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05/06/23

Leituras ( William Burroughs )


Revista e aumentada, a mais recente edição portuguesa de "Junky" ( Minotauro, 2023, 202 páginas ); ao lado a primeira edição nacional do livro ( Edições Palirex, 196?, 196 páginas ), incluindo prefácio da autoria de Carl Solomon. O título é uma verdadeira pérola, porém a iniciativa, considerando os constrangimentos da época, merece ser sublinhada.

20/09/19

Richard Brautigan "Em Açucar de Melancia"




Hoje de manhã bateram à porta. Saberia dizer quem era pela forma como bateu, e porque a ouvi a atravessar a ponte.
Pisou a única tábua que faz barulho. Pisa-a sempre.  Nunca percebi como.  Tenho pensado muito sobre a razão pela qual pisa sempre a mesma tábua, como é que nunca lhe escapa, e agora está ali fora, a bater-me à porta.
Fiz de conta que não ouvi porque não me apeteceu…,  por fim parou de bater à porta e foi-se embora pela ponte e, é claro, pisou a mesma tábua: uma tábua comprida com os pregos desalinhados, construída há muitos anos e sem conserto possível, e depois desapareceu, e a tábua ficou em silêncio. Consigo atravessar a ponte centenas de vezes sem pisar aquela tábua .”
( Richard BrautiganEm Açucar de Melancia” )



O acto de abrir a caixa do correio despoleta sensações díspares, ambivalentes, naturalmente resultado do que encontramos lá dentro; anunciado ou não. Aguarda-se  sempre o melhor,  ainda que a prudência  aconselhe uma gestão criteriosa das expectativas.
Hoje foi um dia bom. Richard Brautigan depositou “Em Açucar de Melancia”( datado de 1968 ) na minha caixa de correio. É, creio, o segundo livro do autor a ser publicado por aqui, depois de “Uma mulher sem sorte” em 2003.
Colaborador esporádico dos Mad River, uma das bandas mais menosprezados da San Francisco dos 60s, Brautigan enquanto autor, foi arrumado na prateleira da contracultura e, talvez por mera comodidade, aparentado à geração “beat”.
E no entanto, a sua narrativa visual e satírica, terá poucos pontos de intersecção com o frenesi de um Kerouac, a truculência marginal de um Burroughs ou a iconoclastia militante de Ginsberg. Porventura talvez que a sofisticada tranquilidade magrebina de Paul Bowles ou a convicção espiritual de Gary Snyder  melhor se lhe colassem à pele.
Richard Brautigan decidiu deixar-nos no dia 16 de Setembro de 1984. Legou-nos uma obra vasta que talvez não fosse pior investigar mais a fundo, nestes tempos em que o obscurantismo cultural se mascara de conhecimento, tecnológico.




06/09/13

Grant Hart "The Argument"


 
Serão personalidades diferentes, com percursos de vida diversos, eventualmente com raízes e motivações culturais díspares. No entanto, sempre que penso em Grant Hart e Lee Ranaldo, quase instintivamente, estabeleço  entre eles um paralelismo que poderá muito bem ser apenas ficcional, mas que no ponto de vista do Atalho faz sentido.

Ambos integraram duas das mais histriónicas bandas do indie-rock americano dos 80s. Husker Du ( Grant Hart ), Sonic Youth ( Lee Ranaldo ). Do ponto de vista da imagem, ambos viveram sempre na sombra ditatorial dos líderes: Bob Mould na primeira, Thurston Moore na segunda.  Mas, mais importante, diria, ambos promoveram o equilíbrio necessário para que os dois projectos pudessem carburar sem sobressaltos de maior. Porque ambos são belíssimos melodistas e as respectivas composições, serviam de âncora perante a loucura atonal de Thurston Moore e a espiral apunkalhada de Bob Mould.  Volvidos todos estes anos, quando retorno a Husker Du ou Sonic Youth, são as canções que Hart e Ranaldo que procuro, quase exclusivamente.

Ranaldo diversificou o seu caminho. Nova Iorque permitiu-lhe isso. Grant Hart tem tido um percurso mais atribulado. Depois de um fabuloso álbum solo “Intolerance” ( 1989 ), o projecto Nova Mob foi um semi fracasso e os posteriores trabalhos a solo balançam entre o urgente e o fica para depois.



The Argument” partia como um desafio ambicioso. Inspirado em “Lost Paradise”, um manuscrito inédito de William Burroughs por sua vez inspirado em “Paradise Lost” de John Milton, reunia as condições mínimas para fazer história, mesmo considerando que os “concept álbuns” nem sempre são o que prometem.  Havia no entanto um pormenor, nada despiciendo por sinal: a música!

Aqui chegados, tiro o chapéu a todos os que conseguirem despir a pele do fã e usar exclusivamente a (in)sensibilidade do crítico. Gostaria de ser totalmente objectivo. Mas quando comparo ( e há sempre que comparar, mesmo que toda a gente diga o contrário ) estes 20 temas com as enormes canções que Grant Hart escreveu no passado, não é possível disfarçar a decepção.  Sim,  “Morningstar”, “Is the sky the limit?” e “I will never see my home” estão perto do sublime e farão facilmente parte do songbook do autor, mas quase tudo fica aquém do que Hart já fez e seguramente poderá voltar a fazer. Há inclusive, diversos painéis bowieanos que a mim me soam camaleónicos e desadequados.

Dito isto, gostaria de ter sido mais positivo, mas a mais pura da verdade é que escutar “The Argument” me foi algo penoso. Talvez volte a ele, daqui a uns meses. Quem sabe?