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25/01/22

Jardins do Paraíso ( LXXIII )

 


Remexer no passado constitui sempre um risco e é seguramente algo que deve ser abordado com o rigor e parcimónia possíveis, aparte o talento envolvido, naturalmente.

Num tempo em que artistas aqui citados com alguma frequência como Jack Sharp ( ex-Wolf People ) se mostram dispostos a prescindir dos mínimos olímpicos em matéria de exigência e bom gosto ( a versão supostamente psych de “La Isla Bonita” da Sôdona Madonna pelo novo projecto Large Plants é no mínimo discutível, face histórico do guitarrista e compositor britânico ), a ideia dos dB’s regressarem ao seu passado mais remoto, criou expectativa primeiro, desencanto em seguida.

É certo que a compilação da Rhino  Records “Ride the Wild TomTom” ( 1993 ), publicada presume-se com o beneplácito da banda ou pelo menos parte dela, uma vez que Peter Holsapple assina o texto introdutório, não tocava em todos os pontos chave. Porém “I Thought You Wanted To Know 1978-1981” não parece justificar-se apenas ou quase pela inclusão da versão original do emblemático “(I Tought) You Wanted To Know” um título pré-dB’s composto por Richard Lloyd ( futuro membro dos Television ) e aqui ainda com o autor na guitarra e harmonias vocais. A composição acabaria por ser editada em 1978 constituindo-se então no primeiro single de Chris Stamey and The dB’s.

É certo que também há “Black and White” e “Soul Kiss”, ambos incluídos no segundo single, misturado por Don Dixon e já com Holsapple a bordo, contudo a maioria do restante alinhamento é redundante e em determinados casos pouco motivador. Menção especial para as chamadas NY Rocker Sessions ou para as versões ao vivo de “Tomorrow Never Knows” / Beatles e “My Back Pages" / Dylan por exemplo. Ao invés, a versão de palco de “Let’s Live for Today” dos Grass Roots surge enxuta e pouco ou nada datada.

No geral, uma edição que se aceita como prova de vida e que se recordará pela belíssima prestação de Richard Lloyd na versão original do tema título.

Em jeito de compensação, e como nada se compara a um artefacto original, ficam fotos de alguns dos primeiros singles dos mentores deste globalmente interessante projecto.

 

Sneakers ( pré-dB's ) EP, Carnivorous, 1976


Chris Stamey, Single ORK records, produção de Alex Chilton, versão de capa branca, 1977


Peter Holsapple, Single Car Records, produção de Chris Stamey, 1978


Chris Stamey and The dB's, Single Car Records, 1978

08/07/19

Artefactos ( 91 )




Não é um dado curricular particularmente conhecido. Chris Stamey, muito antes de com Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby ter fundado os seminais dB's, na segunda metade dos 70s, deixou para trás os Sneakers trocando a Carolina do Norte por Nova Iorque, para acompanhar Alex Chilton na demanda de uma carreira a construir a partir do palco do CBGB.

Já na Big Apple e depois de um single a solo para a Ork Records, Stamey cria a Car Records, etiqueta que ganhou a eternidade após de ter lançado "I Am the Cosmos" de Chris Bell.

No entretanto, publicou dois singles também eles históricos e também eles resultado do excitante borbulhar criativo que se vivia na época em Nova Iorque.

O primeiro registo a solo de Peter Holsapple, no caso com os The H-Bombs e a embrionária estreia dos dB's, ambos datados de 1978. De salientar que o lado A do último: "(I Thought) You Wanted To Know" é assinado por Richard Lloyd que entretanto abandonara os Television.




04/01/16

"Ork Records: New York, New York"




Alguns discos contam-nos histórias, outros relatam-nos a História. Uns e outros acabam na prateleira dos clássicos, mas os últimos têm papel importante na compreensão da cultura e do mundo à nossa volta. “Ork Records: New York, New York” é desses um exemplo maior.

Perspectivando: meados dos 70s. O prog-rock aproximava-se do seu estertor e o punk era ainda uma vaga ideia. O underground de Nova Iorque fervilhava e no palco do CBGB o rebuliço era grande.  Patti Smith e  Television deixavam o casulo. Terry Ork, um manager atento e perspicaz, criou a sua própria editora e, respectivamente, gravou os icónicos “Piss Factory” e “Little Johnny Jewel”. O resto é história, tão interessante quanto importante.


Sempre com o CBGB em mira e a New York Renaissance como pano de fundo, Ork e o sócio Charles Ball publicaram muita da música que definiu o tempo e o modo da cidade.  As primeiras composições dos Feelies, o EP de estreia de Richard Hell, Chris Stamey em processo de formatação dos dB’s, os Marbles, Alex Chilton na ressaca dos Big Star, Lenny Kaye escondido atrás dos Link Cromwell, Lester Bangs depois da Rolling Stone e da Creem, Peter Holsapple, Richard Lloyd …

“Ork Records: New York, New York” compila 49 temas com história. Desce à mais obscura das caves, trazendo à superfície pedaços de memórias que, doutra forma, nunca se conheceriam. O formato pode ser em vinilo ou cd; o fundamental é mesmo a música e as 109 páginas do livro que explica porque e como foi criada.