Mostrar mensagens com a etiqueta Jardins do Paraíso. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jardins do Paraíso. Mostrar todas as mensagens

03/10/26

Jardins do Paraíso ( 93 )

 


Matthew  Katz é, à luz da história, uma personagem.

Figura incontornável ( como é corrente agora dizer-se ) da cena cultural californiana do final dos 60s, entre várias outras actividades mais ou menos polémicas, algumas das quais deram origem a processos que se arrastaram durante décadas nos tribunais ( vidé caso Moby Grape ), fundou a editora independente San Francisco Sound. E, nem que seja por isso, merece ser recordado.

Originalmente publicada a 15 de Novembro de 68, a compilação “Fifth Pipe Dream Vol I” foi o primeiro álbum da editora de Katz.

Integrava temas das bandas californianas It’s A Beautiful Day, Tripsichord Music Box, San Francisco Sound House Band ( vulgo Marcus Uzilevsky ), West Coast Natural Gas e Black Swan, todas agenciadas por Matthew Katz.

Objecto de reedições ilegítimas durante décadas, “Fifth Pipe Dream” conheceu recentemente a edição oficial que em definitivo lhe faz justiça.

Não apenas porque recupera a edição original, mas também ( ou sobretudo ) por que lhe acrescenta o “Volume II”, onde para além de disponibilizar mais títulos inéditos das bandas já referidas, acrescenta dois temas de uma outra: Phananganang.

A juntar a tudo isto um magnífico encarte de doze páginas, onde a partir da figura de Katz e do legado das bandas atrás mencionadas, se conta a história de uma das páginas mais gloriosas da música californiana.



15/09/26

Jardins do Paraíso ( 92 )


Carlos Walker “A Frauta de Pã” ( Brasil, 1975 ) 

Reedição RCA Victor MOVLP3845, 2026 


 “ … arco-íris feito de fome no céu da boca … eu virei um pote de mel … deu no que deu, abelhas no céu … o caminho de leite que sobe a cidade … debaixo do sol … nervos de palha seca, dentes de corda e pau … estrada de intemperança … vou buscar a outra metade do sol … despertar as espadas, varrer as esfinges das encruzilhadas … já não há mais moinhos como os de antigamente … o resto é pouco e apagado … soluça o silêncio … era uma estrada de vidro no ar … flautas de solidão … as minhas cantigas desenhadas nas areias … alfazema pelos jardins eu corro rindo … no silêncio do campo molhado de sol …” 

A existir, qualquer comentário suplementar, configurará apenas e só, ruído …

 

04/09/26

Jardins do Paraíso ( 91 )


Orange County, Califórnia, 1970.

Seguramente ofuscada pela projeccão e estatuto de alguns dos seus colegas  singer-songwriters ( Tim Buckley, Judee Sill, Jackson Browne, Joni Mitchell … ), Kathy Smith não logrou nunca almejar o patamar de sucesso compatível com o seu talento. E, neste aspecto, nem uma participação no festival da Ilha de Wight em 1970 logrou ajudar.

Não obstante gravou para a Stormy Forest de Richie Havens dois álbuns cuja obscuridade caminha paredes meias com o talento da autora.

O segundo, prosaicamente titulado de “2”, data de Novembro de 1971 e acaba de receber a primeira reedição oficial.

É um disco belíssimo, simultaneamente arrojado e intimista. O intimismo não espanta, constituía a marca de água dos singer-songwriters; o arrojo por sua vez, radica numa inovativa fusão entre o folk psicadélico e o jazz.

As canções são maioritariamente escritas por Kathy Smith. A par destas, estão também presentes temas de Jimmie Spheeris ( a conferir o seu magnífico “Isle of View”, onde o tema “Seven Virgins” surge também ), Jackson Browne ( “It’s taking so long” constitui a única versão oficialmente editada do tema ) e de Pamela Polland ( que entre muitos outros escreveu “Tulsa County Blue” para os Byrds de “Ballad of Easy Rider” ).

Alguns dos músicos, parte deles ainda ilustres desconhecidos na época, davam pelos nomes de Jan Hammer, Tony Levin, Don Alias, Warren Bernhardt, Jimmie Spheeris ou Jeremy Steig.

Tudo dito, ou quase. Faltará apenas referir que a reedição inclui dois trechos inéditos: uma demo de “For Emily” da própria Kathy Smith e uma versão frugal  de “Hang On To A Dream” de Tim Hardin. 


13/06/26

Jardins do Paraíso ( 90 )



“Happiness is everywhere, even in me”, John Phillips ( “I’ll Try For The Rain” ) 

Imaginem um local, espaço onde os trajectos de Donovan e Nick Drake se interceptam. Existe, ou melhor, existiu. Dá pelo nome de John Phillips, não o mentor dos The Mamas & The Papas, antes um súbdito britânico cuja escassa obra foi maioritariamente criada e gravada em Salisbúria na Rodésia (hoje Harare e Zimbabwe, respectivamente). 

“John”, o até há pouco único registo conhecido do autor, foi publicado pela editora RPM na África do Sul em 1969. A edição terá sido escassa ( algo entre as 100 e 200 cópias ) e, como tal, o número de exemplares originais em circulação andou sempre próximo do zero. 



