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21/02/25

Lost Nuggets ( 195 )


 Alasdair Clayre "S/t" ( Elektra EUK 255 9, Mono, UK, 1967


- “The Invisible Backwards-Facing Grocer Who Rose to Fame”

- “Snow” ( Michael Jessett )

-“Adam & The Beasts”

- “Lighterman”

- “Night Song” ( Michael Jessett )

- “Tied to the Line”

- “The Professor & The Girl”

- “A Gentle Easy-Flowing River”

- “The Gormeless” ( Michael Jessett )

- “The Wayward Way”

- “Irish Girl” ( Michael Jessett )

- “Lament for a Writer” ( George Adie )

- “Old Couple Walking”

- “Lullaby and Come Aflot”

 

Alasdair Clayre ( voz e canções ), com: Leon Rosselson ( guitarra acústica e banjo ), Michael Jessett ( guitarra acústica ), Brian Daley ( guitarras ), George Adie ( guitarra acústica ), Peggy Seeger ( banjo e dulcimer ), Bobby Campbell ( bandolim e violino ), Duncan Lamont ( flauta ) e Gordon McCullogh ( guitarra acústica e harmónica ).

Produção: Joe Boyd e Alasdair Clayre

Capa: design de D. Halperin, foto de John Brooks

Notas na contracapa: Iris Murdoch



"Record Collector" nº 330, Dezembro 2006

15/12/21

Jardins do Paraíso ( LXXI )

 


Na sua auto-biografia, “Beeswing, Fairport, Folk-Rock and Finding My Voice 1967-1975” Richard Thompson refere-se inúmeras vezes a Joe Boyd como uma das personagens que mais contribuíram para a consolidação ( eternização ) da renascença do folk britânico e sua posterior miscigenação com a linguagem mais pop / rock na Grã Bretanha.

Decidi entretanto reler “White Bicycles, Making Music in the 1960s” ( Serpent’s Tail, 2005 ) do próprio.



Ao contrário do que à partida cheguei a temer quando li o livro pela primeira vez,
Brian Eno não exagerou no comentário “The best book about music I have read in years”. Trata-se de facto de uma leitura deliciosa e riquíssima do ponto de vista histórico.

Com assinalável detalhe, relata episódios, encontros, desencontros, sucessos e falhanços de uma carreira com enorme longevidade que, no que à vertente histórica directamente concerne, teve o seu pináculo entre os anos de 1966 e 1973 (  http://www.joeboyd.co.uk/discography ).



Ainda que configure exemplo algo pífio e insuficiente da enorme contribuição de Boyd para a música da época ( dos ecos estéticos posteriores nem valerá a pena aqui falar ), a compilação “White Bicycles Making Music in The 1960s” que à data ( 2006 ) procurou ilustrar musicalmente o livro, funciona como espécie de iniciação para a descoberta do património de uma personagem que, não sendo músico, tinha um talento incomum para os compreender, aconselhar e potenciar as respectivas carreiras.

A esmagadora maioria dos 23 temas que integram a compilação são em si mesmas pequenas peças de antologia.



29/09/21

Artefactos ( 116 )

 “When i took up my London post, Elektra was already using Souns Techniques for an instrumental series of Holzman’s devising called Signs of the Zodiac ( string players in London were better and cheaper than in New York ). I had to bring a wad of cash down there one day in February 1966 to pay the musicians and started chatting with John Wood, the heavy-set engineer. We got along pretty well and i liked the feel of the place. The control room looked down on the studio from a box above one side while the offices were built over the opposite side. It looked awkward, but the differing ceiling levels meant that you had three different acoustics in the same studio; you could move things around until you found the sweet spot for an instrument or a singer.”

Joe Boyd, in “White Bicycles, making music in the 1960’s” ( 2005 )



Publicado no verão de 1966 , “
Lord of the Dance”, um EP assinado do lendário poeta, compositor e cantor folk inglês Sydney Carter, constituiu a primeira produção de Joe Boyd para a Elektra UK. 

Ainda durante aquele verão e também para a editora de Jac Holzman, Boyd trabalharia no álbum de estreia da Incredible String Band.

“Lord of the Dance”, edição em Mono, inclui seis temas, todos da autoria de Carter, sendo que a canção título aproveita uma melodia tradicional. 

A inimitável guitarra acústica de Martin Carthy surge em dois dos títulos e John Wood foi o engenheiro de serviço.



