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26/06/14

Teeth of the Sea "A field in England Re Imagined"



No âmbito do Record Store Day, Teeth of The Sea, a mais genuína banda psicadélica a emergir no Reino Unido depois dos Flying Saucer Attack, acaba de publicar em formato vinil o mini álbum “A field in England Re Imagined” ( edição limitada e muito provavelmente já esgotada ).

Se nada mais tivesse gravado, a estreia com “Orphaned by the ocean” ( 2009 ) seria mais do que suficiente para que o colectivo de psiconautas londrinos tivesse o seu lugar cativo no panteão dos heróis do moderno psicadelismo ( conferir aqui ).

Mas “Your Mercury” ( 2010 ) e o anterior “Master” ( 2013 ) rebocaram um estatuto que o agora também visionário “A field in England Re Imagined” consolida.

De uma incontida dimensão cinemática, a música dos TOTS conduz ao sonho e as coloridas paletes sonoras projectam-se no universo ficcional de cada individuo. Não haverá certamente duas pessoas que interpretem do mesmo modo uma música que, em simultâneo, as convoca para Flying Saucer Attack, Cormac McCarty, Popol Vuh, Raymond Carver, Terrence Malick, Nudity ou Windy & Carl.  Sublime.

26/01/11

Teeth of The Sea "Your Mercury"


Your Mercury” anda há semanas a entrar e a sair do leitor de cds. É um excelente disco e algo me diz que devia gostar mais dele, em lugar de apenas o apreciar a espaços. A verdade porém é que o primeiro, “Orphaned by the ocean”, deixou marcas profundíssimas aqui pelo Atalho. Inevitavelmente, tudo o que vier a seguir é prejudicado na comparação.

“Transfinite” é uma magnifica peça de psicadelismo electrónico. “Midas Rex” e “Mothlike” são lugares onde o krautrock e moderna “ambient music” se interceptam. “Hovis Coil” é tão bom que poderia fazer parte de “Orphaned”, enquanto “Horses with hands” propala uma atmosfera que não seria estranha ao Brian Eno de “Before and after science” ou “Taking tiger mountain”.

Mas pelo meio há “The Ambassador”, “A.C.R.O.N.Y.M.” e “You’re Mercury”; concessões porventura excessivas a Morricone e ao Prog. Corpos estranhos que afectam de forma significativa o equilíbrio visionário anterior e que se perdem no equivoco que sempre é a música de dança. E eu que quando algo me sugere Pet Shop Boys ou “drum ‘n’ bass” pelo logo na carabina, acho sinceramente que “Your Mercury” teria sido um tremendíssimo mini-LP. Assim sendo, resta-me programar o leitor de cds

15/02/10

Teeth of the Sea "Hypnoticon"


Teeth of the Sea ! É difícil imaginar uma banda que nesta altura me dê mais prazer escutar. “Orphaned by the ocean” permanece um favorito aqui no Atalho e “Hypnoticon”, o EP encarregue de abrir espaço ao próximo álbum, vai pelo mesmo caminho.

Se fosse ingénuo estaria nesta altura a perguntar-me como é possível, estando música como esta disponível, alguém conseguir ouvir Vampires, Florences, Grizzlys, Joannas, Pandas e outros peluches da moda. Mas, como há muito deixei de o ser e detecto a léguas a preguiça e a manipulação dos chamados divulgadores, até percebo.

(artwork: Roisin Dunne)

Grupo de aventureiros psiconautas, os Teeth of the Sea mergulham em muitos dos universos por aqui apreciados: o drone, o psicadélico, o space-rock, o jazz, o experimentalismo alemão, até a vertente cinzenta, angulosa e psicótica dos Joy Division (“Hypnoticon Viva” lembra quão irresistível foi e ainda é “Transmission”).

Embora enorme “Hypnoticon Viva” não retira estatura a “The Island is”, a pièce de resistance” deste EP onde o drone, a “kosmische musik” e o pós-rock confluem com invulgar eficácia, criando uma liturgia sonora , por cima da qual paira, hipnótico, um trompete.

Perante música com esta consistência, muito do que por aí se ouve só pode ser considerado acessório.

10/01/09

Teeth of the Sea "Orphaned by the Ocean"



Tinham começado a deparar com extensões de pinheiros mortos, derrubados por ciclones, grandes rasgões de devastação na paisagem, como golpes de gadanha. Destroços de edifícios espalhados por todo o lado e novelos de fio dos postes da berma emaranhados como fragmentos de malha. A estrada encontrava-se juncada de detritos e não era fácil avançar com o carrinho. Por fim, sentaram-se os dois na berma, a perscrutar o que tinham diante dos olhos. Telhados de casas, troncos de árvores. Um barco. Ao fundo o céu aberto e, ao longe, o mar soturno a ondular molemente.” ( Cormac McCarthy, “A Estrada” )


Na ficção de McCarthy o homem e o rapaz, depois de uma peregrinação épica através das estradas retalhadas do mundo pós-apocalipse, chegam finalmente ao mar. Para eles a aventura terminava ali, numa elevação por cima das dunas, observando a praia marmoreada de destroços e o oceano cinzento, lá ao longe.

Para os Teeth of the Sea, a epopeia começa exactamente ali, no local onde “as ondas rebentam e recuam de novo sobre a areia sombria e mosqueada”.




Orphaned by the ocean” o registo de estreia deste colectivo londrino, não podia ser mais auspicioso. Inspirado, voluntariamente ou não, na supra citada obra de Cormac McCarthy este projecto sónico-experimentalista reflecte também uma visão pouco optimista dos comportamentos humanos, com os seus semelhantes e com a natureza. Soçobra uma ténue esperança no texto reproduzido no booklet do CD, mas pouco mais do que isso.

O álbum integra sete peças instrumentais. Derivações avant-rock, que conduzidas ora pelos efeitos electrónicos da guitarra, ora seguindo as investidas cósmicas do trompete, mas sempre escoradas no compasso tribal que emerge da secção rítmica ( Joy Division e “Dead Souls” estão lá por trás, à espreita ), percorrem um significativo roteiro de “estradas” que antes de desaguarem no oceano, serpenteiam pelos trilhos do space, psych, kraut e avant-rock, numa combustão sonora que não deixará ninguém indiferente.



( poster, autora Kate "Masonic Boom" St. Claire )

“Swear blind the alsatian’s metting” e “Sentimental Journey” em particular, sugerem tempestades que após o respectivo crescendo apocalíptico, gradualmente, se dissolvem em espaços de quietude como “Dreadnought” ou “Latin inches”, momentos de tréguas implementadas pela necessidade de remover os destroços que inevitavelmente deram à costa.

Robert Wyatt, certamente não se teria importado de emprestar a sua voz, a mais triste do mundo, a este magnífico conjunto de paisagens exaustas e cinzentas.