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15/01/26

"I Shall Be Released, covers of Bob Dylan 1963-1970"

Coexiste aqui de tudo um pouco. 

Desde o muito bom ( Heron, Starry Eyed and Laughing, Linda Gayle, Canticle, Penny Wager, Jim & Jean, Picadilly Line, Fotheringay. Fairport Convention, Polly Niles, Byrds … ) a prestações de sentido contrário que, naturalmemte, não irei referir para não abusar da paciência do leitor. 

Todo o modo, um bom exercício para qualquer dylanófilo que se preze.
 

19/09/25

"When Will They Ever Learn? A Story of U.S. Folk Music 1963-1969"

“The oft-covered ‘Morning Dew’ is understandable; it was one of a number of emotive songs evoking a fear of nuclear annihilation and its consequences dating back before the Korean War but particular heightened in the prelude to the Cuban Missile Crisis. As the 60’s wore on, the civil rights movement grew stronger, and the horrors of the Vietnan War hung over more than one generation living in the shadow of the draft. Topical songs have endured, becoming more far reaching in scope, subtler and less histrionic, but some questions remain unanswered. Look at the world around us and all the fears, concerns, threats and challanges we face, as Pete Seeger so presciently observed 65 years ago: When Will They Ever Learn?” ( Mick Houghton, do booklet de “When Will They Ever Learn?, a Story of U.S. Folk Music 1963-1969” 

As canções tinham um propósito. Os artistas causas, políticas, sociais, ecológicas, o que fosse. Desígnios que, com maior ou menor honestidade, assumiam em disco ou em palco. 

O público aderia por convicção e nos concertos, para além da vertente lúdica, a postura não era apenas a de socializar, acenar com as luzinhas do telemóvel ou beber cerveja com pó. 

Ao escutar a centena de canções que dão corpo a “When Will They Ever Learn?, a Story of U.S. Folk Music 1963-1969” torna-se difícil impedir que um notório sentimento de nostalgia desponte, com tudo o que de bom ou porventura menos bom possa vir a influenciar a análise e determinar o julgamento.
   

Corações ao alto que basta de elucubrações. Estamos muito provavelmente em presença de uma das compilações do ano, qualquer que seja o ângulo de abordagem. 

As vertentes histórica e sociológica estão presentes em muitos dos menos óbvios exemplos da banda sonora que ilustrou episódios como a guerra da Coreia, a crises dos Misseis em Cuba, o conflito do Vietnam ( pré e pós ) ou a campanha dos Direitos Civis. O dealbar do fenómeno singer-songwriter e a reabilitação do stato-quo então emergente em Nashville também. 

Concretizando: entre outros passam por aqui Pete Seeger, Odetta, Tom Paxton, Hedy West, Arlo Guthrie, Dave Van Ronk, Malvina Reynolds, Bob Dylan, Fred Neil, Barry McGuire, Bonnie Dobson, Phil Ochs, Richie Havens ou Tim Rose. 

Também Paul Simon, Tom Rush, Tim Buckley, David Blue, Judy Collins, Judy Henske, John Philips ( pré e pós Mamas & Papas ), Gordon Lightfoot, Byrds, Gene Clark, Karen Dalton, Nico, Pat Kilroy ou Tim Hardin. 

Nomes com menor divulgação e a descobrir: Peter LaFarge, Paul Clayton, Dick Rosmini, Len Chandler, Billy Edd Wheeler ou Steve Noonan. 

Pode até parecer injusto, mas face à qualidade do proposto, estes ouvidos ousariam ainda salientar as fabulosas versões de “Wings” ( Tim Buckley ) por Linda Ronstadt & The Stone Poneys e “Tin Angel” ( Joni Mitchell ) por Tom Rush. 

No que concerne a originais, “Morning Dew” ( Bonnie Dobson ), “Hey Joe” ( Tim Rose ), “Three Ravens” ( Judy Henske & Jerry Yester” ) ou “High Flying Bird” ( Billy Edd Wheeler ), mantêm toda a sua pertinência. 


Com curadoria e textos de Mick Houghton, “When Will They Ever Learn?” é em simultâneo um fresco sobre a história e um desafiante objecto de estudo.

