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17/11/17

The Greek Theatre "Broken Circle"



Duo constituído por Sven Froberg  e Frederick  Persson, os The Greek Theatre são oriundos de Estocolmo e praticam o mais inspirado neo–psicadelismo a que a Europa continental pode aspirar.

À semelhança do que uma outra dupla, os britânicos Chemistry Set, desenhou na primeira década do século, a planante música dos suecos é um verdadeiro tricot de influências sendo que, à habitual cromaticidade resgatada ao espólio dos Beatles, adicionam a vertigem caleidoscópica do psicadelismo californiano, em particular o que foi imortalizado pelas guitarras de Garcia e Cippolina.

Em “Fat Apple (All about Noon)”, a abrir o recém editado segundo álbum “Broken Circle, Froberg e Persson dizem ao que vêm; um quase épico que percorre os grandes espaços sinfónicos outrora ocupados por Camel e Caravan até atingirem um território onde as guitarras gémeas de Jerry Garcia e Bob Weir esculpiram o psicadelismo.

“Paper Moon” acentua a delicadeza do discurso; as várias guitarras cruzam a melodia em todas as direcções , num minucioso trabalho de ourives que a produção salienta. “Broken circle” é puro “countryside”, enquanto “Stray Dog Blues” parece ter saído daquele casulo de melancolia que os Mercury  Rev teceram em “Deserter’s Songs”.  Por cima de um órgão que já conhecíamos de “Live at Pompeii”, as guitarras ácidas regressam com o tema título e, entre o psicadélico e o progressivo, as vozes gregorianas deixam no ar uma extravagante atmosfera vizinha do gótico.

Um disco extraordinário que conduz à chamada pergunta de um milhão de dólares: será possível reproduzi-lo em palco?

04/06/15

Seventh Ring of Saturn "Ormythology"



The Seventh Ring of Saturn! O nome diz quase tudo.

Oriundo de Atlanta e sediado em  Northampton, Massachusetts, este grupo de modernos psiconautas desloca-se no cosmos em direcção aos anéis de Saturno. A melhor tradição psicadélica dos últimos 40 anos tem lugar cativo na viagem, originando um incandescente rasto de memórias e de sons perfeitos.

Oito anos separam “Ormythology” do primeiro álbum dos SROS. Pelo meio ficaram vicissitudes pessoais várias; tentativas de preenchimento dos espaços com um conjunto de singles publicados na Fruits de Mer bem como de estabelecer pontes com o passado, por via de versões de temas dos Grateful Dead, Hollies, Beatles ou Pretty Things.

Mas a identidade da banda de Ted Selke e Jeremy Knauff era outra, como ficara patente no homónimo álbum de estreia. “Ormythology” resgatou-os à hesitação. São cerca de 30 minutos frenéticos, dois originais e seis versões, onde a luz provocada pelo rasto da componente psicadélica se cruza, fundindo-se, com o exotismo e raízes do médio oriente.

Sem complexos formais “Ormythology” tanto pode revisitar a Dinamarca roqueira dos 70s, seguir para a secular Constantinopla à boleia de um hit exótico ou terminar em São Francisco homenageando as “Mountains of the Moon” de Jerry Garcia. “Burning a hole in my head …” canta Selke no tema de abertura. O desafio está lançado e percebe-se que as vibrações “power pop” dos The Rooks ou o filigrana psych dos Chemistry Set não estão longe. “Teli Teli Teli”, um tema grego popularizado no final da década de 70 por Hanis Alexiou, tem aqui uma versão instrumental que os SROS transformam num campo de batalha entre as guitarras sujas em modo fuzz e o som cristalino da sitar.

“Time to fly”, dinâmico e luminoso, parece descender directamente de “Damn the Torpedoes”, enquanto “Karli Daglar” desliza até à Turquia  e ao álbum “Elektronik Türküler” de Erkin Koray.  Atlântico de novo atravessado em direcção a  Minneapolis: “Faces”, a versão de uma semi obscura garage band – TC Atlantic – conhece um tratamento vip, de tal forma que a busca do original é o passo seguinte. “Yedikule” e “Uzun Ince Bir Yoldayim” regressam respectivamente à Grécia e Turquia tradicionais, enquanto a terminar, “Spaceman” veste o fato de gala do heavy psych na revisitação de um dos  títulos do álbum de 1972  dos dinamarqueses Hurdy Gurdy.

Uma estimulante viagem pelos sons do mundo, “Ormythology” podia perfeitamente ser um cometa. Deixa atrás de si um rasto de sensações que compensam e recompensam a cada nova audição. É verdade,  ainda existem discos assim.

24/09/12

Psycholândia 4


Não são comuns versões de canções de Peter Hammill, com ou sem Van der Graaf Generator. Hammill é um criador único e, excluindo os fãs, poucos se atrevem a recriar os seus temas profundamente idiossincráticos.  Markku Helin e os Permanent Clear Light integram o campo dos fãs “permanentes” donde que a recuperação de “Afterwards” ( retirado do seminal “The aerosol grey machine” de 1969 ) não espante minimamente. A versão é cerimoniosa e competente, ainda que nos pareça estranho escutar esta melodia sem que o eco da fabulosa voz do autor esteja presente. No lado A deste novo single da Fruits de Mer, um original do grupo finlandês – “Higher than the sun” –, uma belíssima melodia a meio caminho entre os Floyd de “Meddle” e, pasme-se, os Stranglers de “Golden Brown”. Resulta muito bem e a espiral sonora que provoca fica a pairar, elegante, muito depois de se esgotarem os 3m e 30s que a canção dura.

