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15/08/17

Voigt/465 "Slights Still Unspoken"




Nos loucos anos idos do pós-punk tudo e o seu contrário era permitido.

Krautrock, avant-garage, punk, DIY, art-rock, free noise, industrial, todos os géneros podiam legitimamente fundir-se, criando uma linguagem híbrida que teve os seus momentos, mas que na maior parte dos casos não passou disso mesmo, de momentos.

Houve excepções claro, como em tudo na vida.

Activo entre 1976 e 1979 na Austrália,  Voigt/465, um obscuro colectivo de Sydney gravou um álbum que, de tão iconoclasta, acabou por passar praticamente despercebido.

Recém reeditado,  “Slights Still Unspoken” escuta-se hoje como, se por milagre, fosse possível cruzar os Velvet Underground, com Can, Stooges, Pere Ubu, Throbbing Gristle, Comsat Angels, Joy Division, Devo, Faust, Art Bears ... e por aí fora.

Foram portanto necessárias quatro décadas para que esta  estimulante esquizofrenia sonora fosse decantada e devidamente apreciada.

30/04/15

The Silence "S/t"



Os 30 segundos iniciais de “Lemon iro no cannabis” dizem-nos  tudo o que precisamos saber. O “break” da bateria e as espirais do órgão, serpenteando por entre as cordas da guitarra acústica, constituem um dos melhores intros dos últimos anos. 

Entre o folk, a música de inspiração renascentista, psicadelismo do mais fino recorte e as linguagens de vanguarda, Masoki Batoh já nos presenteou com algumas das mais belas e consistentes prestações que a moderna música nipónica produziu. Os oito álbuns do projecto The Ghost, intermitente mas activo desde 1990, são neste particular algo de incontornável. 

The Silence resgata aos Ghost o multi instrumentista Kazuo Ogino, principal apoio de Batoh para “The Silence, uma opção que se revelou fundamental para recuperar a identidade do som de Batoh, algo de que este se havia afastado nos registos recentes, quer a solo, quer com Helena Hespvall.

Regressando a “Lemon iro no cannabis”; estrategicamente colocada a abrir o álbum, é uma das melodias  mais felizes de Batoh. Tudo no tema é perfeito: a robustez do baixo que tudo suporta, o órgão e o piano que adornam, sax e flauta quanto baste, até a harmónica, um instrumento pouco habitual na música do japonês. 4 m e 45 s de viagem em direcção ao cosmos … E, quando no tema seguinte, “Gotter im exil”, Batoh canta “I am an ancient God of magick and music / How lovely all the magick we do …” já não existe espaço para a dúvida.

“Jewels in Tibet” é outra pérola: o piano esboça os contornos da melodia enquanto as guitarras ( acústica e solo ) vão preenchendo o silêncio que resta. E o Tibet, a grande causa de Batoh, em fundo. “Black is the colour of my true love’s hair”, hesitante entre o épico e o bucólico, é puro Ghost, enquanto “Tango Whiskeyman” recorda o compatriota Damo Suzuki através do tema original dos CAN cuja letra foi reajustada. Não fora a flauta, instrumento que julgo os Grateful Dead nunca usaram, e “Triptycon” quase deixa a sensação de que poderia ter saído do lado B de “Aoxomoxoa”. Por fim, escorada numa viola de gamba e num alaúde  renascentista, “Overture” é uma peça de “pastoral chamber music”, uma daquelas ilhas de serenidade de que só Masoki Batoh tem o segredo.

“The Silence” bate às portas do céu. Faltou a guitarra de Michio Kurihara para lhe ser facultada a entrada.

07/11/12

Rock & Folk


 
Não, a Rock & Folk não surge no Atalho a propósito de Neil Young, muito embora o inegável interesse que as 10 páginas dedicadas à sua autobiografia possa despertar.
 
A chamada de atenção é feita, apenas e só, porque no número 543 do magazine francês, está publicado um texto de Philippe Thieyre sobre os Can, a propósito da recente edição das "The Lost Tapes".
 
Mesclado com extractos de uma entrevista feita a Irmin Schmidt, o artigo, inteligente e esclarecedor, é um dos mais felizes textos de que me recordo acerca da banda de Colónia. E merece ser lido ...

18/08/12

Can "The Lost Tapes"


Até há pouco tempo nenhuma colecção estaria completa sem um, dois ou mais, discos dos Can. Após a publicação de “The Lost Tapes”,  nenhuma colecção ficará completa sem este.

Quando, em 1980, escutei “My life in bush of ghosts” pela primeira vez julguei estar na presença de algo diferente e inovador. 30 anos volvidos e muitos álbuns dos Can depois, olho para a colaboração Brian Eno/David Byrne, como algo de realmente diferente. De inovador nem tanto.

À data, do colectivo de Colónia conhecia apenas “Soon over Babaluma” ( 1975 ) um registo pigmeu, quando comparado com álbuns como “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” ou “Future days”.  Com efeito, no período compreendido entre 1968 e 1973, os Can terão sido um dos mais criativos grupos continentais, bordejando simultaneamente o rock, o clássico, o avant-garde,  o (free)jazz e as músicas oriundas de África e do Médio Oriente. E, não me estou a esquecer que na Alemanha da época floresciam o krautrock e a kosmische musik, linguagens onde as idiossincrasias da banda de Irmin Schmidt e Holger Czukay nunca encaixaram verdadeiramente.

E a este respeito, para dissipar qualquer dúvida,  retorne-se  a  “The Lost Tapes”. Para o efeito, bastará escutar os 16 m e 46 s que dura “Graublau”, um tema que quase faz soar a Procol Harum os dois primeiros álbuns dos Roxy Music.

A edição é composta por 3 CDs compilados a partir de 50 horas de fitas retiradas aos arquivos da banda. São cerca de 3 horas de material nunca publicado e cuja qualidade e pioneirismo são inquestionáveis. Fragmentos de peças pensadas/improvisadas para filmes, televisão, rádio, jam-sessions, gravações ao vivo … etc, “The Lost Tapes” não são, como se percebe pelo que atrás fica dito, propriamente fáceis de ouvir/assimilar. Todavia tal como a generalidade da discografia Can localizada entre 1968 e 1975, exemplificam aquilo que de mais moderno e radical se produziu na música europeia da época e que, alguns anos mais tarde, nos 80s, viria a inspirar diversas sonoridades, umas ilustres e perenes, outras nem por isso.

Indispensável será o adjectivo a aplicar aqui.