06/04/25

"Jingle Jangle Morning, The 1960s U.S. Folk-Rock Explosion"

“When folk guitarrist-singers Roger ( then Jim ) McGuinn, Gene Clark, and David Crosby started to make music together around mid-1964, they’d barely begun to play electric instruments. With newly recruited bassist Chris Hillman and drummer Michael Clarke, they devised a full electric arrangement of this then-unreleased Bob Dylan composition that combined the best of Dylan and the Beatles, with ringing electric 12-string guitar and heavenly harmonies. Although only McGuinn played on the single, the result was a #1 hit in both US and UK as summer 1965 dawned, and the dawn of folk-rock itself.”

Não sendo a única, a versão de “Mr. Tambourine Man” inventada pelos Byrds e acima comentada por Ritchie Unterberger, é uma das razões da existência deste blog. O folk-rock ( sobretudo o americano ) é uma outra. 

Caldo perfeito para, com evidente satisfação, receber “Jingle Jangle Morning, The 1960s US Folk-Rock Explosion”; selecção, compilação e notas de Ritchie Unterberger, assistência aúdio de Alec Palao.
A larga maioria dos primeiros arautos do folk-rock provinham do folk e do folk revival do inicio dos 60s. A então deriva eléctrica de Dylan primeiro e dos The Byrds no imediato, funcionou como catalisador para um movimento que cavalgando a onda de British Invasion acabou a competir com esta. 

“Yet folk-rock wasn’t merely a matter of mixing the Beatles and Bob Dylan, or folk songwriters trading their acoustic guitars for electric axes. In the five or so years after The Byrds hit #1 on both sides of the Atlantic with their rocked-up reinvention of Dylan’s ‘Mr. Tambourine Man’, dozens of American acts took the best of both rock and folk to not only create something wholly new.” 

De um ponto de vista histórico e documental “Jingle Jangle Morning” é uma das abordagens possíveis. Haverá certamente outras, muito embora esta, balizada entre os anos de 1965 e 1970, seja susceptível de criar adição.
Os 76 temas que compõem a compilação abordam um largo espectro do género. Do óbvio ao surpreendente, passando pelo inesperado. 

Dylan, Byrds, Phil Ochs, Great Society, Buffalo Springfield, Gene Clark, Tim Buckley, Beau Brummels, Simon & Garfunkel, Fred Neil, Youngbloods, Judy Collins, David Blue, Jefferson Airplane, Tom Rush, Gordon Lightfoot, Love, Tom Paxton ou Tim Hardin entre outros, cabem no campo do óbvio. 

Com maior ou menor grau de surpresa, são aparentemente inesperados os nomes de Nico, Dion, Poco, Lamb, Johnny Winter, Linda Ronstadt, Fugs, Fapardokly ou Holy Modal Rounders por exemplo. Opções do curador que nos convidam a questionar clichés e colocar de novo em perspectiva verdades entretanto adquiridas.
A tudo isto acrescem algumas cerejas colocadas no topo: Blackburn & Snow com “Stranger in a strange land”, um tema que David Crosby escreveu e produziu em 1966 sob o pseudónimo Samuel F. Omar; “Is there anything I can do” dos The Ashes ( pré Peanut Butter Conspiracy ); “2:10 Train” dos The Rising Sons ( com Ry Cooder e Taj Mahal ); “Guinevere” dos The Lemon Drops; “All night long” de Tom Paxton; o inédito “Watch me walk away” dos obscuros Stourbridge Lion, ou o espectacular “Woman don’t you weep” escrito por Steve Young para o único álbum dos Stone Country. 

Seguramente uma das compilações do ano.
 

16/03/25

Jardins do Paraíso ( 87 )

 


Antes de integrarem o catálogo da Warner Brothers, nele publicando “Hard Meat” e “Through a Window” ( ambos em 1970 ), os Hard Meat dos irmãos Mick e Steve Dolan mantiveram fugaz ligação à Island Records de Chris Blackwell, selo onde a 9 de Agosto de 1969 lançaram o single “Rain”, uma interessante  versão do título dos Beatles.

O 45 rotações, em cujo lado B constava “Burning up years”, antecipava o lançamento de um álbum entretanto gravado nos estúdios Tridend no Soho. Não é clara a razão pela qual o disco não foi publicado à época. O produtor ( Sandy Roberton ) era um dos mais conceituados do seu tempo, Blackwell, consta, estava entusiasmado, um sentimento que se supõe não ser partilhado pelo A&R Guy Stevens.

Ao escutar “Rain”, a primeira edição em vinil daquele conjunto de gravações, é hoje evidente  o erro colossal que foi o veto à respectiva publicação. 


