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24/09/26

"A Strange Light From The East, Eastern Influenced Western Music 1965-72"



Um paradigma há muito estabelecido indicia que toda a música de inspiração oriental feita no ocidente nos finais da década de 60 início de 70 do século anterior teria de incluir necessariamente a cítara. 

Acontece em largas situações, embora nem sempre seja verdade ( como de resto o demonstram o mantra “We will follow” dos Stooges, “Eight Miles High” dos Byrds, as jams “East West” de Paul Butterfield Blues Band e”Netti Netti” de Walter Norton / Martin Stone ou “Impromptu in ‘E’ Minor” por Clark-Hutchinson, todos integrando “A Strange Light from the East”. 

Mas na sua generalidade a compilação reflecte o desiderato inicial. 

Ainda que por razões de licenciamento de direitos muitos nomes estejam ausentes ( desde logo os maiores como Beatles, Rolling Stones, Traffic, The 13th Floor Elevators, Donovan ou bandas de menor projecção como os nórdicos Oriental Sunshine ) são-nos propostas magníficas surpresas: 

- “Which Dreamed it” o lado B de um single raríssimo gravado por Boeing Duveen & The Beautiful Soup em 1968, 
- “Sitting on a Blunestone” dos Tales of Justine, 
- “Sattva” um tema obscuro que integra o também obscuro “Once upon a dream” dos Rascals, 
- “Menyatt Dyl Com” dos Ceyleib People a primeira banda que Ry Cooder integrou depois dos Rising Sons, 
- Lynne Pike uma cantora neo-zelandesa a descobrir, ou 
- “Song for Brunhilde” pelos germânicos Abacus. 

Coexistem naturalmente em “A Strange Light from the East”, como em todas as compilações, propostas que não farão o pleno da aceitação. O Atalho no entanto dispensa-se de mencionar as suas.

Todavia, para além dos já mencionados, encontrar na mesma edição The Byrds, Bert Jansch, Kaleidoscope (USA), Yardbirds, Spirit, The Twilights, East of Eden, The Fox, Merrell Fankhauser, Pentangle, John Renbourn, Meic Stevens ou Wizz Jones, constitui um privilégio e uma oportunidade que aos interessados convirá não desperdiçar.

 

04/09/26

Jardins do Paraíso ( 91 )


Orange County, Califórnia, 1970.

Seguramente ofuscada pela projeccão e estatuto de alguns dos seus colegas  singer-songwriters ( Tim Buckley, Judee Sill, Jackson Browne, Joni Mitchell … ), Kathy Smith não logrou nunca almejar o patamar de sucesso compatível com o seu talento. E, neste aspecto, nem uma participação no festival da Ilha de Wight em 1970 logrou ajudar.

Não obstante gravou para a Stormy Forest de Richie Havens dois álbuns cuja obscuridade caminha paredes meias com o talento da autora.

O segundo, prosaicamente titulado de “2”, data de Novembro de 1971 e acaba de receber a primeira reedição oficial.

É um disco belíssimo, simultaneamente arrojado e intimista. O intimismo não espanta, constituía a marca de água dos singer-songwriters; o arrojo por sua vez, radica numa inovativa fusão entre o folk psicadélico e o jazz.

As canções são maioritariamente escritas por Kathy Smith. A par destas, estão também presentes temas de Jimmie Spheeris ( a conferir o seu magnífico “Isle of View”, onde o tema “Seven Virgins” surge também ), Jackson Browne ( “It’s taking so long” constitui a única versão oficialmente editada do tema ) e de Pamela Polland ( que entre muitos outros escreveu “Tulsa County Blue” para os Byrds de “Ballad of Easy Rider” ).

Alguns dos músicos, parte deles ainda ilustres desconhecidos na época, davam pelos nomes de Jan Hammer, Tony Levin, Don Alias, Warren Bernhardt, Jimmie Spheeris ou Jeremy Steig.

Tudo dito, ou quase. Faltará apenas referir que a reedição inclui dois trechos inéditos: uma demo de “For Emily” da própria Kathy Smith e uma versão frugal  de “Hang On To A Dream” de Tim Hardin. 


