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01/12/25

Jardins do Paraíso ( 89)



Publicado na Austrália em 1972 via Warner Brothers, “Maranatha” foi o primeiro álbum de Megan Sue Hicks, uma norte-americana expatriada. 

Vivia-se o período dourado dos singer songwriters e “Maranatha”, fruto da sua sensibilidade algo clandestina, bem como do reduzido número de cópias em circulação ( apenas duzentas ), cedo ganhou o estatuto de disco de culto. 

Agora, finalmente reeditado de forma oficial, é possível ao comum dos mortais dissecar as canções de Megan Sue Hicks sem que para isso seja necessário vender um rim para adquirir uma cópia original. 

Vivia-se o período de maior exuberância dos singer singwriters dizia, e “Maranatha” é daquela corrente um fiel apaniguado. Mas não apenas. 

Se atendermos a canções como “One last alley” ou “Cle’s Song” é praticamente impossível não acabarmos no pátio de “Full House” ou “Angel delight” ou seja, Fairport Convention pós Sandy Denny. “Peter’s Song ( And He’ll Probably Never Hear It )” possui aquele sentimento bucólico, apanágio da contemporânea Vashti Bunyan e que, anos mais tarde, inspiraria a também britânica Virginia Astley

Aqui e ali, mais nos textos que nas melodias, assomam algumas semelhanças com essa outra “flor do mal” que foi Judee Sill

Acompanhada pelos The Flying Circus, uma banda constituída por músicos australianos e neo-zelandeses, Megan Sue Hicks teve aqui o seu primeiro e porventura único momento de glória. Fosse a sua interpretação vocal um pouco mais consistente, a generalidade do Lado B tão atraente quanto o Lado A, misturas e produção um nadinha mais profissionais e estaríamos a falar de uma perene obra prima. 

Todo o modo, “Maranatha” está acima de muitos dos álbuns em cuja corrente se insere. E depois, há “Hey, Can You Come Out And Play” …

 

16/06/20

Constantine "In Memory Of A Summer Day"



Os dias são de chumbo. Feios, incertos e perigosos. Mas de quando em vez surgem episódios,  pequenos nadas dir-se-à, que ajudam a recolocar em níveis aceitáveis a esperança no género humano.

Quatro anos após “Day of Light”, Constantine Hastalis regressa, já não para  surpreender, antes para confirmar a sua candidatura como um dos mais genuínos herdeiros do Donovan trovadoresco e pastoral que conhecemos outrora.  

In Memory Of A Summer Day” é o album de que necessitamos nesta altura. Tranquilo, primaveril e hipnótico em simultâneo. Evoca memórias passadas, imagens algo difusas e nostálgicas de um tempo assumidamente juvenil que a adolescência roubou.
Tem muito de Pré-Rafaelita também, porque usa o romantismo como língua mãe. Os  cavaleiros batem-se pelas suas damas, as manhãs de primavera despertam  sentimentos trovadorescos, o cantar vespertino das aves inspira os poetas e os verões intermináveis, como desejável.

Os títulos das canções são a este nível absolutamente esclarecedores: “Upon your rise”, “Morning, The Meandering Path”, “Spring”, “My Dear Alice”, “Slaying The Dragon”, “Matilda of the Meadow”, “Afternoon, In Memory Of a Summer Day”, “Upon a Dream” …

A construção musical é simples, os arranjos deliberadamente antigos e os instrumentos predominantemente acústicos ( cravo, a cítara e flauta em destaque  ). Constantine não terá os dotes vocais de Donovan Leich nem o virtuosismo instrumental de Timothy Renner ( outro nome que ressurge quando se escutam estas canções ).

Não obstante, “In Memory of a Summer Day” é um daqueles discos que, para além de cativar, hipnotiza, corteja a ficção e remete para um passado “naif” onde nada se afigurava impossível, por mais que o fosse verdadeiramente.

Um irmão gémeo tardio de “From Gardens where we feel secure” de Virginia Astley. Escutem “Morning, The Meandering Path”, “Spring”, “Slaying The Dragon”, “Afternoon, In Memory of a Summer Day” ou “The Kingdom Must Fall” e descubram porquê.