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12/05/25

Record Files ( 31 )

 


( CBS 63460 ) UK

Provavelmente o único álbum onde Jimmy Page e Richard Thompson partilham a guitarra solo, “Love Chronicles” foi editado no Reino Unido em Janeiro de 1969.

Nos Estados Unidos e Canadá, o disco foi licenciado pela Epic que optou por um design diferente. No caso recuperando a foto de Sophie Litchfield que figurava no verso da capa inglesa, para a destacar na frente.

Um dos grandes discos de Al Stewart ( “Zero she flies” será outro ), “Love Chronicles” conta com mais prestações da família Fairport Convention.

Assim, para além de Richard Thompson ( sob o pseudónimo de Marvyn Prestwick por razões contratuais ), estão também presentes Ashley Hutchings  no baixo, Martyn Lamble ( Martyn Francis ) na bateria e Simon Nicol ( Brian Brocklehurst ) na guitarra.



( Epic BN 26564 ) USA e Canadá

18/03/25

Artefactos ( 138 )


“It was Trevor’s ( Lucas ) idea to do a rock and roll record featuring the folk rock community. This seemed a redundant exercise from the outset and I voiced concerns, but there was no enthusiasm – everyone else was on board, and I didn’t want to be left out. The results of our labours became the album “Rock On”. There was nothing new to be found in the material or the interpretations, for the most part. Sandy ( Denny ) sang beautifully, as did Linda ( Thompson ), and their performances were the highlights for me. Their duet on “When Will I Be Loved” was the outstanding  track.” 

( Richard Thompson )


( Flexidisc )




21/01/25

Filigree "S/t"

Curiosamente ou talvez não, um dos melhores novos discos de folk rock britânico que escutei em 2024 foi gravado em 1973. Um facto extraordinário que por si só diz muito ou quase tudo sobre o actual estado das artes. 

Resultado da adição de dois duos folk oriundos do Hertfordshire – Chris e Roger Jeffery + Pat Turner e Pete Cunningham -, os Filigree detinham até há pouco um parco espólio discográfico que se materializava no single “Yo, Yo Man / Morning has begun” publicado pela Orange em 1973, uma fugaz participação no clássico de folk gótico “Sweet Williams Ghost” da dupla George Deacon & Marion Ross além da inclusão de dois temas num álbum privado e virtualmente impossível de localizar: “Pirton Live”. 

No verão de 2024 a Bright Carvings recuperou o aparentemente único acetato resultante das sessões que os Filigree levaram a cabo em 1973. Trata-se de um conjunto de títulos de folk / rock contemporâneo ( à época ) parcimoniosamente repartidos entre originais, tradicionais e versões. 

“Meet on the ledge” ( Richard Thompson ) e “No regrets” ( Tom Rush ), são desde sempre duas das minhas criações preferidas e a sua inclusão, naturalmente, também ajudou a chamar a minha atenção. Não obstante, as versões, minimalistas e empenhadas, não atingem o brilhantismo dos respectivos originais, o que de resto era expectável. 

Ao contrário, os tradicionais “Banks of the Lea”, “Shearings” e “Coventry Carol”, acompanham muito bem “Morning has begun” e “Snow Maiden”, dois belíssimos originais ambos assinados e deliciosamente vocalizados por Pat Turner. 

Por ora “Filigree” foi objecto de uma edição em vinil, limitada a 157 cópias. Caso corram nesta pista não se distraiam …

 

27/01/24

Lost Nuggets ( 181 )


Marc Ellington "Rains/Reins of Changes" ( B&C Records CAS 1033 ), Insert, UK, 1971

- "Oh no it can't be so"
- "On your own"
- "Saving Grace"
- "Song for a friend"
- "Yarrow"
- "I'm leaving (America)" ( Marc & Karen Ellington )
- "Rains/Reins of changes"
- "The life you love"  (Marc Ellington & Mike Deigham )
- "Days used to be much warmer" ( Marc Ellington & Mike Deigham )
- "Aligator man"
- "All the times"
- "Blue Suede Shoes" ( Carl Perkins )

