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07/08/25

Record Files ( 33 )

 


Local onde, entre os anos de 1964 e 1972, operou o lendário clube Les Cousains, 49 Greek Street no bairro londrino do Soho, é também o título de uma muito interessante e pouco conhecida compilação do inicio dos 70s.

Com dedicatória: “For everyone who’s ever been on, played or sung at 49 Greek Street”, o álbum agrupa um conjunto de artistas com ligações contratuais a  Sandy  Roberton, o qual se encarregou da produção e também da constituição da banda de apoio ( Ashley Hutchings, Danny Thompson, Martin Stone, Andy Roberts, Terry Cox, Alan Davies e Gordon Huntley entre outros ).

À época, dos dez temas presentes nove eram inéditos, sendo que apenas “Spread Your Carpet” na voz de Nadia Cattouse tinha sido anteriormente publicado na compilação “Folk Festival”.

Os restantes constituem pequenas pérolas do psych-folk britânico com particular destaque para “Shifting Sands” pelos Synanthesia, o instrumental acústico “Untitled Piece” de Andy Roberts, “Running Shoes” de Al Jones ou “Strange Fruit” e “Persuasion” dos Tin Angel ( os Hard Meat aqui sob pseudónimo por razões contratuais ).

 Al Jones – “Running Shoes”

Andy Roberts – “Untitled Piece”

Tin Angel ( Hard Meat ) – “Strange Fruit”

Synanthesia – “Shifting Sands”

Keith Christmas – “Robin Head”

Robin Scott – “Red Road Digger”

Tin Angel ( Hard Meat ) – “Persuasion”

Nadia Cattouse – “Spread Your Carpet”

Mike Hart – “Elsie Straws Saga”

Al Jones – “It Takes a Lot To Laugh, It Takes a Train To Cry” ( Bob Dylan )


"Flashback" nº 3, 2013

01/01/22

Ian A. Anderson "Please Re-adjust Your Time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72"

 


“Issued in March 1969, Island’s celebrated label sampler ‘You Can All Join In’ featured an iconic front cover photo of their various acts, shivering in Hyde Park on a cold winter’s morning. One of the musicians pictured on the cover, however, wouldn’t be allowed to join in. Recorded in November 1968, West Country-based country blues performer Ian Anderson’s album ‘Stereo Death Breakdown’ was scheduled to be issued by Island, but Jethro Tull’s management complained that having two Ian Andersons on the label would be confusing.” 

( David Wells in “Separate Paths Together, an Anthology of British Singer/Songwriters 1965-1975” )




Recordei o texto acima ao constatar que “Stereo Death Breakdown” é um dos trabalhos que integra a compilação “Please Re-adjust your time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72”.

Titulado pela Anderson’s Country Blues Band, o álbum acabaria por ser publicado pela Liberty em Junho de 1969, sendo agora recuperado na sua totalidade, acrescido de temas entretanto publicados em EPs onde Anderson partilhou o talento e o country blues com Al Jones, Elliott Jackson, Mike Cooper e Jo-Ann Kelly entre outros.

Só que nove meses é muito tempo e, na época, as coisas mudavam mais depressa que a duração normal de uma gestação humana.
A cena de Bristol mudara e a inspiração deixou de ser Alexis Korner, os blues man americanos ou o trio Koerner, Ray & Glover e com a emergência de Keith Christmas ou Michael Chapman as referências mudaram rapidamente para o neo-folk britânico protagonizado por nomes como Shirley Collins, Incredible String Band ou Dr. Strangely Strange.

Em Abril de 1970 Anderson, apoiado em Al Jones e Keith Christmas publicou “Book of Changes” na Fontana ( infelizmente não licenciado para esta compilação e como tal irá permanecer sem reedição oficial ) mas o projecto de lançamento de uma editora independente já estava em marcha, a participação no primeiro Glastonbury Festival e a cada vez maior inflexão em direcção à tradição folk britânica era já irreversível, donde que a publicação de “Royal York Crescent” em Novembro de 70 na acabada de nascer Village Thing Records não surpreenda minimamente.

No inicio, “Royal York Crescent” ainda parece querer manter a ligação à sonoridade bluesy americana através de “No Way To Get Along”, mas conteúdo e  forma rapidamente se encaminham para uma maior englishness, suportada pela voz e incomum técnica de Anderson na guitarra acústica ( em tempos alguém definiu o som como “heavy folk” ) sempre coadjuvado por um nada despiciendo Ian Hunt na segunda acústica.



“A vulture is not a bird you can trust” ( Dezembro de 1971 ) nasceu e cresceu a partir dos conceitos experimentados no álbum anterior, definitivamente um disco do seu tempo. Inspiração e estéticas folk-rock, contornos singer-songwriter ( uma versão de Dylan, “One too many mornings”, outra de Loudon Wainwright, “Black Uncle Remus” ),  regravações de dois temas do álbum  “Book of Changes”, Pick Withers futuro Dire Straits na bateria e uma novidade, a introdução do órgão no naipe de instrumentos utilizados. Não sendo a última das maravilhas, é um registo a merecer uma audição prospectiva sobretudo tendo em conta o trabalho das guitarras em canções como “One more chance” ou “Time is Ripe”. Os quatro títulos extra aqui incluídos foram retirados do já referido “Book of Changes”, o tal “disco maldito” que, enquanto álbum, Ian A. Anderson tão veementemente decidiu banir da sua discografia.

