Uma das falhas do Atalho, entre muitas outras, prende-se com
o facto de nunca ter feito qualquer menção ao Jade ( ou Silver Jade para o
mercado americano ) um trio de folk rock britânico onde para além de Ron
Edwards ( ex-Picadilly Line e ex-Edwards Hand ) e David Waite pontificava a voz
e o talento de Marianne Segal.
Vem esta introdução a propósito da programada edição de “The
Gathering”, álbum onde Marianne Segal conta com a participação dos vetustos e semi-obscuros
Circulus.
Na verdade, a anunciada publicação da Fruits de Mer mais não
é do que a reedição de um CD lançado em 2007 pela própria e então objecto de uma
edição limitada a 500 exemplares.
Por via disso, voltei a “The Gathering”, quase duas décadas volvidas.
Composto na totalidade por Marianne, o álbum possui aquela
rara beleza que os predestinados frequentemente conferem às suas criações. Concebido
e ancorado neste milénio, e aqui e ali invadindo sonoridades comuns ao rock, “The
Gathering” é no seu todo um disco belíssimo.
A autora não perdeu a antiga sensibilidade rural ( de que as
canções que integram “Fly on Strangewings” dos Jade são disso a melhor evidência
), bucólica por vezes. Só que agora adiciona-lhe a experiência e a sabedoria adquirida
ao longo de quatro décadas.
“September Song”, “Saints of Tapestry”, “Sussex downs”, inclusive o compassado “Root
People”, são canções que facilmente nos ocupam a memória, mesmo a selectiva.
Em suma, regressar a “The Gathering” foi uma experiência
reconfortante. Tal como o foi relembrar um belíssimo “Little Lucy”, o “tema
escondido” do CD.
“Happiness is everywhere, even in me”, John Phillips ( “I’ll Try For The Rain” )
Imaginem um local, espaço onde os trajectos de Donovan e Nick Drake se interceptam. Existe, ou melhor, existiu. Dá pelo nome de John Phillips, não o mentor dos The Mamas & The Papas, antes um súbdito britânico cuja escassa obra foi maioritariamente criada e gravada em Salisbúria na Rodésia (hoje Harare e Zimbabwe, respectivamente).
“John”, o até há pouco único registo conhecido do autor, foi publicado pela editora RPM na África do Sul em 1969. A edição terá sido escassa ( algo entre as 100 e 200 cópias ) e, como tal, o número de exemplares originais em circulação andou sempre próximo do zero.
Finalmente reeditado, percebe-se agora a razão da recente demanda por parte de coleccionadores e historiadores. Trata-se com efeito de um extraordinário conjunto de canções, perfeitamente enquadrado na época em que foi criado. Instrumentalmente roça o espartano, porém a beleza das melodias convoca Donovan, enquanto a sensibilidade dos temas remete para Drake. O somatório destas características resulta na perfeição e as canções / melodias pairam na cabeça do ouvinte muito depois de terminarem.
Entre espanto e admiração, é de resto aquela a principal sensação que emerge depois de se escutarem “Peppermint Wind”, “Scaramouche”, “Pre Ante Pen Ultimatum”, “Mulberry Avenue”, “Sylvia” ou “Look At The Time Fly”.
“Songs of Gentleness 1969 – 1976” agora publicado pela canadiana Strawberry Rain, reedita “John” e acrescenta-lhe três outros álbuns de gravações inéditas: “John 1972”, “John 1976” e “Demos”.
“John 1972”, reúne maquetes gravadas nos APL Studios de Salisburia com a colaboração do guitarrista John Oakley-Smith. Mantem as influências anteriores ( a versão amputada de “Season of the witch” comprova-o ) e afirma-se como um conjunto de temas de folk britânico a que se acrescentam influências blues / americana ( “Mary Jane” ) e africanas ( “Iwe Neni Tinenamo” ).
Devidamente trabalhados e produzidos os temas incluídos em “John 1972” não só estariam ao nível do disco anterior como eventualmente figurariam na galeria do melhor folk inglês da época; apesar de escassamente produzidos, “Parting is never forever goodbye”, “Looking Glass”, “Quavatina” ou “Pretty Garlands” são ainda assim canções superlativas, como aliás se pode parcialmente comprovar no disco imediatamente a seguir na linha do tempo.
De facto, quatro anos volvidos, “John 1976” gravado a solo no mesmo estúdio em Fevereiro de 1976 mas objecto de uma mais cuidada captação áudio, acolhe de novo as canções atrás mencionadas, permitindo-nos agora perceber melhor a sua verdadeira dimensão lírica, sendo que a generalidade das restantes afina pelo mesmo diapasão.