Marc Ellington: canções, voz e guitarras; com: Richard Thompson ( guitarra ), Dave Pegg, Mark Griffiths e Pat Donaldson ( baixo ), Chris Hillman  ( mandolim ), Dave Mattacks, Ray Duffy e Gerry Conway ( bateria ), Mike Deigham ( guitarra acústica ), Sneaky Pete e Gordon Huntley ( steal guitar ), Karen Ellington ( banjo ), Toni Cox ( piano ), Steve Rye ( harmónica ), Mick French e Gerry Field ( violino ), Chris Hillman, Ian Matthews, Sandy Denny, Fritz Fryer, Rick Roberts  e Trevor Lucas ( vozes ).

Arranjos de Marc Ellington.

Produção  de Marc Ellington e Tony Cox.

Capa: design de Keith Davis e Grahame Berney; foto de Keith Morris. 

15/12/21

Jardins do Paraíso ( LXXI )

 


Na sua auto-biografia, “Beeswing, Fairport, Folk-Rock and Finding My Voice 1967-1975” Richard Thompson refere-se inúmeras vezes a Joe Boyd como uma das personagens que mais contribuíram para a consolidação ( eternização ) da renascença do folk britânico e sua posterior miscigenação com a linguagem mais pop / rock na Grã Bretanha.

Decidi entretanto reler “White Bicycles, Making Music in the 1960s” ( Serpent’s Tail, 2005 ) do próprio.



Ao contrário do que à partida cheguei a temer quando li o livro pela primeira vez,
Brian Eno não exagerou no comentário “The best book about music I have read in years”. Trata-se de facto de uma leitura deliciosa e riquíssima do ponto de vista histórico.

Com assinalável detalhe, relata episódios, encontros, desencontros, sucessos e falhanços de uma carreira com enorme longevidade que, no que à vertente histórica directamente concerne, teve o seu pináculo entre os anos de 1966 e 1973 (  http://www.joeboyd.co.uk/discography ).



Ainda que configure exemplo algo pífio e insuficiente da enorme contribuição de Boyd para a música da época ( dos ecos estéticos posteriores nem valerá a pena aqui falar ), a compilação “White Bicycles Making Music in The 1960s” que à data ( 2006 ) procurou ilustrar musicalmente o livro, funciona como espécie de iniciação para a descoberta do património de uma personagem que, não sendo músico, tinha um talento incomum para os compreender, aconselhar e potenciar as respectivas carreiras.

A esmagadora maioria dos 23 temas que integram a compilação são em si mesmas pequenas peças de antologia.



05/08/21

Artefactos ( 114 )

 

Nascido em Novembro de 1971 como "Folk & Country", o magazine pensado e dirigido por Fred Woods rapidamente perdeu o “Country” passando, a partir do quarto número, a ser designado por “Folk Review”.

Publicado até meados de 1979, deu espaço e voz a muitos dos artistas que percorriam os circuitos do folk revival, com maior ou menor grau de sucesso.

Hoje, constitui leitura obrigatória para todos os que se interessam e/ou investigam a música e a época em apreço.


( Dezembro 1972 )


( Fevereiro 1973 )


( Outubro 1973 )


( Junho 1974 )

15/06/21

Richard & Linda Thompson "Hard Luck Stories 1972 - 1982"

 


Aparentemente nos antípodas um do outro, Bob Dylan e Richard Thompson poderão muito bem ser as  duas faces da mesma moeda.

A dimensão dos dois talentos encontra consonância perfeita na iconoclastia militantemente praticada por ambos durante décadas. Percorreram sempre o “seu” caminho, imunes a pressões exógenas e provavelmente também endógenas. Borrifaram-se para as opiniões das trupes de oportunistas a que hoje eufemisticamente chamam de “influencers”. Criaram e gravaram grandes discos num passado mais ou menos longínquo, outros, de qualidade questionável, mais adiante. Souberam envelhecer amparados numa dignidade sem paralelo ( lembrar o triste espectáculo dos Stones por exemplo ), para já não referir a opção mais ou menos polémica de ambos a dada altura da vida terem procurado abrigo na espiritualidade ( cristianismo e sufismo )  as respostas que entenderam necessárias para seguir em frente. 

