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19/12/12

Crystal Syphon "Family Evil"


E nunca se pode dizer nunca que já se ouviu tudo.
Na verdade, quando se pensava que havia sido dito tudo, escrito  e ouvido sobre o psicadelismo californiano, eis que surge “Family Evil”. E voltamos ao principio. Que é como quem diz, aos mid-sixties.
Crystal Syphon, uma banda originária de Merced, California, esteve activa entre 1965 e 1970. Não obstante, até há poucos meses era totalmente desconhecida dos amantes do psicadelismo californiano, nunca tendo sido tão pouco mencionada em nenhuma das enciclopédias do género.  Family evil” é no entanto a prova cabal de que em história não é uma ciência exacta e muito menos definitiva.

Mais de quatro décadas depois de terem sido escritos e registados, ao escutar os 10 temas que integram a primeira e última ( julgamos ) edição dos Crystal Syphon, questionamo-nos sobre o que poderia ter acontecido à época caso esta banda tivesse recebido o apoio de uma editora e/ou os favores da imprensa/público.
Partilhar os palcos com os Grateful Dead, Quicksilver, Country Joe & The Fish, Big Brother & The Holding Company, Buffalo Springfield, Creedence, Santana ou Lee Michaels, não terá sido ao que parece suficiente e os Syphon nunca usufruiram dos seus 15 minutos de fama. Desaparecem nos radares em meados de 1970.


Nascidas no período compreendido entre 1967 e 1968, estas canções são do melhor e mais genuíno que o paradigma californiano produziu na época.  Se se partir para a audição de “Family Evil” sem preconceitos e com a mente aberta, torna-se evidente e fácil de perceber que qualquer uma destas canções poderia e deveria ter constituído um ex-libris da música californiana.

“Marcy, your eyes” a abrir, ostenta um insidioso riff de guitarra pairando como um falcão sobre um órgão hipnótico. Os Brogues ou os Savage Resurrection não fizeram melhor. “Paradise” e “Have more of everything”, são  os Jefferson Airplane de “Crown of Creation” sem Grace Slick e com Tom Salles a fazer de Jorma Kaukonen. “Try something different” ecoa uma melodia de Randy California para o primeiro álbum dos Spirit, as harmonias vocais repousando sobre um baixo em registo solo, mais Phil Lesh que Jack Casidy. “Fuzzy and Jose”  e “Family Evil” ( o tema )  são jams psicadélicas do género Quicksilver Messenger Service “meets”  Airplane, para as quais até o (bom) fantasma de John Cipollina parece ter sido convocado. “Are you dead yet” é a necessária “garage song”, enquanto “In my mind” oferece um dos mais cristalinos intro de guitarra californiana da época.  “Fails to shine” sugere o edifício musical aparentemente desconexo que foi a imagem de marca dos Mad River. A terminar os fabulosos 6m e 56s de “Winter is Cold” oferecem-nos um bilhete apenas de ida para o nirvana do psych-rock, exactamente no momento do apogeu do respectivo processo evolutivo.
O Atalho reconhece o porventura excessivo entusiasmo deste texto, penitencia-se pela profusão das hipérboles, mas a verdade verdadinha é que desde há muitos anos não  recordo ter-me divertido tanto ao escutar um álbum oriundo da Califórnia.

Family Evil” é o meu disco do ano. Seja lá o que isso possa valer.


Ps: de acordo com informação prestada ao Atalho por Bob Greenlee, baixista da banda, existem várias gravações de concertos no Fillmore West. Estão em processo de remasterização e muito provavelmente verão a luz do dia em 2013. Mais uma boa notícia.

28/12/09

Jardins do Paraíso XIX ( Spirit )


Um dos aspectos que sempre me aborreceu nos Led Zeppelin – para além da megalomania rock-and-rolleira típica dos anos 70 e das dezenas de “babes” com que Robert Plant de forma mais ou menos lânguida coloria as vocalizações, - tinha a ver com aquela atitude de rapina quase institucional que o grupo, e em particular Jimmy Page, praticava relativamente a “malhas”, riffs ou melodias criadas por outros músicos. E não falo tão pouco da “inspiração” que foram procurar nos velhos bluesman norte-americanos e que foi bastante, conforme é comummente aceite. Falo por exemplo de “Dazed and confused”, um original de Jake Holmes para o álbum “The above ground sound”. Falo do instrumental “Taurus”, da autoria de Randy California para o LP de estreia dos Spirit em 1968 e que três anos mais tarde fomos reencontrar na introdução de “Stairway to heaven”; uma decisão que se viria a revelar muito rentável para os Zeppelin mas que nada trouxe a Califórnia, excepto uma justificada antipatia por Page que haveria de durar até à morte do americano em 1997.