Finalmente reeditado, percebe-se agora a razão da recente demanda por parte de coleccionadores e historiadores. Trata-se com efeito de um extraordinário conjunto de canções, perfeitamente enquadrado na época em que foi criado. Instrumentalmente roça o espartano, porém a beleza das melodias convoca Donovan, enquanto a sensibilidade dos temas remete para Drake. O somatório destas características resulta na perfeição e as canções / melodias pairam na cabeça do ouvinte muito depois de terminarem. 

Entre espanto e admiração, é de resto aquela a principal sensação que emerge depois de se escutarem “Peppermint Wind”, “Scaramouche”, “Pre Ante Pen Ultimatum”, “Mulberry Avenue”, “Sylvia” ou “Look At The Time Fly”. 

“Songs of Gentleness 1969 – 1976” agora publicado pela canadiana Strawberry Rain, reedita “John” e acrescenta-lhe três outros álbuns de gravações inéditas: “John 1972”, “John 1976” e “Demos”. 



“John 1972”, reúne maquetes gravadas nos APL Studios de Salisburia com a colaboração do guitarrista John Oakley-Smith. Mantem as influências anteriores ( a versão amputada de “Season of the witch” comprova-o ) e afirma-se como um conjunto de temas de folk britânico a que se acrescentam influências blues / americana ( “Mary Jane” ) e africanas ( “Iwe Neni Tinenamo” ). 

Devidamente trabalhados e produzidos os temas incluídos em “John 1972” não só estariam ao nível do disco anterior como eventualmente figurariam na galeria do melhor folk inglês da época; apesar de escassamente produzidos, “Parting is never forever goodbye”, “Looking Glass”, “Quavatina” ou “Pretty Garlands” são ainda assim canções superlativas, como aliás se pode parcialmente comprovar no disco imediatamente a seguir na linha do tempo.



De facto, quatro anos volvidos, “John 1976” gravado a solo no mesmo estúdio em Fevereiro de 1976 mas objecto de uma mais cuidada captação áudio, acolhe de novo as canções atrás mencionadas, permitindo-nos agora perceber melhor a sua verdadeira dimensão lírica, sendo que a generalidade das restantes afina pelo mesmo diapasão. 

A título de exemplo: em “Time Will Tell”, Phillips como que persegue o legado de Nick Drake no seu tema homónimo e em “Train Song” a introdução da guitarra acústica mimetiza o som de um comboio em movimento. 


 “Demos”, o terceiro disco de inéditos, tal como os dois anteriores recuperado e masterizado a partir de três “reel-to-reel tapes” encontradas no sótão de um familiar, é como o nome induz, um conjunto de doze maquetas de canções que ganham vida e forma através da voz angelical e guitarra acústica ( que por vezes alterna com a auto-harpa ) do autor. Todas, impressivos esboços em filigrana que estimulam a imaginação do ouvinte e que necessariamente alimentam uma dúvida: o que seria de todas estas canções se ao autor tivessem sido dados tempo e meios para as completar? 

Fustigado por diversas tragédias pessoais, reclusivo, John Phillips faleceu em Oxford em Fevereiro de 1995 vítima de cancro. Em vida, ninguém soube da doença que o acometeu.

 

01/12/25

Jardins do Paraíso ( 89)



Publicado na Austrália em 1972 via Warner Brothers, “Maranatha” foi o primeiro álbum de Megan Sue Hicks, uma norte-americana expatriada. 

Vivia-se o período dourado dos singer songwriters e “Maranatha”, fruto da sua sensibilidade algo clandestina, bem como do reduzido número de cópias em circulação ( apenas duzentas ), cedo ganhou o estatuto de disco de culto. 

Agora, finalmente reeditado de forma oficial, é possível ao comum dos mortais dissecar as canções de Megan Sue Hicks sem que para isso seja necessário vender um rim para adquirir uma cópia original. 

Vivia-se o período de maior exuberância dos singer singwriters dizia, e “Maranatha” é daquela corrente um fiel apaniguado. Mas não apenas. 

Se atendermos a canções como “One last alley” ou “Cle’s Song” é praticamente impossível não acabarmos no pátio de “Full House” ou “Angel delight” ou seja, Fairport Convention pós Sandy Denny. “Peter’s Song ( And He’ll Probably Never Hear It )” possui aquele sentimento bucólico, apanágio da contemporânea Vashti Bunyan e que, anos mais tarde, inspiraria a também britânica Virginia Astley. 

Aqui e ali, mais nos textos que nas melodias, assomam algumas semelhanças com essa outra “flor do mal” que foi Judee Sill. 

Acompanhada pelos The Flying Circus, uma banda constituída por músicos australianos e neo-zelandeses, Megan Sue Hicks teve aqui o seu primeiro e porventura único momento de glória. Fosse a sua interpretação vocal um pouco mais consistente, a generalidade do Lado B tão atraente quanto o Lado A, misturas e produção um nadinha mais profissionais e estaríamos a falar de uma perene obra prima. 

Todo o modo, “Maranatha” está acima de muitos dos álbuns em cuja corrente se insere. E depois, há “Hey, Can You Come Out And Play” …

 

20/10/25

Jardins do Paraíso ( 88 )

Objecto de uma prensagem original de 200 exemplares, “And Then Perhaps” ( 1971 ) é nos dias de hoje, uma das mais raras prensagens privadas do folk britânico. 