30/01/26

Jackie DeShannon "Love Forever Demo Recordings 1966-68"

 


Abordou as linguagens do folk, folk-rock, country, soul, blues, gospel, sunshine pop, girl group…, cantou The Band, Margo Guryan, Carole King, Jack Nitzsche …, colaborou com The Byrds, Randy Newman, Jimmy Page, Leon Russell …, foi cantada por Marianne Faithful, Searchers, The Ronettes, Delaney & Bonnie, The Byrds ( de novo ) e por mais de meio mundo…

E no entanto, Jackie DeShannon, a detentora do curriculum acima apenas parcialmente referido, permanece um esquecimento sempre que se invoca a história do período da música americana que frequentou.

A relativa indiferença ou, se quiserem, a parcimónia com que foi recebido “Love Forever Demo Recordings 1966-68” significa mais uma pequena prova disso mesmo.

Datadas do período compreendido entre 1966 e finais de 1967, as dezasseis demos que integram “Love Forever” foram gravadas e publicadas em acetatos que circularam apenas no seio da indústria. A intenção era vender as putativas canções no mercado.


E apesar de denominadas “demos” e de aqui e ali parecer que não foram terminadas, possuem uma qualidade inquestionável.  

Comummente conectadas com esboços de canções, as demos presentes em “Love Forever” são tudo menos isso. Empolgantes e na sua grande maioria inspirados, estes “projectos” de canções ilustram o tempo em que DeShannon operou a transição entre o seu período pop / folk rock e o consolidar da matriz singer-songwriter através do seminal álbum “Laurel Canyon”.

Alguns destes temas surgiram mais tarde em álbuns de Jackie DeShannon ( “Nicole” em “Me About You” ), outros como “Effervescent Blues” foi lado B do single “The Weight” e “Children & Flowers” foi usado pelos The Critters em “Younger Girl”. A maioria no entanto  permaneceria inédita até “Love Forever”.

Suspeitamos que uma larga faixa de artistas ambicionaria que os seus produtos finais ombreassem com a qualidade aqui patenteada por DeShannon.

03/11/25

Trimdon Grange Explosion "Dreams Buried Under The Sea"

 


Oito anos após um primeiro álbum homónimo e vinte após o fabuloso trabalho da banda progenitora – The Eighteenth Day Of May – os Trimdon Grange Explosion regressam com “Dreams Buried Under The Sea”.

Trata-se de uma espécie de espelho sonoro que nos conduz a imagens de um pretérito quase perfeito onde o eixo The Byrds / Big Star / R.E.M. removia os destroços do pós-punk e do synth-pop.

Porque “Dreams Buried Under The Sea” é mesmo isso, uma montra sonora que tendo algo de nostálgico, não se esgota naquela matriz.

Atente-se em “World turning round”, a abrir. No evoluir do tema é difícil não rever mentalmente “Murmur”, imediatamente antes da canção explodir num mar de guitarras fuzz.

O jingle-jangle de “September Falls” evoca The Byrds enquanto “Swim on your back in the water” traz à memória os Wolf People de Jack Sharp e P.G. Six de Pat Gubler, outros dois expatriados do eixo acima citado.


“Breaking the wheel”, um mini épico irresistível, é talvez o título âncora do álbum. Byrdsiano na essência surpreende quando é introduzida a viola de Alison Cotton; o efeito é hipnótico, como se a viola de arco de John Cale regressasse das catacumbas do Velvet Underground para nos encantar uma vez mais.

A fechar “As the world rises to fall”, competente e obviamente cúmplice do Neil Young de “Harvest”.

“Dreams Buried Under The Sea” está para além deste tempo. Ostenta um charme muito próprio e, talvez por isso, não é expectável que venha a frequentar as famigeradas listas dos melhores do ano.

Nada que surpreenda e muito menos incomode o Atalho. Como já alguém afirmou: "a história está pejada de exemplos de maiorias que não tiveram razão".