Todos estes factores ( coincidência não se afigura aqui o termo mais adequado ) dizem muito das similitudes idiossincráticas destes dois membros do top five de génios do Atalho ( refiro-me apenas aos  que ainda se encontram entre nós ). E para que conste, os restantes são Peter Hammill, John Cale e Neil Young.



“Hard Luck Stories 1972 – 1982” apesar de incluir seis CDs, compila apenas uma parte do espólio acumulado por Thompson até à data. Incide no período em que viveu / colaborou com Linda Peters ( Thompson ), deixando de fora a fase Fairport Convention, as dezenas de sessões / participações em discos de outros artistas ( seria certamente notável um trabalho incidindo apenas neste particular ) e todos os discos a solo, desde logo o primeiro e fundamental “Henry The Human Fly” ( os dois temas e o inédito incluídos no CD1 não espelham a grandeza do disco ) .

O CD1 aborda os primeiros anos com Linda, 72/73. Gravações episódicas de palco e parte dos temas que constituíram esse equívoco artístico que se chamou “The Bunch” e que colocou a família Fairport Convention, Sandy Denny incluída, a recriar temas de rock and roll.

O disco seguinte é preenchido pelo brilhante “I Want To See The Bright Lights Tonight” a que acrescem 5 demos ou versões alternativas. “Hokey Pokey” segue a linha cronológica; as novidades residem na inclusão de uma versão ao vivo do tema título e uma demo de “A Heart Needs a Home” onde o piano do Mighty Baby Ian Whiteman assume assinalável delicadeza e protagonismo.



Relativamente a “Pour Down Like Silver” não haverá muito a  acrescentar. É, a par de “I Want To See The Bright Lights Tonight” o disco mais inspirado do duo. As canções são superlativas e o habitual grupo de fiéis acompanhantes é agora reforçada por esse extraordinário baterista que dá pelo nome de Dave Mattacks. Dúvidas …? Escutem os temas extra deste CD4, em particular os 13 m e 24 s que dura a interpretação de “Calvary Cross” no palco do Oxford Polytechnic a 27 de Novembro de 1975 e tirem conclusões próprias. A prestação não é inédita, foi publicada em 1976 na compilação “Richard Thompson ( Guitar and Vocal)” mas, fruto do trabalho de remasterização, adquire aqui a sua versão definitiva.

A verdadeira surpresa, ou a cereja no topo do bolo se preferirem, chega com o CD5 intitulado “A Madness of Love”. Após terem vivido anos entre comunidades sufi, os Thompson regressaram aos palcos. Os dez temas, captados entre 1975 e 1977 e aqui divulgados pela primeira vez, encantam e hipnotizam em igual medida. Seis deles minimalistas: guitarra acústica de Thompson e as vozes, simplesmente as vozes. “Never Again”, “Dargai”, “Dark End of The Street” e “Beat the Retreat” brilham muito para além do que já lhes conhecíamos. Os restantes títulos são na sua maioria sustentados por ex- membros dos Mighty Baby, à época também eles membros activos da comunidade sufi de Londres. A versão de “Night Comes In” é soberba e “Layla” ( nada a ver com a composição de Clapton ) assume subtil e rara beleza. Não fora tudo o resto e que é muito, dir-se-ia que só este CD justificava a edição.



Os dois álbuns que menos consenso geram – “First Light” e “Sunnyvista” – e convenhamos mais desequilibrados, notoriamente o segundo, são aqui reeditados pela primeira vez. E se “First Light” tem os seus momentos: o tema homónimo, “Strange Affair”, “Pavanne” ou “Street Surrender”, já quanto a “Sunnyvista” não se nos passa pela cabeça contradizer Thompson quando na autobiografia se lhe referiu: “The wrong musicians, the wrong songs”.