Marie Celeste ( o nome da banda tem origem na história do Mary Celeste, “navio fantasma” norte americano encontrado à deriva no Atlântico em Dezembro de 1872 sem qualquer membro da tripulação a bordo ) foi um quinteto oriundo de Wolverhampton que começou por se chamar The Matchbox Folk Group enquanto actuava no seu próprio club folk ,“Sandpiper” no Hotel Lion naquela cidade das West Midlands. 

A alteração do nome da banda coincidiu com as sessões de gravação, todas ao vivo, acústicas e sem overdubs. O áudio, naturalmente, apresenta características lo-fi e os arranjos uma indisfarçável ingenuidade.

Porém, a espaços “And Then Perhaps” encanta, fruto do talento dos dois guitarristas ( Ken Price e Brian Lindop ) e das harmonias vocais partilhadas por Tricia Jenkins e Mary Bishop. Cinco dos doze temas são originais com particular destaque para o excelente “Prisoner” e para o complexo arranjo instrumental de “Theme based on greensleeves”. 

O leque de versões estende-se de Tom Paxton (“When morning breaks”) a Joni Mitchell ( “Night in the City” ), passando por Paul Simon ( “I am a rock” ) ou Jagger/Richards ( “Ruby Tuesday” ).

Oficialmente reeditado com um novo design de capa “And Then Perhaps” não fazendo embora parte da “first division” do folk rock inglês da época, possui atributos e qualidades mais do que suficientes para justificar a nossa atenção.

16/03/25

Jardins do Paraíso ( 87 )

 


Antes de integrarem o catálogo da Warner Brothers, nele publicando “Hard Meat” e “Through a Window” ( ambos em 1970 ), os Hard Meat dos irmãos Mick e Steve Dolan mantiveram fugaz ligação à Island Records de Chris Blackwell, selo onde a 9 de Agosto de 1969 lançaram o single “Rain”, uma interessante  versão do título dos Beatles.

O 45 rotações, em cujo lado B constava “Burning up years”, antecipava o lançamento de um álbum entretanto gravado nos estúdios Tridend no Soho. Não é clara a razão pela qual o disco não foi publicado à época. O produtor ( Sandy Roberton ) era um dos mais conceituados do seu tempo, Blackwell, consta, estava entusiasmado, um sentimento que se supõe não ser partilhado pelo A&R Guy Stevens.

Ao escutar “Rain”, a primeira edição em vinil daquele conjunto de gravações, é hoje evidente  o erro colossal que foi o veto à respectiva publicação. 


A abrir, a versão do tema de Lennon e McCartney diz-nos ao que vêm os Hard Meat. Inventivo, magnificamente suportado na doze cordas  de Mick Dolan, “Rain” conduz-nos até “Most Likely You’ll Go Your Way, I’ll Go Mine”; isso, Dylan, o qual por seu turno nos leva até ao acústico “Strange Fruit” ( mais tarde publicado na compilação “49 Greek Street” sob o pseudónimo Tin Angel ) e a “Liquid Boats”, um tema que numa escuta cega poderia sugestionar uma demo de Pete Townshend, período “Tommy / Who’s next”.

“Walking Down Up Street” é um rock hipnotizante que torna legítimo  especular se Randy California e os Spirit não fariam parte da dieta musical dos Hard Meat. Idem para “Burning Up Years”. Por fim “Run Shaker Life”, uma fantástica recriação rítmica do título que Richie Havens incluiu no duplo álbum “Richard P. Havens, 1983” de 1969.

Duas destas canções ( “Run Shaker Life” e “Most Likely You’ll Go Your Way, I’ll Go Mine” ) viriam a fazer parte do alinhamento do primeiro álbum do grupo para a Warner Brothers. As restantes, com excepção das publicadas no single, manter-se-iam inéditas cerca de cinco décadas.

Após o fim dos Hard Meat, os irmãos Dolan alavancaram os Big Front Yard, uma banda de inspiração West Coast a que o Atalho já aqui dedicou a sua atenção.

14/10/24

Jardins do Paraíso ( 86 )

 


Publicado no México em 1969, embora gravado em Janeiro do ano anterior na República Dominicana por um colectivo de músicos porto-riquenhos, “Kaleidoscope” permanece um disco raríssimo e porventura uma das maiores obscuridades do período em apreço.

Na altura em que o álbum foi concebido, o psicadelismo, designadamente o americano, encontrava-se no seu zénite. Daí não ser estranho que “Kaleidoscope” seja sobretudo influenciado pelas sonoridades americanas e quase nada por aquelas que atravessavam o Atlântico.

O fuzz, os riffs e um omnipresente órgão planante não deixam espaço para a mais pequena dúvida. The Doors, 13th Floor Elevators ou Iron Butterfly, corporizam algumas das sonoridades que assomam à memória quando se escutam temas como “Hang out”, “Hole in my life”, “Colours” ou “I’m here, he’s gone, she’s cryin”. As guitarras em modo fuzz e/ou riff, vão colorindo as telas que o órgão ( muito “The End” /  “When the music’s over” ) cria de forma obsessiva e hipnotizante.

E depois há “Once upon a time there was a world”; uma suite que resume toda a essência da linguagem psicadélica da época. Tão líricos quanto dramáticos, os 8m 10s  que a compõem definem na perfeição o legado único do colectivo Kaleidoscope.

