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12/02/23

Meg Baird "Furling"


Por aqui olha-se para “Don’t Weigh Down The Light” como o “Blue” deste milénio.  Meg Baird é, de há muito, habitué no Atalho. Desde os Espers com Greg Weeks, a solo, ou mais recentemente por via das suas colaborações, designadamente com os Heron Oblivion de Ethan Miller.

Dito isto, tudo o que não precisávamos era de mais um disco meio anémico, esquecível e soporífero. Disso já há muito por aí, Weyes Blood, Josephine Foster, Joanna Newsom …

As razões poderão ser várias: o isolamento provocado pela pandemia ( o disco foi gravado em 2020 ), o excessivo protagonismo e influência do multi-instrumentista Charlie Saufley, o aparente abandono da matriz folk, campo onde a voz de Meg se movimenta na perfeição …, a verdade é que as composições de  “Furling” desiludem da primeira à enésima audição.

O instrumental “Ashes, Ashes” apesar de constituir um corpo estranho no universo de Meg Baird deixa no ar alguma expectativa, porém o que se segue não está à altura. Mais à frente “Cross Bay” promete mas queda-se por aí.

No lado B mora “Unnamed Drives” o único tema que guardaríamos para um hipotético “Best of”. Tudo o resto transmite o gosto amargo de desilusão. A tudo isto acresce uma estranha gafe: a capa indica um tema chamado “Will You Follow me Home?”, todavia no disco surge outro: “The Apple Mush Gang”.

Balanço feito, o mais avisado será voltar rapidamente a “Dear Companion” ou “Don’t Weigh Down” e esquecer este, espera-se, pequeno equívoco.

03/04/16

Constantine "Day of Light"



Oriundo de Chicago no Illinois, Constantine publicou no final de 2015 aquele que poderá muito bem ser um dos discos de 2016: “Day of light”.
Do casting fazem parte ex-membros do mítico colectivo de folk barroco OWL ( Of Wondrous Legends ) com destaque para Stephen Titra, aqui responsável pela guitarra acústica e design da capa.
“Day of light” é um daqueles discos sem tempo. Actual, poderia no entanto ter sido gravado em 1971. E, seguramente, escuta-se tão bem hoje como ontem. “Acid-folk” dir-se-á.  Porém genuinamente psicadélico, belo e encantatório como poucos discos do género o conseguem ser, está construído sobre um terreno onde o bom gosto e a paixão germinam de forma espontânea.
Dito de uma outra maneira, através dele tanto podemos revisitar a atmosfera pastoral de Espers ou OWL ( “Into the Land, That time forgot” ou “On through the ages” ), como logo de seguida fazer uma incursão na costa oeste e no psicadelismo dos Jefferson Airplane, H.P. Lovecraft ou Ashes ( “The Trip, Parts I & II” ) para terminar, lisérgicos, embrenhados sem disso dar conta nas vibrações sonoras do oriente médio ( “Egyptian days” ou “Fountains / Reflections” ).
“Day of light” encanta como poucos. Dele falar-se-á muito para além de 2016.

17/08/15

Meg Baird "Don't weigh down the light"


Existem talentos assim. Versáteis. Meg Baird passou pelo colectivo neo-psicadélico Espers, integrou as Baird Sisters, tocou na banda punk Watery Love. Recentemente, ao lado de Ethan Miller e Charlie Saufley, é dona da  bateria em Heron Oblivion. Um curriculum invejável para quem anda por aí há pouco mais de 10 anos. 

Outros, com muito menos, estariam em bicos de pés. Porém, a cada disco a solo ( em oito anos são apenas três ) Meg faz questão de deixar claro que para ela, menos significa mais e que as coisas feitas de simplicidade são sempre mais belas e perenes.

Depois existe o tal talento. Aquele atributo especial que faz com que todas as suas canções, ainda que originais, pareçam clássicos da folk, como sucede no novo “Don’t weigh down the light”.

Este, tal como os anteriores, é uma revelação. Apenas Meg ( voz, guitarra, órgão, piano, baixo e percussão ) e o ex-Assemble Head in Sunsburst Sound Charlie Saufley ( guitarra e órgão ). A voz ainda que discreta, brilha; as canções, envoltas numa atmosfera antiga,  tocam e convidam à cumplicidade; o órgão confere solidez e a guitarra de Saufley como que fala connosco ( a comprovar no soberbo “Back to you” ), simultaneamente protagonista e “éminence grise” da beleza única que emerge de “Don’t weigh the light”.

Coincidência ou não, o disco que apetece escutar a seguir é  “Blue” de Joni Mitchell …

10/01/12

Meg Baird "Seasons on Earth"


Depois de “Leaves from off the tree” (uma colaboração com Helena Espvall e Sharron Kraus) e de “Dear Companion” (2007), Meg Baird, a voz feminina dos Espers, o projecto neo-psicadélico de Greg Weeks, está finalmente de regresso com “Seasons on Earth”. Dito de outra maneira: temos de novo o privilégio de escutar, interpretando uma dezena de temas de uma forma muito próximo do sublime, aquela que será porventura a melhor voz feminina a surgir na folk americana em muitos muitos anos.

Para ser absolutamente sincero, ao Atalho sobram emoções e faltam palavras para descrever com critério e objectividade os sons e sensações que emergem de “Seasons on Earth”. Logo a abrir, “Babyon” dá o tom. A beleza singela da voz e a delicadeza da guitarra de Meg conquistam a mais distraída das atenções. “Stars climb up the vine” , “Share”, “The Finder” seguem a mesma via, mas sempre em crescendo.



As versões de “Friends” (um magnifico tema de 1971 escrito por Jon Mark, e desde então perdido no interior do álbum homónimo do duo Mark-Almond) e “Beatles and the Stones” (um original dos House of Love) são tão peculiares e idiossincráticas como o são por norma as versões das canções trabalhadas por Mark Kozelek, isto é: são como que novas canções, construídas em cima de uma estrutura pré-conhecida.

E no final pouco importa tergiversar sobre as steel guitars , dobros, ou percussões dos músicos convidados para este festim silencioso e quase intimista. O palco está refém da voz, guitarra acústica e talento de Meg Baird – “Stream” quase a terminar é outra peça de antologia -, e tudo o resto é pouco mais que supérfluo.

No interior da capa Meg escreveu: “for Jack Rose, who is missed more than can be expressed here or elsewhere”, uma dedicatória que diz tudo o que precisa ser dito.