A redenção essa, acabaria por chegar já perto do final da carreira artística do duo, através de “Shoot Out The Lights”. As gravações começaram em Londres em meados de 1980 com Gerry Rafferty no papel de produtor. Porém a química entre os criadores e o produtor não terá funcionado e após a conclusão das misturas os Thompson não autorizaram a edição do álbum.

Dois anos volvidos o antigo “anjo da guarda” surgiu de novo. Joe Boyd, velho conhecido do período pré e pós Fairport Convention, soube da história, gostou das canções e ofereceu-se para produzir novas gravações e publicar o resultado na sua editora, a Hannibal Records. Um tiro certeiro e profissional como foi sempre apanágio de Boyd pois, sendo “Shoot Out The Lights” o último testemunho da dupla Richard & Linda, acaba por ser um dos seus legados mais felizes e consistentes.



Sintetizando, “Hard Luck Stories 1972-1982”, entre álbuns originais  e as dezenas de bónus tracks, guarda tudo o que interessa escutar e saber sobre uma das duplas mais relevantes da música britânica no período em apreço.

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

“In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

“Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

29/07/19

Robert Kirby



Recentemente  perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei. E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar, onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito pela tradição, inteligência e estoicismo.

Em simultâneo concreto e abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido como tentar explicar a “saudade” a um inglês.

Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.

Hoje, vista ao retrovisor, a impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, Shelagh McDonald, John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.


09/09/18

Fairport Convention & Friends "A Tree with Roots, The Songs of Bob Dylan"



Cheguei primeiro a Sandy Denny, só depois aos Fairport Convention. Aparentemente,  uma bizarria cronológica mas as fontes de conhecimento eram sobretudo as rádios, e na época, as portuguesas  já  manifestavam as suas idiossincrasias.

Ao escutar pela primeira vez “John The Gun” e “Late November”, ambos retirados ao álbum “The North Star Grassman and The Ravens”,  concluí que aquele talento e aquela voz não podiam ser deste mundo. Como tal mereciam atenção e investigação condicentes.

Na Lisboa de 1972, a metrópole discográfica girava sobretudo em torno do eixo Rua do Carmo / Rua Nova do Almada, com réplicas muito interessantes para os lados da Avenida de Roma e bairro de Campo de Ourique. Porém, na Rua da Victória, no quarteirão situado entre as ruas da Prata e dos Correeiros, existia uma discreta loja de electrodomésticos … em cuja sub-cave se escondia uma extraordinária discoteca. Um espaço tranquilo e acolhedor que visitava com frequência, sempre que a curiosidade ordenava e a bolsa permitia.


Numa dessas incursões de final de tarde, já com o “trabalho de casa” feito, fui directo ao separador do F, em demanda dos Fairport Convention. E lá estava “The History of Fairport Convention”, embrulhado naquela magnífica capa dupla concebida por Fabio Nicoli  ( a árvore genealógica da banda representada por caracteres antigos, a faixa de seda e o selo colados  na frente e um belíssimo booklet de 12 páginas agrafado ao interior ) que logo me encantou. Havia no entanto uma pequena contrariedade, tratava-se de um duplo álbum; como tal bastante mais caro que o normal.

Optei então por fazer aquilo que os miúdos sem pais ricos faziam em circunstâncias semelhantes. Esperando melhores dias, mudei o disco de bancada, intercalando-o no S, algures entre os Slade e os Sweet. Imaginei que ali não corresse grande perigo de procura, a menos que alguém detectasse a marosca. Tive sorte. Quando voltei no final do mês ainda lá estava, no mesmo sítio ( as fotos aqui mostradas são dessa cópia, que ainda conservo ).