A título de exemplo: em “Time Will Tell”, Phillips como que persegue o legado de Nick Drake no seu tema homónimo e em “Train Song” a introdução da guitarra acústica mimetiza o som de um comboio em movimento.
“Demos”, o terceiro disco de inéditos, tal como os dois anteriores recuperado e masterizado a partir de três “reel-to-reel tapes” encontradas no sótão de um familiar, é como o nome induz, um conjunto de doze maquetas de canções que ganham vida e forma através da voz angelical e guitarra acústica ( que por vezes alterna com a auto-harpa ) do autor. Todas, impressivos esboços em filigrana que estimulam a imaginação do ouvinte e que necessariamente alimentam uma dúvida: o que seria de todas estas canções se ao autor tivessem sido dados tempo e meios para as completar?
Fustigado por diversas tragédias pessoais, reclusivo, John Phillips faleceu em Oxford em Fevereiro de 1995 vítima de cancro. Em vida, ninguém soube da doença que o acometeu.
Particularmente conhecido pelo opúsculo underground “Basketball Diaries” a que os álbuns “Catholic Boy” ( 1980 ) e “Dry Dreams” ( 1982 ) deram seguimento e maior visibilidade, Jim Carroll ( 1949 – 2009 ) possui no curriculum outros momentos de visita obrigatória parte dos quais se ilustram abaixo.
Jerry Berkers "Unterwegs" ( Pilz 20 29131-6 ) Germany, 1972
- "Jeder Tag sieht ganz anders aus"
- "Glaub mir, Sisanne"
- "Es wird morgen vorbei sein"
- "Dafur iebe ich nur"
- "Grauer Better"
- "Ich klage an"
- "Gelobtes Land"
- "Seltsam"
Jerry Berkers: canções, voz, guitarras ( acústica e eléctrica ), baixo e percussão; com: Jurgen Dollase ( teclas ), Thomas Engel ( bateria e percussão ), Bill Barone ( guitarra eléctrica ), Walter Westrupp ( Harmónica ), Bernd Witthuser ( guitarra acústica ) e Dieter Dierks ( coros e arranjos )
Produção: Dieter Dierks e Rolf-Ulrich Kaiser
Gravações em Junho/Julho 1972 no Dierks Studio, Colónia.
“Picturesque Matchstickable Messages From The Status Quo” foi
publicado pela PYE Records no Reino Unido em Setembro de 1968 nas versões Mono
e Stereo.
Dava sequência a três singles de razoável sucesso e apresentava um quarto, “Technicolor
Dreams / Paradise Flat” ( todos incluídos na edição UK ). O último acabou por
ser retirado do mercado logo após a publicação.
O facto transformou “Technicolor Dreams” no artefacto mais
raro e caro do espólio Status Quo. Ao longo dos anos foram encontradas algumas cópias
de exportação na Suiça, Áustria e em Portugal.
( Versão USA )
A versão stereo do álbum para o mercado americano,
rebaptizada pela Cadet Records de “Messages From The Status Quo”, foi publicada
numa capa diferente e também com um conjunto de temas mais curto, dez títulos
apenas.
Saíram do alinhamento “Sheila”, um tema de Tommy Roe e “Green
Tambourine” dos Lemon Pipers.
“Never was a group more appropriated named. It is made up of one
Canadian, two Australians, a Norwegian and an Englishman. They have a little of
Jefferson Airplane in them, a little of The Seekers, a little of the Bee Gees,
a little of everyone. Their sound is based on very complex four-part harmonies.
Kerrilee Male, an Australian, looks and sings like Grace Slick of the Airplane
when she isn’t looking and singing like Judy Durham of the Seekers.” ( Lillian Roxon in “Rock Encyclopedia”, 1969
)
Consta que o nome da banda terá sido proposto por Joni
Mitchell ao guitarrista Mike Rosen ( o canadiano do grupo ), segundo ela “they
were such a eclectic bunch”.
Verdadeiro ou não o facto é que a música dos Eclection, pouco
valorizada na época, acabou por se demonstrar terrivelmente resistente à erosão
do tempo, a ponto de o seu único álbum homónimo ( “Eclection”, 1968 ) ser hoje um clássico, livre de todos os
incómodos inerentes a peças claramente datadas.
