Um espaço de recuo seguro para die-hards do folk e do psicadélico, almas penadas ou peregrinos ocasionais
03/10/26
Matthew Katz é, à luz
da história, uma personagem.
Figura incontornável ( como é corrente agora dizer-se ) da
cena cultural californiana do final dos 60s, entre várias outras actividades
mais ou menos polémicas, algumas das quais deram origem a processos que se
arrastaram durante décadas nos tribunais ( vidé caso Moby Grape ), fundou a editora
independente San Francisco Sound. E, nem que seja por isso, merece ser recordado.
Originalmente publicada a 15 de Novembro de 68, a compilação “Fifth Pipe Dream
Vol I” foi o primeiro álbum da editora de Katz.
Integrava temas das bandas californianas It’s A Beautiful
Day, Tripsichord Music Box, San Francisco Sound House Band ( vulgo Marcus Uzilevsky
), West Coast Natural Gas e Black Swan, todas agenciadas por Matthew Katz.
Objecto de reedições ilegítimas durante décadas, “Fifth Pipe Dream” conheceu
recentemente a edição oficial que em definitivo lhe faz justiça.
Não apenas porque recupera a edição original, mas também ( ou
sobretudo ) por que lhe acrescenta o “Volume II”, onde para além de disponibilizar
mais títulos inéditos das bandas já referidas, acrescenta dois temas de uma
outra: Phananganang.
A juntar a tudo isto um magnífico encarte de doze páginas, onde a partir da
figura de Katz e do legado das bandas atrás mencionadas, se conta a história de
uma das páginas mais gloriosas da música californiana.
Um paradigma há muito estabelecido indicia que toda a música de inspiração oriental feita no ocidente nos finais da década de 60 início de 70 do século anterior teria de incluir necessariamente a cítara.
Acontece em largas situações, embora nem sempre seja verdade ( como de resto o demonstram o mantra “We will follow” dos Stooges, “Eight Miles High” dos Byrds, as jams “East West” de Paul Butterfield Blues Band e”Netti Netti” de Walter Norton / Martin Stone ou “Impromptu in ‘E’ Minor” por Clark-Hutchinson, todos integrando “A Strange Light from the East”.
Mas na sua generalidade a compilação reflecte o desiderato inicial.
Ainda que por razões de licenciamento de direitos muitos nomes estejam ausentes ( desde logo os maiores como Beatles, Rolling Stones, Traffic, The 13th Floor Elevators, Donovan ou bandas de menor projecção como os nórdicos Oriental Sunshine ) são-nos propostas magníficas surpresas:
- “Which Dreamed it” o lado B de um single raríssimo gravado por Boeing Duveen & The Beautiful Soup em 1968,
- “Sitting on a Blunestone” dos Tales of Justine,
- “Sattva” um tema obscuro que integra o também obscuro “Once upon a dream” dos Rascals,
- “Menyatt Dyl Com” dos Ceyleib People a primeira banda que Ry Cooder integrou depois dos Rising Sons,
- Lynne Pike uma cantora neo-zelandesa a descobrir, ou
- “Song for Brunhilde” pelos germânicos Abacus.
Coexistem naturalmente em “A Strange Light from the East”, como em todas as compilações, propostas que não farão o pleno da aceitação. O Atalho no entanto dispensa-se de mencionar as suas.
Todavia, para além dos já mencionados, encontrar na mesma edição The Byrds, Bert Jansch, Kaleidoscope (USA), Yardbirds, Spirit, The Twilights, East of Eden, The Fox, Merrell Fankhauser, Pentangle, John Renbourn, Meic Stevens ou Wizz Jones, constitui um privilégio e uma oportunidade que aos interessados convirá não desperdiçar.
“ … arco-íris feito de fome no céu da boca … eu virei um pote de mel … deu no que deu, abelhas no céu … o caminho de leite que sobe a cidade … debaixo do sol … nervos de palha seca, dentes de corda e pau … estrada de intemperança … vou buscar a outra metade do sol … despertar as espadas, varrer as esfinges das encruzilhadas … já não há mais moinhos como os de antigamente … o resto é pouco e apagado … soluça o silêncio … era uma estrada de vidro no ar … flautas de solidão … as minhas cantigas desenhadas nas areias … alfazema pelos jardins eu corro rindo … no silêncio do campo molhado de sol …”
A existir, qualquer comentário suplementar, configurará apenas e só, ruído …
Seguramente ofuscada pela projeccão e estatuto de alguns dos
seus colegas singer-songwriters ( Tim
Buckley, Judee Sill, Jackson Browne, Joni Mitchell … ), Kathy Smith não logrou
nunca almejar o patamar de sucesso compatível com o seu talento. E, neste
aspecto, nem uma participação no festival da Ilha de Wight em 1970 logrou
ajudar.