A abrir, a versão do tema de Lennon e McCartney diz-nos ao que vêm os Hard Meat. Inventivo, magnificamente suportado na doze cordas  de Mick Dolan, “Rain” conduz-nos até “Most Likely You’ll Go Your Way, I’ll Go Mine”; isso, Dylan, o qual por seu turno nos leva até ao acústico “Strange Fruit” ( mais tarde publicado na compilação “49 Greek Street” sob o pseudónimo Tin Angel ) e a “Liquid Boats”, um tema que numa escuta cega poderia sugestionar uma demo de Pete Townshend, período “Tommy / Who’s next”.

“Walking Down Up Street” é um rock hipnotizante que torna legítimo  especular se Randy California e os Spirit não fariam parte da dieta musical dos Hard Meat. Idem para “Burning Up Years”. Por fim “Run Shaker Life”, uma fantástica recriação rítmica do título que Richie Havens incluiu no duplo álbum “Richard P. Havens, 1983” de 1969.

Duas destas canções ( “Run Shaker Life” e “Most Likely You’ll Go Your Way, I’ll Go Mine” ) viriam a fazer parte do alinhamento do primeiro álbum do grupo para a Warner Brothers. As restantes, com excepção das publicadas no single, manter-se-iam inéditas cerca de cinco décadas.

Após o fim dos Hard Meat, os irmãos Dolan alavancaram os Big Front Yard, uma banda de inspiração West Coast a que o Atalho já aqui dedicou a sua atenção.

02/05/24

Artefactos ( 132 )

Bob Dylan na Imprensa portuguesa ( alguns exemplos )


"O Século Ilustrado" 13 Agosto 1968


"Disco Música e Moda" 1 Junho 1971


"Vida Mundial" nº 1679, 13 Agosto 1971



"Disco Música e Moda" 15 Setembro 1971


"Música & Som" 1 Abril 1978


"Musicalíssimo" Abril 1979


Revista "Pública" 20 Maio 2001


"Blitz" Junho 2008


"Revista Expresso" 27 Junho 2020


Revista "Ípsilon", 2 Junho 2023

13/12/23

Jardins do Paraíso ( 82 )

 


Poderia e deveria ter acontecido de outra forma.

A pungente versão pop barroca de “The French Girl”, um original de Ian Tyson e Sylvia Fricker, pede meças a uma também extraordinária versão do tema responsabilidade de Gene Clark; a revisão em modo psych do clássico de Dylan “Queen Jane Approximately” captada no palco do Whiskey a Go Go em Setembro de 1966; o fuzz original de “Jack of Diamonds”; a variação “Scottish sea shanty” de “The Bonny Ship The Diamond” ou a aproximação angelical a “If I were a Carpenter” de Tim Hardin, permitem concluir sem qualquer ponta de exagero e nenhuma margem de erro que os Daily Flash deveriam ter sido reconhecidos como uma das grandes bandas a operar na Califórnia no decorrer da primeira era do psicadelismo ( 1965 – 1969 ).

Oriundo de Seattle, o quarteto constituído por Don MacAllister, Doug Hastings, Jon Keliehor e Steve Lalor era, um pouco à imagem do que sucedia com os Byrds, maior do que a soma das partes. Simplificando: reunia todas as condições para ser muito mais que uma mera nota de rodapé.

Não obstante, por vicissitudes várias comuns a muitas outras bandas igualmente talentosas, concedamos, foi daquela forma que o tempo os colocou nas prateleiras da história.


Em actividade os Daily Flash partilharam estúdios e palcos com os nomes mais sonantes da época: Byrds, Buffalo Springfield, Quicksilver, Grateful Dead, Jefferson Airplane, Rhinoceros, Moby Grape, Charlatans, Big Brother & The Holding Company, Rising Sons , Sopwith Camel, Beau Brummels… contudo enquanto activos vida publicaram apenas dois singles e quatro temas: “Queen Jane Aproximately”, “Jack of Diamonds”, “French Girl” e “Green Rocky Road”.

Em perspectiva e sabendo o que sabemos hoje, qualquer uma destas quatro gravações merecia a maior das atenções mas a sorte e o reconhecimento não passaram  por ali e a imortalidade só chegaria décadas depois.