Se existem reedições oportunas e necessárias, esta é seguramente uma delas.

30/07/24

Jardins do Paraíso ( 85 )

 


Como Fred Neil, Scott Walker, Phil Ochs ou Tim Buckley, Tim Hollier possuía uma daquelas vozes “larger than life”, um instrumento adicional que de forma quase cinematográfica coloria as suas melodias e projectava os textos de Rory Fellowes.

“Message to a Harlequim”, o primeiro álbum é muito isso, mais o que somam os arranjos, órgão e piano de John Cameron, a flauta de Harold McNair e o baixo de Danny Thompson.

Alicerçada em temas como o que titula o álbum, “Jimmy”, “And I”, “Hanne” ou “In Silence”,  e face ao que neles se escuta, a estreia de Hollier terá de ser analisada à luz daquela sonoridade épica e paisagística que bordejava o primeiro de David Ackles, o segundo de Buckley ou os primeiros álbuns de Tom Rush e Tim Hardin.

Prometia muito e hoje, à distância de cinco décadas, conclui-se que cumpriu sem rebuço nem hesitação. Porém, Hollier não era americano e o Reino Unido estava a despedir-se do psicadelismo em direcção ao progressivo. Não havia espaço para trovadores dos sentidos. O álbum, publicado em Outubro de 1968, passou largamente incógnito.

David Hemmings seria todavia premonitório ao escrever as notas na contracapa do disco: “… if he is your speed you will be waiting impatiently as I am for his next.”



Na verdade, abrindo com o fantástico “Seagull’s Song”, “Tim Hollier”, o segundo álbum, percorre outros caminhos, não necessariamente menos estimulantes para quem o escuta.

Um clássico do primeiro ao último tema, passando pela capa ( da autoria de Rick Cuff, também responsável pela guitarra acústica e piano ) “Tim Hollier” é um trabalho cuidado, frágil na estrutura e nos processos, mas que avaliado pelo todo se posiciona como um dos grandes discos de 1970.

John Cameron não estava disponível, logo os arranjos de cordas que pululavam no álbum anterior estão ausentes. Nada que afecte o resultado final. A escrita e a composição, partilhadas entre Tim Hollier / Amory Kane / Rory Fellowes, são acomodadas pelo já referido acompanhamento de Cuff, a que se juntam a flauta de Ed Coleman, a guitarra de Hector Sepúlveda, e a voz, piano e guitarra acústica de Amory Kane.

“Seagull’s Song” é extraordinário, como o são também “Evolution”, “Maybe you will stay“, “In this room” ou “Evening Song”.

A influência de Tim Buckley, omnipresente no álbum estreia, partilha agora o espaço com o paradigma sonoro Donovan, o que não é de todo uma má notícia.



Tal como o anterior, “Tim Hollier” não conheceu adesão significativa, apesar de Hollier ser ter esforçado por divulgá-lo ao partilhar os palcos com Joe Cocker, Nick Drake, David McWilliams, David Bowie e Third Ear Band.

Fevereiro de 1971, “Skysail”. As orquestrações de John Cameron estão de volta. Seria suposto terem algum protagonismo, harmonizando o resultado final. Nada disso  acontece porém. Genericamente, a qualidade/consistência dos temas está muito aquém do esperado ( recomendado ).

“Skysail” é lamentavelmente um equívoco, difícil de compreender tendo em conta o que nos aportaram os dois discos anteriores.

“Time has a way of losing you, The Tim Hollier Anthology” inclui ainda dez versões oriundas de sessões na BBC e os dois temas do single “The Circle Is Small”,  nenhum deles verdadeiramente inesquecível.

31/05/24

Jardins do Paraíso ( 84 )

 


“He subsequently carved out a succeful career in the ELT (English Language Teaching) field, but as a student at the University of East Anglia in the late Sixties, the young Jeremy Harmer was a Bert Jansch-influenced guitarist and singer/songwriter.

Accompanied by fellow student David Costa, he played at folk clubs and events in the Norwich area before staging a student union concert that led to him recording the album ‘Idiosyncratics And Swallows Wings’ in single-take sessions at a local BBC studio.

Restricted to 99 copies, the album – akin to a homemade version of Nick Drake’s ‘Five Leaves Left’ – featured some beguiling chamber pop arrangements and self-consciously poetic, exquisitely gloomy songs like ‘People Smile With Ghosts In The Land Of Make-believe’, featuring David Costa on second guitar and Sue Humphris on backing vocals.

Costa was significantly affected by the experience (“I knew from that very moment on that was what I wanted to do … I just wanted to play guitar in a band”), dropping out of university and putting together Trees. He attempted to recruit Sue Humphris as lead singer, but she declined, suggesting instead that they audition her sister Celia.”



( Harmer e David Costa )

David Wells disse acima o que de essencial precisa ser dito a propósito de Jeremy Harmer. “Idiosyncratics and Swallows Wings” é um disco diferenciado que, caso tivesse sido objecto de adequado tratamento profissional no momento de captação de som e posteriormente de produção, seria hoje mais do que já é por via da história que o envolve, um marco da música inglesa dos finais dos 60s.