19/09/25

"When Will They Ever Learn? A Story of U.S. Folk Music 1963-1969"

“The oft-covered ‘Morning Dew’ is understandable; it was one of a number of emotive songs evoking a fear of nuclear annihilation and its consequences dating back before the Korean War but particular heightened in the prelude to the Cuban Missile Crisis. As the 60’s wore on, the civil rights movement grew stronger, and the horrors of the Vietnan War hung over more than one generation living in the shadow of the draft. Topical songs have endured, becoming more far reaching in scope, subtler and less histrionic, but some questions remain unanswered. Look at the world around us and all the fears, concerns, threats and challanges we face, as Pete Seeger so presciently observed 65 years ago: When Will They Ever Learn?” ( Mick Houghton, do booklet de “When Will They Ever Learn?, a Story of U.S. Folk Music 1963-1969” 

As canções tinham um propósito. Os artistas causas, políticas, sociais, ecológicas, o que fosse. Desígnios que, com maior ou menor honestidade, assumiam em disco ou em palco. 

O público aderia por convicção e nos concertos, para além da vertente lúdica, a postura não era apenas a de socializar, acenar com as luzinhas do telemóvel ou beber cerveja com pó. 

Ao escutar a centena de canções que dão corpo a “When Will They Ever Learn?, a Story of U.S. Folk Music 1963-1969” torna-se difícil impedir que um notório sentimento de nostalgia desponte, com tudo o que de bom ou porventura menos bom possa vir a influenciar a análise e determinar o julgamento.
   

Corações ao alto que basta de elucubrações. Estamos muito provavelmente em presença de uma das compilações do ano, qualquer que seja o ângulo de abordagem. 

As vertentes histórica e sociológica estão presentes em muitos dos menos óbvios exemplos da banda sonora que ilustrou episódios como a guerra da Coreia, a crises dos Misseis em Cuba, o conflito do Vietnam ( pré e pós ) ou a campanha dos Direitos Civis. O dealbar do fenómeno singer-songwriter e a reabilitação do stato-quo então emergente em Nashville também. 

Concretizando: entre outros passam por aqui Pete Seeger, Odetta, Tom Paxton, Hedy West, Arlo Guthrie, Dave Van Ronk, Malvina Reynolds, Bob Dylan, Fred Neil, Barry McGuire, Bonnie Dobson, Phil Ochs, Richie Havens ou Tim Rose. 

Também Paul Simon, Tom Rush, Tim Buckley, David Blue, Judy Collins, Judy Henske, John Philips ( pré e pós Mamas & Papas ), Gordon Lightfoot, Byrds, Gene Clark, Karen Dalton, Nico, Pat Kilroy ou Tim Hardin. 

Nomes com menor divulgação e a descobrir: Peter LaFarge, Paul Clayton, Dick Rosmini, Len Chandler, Billy Edd Wheeler ou Steve Noonan. 

Pode até parecer injusto, mas face à qualidade do proposto, estes ouvidos ousariam ainda salientar as fabulosas versões de “Wings” ( Tim Buckley ) por Linda Ronstadt & The Stone Poneys e “Tin Angel” ( Joni Mitchell ) por Tom Rush. 

No que concerne a originais, “Morning Dew” ( Bonnie Dobson ), “Hey Joe” ( Tim Rose ), “Three Ravens” ( Judy Henske & Jerry Yester” ) ou “High Flying Bird” ( Billy Edd Wheeler ), mantêm toda a sua pertinência. 


Com curadoria e textos de Mick Houghton, “When Will They Ever Learn?” é em simultâneo um fresco sobre a história e um desafiante objecto de estudo.

06/04/25

"Jingle Jangle Morning, The 1960s U.S. Folk-Rock Explosion"

“When folk guitarrist-singers Roger ( then Jim ) McGuinn, Gene Clark, and David Crosby started to make music together around mid-1964, they’d barely begun to play electric instruments. With newly recruited bassist Chris Hillman and drummer Michael Clarke, they devised a full electric arrangement of this then-unreleased Bob Dylan composition that combined the best of Dylan and the Beatles, with ringing electric 12-string guitar and heavenly harmonies. Although only McGuinn played on the single, the result was a #1 hit in both US and UK as summer 1965 dawned, and the dawn of folk-rock itself.”

Não sendo a única, a versão de “Mr. Tambourine Man” inventada pelos Byrds e acima comentada por Ritchie Unterberger, é uma das razões da existência deste blog. O folk-rock ( sobretudo o americano ) é uma outra. 