“The Daily Flash” reúne todas as gravações que foi possível resgatar nos arquivos dos diversos intervenientes. Aos títulos atrás mencionados juntam-se dez gravações de estúdio, entre elas   “When I was a cowboy”, “The girl from North Alberta”, “CC Rider”, “Violets of Dawn” ( Ian Anderson ), “Again and again”, “Grizzly Bear”, “Let me die in my footsteps” ( Dylan ) e “Birdses” ( Dino Valenti ).

O que se escuta em “The Daily Flash” justifica e é motivo para que se proceda à revisão da história. Porém se tal não for considerado suficiente ou pertinente, atente-se assessoriamente no álbum homónimo que os Bodine ( com Steve Lalor e Jon Keliehor a bordo ) publicaram na MGM em Setembro de 1969.

19/11/23

Leituras


"Santa-Bárbara, Capista de Zeca", Abel Soares Rosa, Lusitanian 2023


Revista Visão nº 79


Revista Uncut nº 320

30/05/23

David Blue "The Lost 1967 Elektra Recordings & More"

 

“… He has lots of friends, most of them dead…” ( David Blue, in “The Street” )


 Um artista que escreve esta frase para uma das suas canções não merece ser negligenciado.

E no entanto, apesar de em vida ter publicado sete álbuns, Stuart David Cohen permanece um semi desconhecido. Contemporâneo e “compagnon de route” de Dylan na Greenwich Village dos mid 60s, Blue gravou as suas primeiras três canções para a Elektra, publicadas em 1965 no álbum “Singer Songwriter Project”,  uma edição com formato pioneiro e que além daquelas integrava também temas de Richard Farina, Patrick Sky e Bruce Murdoch.

Convidado a prosseguir, no ano seguinte o autor gravaria “David Blue” um disco icónico e muito interessante. Embora retratasse ( musical e socialmente ) o espírito da Greenwich, não logrou à época obter grande adesão em matéria de vendas.

No decorrer de 1967, David Blue grava um derradeiro álbum para a Elektra.  Por vicissitudes várias as fitas nunca veriam a luz do dia. Até agora.



“The Lost 1967 Elektra Recordings & More” são onze canções, oito gravações inéditas a que se juntam os três temas inicialmente incluídos em “Singer Songwriter Project”. Suportado musicalmente pela The American Patrol, Blue gravou na ocasião um conjunto de canções que só critérios editorias obscuros e ou de índole mercantil justificam a sua não publicação em tempo.

Colocando de lado o lirismo, quase sempre soberbo e inspirador, do ponto de vista estritamente musical estas canções poderiam ser primas direitas daquelas outras que Dylan gravava quase simultaneamente em Woodstock;  e sim é de  “Basement Tapes” que falamos.

“Vaudeville Blues”, “King of Spain” ou “Dr. Smith’s Electrical Light Machine”, estilisticamente a anos luz do álbum de estreia, poderiam ter sido compostas e gravadas na casa “Big Pink” em West Saugerties com a trupe da The Band.

“You need a change”, “23 Days in September”, “Anna” e “Scales for a window thief” por seu turno definem o estilo futuro do autor e não foi certamente por mero acaso que as quatro, embora objecto de versões diversas, integraram “These 23 Days in September” ( 1968 ) o primeiro álbum para a Reprise e que é a par de “Stories” ( 1971 ) um dos grandes discos de David Blue.



A carreira do autor prosseguiu diversificada e intermitente até à sua morte em 1982. O capítulo maior que faltava conhecer aí está, finalmente. No espaço cinzento dos “live bootlegs” habitam ainda duas canções: “Tell me what it’s like when you get back, Jack” e “Anything you find on the floor is yours”. Restará saber até quando …

10/10/22

Lost Nuggets ( 163 )


 The Silkie "Sing the Songs of Bob Dylan" ( Fontana TL 5256, 687350 TL ) Mono, UK, 1965

- “The times they are a-changin”

- “Dylan’s dream”

- “When the ship comes in”

- “Boots of Spanish leather”

- “Blowin in the wind”

- “Long time gone”

- “It ain’t me babe”

- “Tomorrow is a long time”

- “Black crow blues”

- “Love minus Zero/No Limit”

- “Girl from the North Country”

- “Mr. Tambourine man”

The Silkie: Silvia Tatler ( voz ), Mike Ramsden ( voz e guitarra ), Ivor Aylesbury ( voz e guitarra ) e Kevin Cunningham ( baixo acústico ).

Canções: Bob Dylan

Texto da contracapa: Alistair Taylor.



Aproveitando o sucesso da versão dos Silkie para "You've got to hide your love away", o álbum foi publicado no mercado americano exactamente com esse título. A produção do tema consta ter sido do próprio John Lennon.

