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27/11/17

Randy Newman "Dark Matter"



Randy Newman foi, é e será único.

Desde há largos anos, talvez o herdeiro último da tradição musical Tin Pan Alley, Newman compõe lenta e minuciosamente, como um ourives. Publica quando tem algo de importante a dizer e não porque sim, como é hábito por aí.

Dir-se-á: as suas letras nunca atingirão o lirismo de um Dylan, a emotividade de Springsteen ou a iconoclastia de um Waits, mas em contrapartida são feitas de uma mordacidade sem limites. Nesse particular roçam a genialidade, sendo absolutamente cirúrgicas e eficazes. 

Atente-se em “A few words in defence of our Country” de há uns anos ou em “Putin” no recém editado “Dark Matter”. Aqui, os cerca de 8 minutos de “The Great Debate” poderão parecer excessivos, mas mesmo o mais conciso dos song-writers teria dificuldade em retratar a América do pré e pós Trump num tema mais curto.

Quanto a “Putin”: “… Putin puttin’ his pants on/One leg at a time/You mean he’s just like a regular fellow, huh?/He ain’t nothing like a regular fellow/Putin puttin’ his hat on/Hat size number nine/You sayin’ Putin’s getting’ big headed?/Putin’s head’s just fine…”, o próprio não deixará certamente de sorrir ante o humor subtil do retrato.

Os tocantes “Lost without you” e “She chose me” são olhares serenos sobre a vida, algo que só o actual  Newman poderia escrever. Dito isto, “Dark matter” inclui canções notáveis, mas carece de unidade. Musicalmente encontra-se perto de “Ragtime” e longe do genial  Sail Away”, mesmo até de “Good Old Boys” ou “Little Criminals”. Uma proximidade que os fãs seguramente prefeririam.

16/10/15

Record Files ( 12 )




"The album is difficult. The album is brilliant ... Take this album, play it half a dozen times to accustom yourself to the tension between the rough bite of the vocal work and the fire and lace arrangements ... The lyrics come through, then.  They are sardonic, and the situations they evoque are devasting ..." ( in Crawdaddy!, Junho 1968 )



Publicado em Abril de 68, quando o autor era já um reputado criador de canções, o primeiro album de Randy Newman constituiu uma revelação. Inspirado, corrosivo e sobretudo muito atento, Newman inaugurou aqui uma série de grandes discos que se prolongaria por décadas.



A primeira prensagem, exibia uma capa cujo design oscilava entre o colorido e o celeste ( o disco é muitas vezes sub-titulado "Randy Newman creates something new under the sun" ), mas que rapidamente foi substituída por uma outra, mais austera e porventura mais de acordo com o respectivo conteúdo.

15/12/11

Jacques Vassal, Randy Newman e eu


Finais de 1979. Numa das minhas primeiras visitas a Paris, tinha previamente planeada uma conversa/entrevista com Jacques Vassal, redactor da revista Rock & Folk e, à data, uma das referências continentais no que dizia respeito à música de inspiração folk americana, britânica e francesa.
 

Encontrada a rua e o número, transposta a enorme e característica porta de madeira que os velhos edifícios parisienses sustentam e consultada a “concierge” – “Monsieur Vassal, 1er étage, s’il vous plait” – subimos ( eu e o João ) as escadas e tocámos a respectiva campainha. 30 segundos volvidos , nada aconteceu. No interior do apartamento eram perfeitamente audíveis o piano e voz inconfundíveis de Randy Newman. Nova insistência, não fora a campainha não ter cumprido devidamente os propósitos para os quais ali tinha sido colocada. A porta permaneceu fechada. Lá dentro, a voz nasalada de Newman continuava a arrastar-se por entre as palavras de “Sail Away” .



Por fim calou-se. Segundos depois a porta abriu-se e Monsieur Vassal, ostentando um sorriso de orelha a orelha, fez as honras da casa enquanto simultaneamente pedia desculpa por não ter aberto a porta atempadamente … Era uma regra sua não o fazer enquanto a canção, qualquer canção em escuta, não terminasse.
A esta regra, que fazia questão de cumprir religiosamente, acrescia o facto de Randy Newman ter agendado para essa mesma noite um concerto no Teatro dos Campos Eliseos e, como tal, “precisava de reescutar a sua discografia para se preparar”.