“We recorded de LP late at night at the big studio on Anglia TV. It was not really satisfactory. The equipment was not great and the engineer – who did it for free i seem to remember – was not especially experienced as a sound engineer, but rather a TV programme engineer. I can’t remember any mixing conversations etc. But I guess there must have been. I remember being rather worried about the sibilance in the vocal tracks but there was never a chance to do anything about that. And on top of that i wasn’t really very experienced about that kind of thing.”



(Harmer e Nick Drake no Marlborough College, meados de 1965)

Entre a melancolia endémica de Nick Drake, a tristeza de Robert Wyatt e o folk barroco de Duncan Browne, “Pastiche”, o belíssimo “Sad Song”, “Home of Years”, o tocante “Melanie” ou o “pesadelo utópico” ( palavras do autor ) que é “People Smiling With Ghosts In The Land Of Make-believe”, “Idiosyncratics and Swallows Wings” é um disco que não sendo perfeito no que concerne à forma, é absolutamente essencial do ponto de vista criativo e histórico.

Uma última nota, eventualmente do interesse dos audiófilos: “Due to the lack of master tapes, this reissue has been sourced from original vinyl.” ( do folheto que acompanha a reedição )

22/03/24

Jardins do Paraíso ( 83 )

 


Um iconoclasta, John St.Field pseudónimo de  Jackie Leven ( solo, Jackie Balfour, Sir Vincent Lone, Doll by Doll ) gravou “Control” entre os anos de 1971 e 1972.

O álbum, no qual colaboraram músicos dos Man e cantora Juliet Lawson, só seria publicado três anos após, em Espanha onde então o músico escocês residia.

A edição foi escassa. Por via disso e fruto das suas peculiaridades, “Control” rapidamente se transformou num objecto de culto e profusa procura.

Agora, luxuosamente reeditado em vinil ( em Espanha curiosamente ) o álbum está finalmente disponível a um vulgar cidadão sem que este seja obrigado a despender valores absurdos por um original.




Perguntarão, vale a pena o investimento? Absolutamente. Não sendo uma  “progressive, psychedelic folk masterpiece” como bastas vezes o pintam, “Control” é um álbum que merece a devida atenção.

Trata-se de um trabalho sensorial ( escute-se “Dune voices” ), aqui e ali de uma beleza extrema ( “Sleeping in Bracken” , “Raerona” ), criado no rasto dum período de grande turbulência então vivido pelo autor e reunindo os cacos daí resultantes.

Não constituirá um conjunto de canções para todas as horas nem para todos os dias. Porém o facto de se encontrar finalmente disponível, permite que sejamos nós a escolher o dia e o momento mais adequado para o revisitar.

13/12/23

Jardins do Paraíso ( 82 )

 


Poderia e deveria ter acontecido de outra forma.

A pungente versão pop barroca de “The French Girl”, um original de Ian Tyson e Sylvia Fricker, pede meças a uma também extraordinária versão do tema responsabilidade de Gene Clark; a revisão em modo psych do clássico de Dylan “Queen Jane Approximately” captada no palco do Whiskey a Go Go em Setembro de 1966; o fuzz original de “Jack of Diamonds”; a variação “Scottish sea shanty” de “The Bonny Ship The Diamond” ou a aproximação angelical a “If I were a Carpenter” de Tim Hardin, permitem concluir sem qualquer ponta de exagero e nenhuma margem de erro que os Daily Flash deveriam ter sido reconhecidos como uma das grandes bandas a operar na Califórnia no decorrer da primeira era do psicadelismo ( 1965 – 1969 ).

Oriundo de Seattle, o quarteto constituído por Don MacAllister, Doug Hastings, Jon Keliehor e Steve Lalor era, um pouco à imagem do que sucedia com os Byrds, maior do que a soma das partes. Simplificando: reunia todas as condições para ser muito mais que uma mera nota de rodapé.

Não obstante, por vicissitudes várias comuns a muitas outras bandas igualmente talentosas, concedamos, foi daquela forma que o tempo os colocou nas prateleiras da história.


Em actividade os Daily Flash partilharam estúdios e palcos com os nomes mais sonantes da época: Byrds, Buffalo Springfield, Quicksilver, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Rhinoceros, Moby Grape, Charlatans, Big Brother & The Holding Company, Rising Sons , Sopwith Camel, Beau Brummels… contudo enquanto activos vida publicaram apenas dois singles e quatro temas: “Queen Jane Aproximately”, “Jack of Diamonds”, “French Girl” e “Green Rocky Road”.

Em perspectiva e sabendo o que sabemos hoje, qualquer uma destas quatro gravações merecia a maior das atenções mas a sorte e o reconhecimento não passaram  por ali e a imortalidade só chegaria décadas depois.



“The Daily Flash” reúne todas as gravações que foi possível resgatar nos arquivos dos diversos intervenientes. Aos títulos atrás mencionados juntam-se dez gravações de estúdio, entre elas   “When I was a cowboy”, “The girl from North Alberta”, “CC Rider”, “Violets of Dawn” ( Ian Anderson ), “Again and again”, “Grizzly Bear”, “Let me die in my footsteps” ( Dylan ) e “Birdses” ( Dino Valenti ).

O que se escuta em “The Daily Flash” justifica e é motivo para que se proceda à revisão da história. Porém se tal não for considerado suficiente ou pertinente, atente-se assessoriamente no álbum homónimo que os Bodine ( com Steve Lalor e Jon Keliehor a bordo ) publicaram na MGM em Setembro de 1969.