Primeira edição, 1966, gold label


Segunda edição, green label


Terceira edição, 1967 ( após a Polydor ter começado a assegurar o fabrico e distribuição da Elektra UK ), red label



"Record Collector" nº 175, Março 1994

15/06/21

Richard & Linda Thompson "Hard Luck Stories 1972 - 1982"

 


Aparentemente nos antípodas um do outro, Bob Dylan e Richard Thompson poderão muito bem ser as  duas faces da mesma moeda.

A dimensão dos dois talentos encontra consonância perfeita na iconoclastia militantemente praticada por ambos durante décadas. Percorreram sempre o “seu” caminho, imunes a pressões exógenas e provavelmente também endógenas. Borrifaram-se para as opiniões das trupes de oportunistas a que hoje eufemisticamente chamam de “influencers”. Criaram e gravaram grandes discos num passado mais ou menos longínquo, outros, de qualidade questionável, mais adiante. Souberam envelhecer amparados numa dignidade sem paralelo ( lembrar o triste espectáculo dos Stones por exemplo ), para já não referir a opção mais ou menos polémica de ambos a dada altura da vida terem procurado abrigo na espiritualidade ( cristianismo e sufismo )  as respostas que entenderam necessárias para seguir em frente. 

Todos estes factores ( coincidência não se afigura aqui o termo mais adequado ) dizem muito das similitudes idiossincráticas destes dois membros do top five de génios do Atalho ( refiro-me apenas aos  que ainda se encontram entre nós ). E para que conste, os restantes são Peter Hammill, John Cale e Neil Young.



“Hard Luck Stories 1972 – 1982” apesar de incluir seis CDs, compila apenas uma parte do espólio acumulado por Thompson até à data. Incide no período em que viveu / colaborou com Linda Peters ( Thompson ), deixando de fora a fase Fairport Convention, as dezenas de sessões / participações em discos de outros artistas ( seria certamente notável um trabalho incidindo apenas neste particular ) e todos os discos a solo, desde logo o primeiro e fundamental “Henry The Human Fly” ( os dois temas e o inédito incluídos no CD1 não espelham a grandeza do disco ) .

O CD1 aborda os primeiros anos com Linda, 72/73. Gravações episódicas de palco e parte dos temas que constituíram esse equívoco artístico que se chamou “The Bunch” e que colocou a família Fairport Convention, Sandy Denny incluída, a recriar temas de rock and roll.

O disco seguinte é preenchido pelo brilhante “I Want To See The Bright Lights Tonight” a que acrescem 5 demos ou versões alternativas. “Hokey Pokey” segue a linha cronológica; as novidades residem na inclusão de uma versão ao vivo do tema título e uma demo de “A Heart Needs a Home” onde o piano do Mighty Baby Ian Whiteman assume assinalável delicadeza e protagonismo.



Relativamente a “Pour Down Like Silver” não haverá muito a  acrescentar. É, a par de “I Want To See The Bright Lights Tonight” o disco mais inspirado do duo. As canções são superlativas e o habitual grupo de fiéis acompanhantes é agora reforçada por esse extraordinário baterista que dá pelo nome de Dave Mattacks. Dúvidas …? Escutem os temas extra deste CD4, em particular os 13 m e 24 s que dura a interpretação de “Calvary Cross” no palco do Oxford Polytechnic a 27 de Novembro de 1975 e tirem conclusões próprias. A prestação não é inédita, foi publicada em 1976 na compilação “Richard Thompson ( Guitar and Vocal)” mas, fruto do trabalho de remasterização, adquire aqui a sua versão definitiva.

A verdadeira surpresa, ou a cereja no topo do bolo se preferirem, chega com o CD5 intitulado “A Madness of Love”. Após terem vivido anos entre comunidades sufi, os Thompson regressaram aos palcos. Os dez temas, captados entre 1975 e 1977 e aqui divulgados pela primeira vez, encantam e hipnotizam em igual medida. Seis deles minimalistas: guitarra acústica de Thompson e as vozes, simplesmente as vozes. “Never Again”, “Dargai”, “Dark End of The Street” e “Beat the Retreat” brilham muito para além do que já lhes conhecíamos. Os restantes títulos são na sua maioria sustentados por ex- membros dos Mighty Baby, à época também eles membros activos da comunidade sufi de Londres. A versão de “Night Comes In” é soberba e “Layla” ( nada a ver com a composição de Clapton ) assume subtil e rara beleza. Não fora tudo o resto e que é muito, dir-se-ia que só este CD justificava a edição.