Um ano após, Dezembro de 1972, nova inflexão estilística com “Singer Sleeps on as Blaze Rages”. A habitual segunda guitarra Ian Hunt está ausente ( entretanto a gravar com John Turner o excelente “Magic Landscape” também para a Village Thing ) e está de regresso a colaboração com Mike Cooper com quem Anderson não gravava desde 67. Eclético será o termo apropriado para caracterizar este último álbum de Ian Anderson para sua própria editora. O country blues está de novo presente, o picking também, obviamente e por aquela via. A espaços, muitos, paira a sensação de que Leo Kottke  e a sua genial técnica de bootleneck passaram por ali, intermitentemente. Trata-se de mera ilusão naturalmente. Kottke está para além de qualquer imitação, por mais competente que possa ser ser.

Num dos discos menos equilibrados de autor, sobram os excelentes “Maria Celeste on Down”, “Sign of the Times” e “Shirley Temple Meets Hawkwind”, os quais deixam a milhas uma versão incaracterística de “Paint it, Black” dos Stones. Os quatro temas extra fazem parte do espólio dos Hot Vultures, um duo que Anderson experimentaria nos anos seguintes ao lado da baixista Maggie Holland, mas que a história não registou com empenho significativo.

Tudo resumido, e tendo em conta que os discos originais se transacionam hoje como se barras de ouro se tratassem, regista-se o facto de poder escutar numa única edição a quase totalidade da globalmente interessante obra do autor. Lamentando uma vez mais o facto de “Book of Changes” ter ficado maioritariamente de fora ( Fausto afinal não está só na sua recusa em permitir a reedição do seu álbum estreia para a Philips ).



Nota: A eventuais interessados na história cena folk de Bristol e / ou da editora Village Thing em particular sugere-se a consulta dos livros que Mark Jones publicou em 2009 e 2010 respectivamente.

19/03/18

"When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby"



  
“A college friend of Nick Drake, Robert Kirby’s first commissioned works as an arranger were his unique autumnal orchestrations for Drake’s “Five Leaves Left”. The sound was English and melancholic, closer to Vaughan Williams than Phil Spector. He was soon in demand and by the end of the 70’s had worked with the cream of the British folk rock world.”

Paul Buckmaster e Robert Kirby são dois nomes fundamentais na música popular britânica dos 70s. Num patamar também habitado por Sandy Robertson, Joe Boyd, Peter Eden ou Tony Visconti; ainda que estes num registo diferente: o da produção.

Enquanto orquestrador, Buckmaster ficou para a história fruto do seu monumental trabalho nos primeiros álbuns de Elton John, aqueles que verdadeiramente interessam: “Tumbleweed Connection”, “Elton John”, “Madman Across the Water”, além de “Space Oddity” de Bowie ou “Songs of Love and Hate” de Leonard Cohen, entre outros.


Kirby, colega de Nick Drake em Cambridge, partilhava com este os mesmos gostos musicais e interesse pela poesia, enquanto planeava ser professor de música. Em 1969, quando da gravação do álbum de estreia “Five Leaves Left”, Nick Drake mostrou-se insatisfeito com os arranjos de Richard Hewson  e convenceu Joe Boyd a chamar o antigo colega. O que daí resultou sabemos hoje todos.  Os discos de Nick Drake nunca seriam o que são e Kirby por seu lado nunca teria tido acesso às oportunidades seguintes.

Ao lirismo do referido Paul Buckmaster, Kirby acrescentava um misto de melancolia e “englishness”. Algo que por um lado o distinguia de todos os outros e, por outro, o mantinha perto da tradição, fosse a de Edward Elgar ou a do folk tradicional.

“When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby” é a primeira colectânea a debruçar-se sobre o trabalho do músico.  Naturalmente opinativa como todas as compilações, agrega uma vintena de títulos oriundos do chamado “underground” britânico dos 70s, folk-rock sobretudo, mas também alguma música de inspiração progressiva.


Melhor ou pior, a grande maioria dos temas era já familiar a todos os que se interessam por estas coisas; não obstante alguns deles não eram imediatamente identificados com Kirby.

Os trabalhos com Nick Drake, Keith Christmas, Andy Roberts, John Cale, Shelagh McDonald, Spriguns, Sandy Denny ou Vashti Bunyan são clássicos perenes, não acrescentam portanto nenhum espanto. Porém, a subtileza dos arranjos nas canções de Tim Hart and Maddy Prior, Gilliam McPherson e Steve Ashley; a vertente celta conferida a “First Light” de Richard and Linda Thompson, ou as credenciais art-rock  (  resultantes muito provavelmente da experiência de Kirby nos Strawbs, quando episodicamente substituiu um Rick Wakeman de saída para os Yes ) patenteadas nos trabalhos com Audience e Illusion são esses sim distintivos.

No mais e concluindo, “When the Day is Done” é um trabalho notável e indispensável, ponto de partida para a descoberta de muitas outras preciosidades que a carreira de Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) seguramente encerra.