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31/01/23

Heroes are hard to find ( 95 )


 

“He awoke to the sound of water dripping into a rusted sink. The streets below were bathed in medieval moonlight, reverberating silence. He lay there grappling with the terror of beauty, as the night unfolded like a Chinese screen. He lay shuddering, riveted by flickering movements of aliens and angels as the words and melodies of “Marquee Moon” were formed, drop by drop, note by note, from a state of calm yet sinister excitement. He was Tom Verlaine, and that was his process: exquisite torment.

Born Thomas Joseph Miller, raised in Wilmington, Delaware, he left his parental home and shed his name, a discarded skin curled in the corner of a modest garage among stacks of used air-conditioners that required his father’s constant professional attention. There were hockey sticks and a bicycle and piles of Tom’s old newspapers strewn in the back, covered with ghostly outlines of distorted objects; he would run over tin cans until they were flattened, barely recognizable, and then spray them with gold, his two-dimensional sculptures, each representing a rapturous musical phrase. In high school, he played the saxophone, embracing  and Albert Ayler. He played hockey, too, and when a flying puck knocked out his front teeth he was obliged to put away his saxophone and dedicate himself to the electric guitar.

He lived twenty-eight minutes from where I was raised. We could easily have sauntered into the same Wawa on the Wilmington-South Jersey border in search of Yoo-hoo or Tastykakes. We might have met, two black sheep, on some rural stretch, each carrying books of the poetry of French Symbolists—but we didn’t. Not until 1973, on East Tenth Street, across from St. Mark’s Church, where he stopped me and said, “You’re Smith.” He had long hair, and we clocked each other, both echoing the future, both wearing clothes they didn’t wear anymore. I noticed the way his long arms hung, and his equally long and beautiful hands, and then we went our separate ways. That was, until Easter night, April 14, 1974. Lenny Kaye and I took a rare taxi ride from the Ziegfeld Theatre after seeing the première of “Ladies and Gentlemen: The Rolling Stones,” straight down to the Bowery to see a new band called Television.

The club was CBGB. There were only a handful of people present, but Lenny and I were immediately taken with it, with its pool table and narrow bar and low stage. What we saw that night was kin, our future, a perfect merging of poetry and rock and roll. As I watched Tom play, I thought, Had I been a boy, I would’ve been him.

I went to see Television whenever they played, mostly to see Tom, with his pale blue eyes and swanlike neck. He bowed his head, gripping his Jazzmaster, releasing billowing clouds, strange alleyways populated with tiny men, a murder of crows, and the cries of bluebirds rushing through a replica of space. All transmuted through his long fingers, all but strangling the neck of his guitar.

Through the coming weeks, we drew closer. As we walked the city streets, we would improvise ongoing tales, our own “Arabian Nights.” We discovered that we both loved the work of the Armenian American composer Alan Hovhaness, our favorite work being “Prayer of St. Gregory.” Examining each other’s bookcases, we were amazed to find that our books were nearly identical, even those by authors difficult to find. Cossery, Hedayat, Tutuola, Mrabet. We were both independent literary scouts, and we came to share our secret sources. 

He devoured poetry and dark-chocolate-covered Entenmann’s doughnuts, downed with coffee and cigarettes. Sometimes he would seem dreamy and faraway then suddenly break into peals of laughter. He was angelic yet slightly demonic, a cartoon character with the grace of a dervish. I knew him then. We liked holding hands and spending hours browsing the shelves of Flying Saucer News and going to Forty-eighth Street and looking at guitars that he could never afford and riding the Staten Island Ferry after three sets at CBGB and climbing six flights of stairs to the apartment on East Eleventh Street and lying together on a mattress gazing at the ceiling and listening to the rain and hearing something else.

There was no one like Tom. He possessed the child’s gift of transforming a drop of water into a poem that somehow begat music. In his last days, he had the selfless support of devoted friends. Having no children, he welcomed the love he received from my daughter, Jesse, and my son, Jackson.

In his final hours, watching him sleep, I travelled backward in time. We were in the apartment, and he cut my hair, and some pieces stuck out this way and that, so he called me Winghead. In the years to follow, simply Wing. Even when we got older, always Wing. And he, the boy who never grew up, aloft the Omega, a golden filament in the vibrant violet light.”

( Patti Smith, fonte “The New York Times” )

25/01/22

Jardins do Paraíso ( LXXIII )

 


Remexer no passado constitui sempre um risco e é seguramente algo que deve ser abordado com o rigor e parcimónia possíveis, aparte o talento envolvido, naturalmente.

Num tempo em que artistas aqui citados com alguma frequência como Jack Sharp ( ex-Wolf People ) se mostram dispostos a prescindir dos mínimos olímpicos em matéria de exigência e bom gosto ( a versão supostamente psych de “La Isla Bonita” da Sôdona Madonna pelo novo projecto Large Plants é no mínimo discutível, face histórico do guitarrista e compositor britânico ), a ideia dos dB’s regressarem ao seu passado mais remoto, criou expectativa primeiro, desencanto em seguida.

É certo que a compilação da Rhino  Records “Ride the Wild TomTom” ( 1993 ), publicada presume-se com o beneplácito da banda ou pelo menos parte dela, uma vez que Peter Holsapple assina o texto introdutório, não tocava em todos os pontos chave. Porém “I Thought You Wanted To Know 1978-1981” não parece justificar-se apenas ou quase pela inclusão da versão original do emblemático “(I Tought) You Wanted To Know” um título pré-dB’s composto por Richard Lloyd ( futuro membro dos Television ) e aqui ainda com o autor na guitarra e harmonias vocais. A composição acabaria por ser editada em 1978 constituindo-se então no primeiro single de Chris Stamey and The dB’s.