Caldo perfeito para, com evidente satisfação, receber “Jingle Jangle Morning, The 1960s US Folk-Rock Explosion”; selecção, compilação e notas de Ritchie Unterberger, assistência aúdio de Alec Palao.
A larga maioria dos primeiros arautos do folk-rock provinham do folk e do folk revival do inicio dos 60s. A então deriva eléctrica de Dylan primeiro e dos The Byrds no imediato, funcionou como catalisador para um movimento que cavalgando a onda de British Invasion acabou a competir com esta. 

“Yet folk-rock wasn’t merely a matter of mixing the Beatles and Bob Dylan, or folk songwriters trading their acoustic guitars for electric axes. In the five or so years after The Byrds hit #1 on both sides of the Atlantic with their rocked-up reinvention of Dylan’s ‘Mr. Tambourine Man’, dozens of American acts took the best of both rock and folk to not only create something wholly new.” 

De um ponto de vista histórico e documental “Jingle Jangle Morning” é uma das abordagens possíveis. Haverá certamente outras, muito embora esta, balizada entre os anos de 1965 e 1970, seja susceptível de criar adição.
Os 76 temas que compõem a compilação abordam um largo espectro do género. Do óbvio ao surpreendente, passando pelo inesperado. 

Dylan, Byrds, Phil Ochs, Great Society, Buffalo Springfield, Gene Clark, Tim Buckley, Beau Brummels, Simon & Garfunkel, Fred Neil, Youngbloods, Judy Collins, David Blue, Jefferson Airplane, Tom Rush, Gordon Lightfoot, Love, Tom Paxton ou Tim Hardin entre outros, cabem no campo do óbvio. 

Com maior ou menor grau de surpresa, são aparentemente inesperados os nomes de Nico, Dion, Poco, Lamb, Johnny Winter, Linda Ronstadt, Fugs, Fapardokly ou Holy Modal Rounders por exemplo. Opções do curador que nos convidam a questionar clichés e colocar de novo em perspectiva verdades entretanto adquiridas.
A tudo isto acrescem algumas cerejas colocadas no topo: Blackburn & Snow com “Stranger in a strange land”, um tema que David Crosby escreveu e produziu em 1966 sob o pseudónimo Samuel F. Omar; “Is there anything I can do” dos The Ashes ( pré Peanut Butter Conspiracy ); “2:10 Train” dos The Rising Sons ( com Ry Cooder e Taj Mahal ); “Guinevere” dos The Lemon Drops; “All night long” de Tom Paxton; o inédito “Watch me walk away” dos obscuros Stourbridge Lion, ou o espectacular “Woman don’t you weep” escrito por Steve Young para o único álbum dos Stone Country. 

Seguramente uma das compilações do ano.
 

31/03/23

Heroes are hard to find ( 96 )


"Their first recording, and eventual signature song, was ironically not one written by Jeff, but an obscure cast-off from David Crosby that had been passed over for release by his own group, The Byrds. 

"Strangers in a Strange Land" was a riff upon the heightened conciousness espoused in Robert Heinlein's forward looking sci-fi novel of the same name, and perfectly in sync with the questing zeitgeist of the new generation" ( Alec Palao )

17/06/22

"Heroes and Villains, The Sound of Los Angeles 1965-68"

 


Existem diversas compilações ilustrando a música feita em Los Angeles no período áureo dos 60s, quando o respectivo paradigma artístico rivalizava com a mais florida e etérea cena de São Francisco.

Uma das mais aturadas e criteriosas é “Where The Action is! 1965 Los Angeles Nuggets 1968” datada de 2009 e produzida pelos insuspeitos Andrew Sandoval, Alec Palao e Cheryl Pawelski.

Mas o tema, longe de ser consensual, seja do ponto de vista musical, histórico ou sociológico, presta-se sempre a revisitações e, dependendo do curador, umas mais conseguidas que outras.

A mais recente dá pelo nome de “Heroes and Villains, The Sounds of Los Angeles 1965-68” e tem a marca competente e diferenciada do historiador David Wells.

