Mostrar mensagens com a etiqueta Malcolm Morley. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Malcolm Morley. Mostrar todas as mensagens

30/05/22

Jardins do Paraíso ( LXXVI )


“Help Yourself is uniformly delightful. Malcolm Morley sounds more like Neil Young than Neil Young does. If your ears are shaped like mine, you’re adore Help Yourself’s shimmering, crystalline guitar sound so reminiscente of the first Springfield album, against which Help Yourself stacks up very well.” 
( John Mendelsohn, Rolling Stone magazine in a review of Help Yourself’s debut album ). 

Não abundam casos como os de Help Yourself. Gravaram o álbum de estreia em 1971 sem nunca terem feito uma actuação de palco, o que para a época era verdadeiramente invulgar; no espaço de dois, três anos produziram um consistente e inspirador conjunto de discos; deixaram uma inegável pegada no rock britânico e, no entanto, aparte um nicho de indefectíveis, permanecem uma, ainda que majestosa, nota de rodapé da história. 

Funcionaram quase sempre como um colectivo democrático, com profusas e reiteradas entradas e saídas de membros ( as interseções começam nos Eire Apparent e passam entre outros pelos Man, Sam Apple Pie, Brinsley Schwarz, Dukes Deluxe, Tyla Gang, Flying Aces, Green Ray ou Sean Tyla ). Todavia o espírito e o som mantiveram a espinha dorsal, muito por responsabilidade desse extraordinário compositor e músico que é Malcolm Morley. 


Entre álbuns originais, singles e outras participações, a tarefa de conseguir a totalidade do legado de Help Yourself tem vindo a revelar-se uma tarefa árdua e sobretudo dispendiosa. Facto agora minimizado por “Passing Through, The Complete Studio Recordings”, uma compilação que reúne pela primeira vez numa única edição todas as gravações de estúdio da banda, acrescentando os dois temas integrados no lendário evento “Christmas at The Patti” e “Lost and Found”, um dos quatro álbuns a solo de Malcolm Morley e aquele que mais se identifica com o paradigma sonoro dos Help Yourself. De fora ficou apenas a participação do colectivo em “The Amazing Zig Zag Concert”, um evento levado a cabo para homenagear o legado do Zig Zag Magazine de Pete Frame em prol do underground britânico. 

 Enquadramento concluído será justo reforçar “a delícia” que é toda a música dos Help Yourself . No conjunto da sua discografia não existe um mau álbum, ainda que uns sejam melhores que outros. O Atalho destacaria os três primeiros – “Help Yourself”, “Strange Affair” e “Beware the shadow”, por serem de uma inigualável eloquência. O álbum estreia por incluir “Old Man” ( sem relação com o tema de Neil Young ), “Deborah”, “To Katherine They Fell” e “Street Songs” entre outros. “Strange Affair” por via de “Brown Lady”, “Heaven Row” ou “The All Electric Fur Trapper” uma peça psicadélica onde as guitarras de Morley, Richad Treece, Ernie Graham e Jo-Jo Glemser disputam o protagonismo. Finalmente “Beware The Shadow” através dos clássicos “American Mother”, “Passing Through” e da semi-prog suite “Reaffirmation”. 


Ainda que nascidos como projectos autónomos “Ther Return of Ken Whaley” e “Happy Days” foram publicados em simultâneo e assumem-se como os mais iconoclastas dos registos Help Yourself considerando o até então paradigma sonoro. Mais experimentalistas e, sobretudo no caso do segundo, permeáveis à influência do então emergente pub-rock, integram ainda assim temas muito interessantes ( “Amy”, “Candy Kane” ou “Seashell” ) onde a guitarra do artesão Richard Treece atinge patamares de excelência. 

“5” originalmente publicado em 2004 e beneficiando de uma capa concebida e desenhada por Rick Griffin, agrupa um conjunto de temas gravados no verão de 1973, mas não editados na época. É um disco bonito e essencialmente melódico. Tem dentro uma das canções mais brilhantes do colectivo – “Cowboy Song” – curiosamente uma das poucas de que Morley não é autor. Acrescem ainda quatro temas/jam sessions captados a 10 de Abril de 1972 numa sessão da BBC Radio One. 