Não obstante gravou para a Stormy Forest de Richie Havens
dois álbuns cuja obscuridade caminha paredes meias com o talento da autora.
O segundo, prosaicamente titulado de “2”, data de Novembro de
1971 e acaba de receber a primeira reedição oficial.
É um disco belíssimo, simultaneamente arrojado e intimista. O
intimismo não espanta, constituía a marca de água dos singer-songwriters; o
arrojo por sua vez, radica numa inovativa fusão entre o folk psicadélico e o
jazz.
As canções são maioritariamente escritas por Kathy Smith. A
par destas, estão também presentes temas de Jimmie Spheeris ( a conferir o seu magnífico
“Isle of View”, onde o tema “Seven Virgins” surge também ), Jackson Browne ( “It’s
taking so long” constitui a única versão oficialmente editada do tema ) e de
Pamela Polland ( que entre muitos outros escreveu “Tulsa County Blue” para os
Byrds de “Ballad of Easy Rider” ).
Alguns dos músicos, parte deles ainda ilustres desconhecidos
na época, davam pelos nomes de Jan Hammer, Tony Levin, Don Alias, Warren
Bernhardt, Jimmie Spheeris ou Jeremy Steig.
Tudo dito, ou quase. Faltará apenas referir que a reedição inclui dois trechos
inéditos: uma demo de “For Emily” da própria Kathy Smith e uma versão frugal de “Hang On To A Dream” de Tim Hardin.
Jade "Fly on Strangewings" ( DJM Records DJLPS 407 ) UK, 1970
- "Amongst Anenomes"
- "Raven"
-"Fly On Strangewings"
- "Mayfly"
- "Alan's Song"
- "Bad Magic"
- "Clippership"
- "Five Of Us"
- "Reflections On a Harbour Wall"
- "Mrs. Adams"
- "Fly Me To The North"
- "Away From The Family"
Jade:Marianne Segal ( canções, voz e guitarra acústica ), Dave Waite ( voz, guitarra acústica e banjo ) e Rod Edwards ( voz, piano e orgão ); com: Pete Sears ( baixo ), James Litherland ( guitarra eléctrica ), Terry Cox, Clem Cattini e Mick Waller ( bateria ), John Harper ( violino eléctrico ), Michael Rosen ( guitarras acústicas e ritmo ), Pete York ( congas e percussão ), John Wetton ( baixo ) e Phil Dennys ( cordas ).
Uma das falhas do Atalho, entre muitas outras, prende-se com
o facto de nunca ter feito qualquer menção ao Jade ( ou Silver Jade para o
mercado americano ) um trio de folk rock britânico onde para além de Ron
Edwards ( ex-Picadilly Line e ex-Edwards Hand ) e David Waite pontificava a voz
e o talento de Marianne Segal.
Vem esta introdução a propósito da programada edição de “The
Gathering”, álbum onde Marianne Segal conta com a participação dos vetustos e semi-obscuros
Circulus.
Na verdade, a anunciada publicação da Fruits de Mer mais não
é do que a reedição de um CD lançado em 2007 pela própria e então objecto de uma
edição limitada a 500 exemplares.
Por via disso, voltei a “The Gathering”, quase duas décadas volvidas.
Composto na totalidade por Marianne, o álbum possui aquela
rara beleza que os predestinados frequentemente conferem às suas criações. Concebido
e ancorado neste milénio, e aqui e ali invadindo sonoridades comuns ao rock, “The
Gathering” é no seu todo um disco belíssimo.
A autora não perdeu a antiga sensibilidade rural ( de que as
canções que integram “Fly on Strangewings” dos Jade são disso a melhor evidência
), bucólica por vezes. Só que agora adiciona-lhe a experiência e a sabedoria adquirida
ao longo de quatro décadas.
“September Song”, “Saints of Tapestry”, “Sussex downs”, inclusive o compassado “Root
People”, são canções que facilmente nos ocupam a memória, mesmo a selectiva.
Em suma, regressar a “The Gathering” foi uma experiência
reconfortante. Tal como o foi relembrar um belíssimo “Little Lucy”, o “tema
escondido” do CD.
“Happiness is everywhere, even in me”, John Phillips ( “I’ll Try For The Rain” )
Imaginem um local, espaço onde os trajectos de Donovan e Nick Drake se interceptam. Existe, ou melhor, existiu. Dá pelo nome de John Phillips, não o mentor dos The Mamas & The Papas, antes um súbdito britânico cuja escassa obra foi maioritariamente criada e gravada em Salisbúria na Rodésia (hoje Harare e Zimbabwe, respectivamente).