04/11/23

Jardins do Paraíso ( 81 )

 


Inclassificável! O adjectivo que ocorre a propósito de “On a day of crystaline thought”.

Ao longo dos anos, uma certa aura lendária precedeu este raríssimo disco do nova-iorquino Pete Fine. Foi sucessivamente catalogado como se tratando de uma obra conceptual de “acid folk”, “spaced psych”, “hippie rag”, “classical prog” … Não sendo  nada disso é tudo isso, em simultâneo.

Pete Fine vinha dos Flow, cujo álbum “Greatest Hits” ( 1972 ) estabeleceu pontes entre o estertor do “hard-psych” e o percurso do glam-rock nova-iorquino em direcção ao germinar do “punk rock”, o qual havia de assenhorear-se da cidade um par de anos adiante.  

“I had been listening to a lot of classical music at the same time that I was in Flow. I wrote the pieces for small orchestra and put an ad in the newspaper for musicians”.




O resultado chamou-se “Crystalline Thought” e foi materializado em 1974 através de uma edição privada de 100 exemplares, agora objecto de oportuna reedição.

Nos Sound Exchange Studios em Nova Iorque, Fine começou por gravar as partes da sua  guitarra 12 cordas. A partir daí foi acrescentando camadas: instrumentos ( baixo, bateria, flauta, guitarra eléctrica ), vozes ( uma nota para a participação da vocalista Sam Hardesty ) e as componentes da orquestra ( violoncelos, violinos e trompas ).

“New York was very creative in those days. Many bands existed who were great musicians and doing unique types of rock and rol. It wasn’t the stereotype rock we have today which doesn’t change except every ten years.”

As duas suites que preenchem o lado A ( “On a day of crystalline thought” e “Sunrise” ) justificam e merecem a maior atenção, sendo superiores aos quatro títulos que preenchem o lado complementar.

Ainda que esta nuance seja indesmentível, existe no álbum uma harmonia fora do comum e uma atmosfera única que inevitavelmente nos convida a procurar referências noutras latitudes. Tarefa difícil e à partida condenada ao fracasso, pois “On a day of crystalline thought” é absolutamente único.

21/07/23

Jardins do Paraíso ( 80 )


 

A reedição de “Mare La Lande”, o “álbum perdido” de Laurent Angrand e Patrick Robin, consolida aquela velha suspeita de que existe ainda por aí belíssima música por descobrir.

Angrand e Robin conheceram-se no início dos 70s através de Jack Treese, um americano oriundo do Midwest radicado no condado de Périgord e que no período compreendido entre 1971 e 1974 publicaria em França quatro álbuns de matriz folk.

Instrumentistas dotados Angrand e Robin juntaram talentos. O resultado são os dez temas que fazem “Mare La Lande”. Integralmente acústico, o álbum é uma pequena delícia instrumental. O tricotado das guitarras transporta-nos para espaços à época percorridos por John Renbourn, Bert Jansch e Leo Kottke, aguarelas sonoras que aqui e ali nos sugerem atalhos conducentes a Laurel Canyon.

Consta que Jack Treese terá tocado banjo nas sessões de gravação levadas a cabo no famoso Studio 20 em Angers; um dado que todavia não é possível confirmar através das informações disponíveis no álbum.

Publicado em 1974, “Mare La Lande” não chegou a ser objecto de promoção/divulgação. A separação abrupta do duo após as gravações terá sido a razão. Acto contínuo e como era então regra, a maioria dos exemplares da diminuta edição privada acabaram destruídos.

A recente reedição da France Bizarre vem finalmente corrigir aquela prática, permitindo-nos testemunhar mais um belíssimo capítulo do folk francês dos 70s.

20/06/23

Jardins do Paraíso ( 79 )

 


De uma elegância extrema, quer lírica quer instrumental, “Upon Velveatur” ( 1973 ) é um daqueles discos que muito dificilmente deixaria descendência; porque irrepetível na forma e no conteúdo.

Não causa portanto estranheza o facto do canadiano Roger Rodier não ter produzido nenhum outro disco desde então.

Folk-rock para uns, acid-folk para alguns, loner-folk para outros, “Upon Velveatur” funde todos estes paradigmas sem se ater a nenhum deles em particular. Pelo meio, criteriosamente, acrescenta pinceladas da então predominante sonoridade west-coast.  



A grande notícia reside na circunstância de muito embora alguma bipolaridade temática, nunca resvala ou descaracteriza, atingindo uma salutar homogeneidade que só poderá encontrar explicação no talento e bom gosto do autor.

O tricotado das guitarras acústicas é uma delícia, as intervenções das eléctricas nem tanto. Porém os arranjos e orquestrações ( Yves Lapierre ) são o cimento que cola os pequenos grandes detalhes os quais, por sua vez adicionados, conferem às canções uma identidade perene.

A recente reedição em vinil ( Sunbeam, 2023 ) reproduz o design gráfico original ( booklet e mini poster incluídos ) e acrescenta um CD onde além da totalidade do álbum nos permite aceder aos quatro lados dos dois singles francófonos que Roger Rodier gravou em 1969 com o compatriota Germain Gauthier e que, sem exagero, são também locais de paragem obrigatória para todos os que se interessam por estes sons ou pela música do Quebec em particular.

Um disco de uma vida, ou uma vida num disco.