 


E se “Where the Action is!”, à data incluindo apenas 3 temas inéditos ( Stephen Stills & Richie Furay, Tim Buckley e Tommy Boyce & Bobby Hart ), era uma espécie de parente próximo da lendária criação de Lenny Kaye “Nuggets, Original Artyfacts from the First Psychedelic Era 1965-1968”, “Heroes and Villains”, longe de descurar os inéditos ( 16 num total de 90 títulos ) procura enquadrar a criação musical nos acontecimentos históricos e artísticos que a cidade e arredores ( Laurel Canyon sobretudo ) viviam na época:

“Before 1969, my memories were nothing but fun and excitement and shooting to the top of the charts and loving every minute of it. The Manson murders ruined the LA music scene. That was the nail in the coffin of the freewheeling, let’s get high, everybody welcome, come on in, sit right down. Everybody was terrified. I carried a gun in my purse. And i never invited anybody over to my house again” ( Michelle Phillips, The Mamas and The Papas ).



Ademais e concretizando: onde será possível encontrar as esquizofrénicas composições de Captain Beefheart e Mothers of Invention? Ou uma versão de “Windy” pela respectiva autora  (Ruthann Friedman), um ano após o tema ter resgatado os Association do anonimato? Ou um inédito dylanesco, “The Wind Blows Your Hair por uns insuspeitos The Seeds? Ou um outro inédito e percursor “Computer Girl” gravado em 67 pelos Urban Renewal Project liderados por um jovem Russ Mael que anos mais tarde os Sparks imortalizaram? Ou um “Long time” escrito por Gene Clark e oferecido aos Rose Garden? Ou uma primeira versão de “Why” de David Crosby gravada pelos Byrds nos estúdios de RCA em Sunset Boulevard e cujas fitas foram recusadas pela Columbia, que obrigou a banda a regravar o tema nos seus próprios estúdios? Ou ainda uma versão de “Road to Nowhere” assinada pela dupla Goffin/King e interpretada pelos Hearts & Flowers uma das primeiras bandas de Bernie Leadon?

Poderíamos sempre continuar pois o filão não apenas parece; é verdadeira e compulsivamente inesgotável. “Heroes and Villains” é por isso uma edição marcante. Vai muito para além do tempo que os seus 90 temas demoram a escutar. As enciclopédicas notas que ilustram cada um deles, obrigam-nos a parar e a verificar cada detalhe, cada informação aduzida. Muita da qual, sobranceiramente afinal, julgávamos já conhecer.

 

Numa palavra: puro serviço público!

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

“In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

“Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

07/04/19

Artefactos ( 89 )


Postal promocional impresso pela Fábrica Portuguesa de Discos da Rádio Triunfo, Lda, referindo os seis primeiros EPs dos The Byrds publicados em Portugal.
Considerando as referências editoriais dos discos promovidos, o postal deverá ser datado de finais de 1967, inicio de 1968.



03/12/18

Artefactos ( 85 )











Observados com atenção e critério, os 60s / 70s guardam na letra B, cinco das mais emblemáticas bandas da história: The Band, Beach Boys, Beatles, Buffalo Springfield e The Byrds.   

De todas elas, os Byrds são aqueles onde o Atalho passou e passa mais tempo, pese embora a importância da Band ou a genialidade dos Buffalo Springfield.

Em 2004 a Sundazed publicou "Cancelled Flytes" uma caixa que compila, reeditando, alguns dos mais significativos singles dos Byrds. Dir-se-à, faltam aqui "Mr. Tambourine Man" ou "Eight Miles High". Verdade, mas o grafismo, a qualidade áudio e a atenção aos detalhes abundam neste magnifico artefacto.

09/09/18

Fairport Convention & Friends "A Tree with Roots, The Songs of Bob Dylan"



Cheguei primeiro a Sandy Denny, só depois aos Fairport Convention. Aparentemente,  uma bizarria cronológica mas as fontes de conhecimento eram sobretudo as rádios, e na época, as portuguesas  já  manifestavam as suas idiossincrasias.

Ao escutar pela primeira vez “John The Gun” e “Late November”, ambos retirados ao álbum “The North Star Grassman and The Ravens”,  concluí que aquele talento e aquela voz não podiam ser deste mundo. Como tal mereciam atenção e investigação condicentes.