Relativamente aos Spirit, afinal a razão da existência deste post. Há alguns dias, quando lia um dos muitos obituários sobre o recente desaparecimento de Jack Rose, uma história recordou-me os Spirit. Nick Castro contava que em 2004, aos 25 anos, conheceu Rose. Este perguntou-lhe o que achava dos Allman Brothers. O jovem guitarrista, meio embaraçado, lá foi dizendo que não apreciava especialmente a banda sulista ao que Rose, rindo, retorquiu: “quando fizeres 30 anos vais adorá-los!” “Tinha razão”, acrescentou Nick Castro a terminar o seu obituário.

Passou-se o mesmo comigo relativamente aos Allman Brothers. Mas, sobretudo, sucedeu-me o mesmo com os Spirit. Excluindo porventura aqueles que lhes foram contemporâneos, ninguém aos 20 anos aprecia os Spirit. Aos 30, a banda californiana passa a ser olhada de forma diferente e alguns anos mais tarde, integra em definitivo o Top dos grupos californianos, ao lado dos Quicksilver Messanger Service, Byrds, Grateful Dead, Doors, Love ou Jefferson Airplane.

(Spirit, no Grande Ballroom, Detroit 1968, poster de Carl Lundgren)

Em 1968, na estreia com “Spirit” e a seguir com o enorme The family that plays together”, a banda de Randy California, Jay Ferguson, Mark Andes, John Locke e Ed Cassidy, configurava uma daquelas desconfortáveis situações em que se tem razão antes de tempo. Com efeito, o colectivo de Topanga Canyon era na época uma espécie de laboratório, um local de ensaio e experimentação onde o jazz, o rock , o blues, o clássico, o folk e o avant-garde, interagiam dando origem a linguagens novas, demasiado adultas para se compaginarem com o psicadelismo reinante.

O primeiro single “Mechanical world” não podia ser pior compreendido e as respectivas ondas de choque encontraram dificuldades para ultrapassar o perímetro de Los Angeles. “Fresh-Garbage” também integrado em “ Spirit” corrigiu o tiro, mas temas como “Taurus”, Elijah”, “Gramophone man”, “Topanga Windows” ou “Water woman” ficaram enclausurados entre o génio do quinteto e a indiferença das audiências.

“I got a line on you”, é a perfeição compactada em 2 m e 39 s. The family that plays together” que o alberga, é um daqueles álbuns relativamente aos quais tenho dificuldade em ser objectivo e mesmo que o tentasse corria o risco de esgotar todos os superlativos do meu léxico. Daí que o melhor talvez seja ficar por aqui, não deixando no entanto de referir e sublinhar títulos como “It shall be”, “All the same”, “Dream within a dream” ou “Aren’t you glad”.

(Spirit, 1969 )

Clear” já de 1969, está um par de furos abaixo, sendo que ainda assim integra pérolas como “Dark eyed woman”, “So little time to fly”, “Ground hog”, “I’m truckin” ou “New dope in town”.

Twelve dreams of Dr. Sardonicus” já de 1970 constitui o legado definitivo dos Spirit, espaço onde todas as experiências anteriores são concatenadas. Do instinto primitivo de Hendrix (com quem de resto California tocou), até ao psicadelismo soft dos Love, passando pelo caldo de country blues que Jerry Garcia, Bob Weir e Phil Lesh gostavam de exercitar nos Grateful Dead, ou pelas sementes do que mais tarde se viria a chamar de “hard-rock” americano ( escutem por exemplo a barragem de guitarras em “When I touch you”).

Qualquer discoteca criteriosa deve incluir os quatro primeiros discos dos Spirit, provavelmente o melhor quarteto de álbuns sequenciais da história do rock. Se tal não for possível então a compilação da australiana Raven “Fresh from the time coast, The Best of 1968-1977”, a mais recente de entre as várias que já se debruçaram sobre os Spirit, pode suprir a lacuna. Com a vantagem adicional de estender a recolha até 1977 e por essa via, incluir temas publicados em formato single (“1984” inspirado no romance de Orwell ) e/ou oriundos de álbuns excelentes embora menos urgentes como “Feedback”, “Spirit of 1976”, “Son of Spirit”, Farther along” ou “Kapt. Kopter & The (Fabulous) Twirly Birds”, este último um retrato quase perfeito da obsessão de California pela guitarra do “buddy” Hendrix.