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03/05/23

The Ducks "High Flyin"

 


Artisticamente falando, Neil Young é uma personalidade complexa. Ora exaspera ora delícia, nunca entedia. Discutível e discutido, toma as decisões que entende e quando entende. São os fãs que têm de se adaptar e não o contrário. E também aqui são claras as similitudes com esse outro extraordinário carácter: Bob Dylan.

No que ao tema dos arquivos diz respeito já vimos de tudo. Anúncios diversos, prazos estabelecidos e nunca são cumpridos, edições sobrepostas, omissões irritantes … E no entanto não existe espaço para a indiferença porque, no fundo, todos sabemos que mais tarde ou mais cedo irá surgir uma edição que nos reconcilia com a personagem.

Os arquivos de Neil Young são um mundo. E, goste-se ou não dos timings / decisões, aquilo que nos resta é saudar a metódica obsessão arquivista do canadiano.

Tudo isto a propósito de “High Flyin” a recente publicação das gravações dos concertos californianos dos The Ducks no decorrer do verão de 1977.

De existência efémera os Ducks constituíam uma super banda que, para além de Young, incluía Bob Mosley ( Moby Grape, Fine Wine, Darrow Mosley Band ), Jeff Blackburn ( Blackburn & Snow, Moby Grape ) e John Craviotto ( Fine Wine ).

Gravações captadas entre Julho e Agosto de 77, um par de meses após a edição de “American Stars ‘n Bars” , “High Flyin” inclui 25 temas, dos quais apenas 1/5 da autoria de Young ( “Mr. Soul”, “Are you ready for the country?”, “Sail Away”, “Human Highway” e “Little Wing” ). Colocando de lado algumas (poucas) versões a autoria dos restantes títulos é repartida por Mosley e Blackburn, também eles músicos e compositores  de assinalável talento.

Atente-se em “I am a dreamer” ( o único tema gravado em estúdio ) da autoria de Bob Mosley, ou “Gypsy Wedding” que o baixista compôs em 1971 para “20 Granite Creek” dos Moby Grape e que um ano depois revisitaria no seu álbum a solo para a Reprise. Escutem-se ainda “Windward Passage” e “Silver Wings”, e lamente-se o facto de a obra gravada por Jeff Blackburn pecar por ser tão escassa. E, finalmente, a cereja no topo do bolo, escute-se a tonitruante versão do clássico “Mr. Soul” …

E por aqui nos quedamos. Sabem agora o que devem fazer.

20/11/10

The Darrow Mosley Band "Desert Rain"


1973. Após abandonarem as bandas que ajudaram a formar, Kaleidoscope e Moby Grape respectivamente, Chris Darrow e Bob Mosley davam os primeiros passos a solo. Actividades relativamente mal sucedidas à época , apesar de “Artist proof” do primeiro e “Bob Mosley”, serem hoje olhados como peças importantes na história da música californiana dos 70s.

Cumplicidades pessoais e profissionais antigas, bem assim como um manager comum, foram o pretexto , - motivo e a oportunidade -, para uma óbvia colaboração entre ambos. Daí até ao nascimento da Darrow Mosley Band foi um tiro.

Para o efeito foram arregimentados: Frank Reckard ( guitarras ), John Craviotto ( bateria ), Loren Newkirk ( teclas ), Claudia Lennear, “Brown Sugar” para os Stones e Jennifer Warnes, Miss “Famous Blue Raincoat” para Cohen ( vozes ).

Sabe-se hoje que gravaram apenas três canções, com as quais tentaram convencer os executivos da Warner Bros. As fitas contudo acabaram guardadas numa cave, como por esta altura o leitor certamente já percebeu.



Em boa hora resgatadas e publicadas com o acordo dos criadores e restantes intervenientes, dão-nos finalmente a conhecer um colectivo que poderia ter sido enorme, caso lhe tivessem permitido abandonar os blocos de partida.

Em matéria de composição não existem em "Desert Rain" grandes novidades. “Albuquerque Rainbow” teve a sua estreia ainda no decorrer de 1973, no álbum homónimo de Chris Darrow; “I wish it would rain” fora imortalizado pelos Temptations em 1967; por seu turno, “Beautiful day” constitui a versão lenta de “It’s a beautiful day today”, um tema que Mosley escrevera para “Moby Grape 69”.

Porém, nas vertentes instrumental e vocal, a matriz é soberba e irá deixar a salivar os fãs dos Kaleidoscope, Moby Grape e de tudo o que fica pelo meio ( Flying Burrito Bros, Manassas, Jo Jo Gunne, etc ), com excepção dos Eagles.

Estão pois de parabéns a Shagrat Records e Nigel Cross pela descoberta e publicação de mais esta preciosidade perdida no tempo. O formato escolhido para a edição ( EP de 10” ) e o inspirado design de John Hurford , contribuem para realçar ainda mais a exclusividade deste magnifico artefacto. “A labour of love”.