Toda esta conversa a propósito de “A Tree With Roots, Fairport Convention and Friends, and The Songs of Bob Dylan”. É que esta compilação abre com “Si Tu Dois Partir”( no original “If you gotta go, go now”, escrito em 1965 mas só publicado por Dylan em 1991 nos Volumes 1-3 das Bootleg Series ) exactamente uma das performances que mais me impressionou quando a escutei pela primeira vez em 1972.

‘The story goes that Fairport Convention was playing a gig at the Middle Earth and thought it would be amusing to do Dylan's song in French cajun style, so the band called for volunteers from the audience to help with the translation. Richard Thompson: “About three people turned up, so it was really written by committee, and consequently ended up not very cajun, French or Dylan.” This version was first released as a single Si Tu Dois Partir / Genesis Hall with Dave Swarbrick playing fiddle, Trevor Lucas triangle and Richard accordion. The “percussion” break towards the end of the song is the sound of a pile of chairs falling over.’ ( in Mainly Norfolk ).

Embora dezenas o tenham feito, ninguém canta Dylan como Dylan. Considerando apenas dois critérios: um objectivo ( a história ) outro subjectivo ( o gosto pessoal ),  e retirando os Byrds da equação, os Fairport Convention nas suas diferentes  metamorfoses compreendidas entre os anos de 1967 e 1975, foram os que mais e melhor se aproximaram do espírito do bardo.

Ao longo do tempo, Ashley Hutchings, Richard Thompson, Sandy Denny, Simon Nicol e mesmo Trevor Lucas, admitiram a influência que Dylan e as suas canções tiveram no despoletar das respectivas carreiras.

Ashley por exemplo não poupa nos adjectivos quando recorda a audição em 1968 de um acetato das The Basement Tapes ( só publicadas por Dylan em 1975 ): “The honour of being allowed to hear these recordings. Of course, they were incredibly rough, but this mattered not a jot. In fact, it added to the mystery. You must remember the legend that surrounded the whole Big Pink experience only took root much latter. We had only our imaginations to guide us. I think we would have covered practically all the songs if it was solely up to us.”

Dylan ‘himself’ devolveria a cortesia uns anos volvidos: “Ashley Hutchings is the single most important figure in English folk-rock. Before that his group Fairport Convention recorded some of the best versions of my unreleased songs. Listen to his bass playing on ‘Percy’s Song’ to hear how great he is.”

E de facto “Percy’s Song” parece ter sido escrita para os Fairport, em particular para a voz de Sandy Denny. “It needs a voice like Sandy’s to get the shades of emotion across, from moodiness to compassion to outright fury. There’s not many singers can do that”. ( Simon Nicol ).

Mas para além de “Percy’s Song” ( aqui  com Rick Grech no órgão, numa performance gravada para o John Peel’s Top Gear de 6 Abril de 1969 ), “A Tree with Roots” acolhe um conjunto de 17 versões, parte captada em palco e, por via disso, de qualidade áudio desigual; todavia portentosas todas. Parte já publicadas, outras inéditas.

E é um prazer escutar de novo Ian Matthews e Judy Dyble em “Jack O’Diamonds” e “Lay down your weary tune”, uma Sandy sublime em “I’ll keep it with mine” ou “It ain’t me Babe”, um Trevor Lucas surpreendente em “George Jackson e “Days of 49”, recordar a competência de músicos como Richard Thompson, Jerry Donahue ou Dave Mattacks.

Ter tantos clássicos reunidos num único registo revela-se um luxo e um privilégio a que não se pode ou deve ficar indiferente.

 

19/03/18

"When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby"



  
“A college friend of Nick Drake, Robert Kirby’s first commissioned works as an arranger were his unique autumnal orchestrations for Drake’s “Five Leaves Left”. The sound was English and melancholic, closer to Vaughan Williams than Phil Spector. He was soon in demand and by the end of the 70’s had worked with the cream of the British folk rock world.”

Paul Buckmaster e Robert Kirby são dois nomes fundamentais na música popular britânica dos 70s. Num patamar também habitado por Sandy Robertson, Joe Boyd, Peter Eden ou Tony Visconti; ainda que estes num registo diferente: o da produção.