( os dois únicos singles dos Help Yourself publicados com picture sleeve; "Brown Lady" na Alemanha e "Mummy won't be home for Christmas" em Inglaterra )

 Por fim “Lost and Found”. Cronologicamente as primeiras gravações a solo de Malcolm Morley levadas a cabo nos Foel Studios de Gales em 1976. Entretanto extraviadas, só seriam publicadas em 2002. Reúnem momentos de rara eloquência como “Grace”, “Romance in a Tin” ou o dylanesco “Naked as the Night” e são o corolário perfeito para esta iniciativa editorial. 

Help Yourself é uma banda fácil de gostar …, desde que devidamente conhecida. “Passing through” significa uma oportunidade única para os que nunca se cruzaram com estes sons e, também em simultâneo, para uma imensa minoria de incondicionais que encontrarão num lugar único todo o espólio de uma banda verdadeiramente excepcional.

 

10/03/22

Artefactos ( 121 )

 


Um dos fenómenos mais intrigantes da música popular britânica dos 70s do século XX, reside na persistente e incompreensível ausência de popularidade de um dos mais talentosos colectivos da época: Help Yourself.

À data, publicaram quatro álbuns absolutamente essenciais: “Help Yourself”, Strange Affair”, “Beware The Shadow” e “The Return of Ken Whaley”, a que se juntaria em 2004 o também excelente “5”, que como o título deixa antever, inclui o material que fora composto e gravado para dar sequência cronológica a “Return of Ken Whaley”, o que não aconteceu.

A natureza e razão do brilhantismo da banda alicerçava-se no facto dos membros serem  simultâneamente compositores e instrumentistas dotados. Apesar de críticas favoráveis por parte da imprensa , o mediatismo da banda nunca foi uma opção suficientemente consistente. Com o passar dos anos, o grupo, os seus discos e até os ex-membros, transformaram-se numa espécie de liturgia que um conjunto de incondicionais professava e professa com persistente regularidade.

 



Recentemente a fanzine Terrascopaedia dedicou a sua primeira edição “Annual” ao legado dos Help Yourself. Para tal convocou dois dos muitos recém convertidos – Prana Crafter  ( William Sol ) e Zachary Cale para reinterpretarem dois títulos do álbum de estreia da banda londrina, ambos saídos da inspiração de Malcolm Morley: “Your Eyes are Looking Down” e “Paper Leaves”. O resultado materializa-se num single que acompanha a publicação “The Terrascopaedia Annual” onde, como se calcula, os dois músicos dissertam sobre a importância e o legado dos Help Yourself no desenvolvimento das suas opções musicais.

No passado o Atalho já referenciou, quer a banda, quer o trabalho de Malcolm Morley a solo, mas como nunca será demais o destaque aqui fica mais esta chamada de atenção à boleia de um magnifico artefacto.

Eventuais interessados poderão deliciar-se aqui:  https://www.cherryred.co.uk/product/help-yourself-passing-through-the-complete-studio-recordings-6cd/, a única edição que agrupa toda a discografia conhecida dos Help Yourself.



( Help Yourself )

18/03/15

Malcolm Morley "Raw"




Seguramente um dos segredos melhor guardado da música britânica, Malcolm Morley fundou e integrou projectos musicais incontornáveis como Sam Apple Pie, Help Yourself, Man ou Bees Make Honey.

“Lost and found” publicado em 2002, resgatava temas inéditos escritos por volta de 1976 ( pouco tempo após o termo da aventura Help Yourself ) e é porventura um dos melhores discos canções que quase ninguém escutou.

O recente “Raw” tem o formato de EP e inclui quatro temas. Canções, voz, guitarra acústica e um violino ocasional. Não necessita de mais para ser belíssimo.

“East Virginia/Dark Hollow”, um tradicional que os Grateful Dead perfilharam, tem aqui a elegância que só a “englishness” de Morley pode conferir. Escrito por Frank Proffitt, “Poor man” é um lamento apalachiano envolto numa melodia em tom sépia. Os originais “Summerlands” e “Where the river bends” são exactamente o que se pode esperar de Morley; canções tão simples que parecem impossíveis, de uma rara sensibilidade, e feitas daquela beleza serena que lhes permitirá resistir ao tempo, como de resto sucede com a maioria das canções do autor.

A única má noticia consiste na edição, limitada a apenas 300 exemplares.