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02/04/25

Elandill "S/t"

 


Em 2024, numa loja de oportunidade em Chiswick nos arredores de Londres, foi descoberto um acetato identificado por Elandill. Único exemplar conhecido, acabou por dar origem a uma edição em vinil limitada a 227 unidades. Até à data, nada mais se sabe sobre a origem ou história do(s) autor(es) do artefacto.

A música, essa é profundamente britânica, matriz do inicio dos 70s. Pastoral, progressiva, “Chamber rock”, elegante e sofisticada.

Estética e estruturalmente próxima do paradigma da Charisma Records ( período de vigência do selo Pink Scroll ), ecoa a Genesis pré-“Foxtrot”, Yes pré “Yes Album”, Jethro Tull pré “Aqualung”, Audience de “Friend’s Friend’s Friend” ou até Family de “Music In A Doll’s House”.



A trilogia presente no lado A é magnifica com particular destaque para a suite “Storybook Friend” que soma à profunda englishness pequenas componentes do som west-coast da época.


O lado B, mais curto, segue a mesma bitola, com um detalhe adicional: as vocalizações são “assustadoramente” semelhantes às prestações de Jon Anderson nos primeiros álbuns de Yes, como se a intenção fosse mesmo essa ou de uma clonagem se tratasse.

Tudo somado, “Elandill” é um belíssimo artefacto de época, do qual certamente ainda iremos ouvir falar no futuro.  

Calcula-se que nesta altura uma horda de investigadores já se encontre em trabalho de campo, na senda de descobrir mais pormenores acerca deste mistério.

12/10/23

"All God's Children, Songs from The British Jesus Rock Revolution 1967-1974"

 


“I got really fed up with going to concerts where 95 per cent of the audience were Christians. I felt I was preaching to the converted. I felt as if they were saying that Christian musicians couldn’t compete with their secular counterparts” ( Judy MacKenzie )

 

Não conhecendo embora a projecção e a importância da sua congénere norte-americana, a música britânica de inspiração cristã dos finais dos 60s inicio dos 70s do século XX, teve os seus momentos, episódios marcantes, editoras  e nomes a reter.

Muito para além e anos antes das performances teatrais de “Jesus Christ Superstar” ou “Godspell” já os artistas cristãos tinham ganho o seu espaço no Reino Unido e não apenas via música folk ( aparentemente a opção mais fácil e óbvia ). Imbuídos do espírito que presidia às iniciativas do Salvation Army, versões litúrgicas do gospel, do blues e até do rock, preencheram o epicentro do movimento.

É neste borbulhante caldeirão que se movimentam militantes como Judy MacKenzie, John Pantry, Out Of Darkness, Parchment, Whispers of Truth, All Things New, The Pilgrims ou Roger & Jan. Espiritualistas “à la carte” e passageiros ocasionais também os houve como o comprovam as incursões de nomes como Alan Hull ( Lindisfarne ), Quintessence, Magna Carta, The Johnstons,  Kevin Coyne, Bill Fay, Jethro Tull, Strawbs, Nirvana, ou Mellow Candle entre muitos outros.




As motivações essas naturalmente divergiam. Não é crível por exemplo que as intenções de Ian Anderson quando escreveu “My God” para “Aqualung” fossem passíveis de encontrar paralelo nos Out Of Darkness quando criaram “On Solid Rock” ou nos Quintessence quando gravaram “Jesus my life”.

“All God’s Children, Songs from The British Jesus Rock Revolution 1967-1974” – cujo título se inspira no conhecido tema dos Kinks “God’s Children”, o qual verdade seja dita tinha pouco de evangélico e muito de metafórico  - procura ilustrar o movimento e a época. E é importante não apenas na vertente estritamente musical, mas também no enquadramento social que a originou.

Como todas as compilações pensadas e “desenhadas” por David Wells é brilhante, ainda que no caso concreto o advérbio “quase” persista em reivindicar a sua presença.

“Prelude” dos Salamander é a abertura celestial, impossível de ignorar; a fórmula Cream dos Out Of Darkness é convincente para além de eloquente; “The man who called himself Jesus” era impossível de ignorar; o mesmo sucede com “To be a Pilgrim”, “Jesus” “Stories of Jesus”, “Three Crosses”, “New Song”, “Son of God”, ou “Jesus come back”,  respectivamente de Gerald Moore, Wil Malone, Clive Palmer, Roger & Jan, Judy MacKenzie, Parchment e Ramases.