Os dois álbuns que menos consenso geram – “First Light” e “Sunnyvista” – e convenhamos mais desequilibrados, notoriamente o segundo, são aqui reeditados pela primeira vez. E se “First Light” tem os seus momentos: o tema homónimo, “Strange Affair”, “Pavanne” ou “Street Surrender”, já quanto a “Sunnyvista” não se nos passa pela cabeça contradizer Thompson quando na autobiografia se lhe referiu: “The wrong musicians, the wrong songs”.

A redenção essa, acabaria por chegar já perto do final da carreira artística do duo, através de “Shoot Out The Lights”. As gravações começaram em Londres em meados de 1980 com Gerry Rafferty no papel de produtor. Porém a química entre os criadores e o produtor não terá funcionado e após a conclusão das misturas os Thompson não autorizaram a edição do álbum.

Dois anos volvidos o antigo “anjo da guarda” surgiu de novo. Joe Boyd, velho conhecido do período pré e pós Fairport Convention, soube da história, gostou das canções e ofereceu-se para produzir novas gravações e publicar o resultado na sua editora, a Hannibal Records. Um tiro certeiro e profissional como foi sempre apanágio de Boyd pois, sendo “Shoot Out The Lights” o último testemunho da dupla Richard & Linda, acaba por ser um dos seus legados mais felizes e consistentes.



Sintetizando, “Hard Luck Stories 1972-1982”, entre álbuns originais  e as dezenas de bónus tracks, guarda tudo o que interessa escutar e saber sobre uma das duplas mais relevantes da música britânica no período em apreço.

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

“In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

“Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

22/02/21

Jardins do Paraíso ( LXIV )

 


“Acoustic Music that derives from Folk and Blues with a touch of Psychedelia” ( Amber )

Mac MacLeod, o “Hurdy Gurdy Man” como Donovan Leitch o apelidou e cantou em 1968, alimentou a cena folk de St. Albans ( Hertfordshire, UK ) no decorrer da primeira metade dos 60s, acompanhando  para além de Donovan,  os também emergentes Maddy Prior, Mick Softley, John Renbourn  e Julian McAllister, entre outros.

O inesperado sucesso escandinavo do single “Remember the Alamo” levou-o até Copenhaga em finais de 66. Ali, entre outras actividades, colaborou com os The Other Side de Jack Downing  ( um talentoso  expatriado dos Estados Unidos ) e, ainda na génese, integrou a banda local Hurdy Gurdy.

No final da década MacLeod regressaria ou Reino Unido. E Donovan, de novo, voltou a ser instrumental no seu percurso, integrando-o na sua banda de apoio, ainda que temporariamente.

No entretanto, reencontra Julian McAllister, compulsivamente regressado de terras marroquinas e turcas onde, particularmente nas últimas, a passagem e sobretudo a estadia não terão sido pelos locais mais agradáveis.

Formam um duo folk acústico a que dão o nome de Amber. Ensaiam entre filmes no Electric Cinema em Portobello Road. Actuam no Roundhouse.


No inicio de 1971 mergulham nos Olympic Studios e com a produção de Keith Relf ( Yardbirds / Renaissance ) gravam um conjunto de demos que nenhuma editora valorizaria. A excepção, que sempre as há,  seria o eterno Joe Boyd. O projecto acabaria por abortar  e a banda teve o seu epílogo na primavera.

O que se pode escutar em “Pearls of Amber” são exactamente os títulos que Relf produziu, mais três composições que o duo gravou com a participação de Ray Cooper nas tablas.

1971 foi provavelmente já demasiado tarde para um álbum de folk acústico adornado por cítaras e tablas ( os próprios Tyrannosaurus Rex já se haviam metamorfoseado em T. Rex e integrado o gangue do glam rock ). Porém, depois de se escutarem estas canções e acima de tudo estes arranjos, fica a sensação / convicção que algo de muito bom se perdeu no inicio daquele ano de 1971.

Nota: a (re)edição da Shagrat optou pelo formato de 10 polegadas; a qualidade aúdio é cuidada e o trabalho gráfico vai para além do excelente.