O alinhamento da edição americana é distinto da inglesa, sendo que sairam quatro canções de Dylan ( "Boots of Spanish leather", "Black Crow Blues", "When the ship comes in" e "Long time gone"), substituídas pelo referido tema dos Beatles e por três originais dos Silkie.

01/01/22

Ian A. Anderson "Please Re-adjust Your Time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72"

 


“Issued in March 1969, Island’s celebrated label sampler ‘You Can All Join In’ featured an iconic front cover photo of their various acts, shivering in Hyde Park on a cold winter’s morning. One of the musicians pictured on the cover, however, wouldn’t be allowed to join in. Recorded in November 1968, West Country-based country blues performer Ian Anderson’s album ‘Stereo Death Breakdown’ was scheduled to be issued by Island, but Jethro Tull’s management complained that having two Ian Andersons on the label would be confusing.” 

( David Wells in “Separate Paths Together, an Anthology of British Singer/Songwriters 1965-1975” )




Recordei o texto acima ao constatar que “Stereo Death Breakdown” é um dos trabalhos que integra a compilação “Please Re-adjust your time, The Early Blues & Psych-Folk Years 1967-72”.

Titulado pela Anderson’s Country Blues Band, o álbum acabaria por ser publicado pela Liberty em Junho de 1969, sendo agora recuperado na sua totalidade, acrescido de temas entretanto publicados em EPs onde Anderson partilhou o talento e o country blues com Al Jones, Elliott Jackson, Mike Cooper e Jo-Ann Kelly entre outros.

Só que nove meses é muito tempo e, na época, as coisas mudavam mais depressa que a duração normal de uma gestação humana.
A cena de Bristol mudara e a inspiração deixou de ser Alexis Korner, os blues man americanos ou o trio Koerner, Ray & Glover e com a emergência de Keith Christmas ou Michael Chapman as referências mudaram rapidamente para o neo-folk britânico protagonizado por nomes como Shirley Collins, Incredible String Band ou Dr. Strangely Strange.

Em Abril de 1970 Anderson, apoiado em Al Jones e Keith Christmas publicou “Book of Changes” na Fontana ( infelizmente não licenciado para esta compilação e como tal irá permanecer sem reedição oficial ) mas o projecto de lançamento de uma editora independente já estava em marcha, a participação no primeiro Glastonbury Festival e a cada vez maior inflexão em direcção à tradição folk britânica era já irreversível, donde que a publicação de “Royal York Crescent” em Novembro de 70 na acabada de nascer Village Thing Records não surpreenda minimamente.

No inicio, “Royal York Crescent” ainda parece querer manter a ligação à sonoridade bluesy americana através de “No Way To Get Along”, mas conteúdo e  forma rapidamente se encaminham para uma maior englishness, suportada pela voz e incomum técnica de Anderson na guitarra acústica ( em tempos alguém definiu o som como “heavy folk” ) sempre coadjuvado por um nada despiciendo Ian Hunt na segunda acústica.



“A vulture is not a bird you can trust” ( Dezembro de 1971 ) nasceu e cresceu a partir dos conceitos experimentados no álbum anterior, definitivamente um disco do seu tempo. Inspiração e estéticas folk-rock, contornos singer-songwriter ( uma versão de Dylan, “One too many mornings”, outra de Loudon Wainwright, “Black Uncle Remus” ),  regravações de dois temas do álbum  “Book of Changes”, Pick Withers futuro Dire Straits na bateria e uma novidade, a introdução do órgão no naipe de instrumentos utilizados. Não sendo a última das maravilhas, é um registo a merecer uma audição prospectiva sobretudo tendo em conta o trabalho das guitarras em canções como “One more chance” ou “Time is Ripe”. Os quatro títulos extra aqui incluídos foram retirados do já referido “Book of Changes”, o tal “disco maldito” que, enquanto álbum, Ian A. Anderson tão veementemente decidiu banir da sua discografia.

Um ano após, Dezembro de 1972, nova inflexão estilística com “Singer Sleeps on as Blaze Rages”. A habitual segunda guitarra Ian Hunt está ausente ( entretanto a gravar com John Turner o excelente “Magic Landscape” também para a Village Thing ) e está de regresso a colaboração com Mike Cooper com quem Anderson não gravava desde 67. Eclético será o termo apropriado para caracterizar este último álbum de Ian Anderson para sua própria editora. O country blues está de novo presente, o picking também, obviamente e por aquela via. A espaços, muitos, paira a sensação de que Leo Kottke  e a sua genial técnica de bootleneck passaram por ali, intermitentemente. Trata-se de mera ilusão naturalmente. Kottke está para além de qualquer imitação, por mais competente que possa ser ser.

