable waltz”.

Daí que “Abandoned Love” fique ligeiramente a perder quando comparado com “Carbeth” , um disco do outro mundo. Possui no entanto uma qualidade muito acima da média e oferece um versátil e colorido painel onde a inteligência da música e dos músicos nos surpreende a cada acorde.

25/01/10

Black Flowers "I grew from a stone to a statue"


Por vezes, as repetidas escutas quase nos fazem esquecer a qualidade de uma canção. “Calvary Cross” é um desses casos. A versão “garage-folk” que os Black Flowers praticam do tema de Richard Thompson como que nos faz descer à terra e olhar a canção na sua verdadeira dimensão, não tanto pela imagem que o hábito e a memória moldaram. Sublime o original. Absolutamente velvetiana a versão.

A referência do Atalho aos Black Flowers surge na sequência da abordagem anterior aos Trembling Bells. Os nomes de Alex Neilson e Lavinia Blackwall são comuns aos dois projectos, sendo que aqui Alasdair Roberts é membro permanente, um pormaior que faz toda a diferença. A guitarra cavernosa na canção de Thompson é a prova acabada disso mesmo.



Mas para além de “Calvary Cross” há “Polly on the shore”, esta também numa versão mais radical - relativamente ao tradicional que conhecemos aos Trees em “On the shore”, aos Fairport em “Nine” ou a Martin Carthy em “Prince Heathen” -, embora não menos essencial. O órgão de Lavinia é um verdadeiro achado e o solo de guitarra é de antologia.

“Hot crosses” enquadra-se nas prestações experimentais de Alex Neilson. Por seu lado “And the words fell like malting blossom” remete-nos para as vocalizações atonais que David Crosby inventou em “I’d swear there was somebody here”, o título que encerra o legendário “If I could only remember my name”. A terminar, “Sweet rivers of redeeming love” regressa à harmonia melódica da canção folk tradicional e são curtos os seus 4m 11s para tanta beleza e simplicidade.


I grew from a stone to a statue” é um disco essencial para quem apreciou “Carbeth”, ainda que o seu ADN seja algo diverso. Depois de dois trabalhos com esta dimensão, mal podemos esperar pelo próximo Trembling Bells, apontado para a primavera.

Nota: o artwork criado para a capa do Cd e aqui reproduzido é da autoria de Lavinia Blackwall.

13/01/10

Trembling Bells "Carbeth"


A abertura, “I listed all of the velvet lessons”, é absolutamente extraordinária! Como se a Incredible String Band de “The 5000 spirits or the layers of the onion”, os Fairport Convention de “Unhalfbricking” e os Steeleye Span de “Hark! The Village wait”, juntos, tivessem regressado ao futuro, em 2009. Estamos ainda no começo, no entanto este tema já justifica a audição de “Carbeth”.

Os Trembling Bells nasceram em Glasgow pela mão de Alex Neilson. Baterista, animador dos Scatter e Directing Hand, membro quase indispensável das entourages de Richard Youngs, Six Organs of Admittance, Bonnie Prince Billy, Alasdair Roberts ou Current 93, escreveu todos os temas e recrutou Lavinia Blackwell (membro dos colectivos Pendulums e Black Flowers ), aquela que se prepara para vir a ser uma das vozes da folk do Reino Unido. Pena que o guitarrista Ben Reynolds não seja um Richard Thompson …

Entretanto, “Carbeth” vai seguindo o seu caminho. “I took to you (like Christ to wood)” adiciona o experimental à “chamber folk” e o resultado está perto do sublime. “When I was young” não se afasta daquela matriz embora procure terrenos mais tradicionais. A vocalização de Lavinia, apesar de excessivamente pirotécnica ( a maturidade poderá vir a dar uma ajuda ), aponta para os melhores registos de Jacqui McShee com Pentangle.



Por esta altura, o fôlego já vai escasseando e “Carbeth” ainda vai no primeiro terço.

Estão para chegar o “psychedelic noise” de “The end is the beginning born knowing”, as melodias de “Summer’s waning” ou “Willows of Carbeth” (quase que dá para imaginar Sandy Denny e Judy Collins juntas, no mesmo estúdio ) e “Your head is the house of your tongue” uma espécie de retorno à Incredible String Band e a Changing horses”.

“Garlands of Stars” são as quatro estações num só dia; rock experimental, psicadélico, folk-rock e melodias celtas, coabitam e interagem com graciosidade e inteligência. E a terminar, “Seven years a teardrop”, com Lavinia e Neilson “a cappella” num registo muito próximo da matriz que Shirley Collins desenvolveu com talento e mestria, antes de as suas cordas vocais cederem, ao que parece em definitivo.

No passado recente não me recordo de um conjunto de canções que fizessem tanto sentido juntas. Por essa via, “Carbeth” atinge uma dimensão que a história saberá por certo acolher. Deveria ser distribuído em todas as escolas de música.