“Happiness is everywhere, even in me”, John Phillips ( “I’ll Try For The Rain” )
Imaginem um local, espaço onde os trajectos de Donovan e Nick Drake se interceptam. Existe, ou melhor, existiu. Dá pelo nome de John Phillips, não o mentor dos The Mamas & The Papas, antes um súbdito britânico cuja escassa obra foi maioritariamente criada e gravada em Salisbúria na Rodésia (hoje Harare e Zimbabwe, respectivamente).
“John”, o até há pouco único registo conhecido do autor, foi publicado pela editora RPM na África do Sul em 1969. A edição terá sido escassa ( algo entre as 100 e 200 cópias ) e, como tal, o número de exemplares originais em circulação andou sempre próximo do zero.
Finalmente reeditado, percebe-se agora a razão da recente demanda por parte de coleccionadores e historiadores. Trata-se com efeito de um extraordinário conjunto de canções, perfeitamente enquadrado na época em que foi criado. Instrumentalmente roça o espartano, porém a beleza das melodias convoca Donovan, enquanto a sensibilidade dos temas remete para Drake. O somatório destas características resulta na perfeição e as canções / melodias pairam na cabeça do ouvinte muito depois de terminarem.
Entre espanto e admiração, é de resto aquela a principal sensação que emerge depois de se escutarem “Peppermint Wind”, “Scaramouche”, “Pre Ante Pen Ultimatum”, “Mulberry Avenue”, “Sylvia” ou “Look At The Time Fly”.
“Songs of Gentleness 1969 – 1976” agora publicado pela canadiana Strawberry Rain, reedita “John” e acrescenta-lhe três outros álbuns de gravações inéditas: “John 1972”, “John 1976” e “Demos”.
“John 1972”, reúne maquetes gravadas nos APL Studios de Salisburia com a colaboração do guitarrista John Oakley-Smith. Mantem as influências anteriores ( a versão amputada de “Season of the witch” comprova-o ) e afirma-se como um conjunto de temas de folk britânico a que se acrescentam influências blues / americana ( “Mary Jane” ) e africanas ( “Iwe Neni Tinenamo” ).
Devidamente trabalhados e produzidos os temas incluídos em “John 1972” não só estariam ao nível do disco anterior como eventualmente figurariam na galeria do melhor folk inglês da época; apesar de escassamente produzidos, “Parting is never forever goodbye”, “Looking Glass”, “Quavatina” ou “Pretty Garlands” são ainda assim canções superlativas, como aliás se pode parcialmente comprovar no disco imediatamente a seguir na linha do tempo.
De facto, quatro anos volvidos, “John 1976” gravado a solo no mesmo estúdio em Fevereiro de 1976 mas objecto de uma mais cuidada captação áudio, acolhe de novo as canções atrás mencionadas, permitindo-nos agora perceber melhor a sua verdadeira dimensão lírica, sendo que a generalidade das restantes afina pelo mesmo diapasão.
A título de exemplo: em “Time Will Tell”, Phillips como que persegue o legado de Nick Drake no seu tema homónimo e em “Train Song” a introdução da guitarra acústica mimetiza o som de um comboio em movimento.
“Demos”, o terceiro disco de inéditos, tal como os dois anteriores recuperado e masterizado a partir de três “reel-to-reel tapes” encontradas no sótão de um familiar, é como o nome induz, um conjunto de doze maquetas de canções que ganham vida e forma através da voz angelical e guitarra acústica ( que por vezes alterna com a auto-harpa ) do autor. Todas, impressivos esboços em filigrana que estimulam a imaginação do ouvinte e que necessariamente alimentam uma dúvida: o que seria de todas estas canções se ao autor tivessem sido dados tempo e meios para as completar?
Fustigado por diversas tragédias pessoais, reclusivo, John Phillips faleceu em Oxford em Fevereiro de 1995 vítima de cancro. Em vida, ninguém soube da doença que o acometeu.





