17/12/08

Quicksilver Messenger Service


Na adolescência quando o meu grupo de amigos se reunia nas tardes de sábado em redor de um pequeno gira-discos, a disputa ocorria entre “Three friends” ( Gentle Giant ), “Volume IV” ( Black Sabbath ), “Foxtrot” ( Genesis ), “Kick out the jams” ( MC5 ) e “Happy Trails” (Quicksilver Messenger Service ). Invariavelmente, a levitar, acabávamos todos a escutar os delírios épicos de “Calvary” e o “vibrato” único de John Cipollina em “Mona”. Todo o glorioso lado B do vinil de “Happy Trails”, cujo exemplar ainda guardo, religiosamente.

Após a morte de Jerry Garcia em 1995, os Grateful Dead viram publicados dezenas de álbuns com gravações captadas ao vivo em diferentes períodos da respectiva história. Em anos recentes os Jefferson Airplane viram também editados alguns dos seus concertos mais marcantes ( embora a maioria sustente apenas significado histórico, pois a qualidade áudio é muito fraca ).

Dos três maiores grupos saídos de São Francisco/Haigh Ashbury 1965/67, Quicksilver Messenger Service era aquele que possuía publicado menor número de testemunhos ao vivo, excluindo naturalmente as dezenas de bootlegs que circulam entre fãs em circuito fechado e “Lost Gold and Silver”, uma fugaz e excelente edição Collector’s Choice de 1999.

Um facto que se estranhava pois é sabido que QMS foi à época o grupo da cidade que mais concertos promoveu, mesmo antes de gravar o primeiro álbum em 1968.

(esquerda para direita Gary Duncan, John Cipollina, Greg Elmore e David Freiberg)


A lacuna acaba de ser corrigida pela Bear Records que recorrendo aos arquivos dos Jefferson Starship/QMS publicou de uma assentada:

- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 9th September 1966
- “Live at the Avalon Ballroom, San Francisco, 28th October 1966"
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967
- “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 6th February 1967
- “Live at the Carousel Ballroom, San Francisco, 4th April 1968".

Todos os registos ocorreram em data prévia à gravação do álbum estreia “Quicksilver Messenger Service” ( QMS foi a última das grandes bandas de São Francisco a assinar um contrato discográfico), e possuem excelente qualidade áudio, um pormaior que vai permitir aos fãs colocar finalmente de lado os piratas manhosos que escutam há décadas. Mais importante ainda: todos eles acolhem a formação seminal do grupo: John Cipollina, Gary Duncan, David Freiberg e Greg Elmore.

Sem qualquer motivo justificável, o Atalho optou por destacar “Live at the Fillmore Auditorium, San Francisco, 4th February 1967”. O Cd é duplo e regista as prestações de QMS no palco do Fillmore West naquele fim de semana.


( poster do concerto, autor Wes Wilson )

Estão ali todas as componentes do mítico som Quicksilver. A permanente tensão entre as guitarras gémeas de Cipollina e Duncan que quase sempre arrastam o grupo para jams épicas e lisérgicas; a percussão de Greg Elmore, quase tribal pela necessidade de se fazer ouvir; a fluidez rítmica e o esforço titânico do baixo de Freiberg para manter unido um grupo que albergava snipers do calibre de Duncan e, sobretudo, Cipollina.

QMS era no essencial uma banda de palco. Ali respirava como poucas e sem esforço arregimentava para o seu lado as audiências; uma cumplicidade que se pode comprovar nestas gravações agora recuperadas. Reflectem a dinâmica e as idiossincrasias da banda como os discos de estúdio raramente conseguiram.



As versões de “Codine”, “Dino’s Song”, “I hear you knocking” – nesta em particular pode desfrutar-se do génio de Cipollina e compreender o culto de que é objecto por parte de alguns músicos contemporâneos com o japonês Michio Kurihara (Ghost, Stars, White Heaven, Boris, Damon & Naomi) à cabeça - “Mona, “Pride of man”, “Walkin blues” ou “Who do you love”, possuem uma urgência e dimensão que, exceptuando o tratamento que algumas delas obtiveram em “Happy Trails”, não é possível encontrar em mais nenhum disco de QMS.

Uma banda e um património a rever ou descobrir, consoante a idade ou a vivência.