Com estes coexistem Cavalos de Tróia, como a versão de “Jesus is just alright” dos Bourbon Street Mission ( um colectivo criado pelo produtor Sandy Roberton e cuja memória ainda hoje deve causar pesadelos à cantora escocesa Shelagh McDonald por ter participado no coisa ), “Prayer” dos Manfred Mann’s Earth Band  ou a inenarrável versão de “Jesus Cristo” ( Roberto Carlos lembram-se? ) pelos Fickle Pickle.

Contas feitas, “All God’s Children” é, para além de recuperar e retratar um movimento e uma época historicamente importante, um verdadeiro entretenimento.

01/01/22

Ian A. Anderson "Please Re-adjust Your Time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72"

 


“Issued in March 1969, Island’s celebrated label sampler ‘You Can All Join In’ featured an iconic front cover photo of their various acts, shivering in Hyde Park on a cold winter’s morning. One of the musicians pictured on the cover, however, wouldn’t be allowed to join in. Recorded in November 1968, West Country-based country blues performer Ian Anderson’s album ‘Stereo Death Breakdown’ was scheduled to be issued by Island, but Jethro Tull’s management complained that having two Ian Andersons on the label would be confusing.” 

( David Wells in “Separate Paths Together, an Anthology of British Singer/Songwriters 1965-1975” )




Recordei o texto acima ao constatar que “Stereo Death Breakdown” é um dos trabalhos que integra a compilação “Please Re-adjust your time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72”.

Titulado pela Anderson’s Country Blues Band, o álbum acabaria por ser publicado pela Liberty em Junho de 1969, sendo agora recuperado na sua totalidade, acrescido de temas entretanto publicados em EPs onde Anderson partilhou o talento e o country blues com Al Jones, Elliott Jackson, Mike Cooper e Jo-Ann Kelly entre outros.

Só que nove meses é muito tempo e, na época, as coisas mudavam mais depressa que a duração normal de uma gestação humana.
A cena de Bristol mudara e a inspiração deixou de ser Alexis Korner, os blues man americanos ou o trio Koerner, Ray & Glover e com a emergência de Keith Christmas ou Michael Chapman as referências mudaram rapidamente para o neo-folk britânico protagonizado por nomes como Shirley Collins, Incredible String Band ou Dr. Strangely Strange.

Em Abril de 1970 Anderson, apoiado em Al Jones e Keith Christmas publicou “Book of Changes” na Fontana ( infelizmente não licenciado para esta compilação e como tal irá permanecer sem reedição oficial ) mas o projecto de lançamento de uma editora independente já estava em marcha, a participação no primeiro Glastonbury Festival e a cada vez maior inflexão em direcção à tradição folk britânica era já irreversível, donde que a publicação de “Royal York Crescent” em Novembro de 70 na acabada de nascer Village Thing Records não surpreenda minimamente.

No inicio, “Royal York Crescent” ainda parece querer manter a ligação à sonoridade bluesy americana através de “No Way To Get Along”, mas conteúdo e  forma rapidamente se encaminham para uma maior englishness, suportada pela voz e incomum técnica de Anderson na guitarra acústica ( em tempos alguém definiu o som como “heavy folk” ) sempre coadjuvado por um nada despiciendo Ian Hunt na segunda acústica.



“A vulture is not a bird you can trust” ( Dezembro de 1971 ) nasceu e cresceu a partir dos conceitos experimentados no álbum anterior, definitivamente um disco do seu tempo. Inspiração e estéticas folk-rock, contornos singer-songwriter ( uma versão de Dylan, “One too many mornings”, outra de Loudon Wainwright, “Black Uncle Remus” ),  regravações de dois temas do álbum  “Book of Changes”, Pick Withers futuro Dire Straits na bateria e uma novidade, a introdução do órgão no naipe de instrumentos utilizados. Não sendo a última das maravilhas, é um registo a merecer uma audição prospectiva sobretudo tendo em conta o trabalho das guitarras em canções como “One more chance” ou “Time is Ripe”. Os quatro títulos extra aqui incluídos foram retirados do já referido “Book of Changes”, o tal “disco maldito” que, enquanto álbum, Ian A. Anderson tão veementemente decidiu banir da sua discografia.

