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05/11/17

Elkhorn "The Black River"



A chegada do outono convida à audição de música mais de acordo com o espírito do tempo, contemplativa e vizinha do intimismo.
Oriundo de Seattle, Jesse Sheppard tem tudo para integrar o pelotão dos novos porta estandarte da chamada “american primitive guitar music”. Como videógrafo trabalhou com Glenn Jones, Jack Rose, Daniel Bachman, Chris Forsyth e Steve Gunn. Enquanto músico tem desenvolvido a sua acção a solo ou com Drew Gardner.
O mais recente projecto do duo chama-se Elkhorn e “The Black River”  constitui um passo mais no consolidar da reputação de ambos.


Sheppard trabalha a guitarra acústica com o detalhe e perfeição de um artesão, desenha as melodias que mais à frente a guitarra eléctrica de Gardner vai colorir, preenchendo com invulgar mestria os espaços vazios.
O tema título – “The Black River” – é disso um exemplo óbvio, mas quase tudo o que lhe vem a seguir demonstra que o talento não se confina a meras fronteiras escolásticas. O “finger picking” permanece a trave mestra, mas a inspiração catapulta esta música para além do tempo, de qualquer tempo.
Para escutar como se contempla uma pintura ou se devora uma obra literária.

06/10/16

Nathan Bowles "Whole & Cloven"



Depois do desaparecimento de Jack Rose, Nathan Bowles é hoje olhado por muitos como o “maverick” da chamada “american primitive guitar music”. 

Glenn Jones é excelente, mas “sofisticado”; William Tyler joga nos “sub 21”; Jack Fussell nos juniores e Daniel Bachman ainda tem muitos frangos para virar. Bowles por seu lado tem quase tudo o que Rose tinha, excepto, talvez, o apetite pelo bourbon.

Militou no colectivo Pelt ( tal como Jack Rose ), andou pelos Pigeons e pelos appalachianos Black Twig Pickers. Actualmente integra a banda de suporte de Steve Gunn, com o qual já gravou dois álbuns soberbos.

Depois de “Nansemond” em 2014, “Whole & Cloven” é o novo disco para a editora da Carolina do Norte Paradise of Bachelors. E tem dentro tudo o que nesta altura se poderia esperar de Nathan Bowles. A sonoridade inóspita que os vales das Blue Ridge Mountains albergam, a vertigem desafiadora que só os Appalaches propiciam, a desconstrução da música tradicional que os Black Twig Pickers perseguem a cada prestação e, claro, o virtuosismo de um instrumentista notável que, como poucos, utiliza banjo e guitarra acústica para dar som à iconoclastia.


“Gadarene Fugue” é um carrocel acústico que, entre o banjo, a guitarra e uma percussão primitiva, recua até um pretérito quase perfeito que, entre outras coisas, nos deixou “Deliverance”, o emblemático filme de John Boorman.  Em “Chiaroscuro”, sensorial, o piano substitui os instrumentos presentes no tema anterior, mas é igualmente avassalador na interacção que estabelece com o ouvinte.

“Blank Range: Hog Jank II” e “I miss my dog” regressam ao banjo appalachiano e caso fossem vocalizados por Steve Gunn poderiam ter sido incluídos no álbum que gravou com Black Twig Pickers. “Moonshine is the sunshine” ( uma versão do esquecido Jeffrey Cain ) e “Burnt Ends Rag” ( inspirado em Jack Rose ) encerram um disco que, juntando o melhor de dois mundos maravilhosos – “american primitive guitar” e o “avant-garde” –, se encontra muito perto da perfeição.

31/07/15

Daniel Bachman "River"


O Atalho já se ocupou de Steve Gunn, Chris Forsyth, William Tyler, Jake Fussell e Ryley Walker. Faltava referir Daniel Bachman para que a galeria dos artesãos da nova guitarra tradicional americana ficasse minimamente composta.

Tal como os nomes mencionados, Bachman é um predestinado que expressa o seu talento ( apenas ) através da guitarra acústica/slide. E, nesse particular, revela-se um discípulo fervoroso das fases iniciais de John Fahey, Peter Walker ou Leo Kottke. Sendo o primeiro uma influência incontornável, a fogosidade do jovem Bachman aproxima-o e muito do período “tuning” de Kottke, quando as notas que brotavam das cordas da sua guitarra eram em número superior ao que o ouvinte tinha capacidade para absorver.

Claro que pelo meio houve Jack Rose, mas Kottke e Fahey ficaram. “River” é por agora, o corolário de um processo criativo que se revela tão excitante quanto  impressivo. A técnica instrumental é soberba e a qualidade de captação aúdio irrepreensível. Quanto aos temas, sete, só escutados. De preferência ao entardecer, em boa companhia e com uma bebida por perto.