Na Lisboa de 1972, a metrópole discográfica girava sobretudo em torno do eixo Rua do Carmo / Rua Nova do Almada, com réplicas muito interessantes para os lados da Avenida de Roma e bairro de Campo de Ourique. Porém, na Rua da Victória, no quarteirão situado entre as ruas da Prata e dos Correeiros, existia uma discreta loja de electrodomésticos … em cuja sub-cave se escondia uma extraordinária discoteca. Um espaço tranquilo e acolhedor que visitava com frequência, sempre que a curiosidade ordenava e a bolsa permitia.


Numa dessas incursões de final de tarde, já com o “trabalho de casa” feito, fui directo ao separador do F, em demanda dos Fairport Convention. E lá estava “The History of Fairport Convention”, embrulhado naquela magnífica capa dupla concebida por Fabio Nicoli  ( a árvore genealógica da banda representada por caracteres antigos, a faixa de seda e o selo colados  na frente e um belíssimo booklet de 12 páginas agrafado ao interior ) que logo me encantou. Havia no entanto uma pequena contrariedade, tratava-se de um duplo álbum; como tal bastante mais caro que o normal.

Optei então por fazer aquilo que os miúdos sem pais ricos faziam em circunstâncias semelhantes. Esperando melhores dias, mudei o disco de bancada, intercalando-o no S, algures entre os Slade e os Sweet. Imaginei que ali não corresse grande perigo de procura, a menos que alguém detectasse a marosca. Tive sorte. Quando voltei no final do mês ainda lá estava, no mesmo sítio ( as fotos aqui mostradas são dessa cópia, que ainda conservo ).

Toda esta conversa a propósito de “A Tree With Roots, Fairport Convention and Friends, and The Songs of Bob Dylan”. É que esta compilação abre com “Si Tu Dois Partir”( no original “If you gotta go, go now”, escrito em 1965 mas só publicado por Dylan em 1991 nos Volumes 1-3 das Bootleg Series ) exactamente uma das performances que mais me impressionou quando a escutei pela primeira vez em 1972.

‘The story goes that Fairport Convention was playing a gig at the Middle Earth and thought it would be amusing to do Dylan's song in French cajun style, so the band called for volunteers from the audience to help with the translation. Richard Thompson: “About three people turned up, so it was really written by committee, and consequently ended up not very cajun, French or Dylan.” This version was first released as a single Si Tu Dois Partir / Genesis Hall with Dave Swarbrick playing fiddle, Trevor Lucas triangle and Richard accordion. The “percussion” break towards the end of the song is the sound of a pile of chairs falling over.’ ( in Mainly Norfolk ).

Embora dezenas o tenham feito, ninguém canta Dylan como Dylan. Considerando apenas dois critérios: um objectivo ( a história ) outro subjectivo ( o gosto pessoal ),  e retirando os Byrds da equação, os Fairport Convention nas suas diferentes  metamorfoses compreendidas entre os anos de 1967 e 1975, foram os que mais e melhor se aproximaram do espírito do bardo.

Ao longo do tempo, Ashley Hutchings, Richard Thompson, Sandy Denny, Simon Nicol e mesmo Trevor Lucas, admitiram a influência que Dylan e as suas canções tiveram no despoletar das respectivas carreiras.

Ashley por exemplo não poupa nos adjectivos quando recorda a audição em 1968 de um acetato das The Basement Tapes ( só publicadas por Dylan em 1975 ): “The honour of being allowed to hear these recordings. Of course, they were incredibly rough, but this mattered not a jot. In fact, it added to the mystery. You must remember the legend that surrounded the whole Big Pink experience only took root much latter. We had only our imaginations to guide us. I think we would have covered practically all the songs if it was solely up to us.”

Dylan ‘himself’ devolveria a cortesia uns anos volvidos: “Ashley Hutchings is the single most important figure in English folk-rock. Before that his group Fairport Convention recorded some of the best versions of my unreleased songs. Listen to his bass playing on ‘Percy’s Song’ to hear how great he is.”

E de facto “Percy’s Song” parece ter sido escrita para os Fairport, em particular para a voz de Sandy Denny. “It needs a voice like Sandy’s to get the shades of emotion across, from moodiness to compassion to outright fury. There’s not many singers can do that”. ( Simon Nicol ).