Um ano após, Dezembro de 1972, nova inflexão estilística com “Singer Sleeps on as Blaze Rages”. A habitual segunda guitarra Ian Hunt está ausente ( entretanto a gravar com John Turner o excelente “Magic Landscape” também para a Village Thing ) e está de regresso a colaboração com Mike Cooper com quem Anderson não gravava desde 67. Eclético será o termo apropriado para caracterizar este último álbum de Ian Anderson para sua própria editora. O country blues está de novo presente, o picking também, obviamente e por aquela via. A espaços, muitos, paira a sensação de que Leo Kottke  e a sua genial técnica de bootleneck passaram por ali, intermitentemente. Trata-se de mera ilusão naturalmente. Kottke está para além de qualquer imitação, por mais competente que possa ser ser.

Num dos discos menos equilibrados de autor, sobram os excelentes “Maria Celeste on Down”, “Sign of the Times” e “Shirley Temple Meets Hawkwind”, os quais deixam a milhas uma versão incaracterística de “Paint it, Black” dos Stones. Os quatro temas extra fazem parte do espólio dos Hot Vultures, um duo que Anderson experimentaria nos anos seguintes ao lado da baixista Maggie Holland, mas que a história não registou com empenho significativo.

Tudo resumido, e tendo em conta que os discos originais se transacionam hoje como se barras de ouro se tratassem, regista-se o facto de poder escutar numa única edição a quase totalidade da globalmente interessante obra do autor. Lamentando uma vez mais o facto de “Book of Changes” ter ficado maioritariamente de fora ( Fausto afinal não está só na sua recusa em permitir a reedição do seu álbum estreia para a Philips ).



Nota: A eventuais interessados na história cena folk de Bristol e / ou da editora Village Thing em particular sugere-se a consulta dos livros que Mark Jones publicou em 2009 e 2010 respectivamente.

27/03/21

Record Files ( 24 )




“Paddy is dead and the kids know it” era já um artefacto anacrónico quando foi publicado pela Golden Guinea ( uma subsidiária da PYE ) em Dezembro de 1969.

Mais de meio século volvido, àquela característica deverá acrescentar-se uma tremenda raridade, para além de valores de mercado verdadeiramente obscenos, inerentes à escassez da oferta é certo, mas desajustados se se considerar apenas a vertente artística da compilação.

À data, Pat Egan, um jornalista musical irlandês, pretendeu dar a conhecer um conjunto de bandas emergentes nas duas Irlandas. Para a história terá ficado a intenção, o voluntarismo do promotor e o défice de talento patenteado pela maioria dos grupos chamados a colaborar.

Coabitam em “Paddy is dead …” versões mais ou menos anémicas dos Beatles, Phil Spector / Ike & Tina Turner, Gershwin, Carl Perkins, Status Quo, Grapefruit ou Blood Sweat & Tears, todas candidatas ao esquecimento uma vez terminada a respectiva audição.


( Taxi )

A pérola, curiosamente um original, é responsabilidade dos Taxi, um quinteto originário de Ballymena na Irlanda do Norte. O seu “Counting Time My Way” poderia perfeitamente ter integrado “This was”, “Stand Up” ou “Benefit” dos Tull e, muito provavelmente, ninguém o acharia desajustado.

Captada num cemitério, a foto da capa da compilação, juntando uma cruz de inspiração celta e um sorridente projecto de skinhead, também não deve ter ajudado em nada o departamento de vendas.


( Record Collector Magazine # 378, Agosto 2010 )

03/01/17

Wolf People "Ruins"



Li há dias na edição que comemora o quinquagésimo aniversário da revista gaulesa ‘Rock & Folk’ que pouco tempo antes de falecer, o seu fundador – Philippe Koechlin -, terá confidenciado à família: “depois de conhecer Jim Morrison e Jimi Hendrix, como poderei interessar-me por uma figura como Robert Smith dos Cure?“.

Compreendo-o em parte. No que respeita à dimensão humana das figuras em causa, terá provavelmente razão, embora o dinamismo dos tempos não se compadeça com estaticismos. Discordo no entanto da tese que parece subjacente à afirmação. Cada geração tem os seus ícones e existem grandes criadores em todas as épocas.