“John”, o até há pouco único registo conhecido do autor, foi publicado pela editora RPM na África do Sul em 1969. A edição terá sido escassa ( algo entre as 100 e 200 cópias ) e, como tal, o número de exemplares originais em circulação andou sempre próximo do zero.
Finalmente reeditado, percebe-se agora a razão da recente demanda por parte de coleccionadores e historiadores. Trata-se com efeito de um extraordinário conjunto de canções, perfeitamente enquadrado na época em que foi criado. Instrumentalmente roça o espartano, porém a beleza das melodias convoca Donovan, enquanto a sensibilidade dos temas remete para Drake. O somatório destas características resulta na perfeição e as canções / melodias pairam na cabeça do ouvinte muito depois de terminarem.
Entre espanto e admiração, é de resto aquela a principal sensação que emerge depois de se escutarem “Peppermint Wind”, “Scaramouche”, “Pre Ante Pen Ultimatum”, “Mulberry Avenue”, “Sylvia” ou “Look At The Time Fly”.
“Songs of Gentleness 1969 – 1976” agora publicado pela canadiana Strawberry Rain, reedita “John” e acrescenta-lhe três outros álbuns de gravações inéditas: “John 1972”, “John 1976” e “Demos”.
“John 1972”, reúne maquetes gravadas nos APL Studios de Salisburia com a colaboração do guitarrista John Oakley-Smith. Mantem as influências anteriores ( a versão amputada de “Season of the witch” comprova-o ) e afirma-se como um conjunto de temas de folk britânico a que se acrescentam influências blues / americana ( “Mary Jane” ) e africanas ( “Iwe Neni Tinenamo” ).
Devidamente trabalhados e produzidos os temas incluídos em “John 1972” não só estariam ao nível do disco anterior como eventualmente figurariam na galeria do melhor folk inglês da época; apesar de escassamente produzidos, “Parting is never forever goodbye”, “Looking Glass”, “Quavatina” ou “Pretty Garlands” são ainda assim canções superlativas, como aliás se pode parcialmente comprovar no disco imediatamente a seguir na linha do tempo.
De facto, quatro anos volvidos, “John 1976” gravado a solo no mesmo estúdio em Fevereiro de 1976 mas objecto de uma mais cuidada captação áudio, acolhe de novo as canções atrás mencionadas, permitindo-nos agora perceber melhor a sua verdadeira dimensão lírica, sendo que a generalidade das restantes afina pelo mesmo diapasão.
A título de exemplo: em “Time Will Tell”, Phillips como que persegue o legado de Nick Drake no seu tema homónimo e em “Train Song” a introdução da guitarra acústica mimetiza o som de um comboio em movimento.
“Demos”, o terceiro disco de inéditos, tal como os dois anteriores recuperado e masterizado a partir de três “reel-to-reel tapes” encontradas no sótão de um familiar, é como o nome induz, um conjunto de doze maquetas de canções que ganham vida e forma através da voz angelical e guitarra acústica ( que por vezes alterna com a auto-harpa ) do autor. Todas, impressivos esboços em filigrana que estimulam a imaginação do ouvinte e que necessariamente alimentam uma dúvida: o que seria de todas estas canções se ao autor tivessem sido dados tempo e meios para as completar?
Fustigado por diversas tragédias pessoais, reclusivo, John Phillips faleceu em Oxford em Fevereiro de 1995 vítima de cancro. Em vida, ninguém soube da doença que o acometeu.
Particularmente conhecido pelo opúsculo underground “Basketball Diaries” a que os álbuns “Catholic Boy” ( 1980 ) e “Dry Dreams” ( 1982 ) deram seguimento e maior visibilidade, Jim Carroll ( 1949 – 2009 ) possui no curriculum outros momentos de visita obrigatória parte dos quais se ilustram abaixo.
Jerry Berkers "Unterwegs" ( Pilz 20 29131-6 ) Germany, 1972
- "Jeder Tag sieht ganz anders aus"
- "Glaub mir, Sisanne"
- "Es wird morgen vorbei sein"
- "Dafur iebe ich nur"
- "Grauer Better"
- "Ich klage an"
- "Gelobtes Land"
- "Seltsam"
Jerry Berkers: canções, voz, guitarras ( acústica e eléctrica ), baixo e percussão; com: Jurgen Dollase ( teclas ), Thomas Engel ( bateria e percussão ), Bill Barone ( guitarra eléctrica ), Walter Westrupp ( Harmónica ), Bernd Witthuser ( guitarra acústica ) e Dieter Dierks ( coros e arranjos )
Produção: Dieter Dierks e Rolf-Ulrich Kaiser
Gravações em Junho/Julho 1972 no Dierks Studio, Colónia.