Num dos discos menos equilibrados de autor, sobram os excelentes “Maria Celeste on Down”, “Sign of the Times” e “Shirley Temple Meets Hawkwind”, os quais deixam a milhas uma versão incaracterística de “Paint it, Black” dos Stones. Os quatro temas extra fazem parte do espólio dos Hot Vultures, um duo que Anderson experimentaria nos anos seguintes ao lado da baixista Maggie Holland, mas que a história não registou com empenho significativo.

Tudo resumido, e tendo em conta que os discos originais se transacionam hoje como se barras de ouro se tratassem, regista-se o facto de poder escutar numa única edição a quase totalidade da globalmente interessante obra do autor. Lamentando uma vez mais o facto de “Book of Changes” ter ficado maioritariamente de fora ( Fausto afinal não está só na sua recusa em permitir a reedição do seu álbum estreia para a Philips ).



Nota: A eventuais interessados na história cena folk de Bristol e / ou da editora Village Thing em particular sugere-se a consulta dos livros que Mark Jones publicou em 2009 e 2010 respectivamente.

25/11/21

Bob Dylan "Bob Dylan 1970"


“The journey is my home”, wrote 17th century Japanese haiku master Basho, pointing out that process is as important destination. How an artist arrives at a finished work tells us as much about that work as the end result. Bob Dylan released “Self Portrait” and “New Morning” in 1970, two albuns from an artistic evolution that continues to this day. “Bob Dylan – 1970” ( with special guest George Harrison ) chronicles the road that led to their completion.” ( Michael Simmons )

“Bob Dylan 1970”, não me passou pela cabeça acrescentar uma única palavra.



25/09/21

Neil Young "Archives Vol. II ( 1972 - 1976 )"

 


Grande parte da produção musical de Neil Young permanece interessante, nalguns casos muito interessante. As mais recentes opções comerciais do canadiano mostram-se todavia bastante questionáveis, para dizer não dizer duvidosas.

Atente-se por exemplo em “Archives Vol II ( 1972 – 1976 )” e apenas para não ir mais longe.

Não parece aceitável que numa edição de 10 cds  ( que à partida se pretendia única e ilustrativa de gravações que, na sequência de decisões de enquadramento editorial ou outras de carácter mais pessoal, não foram objecto de publicação à época ), um terço seja constituído por discos já publicados individualmente na série Arquivos. Em concreto “Homegrown”, “Tuscaloosa” e “Roxy, Tonight’s the night” ( este último com uma “ligeira” nuance na inclusão de “Losing End” ).

Ademais, dos 132 temas que integram “Archives Vol II”, 46 são versões diferentes de canções já publicadas e apenas 12 constituem verdadeiros inéditos. Donde que, como se infere, o balanço poderá ser francamente questionável, sobretudo por aqueles que legitimamente esperavam a anunciada profusão de inéditos ( veja-se por comparação a série “Bootlegs” de Bob Dylan ).

Dito isto, “Archives Vol II” valerá a pena? Para os fãs, para os quais estes “pequenos” detalhes têm pouca relevância, claramente. Para os indefectíveis de Joni Mitchell também tendo em conta o inédito “Sweet Joni”, captado no Bakersfield Civic Auditorium a 11 de Março de 1973 e a curiosa versão de “Raised On Robbery”, suportada pela banda que acompanhou o canadiano em “Tonight’s the night”, além de Joni Mitchell herself.  

Quanto à esmagadora maioria, e tendo em conta o preço a que a box é comercializada, talvez seja de considerar a opção de esperar pela publicação isolada de “The Old Homestead”, agrupando gravações datadas de 1974  e que inclui 4 inéditos e 12 versões não publicadas, entre estas duas longas prestações de palco com Crosby Stills Nash & Young: “Pushed it over the end” e “On the Beach”.