Num registo mais comprometido com o pop ( “power pop”, se quiserem ) o EP do norte-americano Anton Barbeau avança com um original do próprio , “Psychedelic Mynde of Moses” e duas covers: “Sometimes I wish I was a pretty girl” ( Robyn Hitchcock ) e “Out of my mind on dope and speed” ( Julian Cope ). E é como se o tempo recuasse até 1967 e estas canções pelejassem por   um lugar cimeiro nas charts britânicas…, ante uma avalanche de  singles dos Beatles, Kinks ou Small Faces. Interessante ainda que não totalmente convincente.

A terminar este novo conjunto de publicações da Fruits de Mer, uma das bandas culto do Atalho: The Chemistry Set. Integrando há anos ( com algumas intermitências pelo meio ) o movimento neo-psicadélico, o colectivo britânico tem publicado verdadeiras pérolas a que poucos têm prestado atenção. Muito provavelmente, não será este EP que irá alterar tal estado de coisas, não obstante os dois originais  - “Come kiss me vibrate and smile” e “Time to breathe” – são do melhor que o duo tem produzido recentemente. Combinam o novo e o antigo ( acústico, eléctrico e electrónico ), os Mellotrons e os Farfisas piscam o olho às novas tecnologias de som e um “song writing” acima da média não pode ser negligenciado. Por seu turno, “Hallucinations”, a versão de um original dos Tomorrow, é uma absoluto “killer track”.
Como é habito, os singles serão publicados em vinilo colorido, numa edição limitada de 800 exemplares. Aqui:  http://www.fruitsdemerrecords.com/index.html.

03/08/10

The Chemistry Set "This day will never happen again"


Cerca de um ano depois, "This day will never happen again", é no essencial um edição revista e aumentada de "Alchemy # 101".

No essencial ( de novo ), mantenho tudo o que aqui escrevi relativamente ao EP de 2009. As seis magníficas canções de "Alchemy # 101", reluzentes pedaços de "paisley pop", são agora acompanhadas por cinco novos temas a condizer e uma versão estival do stoneano "We luv you!".



Aquilo que eventualmente se perdeu em matéria de unidade, ganhou-se em espaço/tempo lúdico.

"This day will never happen again" envereda por uma maior diversidade ( o "power pop" e o "garage-fuzz" são idiomas acolhidos ), embora não deixe de ser igualmente estimulante e, sobretudo, completamente alinhado com o verão.

15/05/09

The Chemistry Set "Alchemy #101"



The Chemistry Set são um duo britânico constituído por Dave McLean e Paul Lake que desde há duas décadas, intermitentemente, se expressam numa linguagem pop-psicadélica. Para além dos habituais fanzines underground raramente são divulgados, ainda assim mantêm uma imensa minoria de fãs e incondicionais.

Recentemente, por sugestão ( na circunstância o termo “pressão” também não será descabido ) de alguns destes incondicionais o duo retomou os contactos e no inicio de 2009 regressou ao estúdio.

Sem objectivos definidos. A ideia era colocar as fitas a rolar e esperar para ver o que acontecia. Em boa hora o fizeram pois o resultado, materializado em “Alchemy #101”, é muito provavelmente o que de melhor os Chemistry Set já publicaram.


As diferentes maquetas que ao longo destes meses fui conhecendo aos temas, levavam-me a supor que o resultado seria muito bom. Ainda assim nunca esperei por algo de tão extraordinário.

“Alchemy #101” é brilhante na escrita. Os arranjos e produção são pura alquimia psicadélica. O rigor e o controlo de qualidade funcionaram na plenitude e a somar a tudo isto tem a duração ideal, cerca de 30 minutos.

O Atalho teve de recuar muito no tempo até encontrar canções onde as melodias fossem tão inspiradas como em “Look to the sky” e os coros de guitarras Rickenbanker tão apelativos como em “She’s taking me down”. Por outro lado “If Rome was mean to fall” e “Seeing upside down” conseguem a proeza de fazer com que todo o Paisley Underground e os R.E.M. de “Murmur” e “Reckoning” voltem a representar uma memória agradável, enquanto “Regard le ciel”, na voz da catalã Suzette de la Grace Faberge, sugere as cores estivais das Antena de “Camino del sol” mas com os Three O’Clock como banda de apoio.



“Silver Birch”, uma versão de um velho tema de Del Shannon, abre com um “break” de bateria semelhante ao de “Closer”, porém o órgão e o mellotron depressa encaminham a canção para o universo interestelar de “The Piper at the Gates of Dawn”. Pelo meio são adicionadas referências explicitas a “Sanctus” ( dos Electric Prunes de “Mass in F Minor” ), até que serenamente o tema se desvanece numa flauta que, de tão pastoral, poderia ter integrado “Mr. Fantasy” sem a menor dificuldade.

Logo que possam, corram a escutar “Alchemy #101” ( há mais bandas a dar pelo nome de Chemistry Set pelo que se sugere a devida precaução ). Tão depressa não irão tropeçar de novo num diamante deste quilate.