Atente-se nos Wolf People. A banda do Bedfordshire leva já cerca de uma década de existência, período durante o qual publicou um conjunto importante de singles e três álbuns de referência. O quarto “Ruins” acabado de sair, acrescenta solidez e maturidade ao talento já evidenciado.


Na sua verdadeira essência, a música dos Wolf People só poderia ser feita por ingleses. As raízes e o modelo que escolheram recriar são definitivamente britânicos. Uma constatação óbvia, quer a abordagem seja feita pelo lado do folk tradicional, quer pelo do blues rock.

No fundo, embora Jack Sharp continue a sustentar que nunca tinha escutado os primeiros 3, 4 álbuns dos Jethro Tull até fãs e crítica lhe terem mencionado as semelhanças, a verdade é que a música de “Ruins”, ainda que contemporânea, estruturalmente evoca aquele extraordinária “mélange” entre melodias tradicionais britânicas e a visão do blues rock que Ian Anderson confeccionou na discografia dos Tull até 1971 quando publicou o seminal “Aqualung”.

E os ocasionais exercícios da flauta são um mero pormenor no meio de toda a avalanche de guitarras, ora delicadas ora distorcidas, reclamando um lugar no panteão do moderno psych folk-rock. Os impressionantes sete minutos do épico “Kingfisher” não enganam. Ali está condensado tudo o que importa na música de Jack Sharp. Talento, inspiração, virtuosismo e atenção às raízes. Um dos discos do ano.

27/11/14

Record Files ( 8 )




Seguramente um dos artefactos mais bonitos da época, nas suas primeiras edições, "Living in the past" a primeira dupla compilação dos Jethro Tull, conheceu ligeiras diferenças entre as edições inglesa ( Chrysalis CJT 1 e 2, Julho 1972 ) e americana ( Reprise / Chrysalis  2 CH 1035 / 2TS 2106, Outubro 1972 ).

Desde logo no design do booklet, mas sobretudo no alinhamento e conteúdo dos temas. No lado 2 do primeiro disco, a edição inglesa inclui "Inside", substituído na norte-americana por "Alive and well and living in". Idem no lado 4, onde no lugar de "Locomotive breath", surge "Hymn 43".




21/04/14

Wolf People "When the fire is dead in the grate"



Objecto de culto minoritário e silencioso, os britânicos Wolf People publicaram em 2013 o excelente “Fain”. Na respectiva ressaca, os seguidores têm agora a possibilidade de escutar o material que, por uma razão ou por outra, não coube no alinhamento do álbum.
O EP “When the fire is dead in the grate”, edição exclusiva em vinil ( capa da autoria de Finn Clark ), inclui o tema título e “All returns”, ambos extraídos do álbum, mas acrescenta-lhes “Become the ground” e “All returns II”.

O primeiro, uma balada folk-rock que poderia perfeitamente integrar “Minstrel in the Gallery” ou “Songs from the Wood”, possui todos os ingredientes necessários para atingir a posteridade, ainda que até lá permaneça incógnito. “All returns II” resulta de uma jam session que “esticou” o tema um bom par de minutos; uma opção habitualmente pouco recomendável, mas que no caso se mostra interessante.
“Fain” merecia e ficou entretanto mais completo com este EP.

22/02/14

Record Files ( 3 )



O meu Jethro Tull favorito depois de “Aqualung”, “Benefit” é um álbum enorme. Uma colectânea de canções extraordinárias que se afasta do blues rock inicial, principiando a principia a construção de uma ponte que levaria ao enfadonho discurso prog de “Thick as a brick” e, sobretudo, “A Passion Play”.

No caso, as capas ( simples ) das edições inglesa e americana são iguais. Mas o alinhamento dos temas da prensagem americana é diverso. Fazendo jus ao seu habitual pragmatismo, os americanos retiraram o jazzy “Alive and well and living in” para acomodar o fenomenal “Teacher”, o single que havia ficado de fora da edição inglesa.

O resultado é um conjunto de temas ainda mais equilibrado e pujante. Comparando o áudio dos meus exemplares, a edição americana leva vantagem. A mistura é limpa, cristalina e chega bem à frente as guitarras de Barre e o piano de John Evan. Uma inspiração.