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04/03/17

Karen Zanes "Of lovers and tribes"



A coberto dos The Freeways, Ghost Machine Noise, Violet Nox, Second Day Venom, ou a solo, Karen Zanes tem vindo a ganhar o seu espaço na comunidade  underground de Boston, Cambridge em particular.

O recente “Of Lovers and Tribes”  constitui um passo mais nesse sentido.

Inspirada no psicadelismo americano dos 60s e, mais recentemente, no secular folk pastoral britânico, Karen Zanes utiliza as suas ferramentas académicas ( a fotografia e o  cinema ) para criar uma linguagem musical simples nos meios e forma mas, ao mesmo tempo, colorida por amplas paisagens cinemáticas.

Que tudo isto seja organicamente conseguido no recanto de um estúdio privado, torna o resultado final ainda mais meritório. “Of Lovers and Tribes” são oito temas que balançam entre o psicadélico e o folk, aqui e ali robotizados pelo drone, como é evidente em “Drowning” ou no tema título. Destaque final para o belíssimo “Ghosting”, exemplo do muito que se pode fazer com muito pouco.

09/08/14

The Freeways "Dream Machine"


Em 2010, quando “The Freeways” foi publicado,  percebia-se  que se estava perante algo que não sendo absolutamente inovador, possuía a dose de talento e criação necessários para transformar os seus autores  numa importante nota de rodapé do neo-psicadelismo americano. 

A confirmação chegou agora sob a forma de “Dream Machine”. Com contornos perfeitamente definidos, da música dos Freeways emanam as influências óbvias que o conhecimento e bom gosto aconselham:  Pink Floyd e Stones, no cume do seu processo criativo ( entre 1967 e 1971 ), Rain Parade e o Paisley Underground   americano dos 80s; Mazzy Star naturalmente. E umas quantas pinceladas Velvet Underground também, filtradas através do olhar pueril de Jonathan Richman e dos Feelies. Falamos portanto da uma autêntica aristocracia de influências.


Ainda que o disco estreia seja porventura mais imediato, “Dream Machine” é mais ousado, e mais conciso também ( 31m e 23s apenas ). Reparte-se entre magnificas miniaturas sem tempo ( “Thomas Organ” ), instrumentais que  acolhem o velho surf-rock ( “Fast wave”, “Venice Beach” ), peças que remetem para a hipnótica quietude de Opal/Mazzy Star ( “You’re my addiction” ) ou peregrinações espeleológicas ao fuzz-garage-rock ( “Paragon”, “To just be” ).

Mas, acima de todas as outras emerge “Angels”, a melhor canção que os Freeways já gravaram e seguramente um tema que 2014 guardará nos cadernos do underground. Sólido o rolling do baixo, protegendo cuidadosamente os traços que a guitarra de Zanes vai esboçando, numa tela sonora que a percussão de Abe Guler sustenta, subtilmente.

E, quando “Dream Machine” chega ao fim, quase nem demos pela presença de um discreto órgão vintage que Karen Zanes foi resgatar a “Ummagumma” e a “Meddle”… Perfeito.

06/10/10

The Freeways "The Freeways"


Por vezes, uma receita imaginativa e bem confeccionada produz excelentes resultados. Atente-se no caso dos Freeways.

A um preparado feito à base de pós-punk, adicionam-se duas colheres de new-wave e garage-punk, uma pitada de Feelies ( de preferência da marca Velvet ), tempera-se com um pouco de “paisley-underground” e no final junta-se uma vocalista muito bem apessoada. Vai ao estúdio e, algum tempo depois, é-nos oferecido um disco que, estando longe de ser um portento de inovação, se escuta com indisfarçável prazer.

Originários de Cambridge/Boston os Freeways, propulsionados pela vocalista Karen Zanes ( está por apurar se possui algum parentesco com o Dan Zanes que nos idos 80 liderou os também bostonianos Del Fuegos ) e pelo guitarrista Frank E. Butkuns, têm no registo homónimo o seu disco de estreia.

Logo a abrir, “Whenever you want me” diz ao que vem. Um “beat” tonitruante e um “fuzz” a condizer, agarram-nos pelos colarinhos e o mais sensato é não oferecer grande resistência, muito embora a incomodativa sensação de já se ter ouvido isto em qualquer lado. “Neon Light Show” é um encontro inusitado entre os X e os Rain Parade, enquanto “I’ll take it” e “Shake the Dope out” ( um original dos Warlocks ) fazem os cilindros regressar à mais alta rotação.


Sobre “Love is a sick thing” paira uma inesperada inflexão melódica, enquanto “Country” se posiciona a meio caminho entre o monolitismo Wooden Shjips e as paisagens rurais que os Passions de Barbara Gogan percorreram no inicio dos anos 80. “Casa Loma” são de novo os X, mas desta vez com Kendra Smith no lugar de Exene Cervenkova.

Numa audição cega, teria defendido que as guitarras que abrem e sustentam “Glass Eye” eram oriundas de um tema inédito dos Feelies. Naahh, com o evoluir da canção constato que afinal uma sessão dos Mazzy Star seria algo de mais apropriado. Idem para o californiano “End of summer”.

Não se pense no entanto que “The Freeways” é um disco despiciendo. Ao contrário, trata-se um magnifico trabalho de “copy/paste” altamente recomendado para todos aqueles que ainda não atingiram os 25 anos. Naturalmente, com a recomendação expressa de logo a seguir tratarem de escutar os originais….