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26/12/17

John Wonderling "Day Breaks"



Took a plain to Lisbon not too long ago / I stayed in a big hotel on the beach in Estoril / I heard them singing Fado in a small café / and the sounds of New York City were so far away”. Estas as primeiras palavras de “Long way Home”, o tema que abre “Day breaks”.

Durante largos anos catalogado de “disco impossível” o primeiro e único álbum de John Wonderling foi publicado pela Paramount em 1972, cerca de um ano após ter sido concluído. Estima-se que a edição tenha sido igual ou inferior a 100 exemplares, daí a extrema dificuldade em encontrar cópias originais.

Nascido em França em 1945, Wonderling chegou aos EUA ainda criança. Aos 22 anos escrevia canções para vender. Uma delas,  “Midway down” foi gravada pelos Creation em Inglaterra. Seguiu-se-lhe “Ask the children”, pelos Cherry People e pelos Cowsills.

Uma coisa leva a outra e após  um single numa subsidiária da Warner Brothers, Wonderling entrou em estúdio para gravar “Day breaks”. O estrepitoso “cast” que o acompanhava transbordava talento: Tim Rose, Aynsley Dunbar, Jim Gordon, Jim Keltner, Danny Kortchmar, Paul Harris …

O resultado final é absolutamente brilhante. A cena dos “singer songwriters” estava no auge mas, com uma edição tão escassa, a distribuição foi inexistente, Wonderling não deu concertos e o disco morreu à nascença.

Oficialmente disponível por fim, “Day breaks” recupera todo o seu esplendor: no intimismo das baladas ( “Someone like you” ), na solidão dos retratos quotidianos ( “Reach the ground” ), no psicadelismo soft que embrulha os temas ( “Man of Straw”, “Shadows” ).

Permanecendo ligado à música ( tocou por exemplo no mítico “Music for a New Society” de John Cale ), John Wonderling faleceu em 2003 sem nunca ter assistido à reedição da sua obra prima.

10/02/16

John Cale "Music for a new society / M:Fans"




Reconhecendo embora o enorme talento de Lou Reed, devo confessar que “o meu Velvet” foi e será sempre John Cale. Uma opinião evidentemente. Mas, do que se trata aqui  é realmente saber se falamos de talento ou se falamos de génio. E não, não é uma mera  questão semântica, existe de facto uma diferença entre o talento e o génio. O primeiro é constante, previsível; o segundo é absolutamente o oposto de ambos.

Comprei a minha cópia original de “Music for a new society” numa FNAC de Paris, em 1982. Produziu em mim o mesmo efeito hipnótico que os glaciares “Marble Index” e “Desert Shore ( coincidência, ambos produzidos por Cale ); uma espécie de mimetismo que se prolongava muito para além do tempo que duravam as canções/elegias que os integravam. Como todas as obras maiores “Music for a new society” não deixa ninguém indiferente. É o caso típico do clássico que, ou se ama, ou se detesta.

Há um par de anos, levei a capa do meu original a um “backstage” para que, entre o encantado e o surpreendido, o “big man himself” a autografasse.  Desde então não mais escutei o disco. Regressei agora, a propósito da reedição remasterizada do álbum original, acompanhada de “M:Fans” a transformação/recriação dos temas e a forma como Cale os olha hoje, 35 anos depois de terem sido escritos e gravados pela primeira vez.

Produzido num período complicado da vida do autor, “Music for a new society” é um disco denso e perturbador. A  frase “It’s a loving world to die in”, a encerrar essa extraordinária peça que é “Sanctus” e a ironia do cinzento “Damn life” incorporar notas da “Ode of Joy” de Beethoven, quase poderiam resumir toda a atmosfera do álbum.  Algures em 1983 Cale confidenciou numa entrevista que optou pelo título porque “The record is so dark, you’ve got to have something optimistic”.  


Distante, quer  de registos mais “amigáveis” como  Paris 1919” ou “Caribbean Sunset  ( aqui a maior proximidade reside no melódico “Close watch”  recuperado de “Helen of Troy” ) quer de brutais incinerações como “Honi Soit” ou “Sabotage”, “Music for a new society” está repleto de melodias envergonhadas que as colagens e os “overdubs” tornam quase imperceptíveis.

Inesgotável, este é um daqueles discos cuja audição nunca se pode afirmar completa. A cada nova investida existe sempre um detalhe, uma nesga de criatividade, que se descobre e   surpreende.  Tal como algumas das muitas curiosidades que encerra: a guitarra de Alan Lanier ( Blue Oyster Cult  ) em “Changes made”; a adaptação de “If you were still around”,  um poema publicado por Sam Shepard em “Motel Chronicles”, ou a colaboaração de John Wonderling,  muito provavelmente o autor do raríssimo “Daybreaks” ( 1973 ), um disco em cujo tema de abertura - “Long way home” - , são feitas elogiosas referências a Lisboa e ao Estoril.

Music for a new society” não é um disco para todas as horas nem para todos os dias. Antes um disco para sempre, porque na vida existirão sempre aqueles momentos de estranha cumplicidade, os quais nos conduzirão de novo até ele.

Nota: “M:Fans”, embora partindo das mesmas canções, é outra coisa muito diferente. Quem sabe, talvez um dia me sinta suficientemente confortável para sobre ele dissertar.