“Picturesque Matchstickable Messages From The Status Quo” foi
publicado pela PYE Records no Reino Unido em Setembro de 1968 nas versões Mono
e Stereo.
Dava sequência a três singles de razoável sucesso e apresentava um quarto, “Technicolor
Dreams / Paradise Flat” ( todos incluídos na edição UK ). O último acabou por
ser retirado do mercado logo após a publicação.
O facto transformou “Technicolor Dreams” no artefacto mais
raro e caro do espólio Status Quo. Ao longo dos anos foram encontradas algumas cópias
de exportação na Suiça, Áustria e em Portugal.
( Versão USA )
A versão stereo do álbum para o mercado americano,
rebaptizada pela Cadet Records de “Messages From The Status Quo”, foi publicada
numa capa diferente e também com um conjunto de temas mais curto, dez títulos
apenas.
Saíram do alinhamento “Sheila”, um tema de Tommy Roe e “Green
Tambourine” dos Lemon Pipers.
“Never was a group more appropriated named. It is made up of one
Canadian, two Australians, a Norwegian and an Englishman. They have a little of
Jefferson Airplane in them, a little of The Seekers, a little of the Bee Gees,
a little of everyone. Their sound is based on very complex four-part harmonies.
Kerrilee Male, an Australian, looks and sings like Grace Slick of the Airplane
when she isn’t looking and singing like Judy Durham of the Seekers.” ( Lillian Roxon in “Rock Encyclopedia”, 1969
)
Consta que o nome da banda terá sido proposto por Joni
Mitchell ao guitarrista Mike Rosen ( o canadiano do grupo ), segundo ela “they
were such a eclectic bunch”.
Verdadeiro ou não o facto é que a música dos Eclection, pouco
valorizada na época, acabou por se demonstrar terrivelmente resistente à erosão
do tempo, a ponto de o seu único álbum homónimo ( “Eclection”, 1968 ) ser hoje um clássico, livre de todos os
incómodos inerentes a peças claramente datadas.
“BBC Top Gear Sessions” é o somatório de três gravações na BBC: 23 de Julho de
1968, ainda com Kerrilee Male (
abandonaria o mundo da música no final do ano ), 19 Novembro de 1968 e 21 de
Abril de 1969, ambas já com a contribuição vocal de Dorris Henderson, uma cantora
de folk / blues originária da Califórnia e que à data tinha já no activo duas magníficas
colaborações com John Renbourn.
(ZigZag, 7 Novembro 1969)
A qualidade do áudio oscila entre o razoável e o bom ( não sendo propriamente
um pirata, a edição não foi avalizada pelos músicos ou dos seus representantes
), um pormaior que se desvaloriza face ao evidente interesse das gravações.
“BBC Top Gear Sessions” deve ser o único registo conhecido em
que Trevor Lucas interpreta “Both Sides, Now” de Joni Mitchell; da mesma forma
que é o único registo onde se pode desfrutar do fantástico “Put Your Face On”,
um tema que os Airplane não desdenhariam ter composto e gravado.
Para além de “Neverthless”, “Will Tomorrow Be The Same”, “Violent Drew” e “Another
Time Another Place”, todos do álbum “Eclection” e de “Please”, objecto duas
versões em single, os restantes sete temas eram até agora inéditos. Permitem de
resto conjecturar sobre e como seria um segundo álbum caso a Elektra Records
tivesse corrido o risco de o promover.
Ficaram estas gravações de uma beleza imperfeita e sobretudo ficou “Eclection”,
esse disco extraordinário que o tempo não logrou corroer.
Em Dezembro de 1969, Trevor Lucas e Gerry Conway partiram para os Fotheringay e
mais tarde para os Fairport Convention; John Palmer integrou os Family e George
Hultgreen ( aka Georg Kajanus ) fundou os Sailor.
“We are buried beneath the weight of information, which is being confused with knowledge; quantity is being confused with abundance and wealth with happiness. We are monkeys with money and guns.” ( Tom Waits )
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Patti Smith "Pão de Anjos, Memórias", Quetzal, 316 páginas, Abril 2026
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Marconi Notaro "No Sub Reino Dos Metazoários" ( Rosenblit LPLCP 009 ) Brasil, 1973
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