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15/02/11

"We bring you a King with a head of gold: Dark Britannica II"


Ao longo de séculos, e mais recentemente com maior ou menor visibilidade, as culturas celta e anglo-saxónica mantiveram vivo o ritual pagão da celebração anual das colheitas ( “Lughnasadh” para os celtas, “Lammas” para os saxões ).

No mundo de hoje, o manutenção desta tradição pode muito bem significar mais do que um mero acto de preservação cultural levado a cabo por meia dúzia de freaks. Por muito que custe aos apóstolos do modernaço e às mulheres a dias das novas tecnologias, o futuro, tal como o passado, passará pela terra enquanto instrumento fundamental da sobrevivência. Resta saber se quando mais dela precisarmos, ainda dispomos da água necessária para a manter fecunda.



Tal como John Barleycorn Rebornem 2008, “We bring you a King with a head of gold: Dark Britannica II”” é um duplo CD que se debruça sobre estes temas e que recorre – simultaneamente divulgando – aos músicos britânicos que comungam de idênticas preocupações.

E nesse particular “Dark Britannica II” é uma compilação absolutamente admirável, quer no conteúdo quer na forma. Ao tema nuclear – as colheitas – junta-se um significativo conjunto de canções de cariz tradicional, verdadeiras janelas com vista para a história da Britannia, factual ou suportada nas suas lendas ancestrais. E aqui, entre as inevitáveis “murder ballads” e profusas referências históricas, podemos encontrar velhas personagens do imaginário popular como Arthur/Guinnevere, o Mafarrico, Jack in the Green / Green Man, Black Sarah, King Owen, Jack the Mommet, Ceres…



Do lado dos protagonistas, os músicos, para além de favoritos do Atalho como The Rowen Amber Mill, Wyrdstone ou Richard Skelton, é um prazer reencontrar as prestações de Drohne, Corncrow ou Tinkerscuss ( repescados de “John Barleycorn Reborn” ). Mas é sobretudo um gosto descobrir nomes como Cernunnos Rising ( George Nicholas será um Scott Walker convertido ao folk britânico ?? ), Laienda, Kate Harrison, Mama, Telling the Bees, Magicfolk, Philip Butler & Natasha Tranter, The Kittiwakes ou Richard Masters.

Tudo o que atrás fica escrito é mais do que suficiente para recomendar "Dark Britannica II". Não obstante o CD cumpre e bem aquela que é a principal função de uma verdadeira compilação: fornece abundantes pistas sobre nomes que doutra forma talvez nunca viéssemos a descobrir.

10/06/08

"John Barleycorn reborn, dark Britannica"

A lenda associada à figura da mitologia britânica John Barleycorn, reza que num certo dia três meliantes decidiram que o pobre John devia morrer. Vai daí enfiaram o homem dentro de um barril e enterraram-no vivo. Na primavera seguinte, John emergiu, vivo, ostentando uma garbosa barba. Os três relapsos voltaram à carga; amarraram Barleycorn a um poste e torturaram-no, na esperança que morresse. Mas John foi mais forte e em lugar de morrer, o seu corpo transformou-se em grãos de cevada, os quais deram origem a cerveja. Ainda de acordo com a mitologia, Barleycorn nunca foi derrotado, passando ele a humilhar, através da bebida, todos os que o desafiavam.

Uma das cantigas tradicionais mais antigas das ilhas britânicas, consta que “John Barleycorn” terá sido escrita por autor desconhecido em 1588; adaptada por Robbie Burns em 1782 e desde então recuperada como cantiga de celebrações pagãs, sempre que se viviam as épocas relativas às colheitas dos cereais.

Mais recentemente desde que no final dos anos 60 do século XX a Inglaterra conheceu o renascimento da música tradicional, “John Barleycorn” tem sido seguramente uma das canções populares mais interpretadas pelos artistas do folk e do folk-rock. A adaptação mais conhecida será a dos Traffic no álbum “John Barleycorn must die”. Mas existem muitas outras (Steeleye Span, Bert Jansche, Martin Carthy, John Renbourn, Green Crown, Tickawinda, Pentangle ) a justificar a visita.

Em finais de 2007, Mark Coyle um entusiasta que anima a editora folk Woven Wheat Whispers, teve a ideia de pedir a um conjunto de “artistas maioritariamente desconhecidos e que fazem música folk não convencional” para se debruçarem sobre a lenda. O resultado chama-se “John Barleycorn reborn: dark britannica”, explora o mito e a respectiva personagem em 66 canções, repartidas por três capítulos: nascimento, morte e renascimento.

Dividido em duas partes ( um duplo CD com 33 temas e um segundo volume disponibilizado via download ) “John Barleycorn reborn” é uma das edições mais apaixonantes que a música inglesa de inspiração folk conheceu nos últimos anos.
Como se viu, o critério foi descobrir e promover músicos que se movimentam na música tradicional, criando em simultâneo novas formas, proporcionando que o choque/tensão entre o experimentalismo e as linguagens mais conservadoras ou tradicionais, crie uma outra forma de expressão. Se a isto se chamar “dark britannica” ou outra coisa qualquer, parece-me irrelevante.

Artistas como Story, Mary Jane, Sharron Kraus, Charlotte Greig, Alphane Moon, Straw Bear Band, Owl Service, Kitchen Cynics ou Martyn Bates, são nomes habituais nas diversas cenas alternativas. Outros serão porventura ainda mais obscuros. Todavia, todos contribuem para um espantoso conjunto de sonoridades que celebra uma mitologia de inspiração pagã, a qual tanto pode ser servida por uma melodia tradicional/medieval como por linguagem electrónica de matriz esotérica.

Deste confronto de sonoridades, resulta um belíssimo edifício com uma arquitectura própria a partir da qual, doravante, passarão a ser medidas todas as futuras construções em torno do folk tradicional inglês.