10/11/22

Jardins do Paraíso ( 78 )

 


“In the autumn of 1970, Bachdenkel were dubbed ‘Britain’s Greatest Unknown Band’ by Mark Williams ( formerly the editor of Musicit, the music section of International Times ) in his short-lived British fortnight music paper Strange Days. A mere 52 years later, that’s sadly still a pretty accurate assessment of a band who remain an obscure cult attraction rather than enjoying  the household name status that their undoubted talents surely merited. A West Midlands outfit who failed to release an album at home in their ten year existence.” ( David Wells, in Bachdenkel “Rise and fall, The Anthology” ).

A arquitectura sonora dos Bachdenkel, uma banda oriunda de Birmingham, constituía uma anomalia, mesmo considerando os padrões experimentalistas da época: 1970.

Não cortejava apenas o psicadélico, não revisitava o blues rock, não prospectava no tubo de ensaio do progressivo e, no entanto, agregava todos aqueles elementos em simultâneo, alicerçando-os numa intensidade e talento verdadeiramente incomuns. A dinâmica deliberadamente lenta, por vezes algo marcial, leia-se negra, também pouco ajudaram à popularidade.

Não espanta pois que “Lemmings” o álbum que gravaram em 1970 tenha levado três anos a ser publicado e apenas em França, nos idos de Maio de 1973.


Escutado agora, face aos conhecimentos que acumulámos, há que convir que em “Lemmings” vive um álbum absolutamente extraordinário. Denso e subtil em partes iguais, tremendamente aditivo e, não será exagero afirmar, influenciador de muitos dos mais atentos “bons esprits” que anos mais tarde percorreriam os trilhos perdidos do pós-punk e, espantemo-nos, do pós-rock.

A cada um, “Lemmings” soará de acordo com gostos e, naturalmente, vivências pessoais. Mas quando se escuta o riff de “An appointment with the master” é impossível não pensar imediatamente em Adrian Borland e no fantástico “Winning”, tema que concebeu para os Sound de “From the lions mouth”. Da mesma forma que muito da rítmica marcial e da sonoridade sépia do álbum nos remete para o percurso juvenil dos Comsat Angels. Pode até parecer estranho, concedo, mas a intervenção marcadamente labiríntica das guitarras ( “Translation”, “Equals”, “Donna” ) traz de volta o encantatório paradigma sonoro dos Explosions In The Sky.



“Lemmings” não faz com toda a certeza o pleno junto das maiorias. Será porém indesmentível que corporiza sem a mínima dúvida um dos trabalhos mais injustiçados do rock inglês do inicio dos 70s.

“Rise and fall, The Anthology”, volvidos muitos ( demasiados ) bootlegs ao longo dos anos, é a reedição perfeita. Inclui o segundo álbum “Stalingrad” ( 1977 ) e uma profusão de demos e raridades gravadas entre 1967 e 1982. Deixam portanto de existir razões para a lendária obscuridade.

30/05/22

Jardins do Paraíso ( LXXVI )


“Help Yourself is uniformly delightful. Malcolm Morley sounds more like Neil Young than Neil Young does. If your ears are shaped like mine, you’re adore Help Yourself’s shimmering, crystalline guitar sound so reminiscente of the first Springfield album, against which Help Yourself stacks up very well.” 
( John Mendelsohn, Rolling Stone magazine in a review of Help Yourself’s debut album ). 

Não abundam casos como os de Help Yourself. Gravaram o álbum de estreia em 1971 sem nunca terem feito uma actuação de palco, o que para a época era verdadeiramente invulgar; no espaço de dois, três anos produziram um consistente e inspirador conjunto de discos; deixaram uma inegável pegada no rock britânico e, no entanto, aparte um nicho de indefectíveis, permanecem uma, ainda que majestosa, nota de rodapé da história. 

Funcionaram quase sempre como um colectivo democrático, com profusas e reiteradas entradas e saídas de membros ( as interseções começam nos Eire Apparent e passam entre outros pelos Man, Sam Apple Pie, Brinsley Schwarz, Dukes Deluxe, Tyla Gang, Flying Aces, Green Ray ou Sean Tyla ). Todavia o espírito e o som mantiveram a espinha dorsal, muito por responsabilidade desse extraordinário compositor e músico que é Malcolm Morley. 


Entre álbuns originais, singles e outras participações, a tarefa de conseguir a totalidade do legado de Help Yourself tem vindo a revelar-se uma tarefa árdua e sobretudo dispendiosa. Facto agora minimizado por “Passing Through, The Complete Studio Recordings”, uma compilação que reúne pela primeira vez numa única edição todas as gravações de estúdio da banda, acrescentando os dois temas integrados no lendário evento “Christmas at The Patti” e “Lost and Found”, um dos quatro álbuns a solo de Malcolm Morley e aquele que mais se identifica com o paradigma sonoro dos Help Yourself. De fora ficou apenas a participação do colectivo em “The Amazing Zig Zag Concert”, um evento levado a cabo para homenagear o legado do Zig Zag Magazine de Pete Frame em prol do underground britânico. 