09/09/18

Fairport Convention & Friends "A Tree with Roots, The Songs of Bob Dylan"



Cheguei primeiro a Sandy Denny, só depois aos Fairport Convention. Aparentemente,  uma bizarria cronológica mas as fontes de conhecimento eram sobretudo as rádios, e na época, as portuguesas  já  manifestavam as suas idiossincrasias.

Ao escutar pela primeira vez “John The Gun” e “Late November”, ambos retirados ao álbum “The North Star Grassman and The Ravens”,  concluí que aquele talento e aquela voz não podiam ser deste mundo. Como tal mereciam atenção e investigação condicentes.

Na Lisboa de 1972, a metrópole discográfica girava sobretudo em torno do eixo Rua do Carmo / Rua Nova do Almada, com réplicas muito interessantes para os lados da Avenida de Roma e bairro de Campo de Ourique. Porém, na Rua da Victória, no quarteirão situado entre as ruas da Prata e dos Correeiros, existia uma discreta loja de electrodomésticos … em cuja sub-cave se escondia uma extraordinária discoteca. Um espaço tranquilo e acolhedor que visitava com frequência, sempre que a curiosidade ordenava e a bolsa permitia.


Numa dessas incursões de final de tarde, já com o “trabalho de casa” feito, fui directo ao separador do F, em demanda dos Fairport Convention. E lá estava “The History of Fairport Convention”, embrulhado naquela magnífica capa dupla concebida por Fabio Nicoli  ( a árvore genealógica da banda representada por caracteres antigos, a faixa de seda e o selo colados  na frente e um belíssimo booklet de 12 páginas agrafado ao interior ) que logo me encantou. Havia no entanto uma pequena contrariedade, tratava-se de um duplo álbum; como tal bastante mais caro que o normal.

Optei então por fazer aquilo que os miúdos sem pais ricos faziam em circunstâncias semelhantes. Esperando melhores dias, mudei o disco de bancada, intercalando-o no S, algures entre os Slade e os Sweet. Imaginei que ali não corresse grande perigo de procura, a menos que alguém detectasse a marosca. Tive sorte. Quando voltei no final do mês ainda lá estava, no mesmo sítio ( as fotos aqui mostradas são dessa cópia, que ainda conservo ).

Toda esta conversa a propósito de “A Tree With Roots, Fairport Convention and Friends, and The Songs of Bob Dylan”. É que esta compilação abre com “Si Tu Dois Partir”( no original “If you gotta go, go now”, escrito em 1965 mas só publicado por Dylan em 1991 nos Volumes 1-3 das Bootleg Series ) exactamente uma das performances que mais me impressionou quando a escutei pela primeira vez em 1972.

‘The story goes that Fairport Convention was playing a gig at the Middle Earth and thought it would be amusing to do Dylan's song in French cajun style, so the band called for volunteers from the audience to help with the translation. Richard Thompson: “About three people turned up, so it was really written by committee, and consequently ended up not very cajun, French or Dylan.” This version was first released as a single Si Tu Dois Partir / Genesis Hall with Dave Swarbrick playing fiddle, Trevor Lucas triangle and Richard accordion. The “percussion” break towards the end of the song is the sound of a pile of chairs falling over.’ ( in Mainly Norfolk ).

Embora dezenas o tenham feito, ninguém canta Dylan como Dylan. Considerando apenas dois critérios: um objectivo ( a história ) outro subjectivo ( o gosto pessoal ),  e retirando os Byrds da equação, os Fairport Convention nas suas diferentes  metamorfoses compreendidas entre os anos de 1967 e 1975, foram os que mais e melhor se aproximaram do espírito do bardo.

Ao longo do tempo, Ashley Hutchings, Richard Thompson, Sandy Denny, Simon Nicol e mesmo Trevor Lucas, admitiram a influência que Dylan e as suas canções tiveram no despoletar das respectivas carreiras.

Ashley por exemplo não poupa nos adjectivos quando recorda a audição em 1968 de um acetato das The Basement Tapes ( só publicadas por Dylan em 1975 ): “The honour of being allowed to hear these recordings. Of course, they were incredibly rough, but this mattered not a jot. In fact, it added to the mystery. You must remember the legend that surrounded the whole Big Pink experience only took root much latter. We had only our imaginations to guide us. I think we would have covered practically all the songs if it was solely up to us.”

Dylan ‘himself’ devolveria a cortesia uns anos volvidos: “Ashley Hutchings is the single most important figure in English folk-rock. Before that his group Fairport Convention recorded some of the best versions of my unreleased songs. Listen to his bass playing on ‘Percy’s Song’ to hear how great he is.”