“BBC Top Gear Sessions” é o somatório de três gravações na BBC: 23 de Julho de
1968, ainda com Kerrilee Male (
abandonaria o mundo da música no final do ano ), 19 Novembro de 1968 e 21 de
Abril de 1969, ambas já com a contribuição vocal de Dorris Henderson, uma cantora
de folk / blues originária da Califórnia e que à data tinha já no activo duas magníficas
colaborações com John Renbourn.
(ZigZag, 7 Novembro 1969)
A qualidade do áudio oscila entre o razoável e o bom ( não sendo propriamente
um pirata, a edição não foi avalizada pelos músicos ou dos seus representantes
), um pormaior que se desvaloriza face ao evidente interesse das gravações.
“BBC Top Gear Sessions” deve ser o único registo conhecido em
que Trevor Lucas interpreta “Both Sides, Now” de Joni Mitchell; da mesma forma
que é o único registo onde se pode desfrutar do fantástico “Put Your Face On”,
um tema que os Airplane não desdenhariam ter composto e gravado.
Para além de “Neverthless”, “Will Tomorrow Be The Same”, “Violent Drew” e “Another
Time Another Place”, todos do álbum “Eclection” e de “Please”, objecto duas
versões em single, os restantes sete temas eram até agora inéditos. Permitem de
resto conjecturar sobre e como seria um segundo álbum caso a Elektra Records
tivesse corrido o risco de o promover.
Ficaram estas gravações de uma beleza imperfeita e sobretudo ficou “Eclection”,
esse disco extraordinário que o tempo não logrou corroer.
Em Dezembro de 1969, Trevor Lucas e Gerry Conway partiram para os Fotheringay e
mais tarde para os Fairport Convention; John Palmer integrou os Family e George
Hultgreen ( aka Georg Kajanus ) fundou os Sailor.
- "Newspaper seller" ( Steve Torrington / Chris Bonner )
- "To be somebody" ( Neil Bonner )
- "Brief Encounter" ( Chris Brighton )
- "Clock Watcher" ( Steve Torrington )
- "The Strangest Fears" ( Chris Brighton )
Peregrine: Neil Bonner ( canções, voz e guitarra acústica ), Steve Torrington ( canções, voz e guitarra 12 cordas ) e Chris Brighton ( canções, voz e guitarra acústica).
Tom Rapp formou os Pearls Before
Swine em 1965. Tinha completado 18 anos.
Os dois primeiros álbuns da banda
“One Nation Underground” ( 1967 ) e “Balaklava” ( 1968 ) são hoje considerados
clássicos do psicadelismo americano mas não apenas. Em linha com o padrão da
ESP Records, editora para a qual foram publicados, possuíam uma vincada faceta
folk, experimental, por vezes erudita, adequadamente condimentadas pela
vertente de cariz literário aportada por Tom Rapp.
Este, com a banda ou a solo,
gravaria ainda um conjunto de álbuns todos meritórios e diferenciados no que ao
mainstream dizia respeito. Abandonaria a música em meados de 1973 para se dedicar
à advocacia dos direitos civis.
Em modo doméstico, algures entre a
publicação dos dois primeiros álbuns e a restante discografia, gravou em fita
um conjunto de canções que ficaram penduradas na linha do tempo durante
décadas.
São essas gravações ou parte
delas que “Tom Rapp, The Man Who Fell To Earth” nos dá agora a conhecer na sua
versão lo fi original, isto é: Tom Rapp, voz e guitarra acústica.
Dez canções, parte das quais: “The
Swimmer”, “Running in my dream”, “Mars”, “Blind”, “Hopelessly Romantic” e “Smile
at me” rebaptizada de “Wedding Song” já haviam sido publicadas em “A Journal of
the Plague Year” ( 1999 ) aquando do regresso de Tom Rapp à música por pressão
e, no caso, apoio de fãs como Nick Saloman ( The Bevis Frond ), Masaki Batoh ( The Ghost ), Timothy
Renner ( Stonebreath ), Paul Simmons ( The Alchemysts ), Dave Pearce ( Flying
Saucer Attack ) ou Alan Davidson ( Kitchen Cynics ).
Refira-se no entanto que nenhuma
das edições exclui a outra. As versões dos seis temas incluídos em “A Journal of
the Plague Year” possuem a roupagem que os Rapp recém convertidos e neo-psicadélicos
do final do século propuseram ao autor ( com belíssimos resultados aliás ).
O que “The Man Who Fell To Earth”
nos traz, para além do correcto enquadramento temporal, é a beleza singela das
interpretações aliada a uma particular
melancolia patente nos textos do autor.