 Enquadramento concluído será justo reforçar “a delícia” que é toda a música dos Help Yourself . No conjunto da sua discografia não existe um mau álbum, ainda que uns sejam melhores que outros. O Atalho destacaria os três primeiros – “Help Yourself”, “Strange Affair” e “Beware the shadow”, por serem de uma inigualável eloquência. O álbum estreia por incluir “Old Man” ( sem relação com o tema de Neil Young ), “Deborah”, “To Katherine They Fell” e “Street Songs” entre outros. “Strange Affair” por via de “Brown Lady”, “Heaven Row” ou “The All Electric Fur Trapper” uma peça psicadélica onde as guitarras de Morley, Richad Treece, Ernie Graham e Jo-Jo Glemser disputam o protagonismo. Finalmente “Beware The Shadow” através dos clássicos “American Mother”, “Passing Through” e da semi-prog suite “Reaffirmation”. 


Ainda que nascidos como projectos autónomos “Ther Return of Ken Whaley” e “Happy Days” foram publicados em simultâneo e assumem-se como os mais iconoclastas dos registos Help Yourself considerando o até então paradigma sonoro. Mais experimentalistas e, sobretudo no caso do segundo, permeáveis à influência do então emergente pub-rock, integram ainda assim temas muito interessantes ( “Amy”, “Candy Kane” ou “Seashell” ) onde a guitarra do artesão Richard Treece atinge patamares de excelência. 

“5” originalmente publicado em 2004 e beneficiando de uma capa concebida e desenhada por Rick Griffin, agrupa um conjunto de temas gravados no verão de 1973, mas não editados na época. É um disco bonito e essencialmente melódico. Tem dentro uma das canções mais brilhantes do colectivo – “Cowboy Song” – curiosamente uma das poucas de que Morley não é autor. Acrescem ainda quatro temas/jam sessions captados a 10 de Abril de 1972 numa sessão da BBC Radio One. 


( os dois únicos singles dos Help Yourself publicados com picture sleeve; "Brown Lady" na Alemanha e "Mummy won't be home for Christmas" em Inglaterra )

 Por fim “Lost and Found”. Cronologicamente as primeiras gravações a solo de Malcolm Morley levadas a cabo nos Foel Studios de Gales em 1976. Entretanto extraviadas, só seriam publicadas em 2002. Reúnem momentos de rara eloquência como “Grace”, “Romance in a Tin” ou o dylanesco “Naked as the Night” e são o corolário perfeito para esta iniciativa editorial. 

Help Yourself é uma banda fácil de gostar …, desde que devidamente conhecida. “Passing through” significa uma oportunidade única para os que nunca se cruzaram com estes sons e, também em simultâneo, para uma imensa minoria de incondicionais que encontrarão num lugar único todo o espólio de uma banda verdadeiramente excepcional.

 

06/05/22

Jardins do Paraíso ( LXXV )

 


“I’m absolutely delighted that the LP is getting its first release on vinyl in the UK. It might be 54 years late, but at least now you won’t need deep your pockets to get a copy!”
( Dana Gillespie, notas na capa da reedição de “Foolish Seasons” )

“Foolish Seasons” corporiza mais um incompreensível exemplo dos critérios editoriais vigentes na música do Reino Unido dos 60s. Gravado para a Decca em meados de 1968 tinha tudo – talento, qualidade, coerência, oportunidade -, para se transformar num sucesso contemporâneo. À revelia de todas as evidências ( estas linhas são escritas à luz do que a história guardou, cinco décadas depois e isso pode fazer toda a diferença ), a editora não lhe terá valorizado os méritos e o álbum acabou apenas publicado nos Estados Unidos em Março de 1969. Passou despercebido num mercado que na área apresentava grande oferta e como tal vendeu próximo do zero.

No entanto “Foolish Seasons” é um disco brilhante, luminoso, oscilando entre o folk e o pop britânico e continental da época. Tal diversidade poderá todavia ter constituído o seu calcanhar de Aquiles.

Ao tempo Dana Gillespie já gravara uns singles para a PYE mas perseguia o estatuto de singer songwriter e ansiava gravar um LP. A oportunidade surgiu quando a Decca, na sequência dos referidos singles, lhe propôs um contrato. Dana e o produtor Wayne Bickerton começaram a reunir canções. O tema título e “He loves me, he loves me not” são originais da cantora, todavia a maioria são covers. De Donovan: “You just gotta know my mind”, que o próprio nunca gravaria; de Billy Nichols ( que entretanto publicaria as suas duas contribuições no magnífico “Would you believe” ); de Michel Polnareff ou de Richard Farina.

Os participantes arregimentados para as gravações incluíam membros dos Manfred Mann, bem como conceituados músicos de sessão: Big Jim Sullivan, John Paul Jones, Herbie Flowers e Jimmy Page.



( Flashback Magazine, 2017 )

“Foolish Seasons” o tema que dá título ao álbum é particularmente belo, a cover de Donovan permanece uma sólida curiosidade histórica, “Dead” ( assinado por Joe Huffman e Moses Dillard ) uma pérola que Dana certamente gostaria de ter escrito enquanto “Hard Lovin’ Looser” rivaliza com a interpretação que Judy Collins havia produzido para o álbum “In my life”.

O bónus são dois temas originais que Dana gravou para um posterior single e que até hoje permaneciam inéditos.

Por todas as razões aqui apontadas e, porque a edição original americana, é hoje transacionada por valores aproximados a vários barris de crude, a recente reedição, ainda que limitada, é muito bem vinda.



( Capa da edição original )