11/08/21

Jardins do Paraíso ( LXIX )

 


“Halfway through the session I called my friend Brent Titcomb and asked him to lend me his guitar because I had broken a couple of strings on my guitar and couldn’t afford new strings! I was penniless and hungry at the time of the Bunkhouse recording.” ( David Wiffen )

Na origem o álbum “At The Bunkhouse” foi pensado no formato “sampler” e a David Wiffen estavam destinadas apenas duas canções. Porém na noite das gravações, desencadeou-se forte tempestade na cidade de Vancouver e os restantes artistas não compareceram no estúdio da West Broadway. Wiffen, numa curta sessão de três horas, gravou um álbum inteiro. Do dito foram prensadas em 1965 apenas 100 cópias com o selo da International Records New York, facto que faz dele uma das maiores e mais dispendiosas raridades da época.

A recente, legítima e cuidada reedição em vinil permite finalmente apreciar a “infância artística” do autor. É verdade que os dois álbuns a solo posteriores – “David Wiffen” ( 1971 ) e “Coast to Coast Fever” ( 1973 ) – possuem os seus momentos, desde logo a sua criação mais conhecida “Driving Wheel”, sendo por essa razão altamente recomendados, mas “At The Bunkhouse Coffeehouse” é, com a sua vertente low-fi e algo naif, um retrato quase perfeito do jovem Wiffen ( “the songs on the album formed part of my working repertoire at the time” ).



Envelopado numa capa concebida e desenhada por
Bob Masse ( um par de anos volvidos um dos nomes grandes do grafismo e design psicadélicos em São Francisco ) o álbum arranca com uma versão minimalista do tema de Ian Tyson “Four Strong Winds” nos antípodas da interpretação que recebeu de Neil Young em “Comes a time”. Prossegue com a primeira canção escrita por Wiffen “Slice of Life”; logo a seguir “Since I fell for you”, voz e guitarra, numa espécie de demo envolta em nicotina, frugal e diversa da versão que o piano arredondaria no álbum homónimo de 1971.

Pelo meio “Don’t Think Twice, It’s All Right”, numa interpretação que em partes iguais remete para Phil Ochs e Gordon Lightfoot muito mais que para Dylan. Os detalhes vocais são, como facilmente se infere, factor determinante para a ousada similitude.

O lado B é composto por tradicionais, um blues ( “You don’t know my mind” ) uma cortesia de Leadbelly. Termina com o esplendoroso “Four in the morning”, um lugar onde em tons pungentes, a guitarra e sobretudo a voz, sublinham uma canção de excepção.

“At The Bunkhouse Coffehouse” é um disco de um outro tempo. Não colherá a aprovação de todos e haverá quem o apelide de datado. Mas a candura e a ainda que forçada economia de meios, ajudam a potenciar o talento então emergente de David Wiffen, um expatriado que aos 16 anos trocou Surrey na Inglaterra natal pelo Canadá.

30/06/21

The Fallen Angels "Paradise Lost"

 


A pandemia para além de desestruturar e colocar no fio da navalha a vida de milhões, vá-se lá saber porque, ajudou também a dinamitar as rotinas do Atalho. “Paradise Lost” – constato-o agora -, um extraordinário disco duplo de uma das bandas favoritas deste espaço, esteve encostado / selado mais de um ano, sem nenhuma razão aparente, à espera de uma oportunidade para ser escutado e devidamente  apreciado.

Numa limitada e luxuosa edição da Sunbeam que inclui booklet explicativo, poster e folheto com as letras, “Paradise Lost” expõe pública e pela primeira vez prestações ao vivo e as demos que tinham como destino o abortado terceiro álbum dos Fallen Angels.

O primeiro LP revela a prestação da banda de Washington DC num concerto organizado pelo jornal underground “Washington Free Press”. Evento cujo objectivo era apoiar a luta pelos direitos civis, das mulheres e o movimento anti-guerra ( Vietnam, entenda-se ). Data de 1969, na ressaca do comercialmente falhado “It’s a Long Way Down”.

Inicia-se com dois temas ( mantras diria ) interpretados a solo por Jack Bryant. Seguem-se uma versão imaculada do clássico “A Horn Playing On My Thin Wall”, “Look at the Wind” e, àquela data, o inédito “Everything Would be Find”. No lado B estão plasmadas versões notoriamente criativas de originais de Dylan, Donovan e Love. O áudio é excelente, a competência dos músicos e o lirismo que emana quer dos textos de Bryant quer das melodias, não sofre do habitual síndrome de palco.