Enquanto orquestrador, Buckmaster ficou para a história fruto do seu monumental trabalho nos primeiros álbuns de Elton John, aqueles que verdadeiramente interessam: “Tumbleweed Connection”, “Elton John”, “Madman Across the Water”, além de “Space Oddity” de Bowie ou “Songs of Love and Hate” de Leonard Cohen, entre outros.


Kirby, colega de Nick Drake em Cambridge, partilhava com este os mesmos gostos musicais e interesse pela poesia, enquanto planeava ser professor de música. Em 1969, quando da gravação do álbum de estreia “Five Leaves Left”, Nick Drake mostrou-se insatisfeito com os arranjos de Richard Hewson  e convenceu Joe Boyd a chamar o antigo colega. O que daí resultou sabemos hoje todos.  Os discos de Nick Drake nunca seriam o que são e Kirby por seu lado nunca teria tido acesso às oportunidades seguintes.

Ao lirismo do referido Paul Buckmaster, Kirby acrescentava um misto de melancolia e “englishness”. Algo que por um lado o distinguia de todos os outros e, por outro, o mantinha perto da tradição, fosse a de Edward Elgar ou a do folk tradicional.

“When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby” é a primeira colectânea a debruçar-se sobre o trabalho do músico.  Naturalmente opinativa como todas as compilações, agrega uma vintena de títulos oriundos do chamado “underground” britânico dos 70s, folk-rock sobretudo, mas também alguma música de inspiração progressiva.


Melhor ou pior, a grande maioria dos temas era já familiar a todos os que se interessam por estas coisas; não obstante alguns deles não eram imediatamente identificados com Kirby.

Os trabalhos com Nick Drake, Keith Christmas, Andy Roberts, John Cale, Shelagh McDonald, Spriguns, Sandy Denny ou Vashti Bunyan são clássicos perenes, não acrescentam portanto nenhum espanto. Porém, a subtileza dos arranjos nas canções de Tim Hart and Maddy Prior, Gilliam McPherson e Steve Ashley; a vertente celta conferida a “First Light” de Richard and Linda Thompson, ou as credenciais art-rock  (  resultantes muito provavelmente da experiência de Kirby nos Strawbs, quando episodicamente substituiu um Rick Wakeman de saída para os Yes ) patenteadas nos trabalhos com Audience e Illusion são esses sim distintivos.

No mais e concluindo, “When the Day is Done” é um trabalho notável e indispensável, ponto de partida para a descoberta de muitas outras preciosidades que a carreira de Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) seguramente encerra.



31/08/17

Jardins do Paraíso ( LVI )



Durante décadas olhado como uma espécie de “Holy Grail” do folk britânico “Bright Phoebus” permanece um dos mais contundentes legados de Lal e Mike Waterson, os membros mais novos do clã Waterson ( Norma, Mike e Lal ).

Gravado em 1972 na Cecil Sharp House, sob a supervisão de Martin Carthy e Ashley Hutchings ( à época membros dos Steeleye Span ) o álbum, concluído numa semana, foi aplaudido pela crítica e repudiado pela maioria do público folk.

Dos Watersons era suposto esperar canções tradicionais, de preferência “a capella”, mas “Bright Phoebus” do alto da sua estranha genialidade fugia daquela ortodoxia. A inspiração é naturalmente folk, mas as canções escritas e interpretadas pelos irmãos Lal e Mike habitam uma penumbra moldada pelas vivências / memórias de uma infância marcada pela orfandade. Talvez por isso não seja um disco fácil. Catalogado de “folk noir”, ostenta aquele tipo de inspiração que só tempo permite reconhecer ( a saga de Nick Drake é outro exemplo maior deste fado ).


Ashley Hutchings e, especialmente Martin Carthy, contam ter ficado tão impressionados com as canções dos dois irmãos que partiram de imediato para as gravações. Convocaram Richard Thompson, Dave Mattacks, Maddy Prior e Tim Hart e, com a colaboração avulsa de Norma Waterson, nasceu ali uma liturgia que se manteve até hoje.