Recordo-me de termos falado de Randy Newman, do seu humor corrosivo, das suas canções peculiares e do estatuto que a sua música principiava a ganhar na Europa. Julgo que não cheguei a abordar com Monsieur Vassal nenhum dos assuntos que me tinham levado a procurá-lo. A dada altura, pediu imensa desculpa mas por razões profissionais necessitava de voltar a escutar Little Criminals”, outro álbum seminal do californiano. E como tal …

Escusado será dizer que a performance de Randy Newman dessa noite foi, aos meus olhos e ouvidos, absolutamente assombrosa. Entre outras coisas, recordo-me que, quando a última nota do piano de “Old man” se dissipou na acústica do Theatre des Chanps-Elysées, e imediatamente antes da sala ribombar em aplausos, na assistência alguém gritou: “Parfait!”. Terá sido Monsieur Vassal?





 

19/08/08

Randy Newman "Harps and Angels"


Ao longo de quatro décadas, Randy Newman deu corpo a três carreiras distintas, duas delas em simultâneo.

Nos anos 60 começou por ser um compositor de canções, assalariado da Metric Music, uma casa a que alguns cantores de renome (Cilla Black, Dusty Springfield, Harry Nilson, Scott Walker) recorriam em busca de potenciais hits.

Anos mais tarde, no inicio dos 70s, desiludido com algumas interpretações das canções que escrevia, decidiu começar a cantá-las, dando origem a uma das mais incontornáveis páginas da música americana.

Em 1981, com a banda sonora do filme de Milos Forman “Ragtime”, seguiu os passos dos tios ( Lionel, Alfred e Emil ) e deu o pontapé de saída na terceira carreira. Uma actividade que se prolonga até hoje e que já lhe proporcionou 15 nomeações para o Oscar e uma estatueta dourada por via da canção “If I didn’t have you” do filme “Monsters Inc”.

No fundo, não deixa de ser curioso o facto de Newman - depois de Dylan e a par de Tom Waits, talvez o mais lúcido, perspicaz e satírico cronista da sociedade americana -, ser hoje mais ouvido pelos nossos adolescentes ( sem que estes provavelmente se dêem conta ) por via das bandas sonoras que compõe, do que por todos aqueles que aprenderam a saborear as suas melodias e mordacidade em álbuns como “Sail away”, “Good old boys” ou “Little criminals”.

É verdade que quem não aparece esquece e Newman, nos últimos 20 anos, para além das referidas bandas sonoras, gravou apenas três discos de canções. Natural portanto o esquecimento. O novo “Harps and Angels” é contudo um convite irrecusável ao regresso.
O novo registo revela um compositor mais do que nunca mergulhado nas formas tradicionais da música americana ( blues, ragtime, jazz de New Orleans ), mas sempre com o cabaret berlinense por perto. Aliás, o burlesco musical de algumas das peças, casa perfeitamente com as letras e dissertações provocatórias sobre os tecidos urbano, moral e político. “Harps and angels” é uma notável visão das nossas sociedades através da objectiva de um Newman mais velho, é verdade, mas também por isso muito mais sábio.

O modo como os cidadãos dos Estados Unidos olham para o seu país, num dos melhores textos que Newman escreveu (“A few words in defense of our country”), a comercialização/apropriação das canções pelas marcas publicitárias (“A piece of the pie”), a política de educação ou a falta dela (“Korean parents”), a abordagem do amor “façon” Randy Newman (“Losing you”, “Only a girl”), a questão da emigração (“Laugh and be happy”), são algumas das preocupações que o compositor decidiu trazer a público, como fez questão de referir em entrevista recente “antes que o mandato de Bush termine”.

Por detrás da sátira, Newman foi quase sempre um artista auto-biográfico, mesmo quando o não parecia. Neste disco esse facto é ainda mais acentuado pela necessidade que o compositor sentiu em fazer-se ouvir, nove anos após “Bad love", o anterior opus de canções.

Está de volta o Randy Newman de “Good old boys” ou “Sail away”. Leitura social atenta, irónica, sempre crítica. Abrangente na forma de interpretar as diversas expressões da canção americana. Lúcido e coerente nas ideias, económico e minimalista nas palavras. Raymond Carver seria certamente um entusiasta.