Mas para além de “Percy’s Song” ( aqui  com Rick Grech no órgão, numa performance gravada para o John Peel’s Top Gear de 6 Abril de 1969 ), “A Tree with Roots” acolhe um conjunto de 17 versões, parte captada em palco e, por via disso, de qualidade áudio desigual; todavia portentosas todas. Parte já publicadas, outras inéditas.

E é um prazer escutar de novo Ian Matthews e Judy Dyble em “Jack O’Diamonds” e “Lay down your weary tune”, uma Sandy sublime em “I’ll keep it with mine” ou “It ain’t me Babe”, um Trevor Lucas surpreendente em “George Jackson e “Days of 49”, recordar a competência de músicos como Richard Thompson, Jerry Donahue ou Dave Mattacks.

Ter tantos clássicos reunidos num único registo revela-se um luxo e um privilégio a que não se pode ou deve ficar indiferente.

 

13/08/18

Gene Clark "Sings for You"



“Gene wrote so damn many songs we just couldn’t even tape them all. He would come in with a notebook full of songs. And if you didn’t tape them quickly, he would forget what tune he wrote them to.” ( Jim Dickson, manager ).


É inevitável. Sempre que o Atalho regressa a Gene Clark, abre-se aquela gaveta da memória que dá acesso directo a Tim Buckley. Não que, para além de um desmesurado talento e de carreiras que lhes foram madrastas, os dois tenham muito mais em comum; não obstante a associação persiste. Buckley intitulou o seu terceiro álbum “Happy Sad” e, “triste / contente”, é quase sempre o estado de espírito presente, durante e após a audição das canções de Gene.

“He was a very sultry, perplexed man. Very introspective. And he had this gloom around him – although I must say that he had a very sweet and charming side to him. But you never knew which side of him you were dealing with. He would be fine for a while, then he would get deeply, deeply depressed.” ( Michelle Phillips, The Mamas and The Papas ).

As canções, notáveis na esmagadora maioria, reflectem naturalmente a personalidade do autor. Aqui e ali são habitadas pelos demónios que atormentavam Gene desde que havia sido “expulso” dos Byrds, banda onde até então fora o principal e mais bem sucedido compositor.


“Gene Clark with The Gosdin Brothers” o primeiro álbum a solo ( publicado em Fevereiro de 67 ), não foi o êxito que o compositor e a editora ( Columbia ) desejavam. Basicamente uma “anomalia” – onde o folk rock de Sunset Strip se cruzava com Buck Owens, doses parcimoniosas de Beatles e algum barroco - só muitos anos volvidos seria devidamente avaliado / valorizado. Hoje a história considera-o pouco menos que essencial.

Após mais uma falsa partida – o projecto de single “The French Girl / Only Colombe” -, a Columbia entendeu que Gene Clark a solo era inviável e deixou cair o contrato.

No entretanto Clark escrevia canções: “I was writing just to write during that period of time. There were two or three unrecorded songs I wrote over that period, there’s a whole drawer full of them, so I have no idea what I was thinking about, just images. I used to like to lock myself in my house and just work for days on songs. I had a little recording setup in one room, and I would go in and put them on tape.”

Os temas publicados em “Gene Clark Sings for you” datam daquele período, e foram até agora uma espécie de “holy grail”, insanamente procurado pelos fãs durante décadas a fio.

Na prática, demos gravados com o propósito de prospectar um contrato, os oito temas recuperados do acetato original, são exactamente aquilo que se esperaria de Gene, sobretudo do Gene da época: inspirados, sensíveis, líricos, ainda que enquanto demos, naturalmente inacabados.


A informação sobrevivente é todavia escassa. Sabe-se apenas que o piano Wurlitzer é da responsabilidade de Alex del Zoppo, então teclista dos californianos Sweetwater. Quanto aos demais componentes ( bateria, baixo, cordas ) não foi disponibilizada informação.

Adicionalmente e de não menor relevância, “Sings for you” inclui as seis demos que Clark gravou em acetato e ofereceu aos Rose Garden, uma jovem banda de Los Angeles a quem o compositor terá confidenciado: “You do Byrds better than we ever did”. Duas delas, “Long Time” e “Till today” acabariam por integrar o primeiro e único álbum do quinteto. As restantes podem escutar-se agora através da interpretação espartana mas inimitável do seu criador.