A canção mais conhecida será porventura “Fine Horseman” que Anne Briggs já havia incluído no seu álbum “The time has come” no ano anterior, mas “The scarecrow”, “Magical man”, “Never the same” ou o tema título, são outras das pequenas pérolas que ajudam a fazer deste um grande disco.

A reedição da Domino inclui uma opção que adiciona onze demos não constantes na prensagem original.

26/03/17

Michael Chapman "50"



Após uma extensa carreira de cinco décadas, o veterano e dificilmente catalogável guitarrista britânico Michael Chapman decidiu-se finalmente por fazer o seu “disco americano”. “50” é o tipo de trabalho que há muito se esperava do autor.
Desde que começou a ser falado no circuito folk britânico de Cornish, Chapman assinou um extraordinário conjunto de álbuns a solo e tocou com artistas tão díspares como  Mick Ronson, Elton John, Rick Kemp, Thurston Moore, Bill Callahan, Jack Rose ou Ryley Walker.
Partindo das raízes folk, abraçou o ecletismo e os limites deixaram de ser possíveis. Inovou, desconstruiu,  raramente imitou. Daí que os seus álbuns sejam hoje tão referenciados quanto os de outras lendas como Roy Harper, Wizz Jones,  Mike Cooper, Richard Thompson ou Bert Jansch.
Comemorando os 50 anos de carreira, “50” é a reinvenção do próprio autor. À excepção de três originais, os restantes temas foram recuperados ao seu cancioneiro. Steve Gunn ( que toca guitarra e produz ), Nathan Bowles, James Elkington e Bidget St. John são as âncoras que permitem a Chapman libertar-se de “tarefas administrativas” e concentrar-se apenas na cromaticidade de sons que a sua guitarra propicia.
Sonoridades americanas, parentes próximas das detectadas nas obras de Steve Gunn, Black Twig Pickers, William Tyler ou Jack Rose. Uma pintura sonora.

09/06/16

Chris Forsyth & The Solar Motel Band "The Rarity of Experience"



A menos que um dia o próprio o decida divulgar, nunca saberemos com que intuito Chris Forsyth frequentou as aulas de Tom Verlaine. Se para melhorar a sua técnica instrumental, aproximar-se do estilo peculiar do mestre, ou ambas.

Uma dúvida que o novo registo de Forsyth com a Solar Motel Band  “The rarity of Experience I & II” não esclarece em definitivo.

Na sequência do anterior “Intensity Ghost”,  este duplo cd é de uma intensidade extrema. Os dois primeiros temas ( “Anthem I” e “II” ) tudo pulverizam à sua passagem. As guitarras além de geométricas e sincopadas, são ostensivamente metálicas e quando conluiadas com uma percussão tribal como é o caso, deixam as canções em carne viva.

“The rarity of experience Part 2” soa como se Verlaine e Richard Lloyd regressassem do passado com uma versão actualizada de “Foxhole”. “High Castle Rock”, um extraordinário épico onde os intensos duelos entre as guitarras Forsyth e Nick Millevoi não fazem prisioneiros, é a verdadeira pedra de toque do álbum e aquilo que de mais parecido Forsyth terá com ele próprio. O jazzy “Harmonious Dance”, instrumentalmente menos exuberante, deixa algo a desejar em matéria de relevância.

O segundo cd vai mais longe na audácia. Mescla o estilo que já se conhecia com uma vertente experimentalista. Forsyth fã do “space rock”, do “free jazz” e de Richard Thompson. A confirmação encontra-se em “The first ten minutes of cocksucker blues” ou na ousada versão de “The Calvary Cross”.

Os próximos capítulos aguardam-se com justificada expectativa.

04/02/16

Judy Dyble "Anthology Part One"



Embora os radares instalados nunca tenham dado conta, Judy Dyble é um nome incontornável na música inglesa dos últimos 50 anos.