Um belíssimo capítulo que se julga fechado, finalmente.
“So High I’ve Been, A European Rock Anthology 1967-1973” é,
supomos, uma compilação que urgia ser elaborada e publicada.
Em primeiro lugar porque existe muita música criada na Europa
continental que continua por descobrir; depois, porque não abundam as colectâneas
dedicadas ao tema.
Dito isto, será que “So High I’ve Been” cumpre o desiderato?
Subsistem-nos as maiores dúvidas. Desde logo por que razões legais
relativas a direitos contratuais estão na origem da ausência de nomes como Can,
Amon Duul, Neu! ou Aphrodite’s Child. Pelas mesmas razões ou talvez por opção
do curador David Wells, Agitation Free, Alrune Rod, Cargo, Ilous &
Decuyper, Sandrose, Ash Ra Tempel, Broselmaschine, Sergius Golowin, Holderlin, Wind, Jeronimo ou Triangle, entre dezenas de outras relevâncias, ficaram de fora.
Em contrapartida o prog italiano e neerlandês ( PFM, Le Orme,
Acqua Fragile, Analogy, Osanna, Ekseption, Shocking Blue ) encontram-se “excessivamente”
representado.
Opções e condicionantes de quem compila, obviamente. Mas para
além da hipotética raridade, vale a pena questionar que sentido fazem bizarrias
como Siloah com “Krishna’s Golden Dope
Shop” ou “Floating” dos Inter-Groupie Psychotherapeutic Elastic Band, uma
charada que o próprio autor – Vangelis -
decidiu esquecer.
Depois disto e apesar disto, há em “So High I’ve Been” muito para descobrir e
aprender, designadamente tudo o que nos é proposto pelas bandas e músicos
escandinavos.
Se o punk tinha reagido à ditadura de “Dark Side of The Moon”, “Tales from
Topographic Oceans”, “Hotel California”, “Brain Salad Surgery”, “A Night at The
Opera” ou “Goodbye Yellow Brick Road”, a renascença rock americana aquartelada
no denominado “Paisley Underground” reagiu, simultaneamente, aos fenómenos
infectos da época ( Kiss, Kansas, Journey, AC/DC, Meat Loaf ) bem como ao Tecno
Synth Pop então emergente( Soft Cell,
Depeche Mode, Duran Duran, Human League, Berlin, Spandau Ballet, Orchestral
Manoeuvres in the Dark, Ultravox … ).
Discos “antigos” dos Byrds, Zombies, Stooges, Love, Buffalo Springfield, The
13th Floor Elevators, Beach Boys, Television, Modern Lovers, Big Star ou Velvet
Underground voltaram aos pratos dos velhos gira discos e tudo começou de novo.
Aquilo que se escuta no conjunto dos 67 temas de “This Can’t
Be Today, American Psychedelia & The Paisley Underground 1977-1988”, é
apenas uma pequena amostra da importância e dimensão que o movimento atingiu.
Nem todas as escolhas serão as mais felizes/adequadas ( aqui talvez
de novo o licenciamento dos direitos ) contudo é permitido a quem não foi contemporâneo
ficar com uma ideia de como e de onde surgiram R.E.M., Rain Parade, dB’s, Dream Syndicate, Green on Red, The Fans, The
Long Ryders, Bangles, Meat Puppets, 28th Day, Flaming Lips, Green Pajamas ou
The Sneetches entre muitos outros.
Atrevam-se. Investir em conhecimento é sempre uma aposta
segura.
Joe Beck "Nature Boy" ( Verve Forecast FST 3081 ) LP, USA, 1969
- "Nature Boy" ( Eden Abba )
- "Spoon's Caress" ( Joe Beck / Diane Doe )
- "Let me go" ( Danny Whitten )
- "Come back: Visions without you"
- "Maybe"
- "No more blues (Rapid disintegration of A Chamber Orchestra"
- "Goodbye L.A." ( Joe Beck / Diane Doe )
- "Please believe me" ( Joe Beck / Diane Doe )
- "Ain't no use in talkin"
Joe Beck: Canções ( excepto as indicadas ), voz, piano, baixo, guitarra; com Danny Whitten ( voz e guitarra ), Donald MacDonald ( bateria e tamborim ) e Don Payne ( baixo )
“We are buried beneath the weight of information, which is being confused with knowledge; quantity is being confused with abundance and wealth with happiness. We are monkeys with money and guns.” ( Tom Waits )
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