O segundo LP inclui sobretudo demos. No lado A, uma versão sofrível de “Who do you love” provando que o talento e a sensibilidade do colectivo não era compaginável com o blues/rock praticado na época, e um conjunto de temas que foram ou viriam a ser publicados em formato single, entre eles “Everytime I Fall in Love” e “Hello Girl”.

Para o fim, no lado B, a surpresa. Nove demos gravadas a solo por Jack Bryant em 1969, as tais que tinham como destino o tal terceiro álbum cuja gravação a Roulette optou por não patrocinar.

Aqueles que como o Atalho avaliam “It’s a Long Way Down” como uma das grandes “anomalias”  do psicadelismo americano do final dos 60s ( e é nestas alturas que “A Gift From Euphoria” vem  à memória ), ao escutar estas demos, irão inevitavelmente ser tentados a imaginar como teriam soado, caso tivessem beneficiado de arranjos apropriados e da magia criativa que emergia do quarteto.   

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

“In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

“Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

16/03/21

Jardins do Paraíso ( LXVI )

 


Quem não tem cão caça com gato.

O álbum homónimo dos Moths gravado em 1970 e fabricado na Deroy Sound Service, numa prensagem sem capa e limitada a cerca de duas dúzias de exemplares, entretanto distribuídos por amigos e familiares dos membros da banda, constitui-se desde então numa das mais raras edições privadas da folk inglesa.

A presente reedição em vinil obteve o acordo / colaboração dos elementos do grupo e permite ao comum dos mortais descobrir e disfrutar de um interessante artefacto de época.

A banda ( John Ellis, John Dunn, Mike Jones, Neil Cawley e John Beazer ), um quinteto de estudantes da Universidade de Hull não tinha à data nem teve posteriormente qualquer experiência de gravação e ou actuação de palco. Formou-se na primavera de 1970 e um par de meses volvidos, no palco do anfiteatro da faculdade, gravou as demos que viriam a dar origem ao álbum.



( prensagem original )

A sonoridade que emana de “Moths” está genericamente em linha com o paradigma folk do seu tempo, ainda que a evidente expertise  e sofisticação dos seus criadores a afaste do ambiente pub, aproximando-a da subtileza e elegância de nomes como Tir Na Nog, Oberon ou Fresh Maggots.

Daí que as guitarras de John Ellis e Mike Jones optem por um registo acústico difícil de compaginar com o eléctrico. Em contrapartida, talvez influenciadas pelo trabalho de Bert Jansch e John Renbourn nos Pentangle, dialogam na perfeição com a flauta, a percussão e o baixo.


Por fim o bom gosto; nas duas composições originais de John Ellis e, sobretudo, nas versões escolhidas: temas de Dylan, Tim Buckley, Clive Palmer, Jansch e David Ackles. Melhor seria quase impossível.

A qualidade aúdio desta reedição está muito para além do que seria expectável, facto que não deixa de ser assinalável tendo em conta a raridade e mais que provável fragilidade das fontes, fossem elas as fitas originais ou um velho exemplar do LP fabricado na Deroy.

06/11/19

Bob Dylan "Travelin' Thru", The Bootleg Series Vol. 15, 1967-1969"



Para o Atalho, se outros motivos não houvesse, só o booklet, as histórias e os factos nele contados e as fotos -  as fotos -, bastariam para que “Travelin’ Thru” pudesse ser considerada uma das reedições do ano.

Mas há a música, sobretudo a música incluída no CD 1 deste conjunto de 3.

As versões alternativas e outtakes resultantes das gravações de “John Wesley Harding” e “Nashville Skyline” são algo de absolutamente necessário para qualquer Dylanófilo que preze o estatuto.

Em concreto, o take 3 de “All along the Watchtower”, bem como os takes 1 de “I Threw it all away” e “Western Road”.

Mas, acima de todos eles, a versão alternativa de “Lay Lady Lay”. Gravada a 13 de Fevereiro de 69 en Nashville com Wayne Moss na guitarra, Bob Wilson no órgão, Charlie McCoy no baixo e Kenneth Buttrey na bateria, soa hoje absolutamente superlativa, ao contrário da versão originalmente escolhida para o álbum, a qual, aos ouvidos do Atalho surge algo datada.

O CD 2 e parte do CD 3 são constituídos pelas famosas e atá agora inéditas “Johnny Cash Sessions”. No último são ainda incluídas duas interessantes outtakes das sessões de gravação de “Self Portrait”: “Ring of Fire” e “Folsom Prison Blues”.
Essencial Dylan, ainda que o período em apreço não seja exactamente consensual.