Precedeu Sandy Denny nos Fairport Convention. Imediatamente antes esteve com Robert Fripp em Giles, Giles & Fripp e imediatamente após com os Trader Horne.

Entretanto, tinha passado pelos Folkmen e entre outros, gravou com Richard Thompson, G. F. Fitzgerald, Incredible String Band e Lol Coxhill.

A discografia a solo é também ela extensa. “Anthology Part One” é o primeiro terço de uma retrospectiva que procura cobrir toda a carreira da cantora.

Aqui encontramos gravações inéditas ( demos ) com os Folkmen, Richard Thompson e Fairport Convention. O génio e a guitarra de Robert Fripp estão presentes nos quatro temas recuperados ao espólio de Giles, Giles & Fripp.  E a terminar, duas preciosidades a solo: “Better side of me”( 1972 ) escrita por Marianne Segal quando nos Jade e “I Hear a Song” ( 1973 ), um tema que poderia ter sido um êxito caso tivesse surgido uns meros três anos antes.

06/03/13

Richard Thompson "Henry the Human Fly"

 
Richard Thompson é um nome incontornável da música britânica. Colocado num patamar onde também estão Robert Wyatt, Peter Hammill ou Roy Harper. Mas nem sempre foi assim.
 
Em 1972, ali mesmo à saída dos Fairport Convention, "Henry the Human Fly, o primeiro disco a solo, é lendário por ter sido o álbum menos vendido do catálogo americano da Warner Brothers. Algo quase incompreensível, tendo em conta a qualidade do disco e o pedigree do autor.
 
A principal razão para tão rotundo fracasso terá sido a pouca ou nenhuma familiaridade de "Henry the Human Fly" com o paradigma Fairport. Baladas que juntavam o velho ao novo e estruturas melódicas, na altura, pouco convencionais, bem como uma capa nada ortodoxa, não devem ter ajudado.
 
40 anos volvidos, percebe-se como o tempo, para além de sábio, pode ser o melhor instrumento para colocar tudo na verdadeira perspectiva.

15/09/10

Killers, Angels, Refugees ( 18 )


"The End of the Rainbow" ( Richard Thompson )

I feel for you, you little horror,
Safe at your mother's breast,
No lucky break for you around the corner;
'Cos your father is a bully
And he thinks that you're a pest,
And your sister she's no better than a wore.

Life seems so rosy in the cradle, but I'll
Be a friend, I'll tell you what's in store.
There's nothing at the end of the rainbow,
There's nothing to grow up for any more.

Tycoons and barrow boys will rob you,
And throw you on the side,
And all because they love themselves sincerely.
And the man holds a bread-knife
Up to your throat is four feet wide,
And he's anxious just to show you what it's for.

Your mother works so hard to make you happy,
But take a look outside the nursery door.
There's nothing at the end of the rainbow,
There's nothing to grow up any more.

All the sad and empty faces
That pass you on the street,
All running in their sleep, all in a dream
Ev'ry loving handshake
Is just another man to beat.
How your heart aches just to cut him to the core.

Life seems so rosy in the cradle,
But I'll be a friend, I'll tell you what's in store.
There's nothing at the end of the rainbow.
There's nothing to grow up for any more.



Por vezes regressar aos mestres é melhor forma de colocar os factos, sejam eles quais forem, na correcta perspectiva.

E quando, aparentemente, as coisas insistem em querer correr mal, nada melhor do que regressar a "The End of the Rainbow" ( publicada em 1974 no fenomenal "I want to see the bright lights tonight" ), uma das mais desconfortáveis "dark songs" alguma vez escritas.

A frieza da melodia e o minamalismo dos arranjos geminam com o "insuportável" cepticismo do texto. A fé na condição humana nunca foi uma das características de Richard Thompson, mas perante algo como isto até os momentos mais sombrios de Peter Hammill ou Randy Newman poderiam desfilar num corso de carnaval.