E de facto “Percy’s Song” parece ter sido escrita para os Fairport, em particular para a voz de Sandy Denny. “It needs a voice like Sandy’s to get the shades of emotion across, from moodiness to compassion to outright fury. There’s not many singers can do that”. ( Simon Nicol ).

Mas para além de “Percy’s Song” ( aqui  com Rick Grech no órgão, numa performance gravada para o John Peel’s Top Gear de 6 Abril de 1969 ), “A Tree with Roots” acolhe um conjunto de 17 versões, parte captada em palco e, por via disso, de qualidade áudio desigual; todavia portentosas todas. Parte já publicadas, outras inéditas.

E é um prazer escutar de novo Ian Matthews e Judy Dyble em “Jack O’Diamonds” e “Lay down your weary tune”, uma Sandy sublime em “I’ll keep it with mine” ou “It ain’t me Babe”, um Trevor Lucas surpreendente em “George Jackson e “Days of 49”, recordar a competência de músicos como Richard Thompson, Jerry Donahue ou Dave Mattacks.

Ter tantos clássicos reunidos num único registo revela-se um luxo e um privilégio a que não se pode ou deve ficar indiferente.

 

19/03/18

"When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby"



  
“A college friend of Nick Drake, Robert Kirby’s first commissioned works as an arranger were his unique autumnal orchestrations for Drake’s “Five Leaves Left”. The sound was English and melancholic, closer to Vaughan Williams than Phil Spector. He was soon in demand and by the end of the 70’s had worked with the cream of the British folk rock world.”

Paul Buckmaster e Robert Kirby são dois nomes fundamentais na música popular britânica dos 70s. Num patamar também habitado por Sandy Robertson, Joe Boyd, Peter Eden ou Tony Visconti; ainda que estes num registo diferente: o da produção.

Enquanto orquestrador, Buckmaster ficou para a história fruto do seu monumental trabalho nos primeiros álbuns de Elton John, aqueles que verdadeiramente interessam: “Tumbleweed Connection”, “Elton John”, “Madman Across the Water”, além de “Space Oddity” de Bowie ou “Songs of Love and Hate” de Leonard Cohen, entre outros.


Kirby, colega de Nick Drake em Cambridge, partilhava com este os mesmos gostos musicais e interesse pela poesia, enquanto planeava ser professor de música. Em 1969, quando da gravação do álbum de estreia “Five Leaves Left”, Nick Drake mostrou-se insatisfeito com os arranjos de Richard Hewson  e convenceu Joe Boyd a chamar o antigo colega. O que daí resultou sabemos hoje todos.  Os discos de Nick Drake nunca seriam o que são e Kirby por seu lado nunca teria tido acesso às oportunidades seguintes.

Ao lirismo do referido Paul Buckmaster, Kirby acrescentava um misto de melancolia e “englishness”. Algo que por um lado o distinguia de todos os outros e, por outro, o mantinha perto da tradição, fosse a de Edward Elgar ou a do folk tradicional.

“When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby” é a primeira colectânea a debruçar-se sobre o trabalho do músico.  Naturalmente opinativa como todas as compilações, agrega uma vintena de títulos oriundos do chamado “underground” britânico dos 70s, folk-rock sobretudo, mas também alguma música de inspiração progressiva.


Melhor ou pior, a grande maioria dos temas era já familiar a todos os que se interessam por estas coisas; não obstante alguns deles não eram imediatamente identificados com Kirby.

Os trabalhos com Nick Drake, Keith Christmas, Andy Roberts, John Cale, Shelagh McDonald, Spriguns, Sandy Denny ou Vashti Bunyan são clássicos perenes, não acrescentam portanto nenhum espanto. Porém, a subtileza dos arranjos nas canções de Tim Hart and Maddy Prior, Gilliam McPherson e Steve Ashley; a vertente celta conferida a “First Light” de Richard and Linda Thompson, ou as credenciais art-rock  (  resultantes muito provavelmente da experiência de Kirby nos Strawbs, quando episodicamente substituiu um Rick Wakeman de saída para os Yes ) patenteadas nos trabalhos com Audience e Illusion são esses sim distintivos.

No mais e concluindo, “When the Day is Done” é um trabalho notável e indispensável, ponto de partida para a descoberta de muitas outras preciosidades que a carreira de Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) seguramente encerra.