Nota: todas as citações acima incluídas foram retiradas do booklet que acompanha a edição de “Sings for you”.

14/03/18

Bennett Wilson Poole



Muito cá do Atalho

11/03/17

Gene Clark "The Lost Studio Sessions 1964-1982"


 

“Muito poucos músicos tiveram tanta influência na criação de novos estilos de música como Gene Clark. Folk-Rock, Psychedelic acid-rock, Country-Rock, Alt-Country, Gene esteve no nascimento de todos estes géneros.”, pode ler-se no booklet que acompanha “The Lost Studio Sessions 1964-1982”. Mais detalhe menos detalhe, a verdade não anda longe.
Gene Clark foi um dos mais brilhantes songwriters americanos da segunda metade do século passado. A solo, com Byrds, Dillards, Gosdin Bros, Flying Burrito Brothers, McGuinn, Clark & Hillman ou Carla Olson, criou uma obra superlativa que em grande medida permanece por descobrir.
Ao talento como autor de canções acrescentava uma voz barítono que, em matéria de interpretação vocal, o colocava de imediato num patamar acima de outros talentos como Dylan, Parsons ou Newman.

Porém a ausência de sorte e as oportunidades falhadas  ficaram na sombra do seu talento. E hoje, quando se escutam clássicos como “Eight miles high”, “Here without you”, “Feel awhole lot better”, “One in a hundred”, “Tried so hard” ou “Full circle”, são poucos aqueles que os associam ao trovador do Kansas. 
“The Lost Studio Sessions” são gravações recuperadas à poeira dos arquivos dos produtores Leon Russell, Jim Dickson e Terry Melcher. Versões algumas, inéditas outras, são 24 canções de corpo inteiro que nenhum apreciador da arte de Gene Clark deverá ignorar.

23/05/16

"Wayfaring Strangers: Cosmic American Music"




“Cosmic American Music” é um rótulo “umbrella” debaixo do qual se abrigam muitas músicas.
Sabe-se hoje que, para cada Gram Parsons, Byrds ou Flying Burrito Bros, existem dezenas de outros nomes que nunca tiveram oportunidade de se cruzar com a fama ou tão pouco o reconhecimento.
“Wayfaring Strangers, Cosmic American Music” compila alguns desses artistas cujas gravações, localizadas entre os anos de 1968 e 1980, comportam verdadeiras pérolas da música americana.
Jimmy Carter and Dallas County Green, Plain Jane, Deerfield, Allan Wachs, Sandy Harless, Bill Madison ou Arrogance ( onde em tempos militou Don Dixon ) são apenas alguns dos nomes que os leitores do Atalho seguramente gostarão de conhecer.
A maioria das gravações originais são impossíveis de encontrar, daí que esta colectânea, composta por 19 temas, seja uma excelente porta de entrada.

07/04/16

Gene Clark "The Lost Studio Sessions"



Há dias tratei de pré-encomendar as "Gene Clark The Lost Studio Sessions 1964-1982" de Gene Clark. Sendo o mais completo songwriter que passou pelos Byrds e um dos melhores do seu tempo, qualquer coisa sua, mesmo que em bruto, será sempre muito aliciante. Esperava receber o disco na data da respectiva publicação ou, quando muito, um daqueles códigos automáticos que permitem fazer os famigerados e impessoais downloads.

No entretanto o carteiro tocou, uma vez ( nunca toca duas ), e deixou na caixa do correio um pacote com um belíssimo CD-EP ( Bonus Acoustic CD ) que integra: "The Virgin", "She's the kind of girl", "1975" e "One in a hundred".

Apenas a voz e a guitarra acústica, captados por de Jim Dickson nos Word Pacific Studios de Hollywood em finais de 1970, princípios de 1971, período em que o autor preparava as gravações do futuro e enorme "White Light".

Se o que "The Lost Studio Sessions" trouxer for pelo menos tão bom como estas quatro maquetas originais, vale a pena a espera. Qualquer espera.

E fica sempre bem receber um "Official Acknowledgement of Receipt" da editora que está a tratar do assunto. Ou, como diz frequentemente um velho amigo: "a eles não lhes custa nada e a mim sabe-me bem".