É certo que também há “Black and White” e “Soul Kiss”, ambos incluídos no segundo single, misturado por Don Dixon e já com Holsapple a bordo, contudo a maioria do restante alinhamento é redundante e em determinados casos pouco motivador. Menção especial para as chamadas NY Rocker Sessions ou para as versões ao vivo de “Tomorrow Never Knows” / Beatles e “My Back Pages" / Dylan por exemplo. Ao invés, a versão de palco de “Let’s Live for Today” dos Grass Roots surge enxuta e pouco ou nada datada.

No geral, uma edição que se aceita como prova de vida e que se recordará pela belíssima prestação de Richard Lloyd na versão original do tema título.

Em jeito de compensação, e como nada se compara a um artefacto original, ficam fotos de alguns dos primeiros singles dos mentores deste globalmente interessante projecto.

 

Sneakers ( pré-dB's ) EP, Carnivorous, 1976


Chris Stamey, Single ORK records, produção de Alex Chilton, versão de capa branca, 1977


Peter Holsapple, Single Car Records, produção de Chris Stamey, 1978


Chris Stamey and The dB's, Single Car Records, 1978

10/08/20

VelvetNirvana


Museu da Cidade, Campo Grande, Lisboa








 



08/07/19

Artefactos ( 91 )




Não é um dado curricular particularmente conhecido. Chris Stamey, muito antes de com Peter Holsapple, Gene Holder e Will Rigby ter fundado os seminais dB's, na segunda metade dos 70s, deixou para trás os Sneakers trocando a Carolina do Norte por Nova Iorque, para acompanhar Alex Chilton na demanda de uma carreira a construir a partir do palco do CBGB.

Já na Big Apple e depois de um single a solo para a Ork Records, Stamey cria a Car Records, etiqueta que ganhou a eternidade após de ter lançado "I Am the Cosmos" de Chris Bell.

No entretanto, publicou dois singles também eles históricos e também eles resultado do excitante borbulhar criativo que se vivia na época em Nova Iorque.

O primeiro registo a solo de Peter Holsapple, no caso com os The H-Bombs e a embrionária estreia dos dB's, ambos datados de 1978. De salientar que o lado A do último: "(I Thought) You Wanted To Know" é assinado por Richard Lloyd que entretanto abandonara os Television.




09/06/16

Chris Forsyth & The Solar Motel Band "The Rarity of Experience"



A menos que um dia o próprio o decida divulgar, nunca saberemos com que intuito Chris Forsyth frequentou as aulas de Tom Verlaine. Se para melhorar a sua técnica instrumental, aproximar-se do estilo peculiar do mestre, ou ambas.

Uma dúvida que o novo registo de Forsyth com a Solar Motel Band  “The rarity of Experience I & II” não esclarece em definitivo.

Na sequência do anterior “Intensity Ghost”,  este duplo cd é de uma intensidade extrema. Os dois primeiros temas ( “Anthem I” e “II” ) tudo pulverizam à sua passagem. As guitarras além de geométricas e sincopadas, são ostensivamente metálicas e quando conluiadas com uma percussão tribal como é o caso, deixam as canções em carne viva.

“The rarity of experience Part 2” soa como se Verlaine e Richard Lloyd regressassem do passado com uma versão actualizada de “Foxhole”. “High Castle Rock”, um extraordinário épico onde os intensos duelos entre as guitarras Forsyth e Nick Millevoi não fazem prisioneiros, é a verdadeira pedra de toque do álbum e aquilo que de mais parecido Forsyth terá com ele próprio. O jazzy “Harmonious Dance”, instrumentalmente menos exuberante, deixa algo a desejar em matéria de relevância.

O segundo cd vai mais longe na audácia. Mescla o estilo que já se conhecia com uma vertente experimentalista. Forsyth fã do “space rock”, do “free jazz” e de Richard Thompson. A confirmação encontra-se em “The first ten minutes of cocksucker blues” ou na ousada versão de “The Calvary Cross”.

Os próximos capítulos aguardam-se com justificada expectativa.

04/01/16

"Ork Records: New York, New York"




Alguns discos contam-nos histórias, outros relatam-nos a História. Uns e outros acabam na prateleira dos clássicos, mas os últimos têm papel importante na compreensão da cultura e do mundo à nossa volta. “Ork Records: New York, New York” é desses um exemplo maior.

Perspectivando: meados dos 70s. O prog-rock aproximava-se do seu estertor e o punk era ainda uma vaga ideia. O underground de Nova Iorque fervilhava e no palco do CBGB o rebuliço era grande.  Patti Smith e  Television deixavam o casulo. Terry Ork, um manager atento e perspicaz, criou a sua própria editora e, respectivamente, gravou os icónicos “Piss Factory” e “Little Johnny Jewel”. O resto é história, tão interessante quanto importante.


Sempre com o CBGB em mira e a New York Renaissance como pano de fundo, Ork e o sócio Charles Ball publicaram muita da música que definiu o tempo e o modo da cidade.  As primeiras composições dos Feelies, o EP de estreia de Richard Hell, Chris Stamey em processo de formatação dos dB’s, os Marbles, Alex Chilton na ressaca dos Big Star, Lenny Kaye escondido atrás dos Link Cromwell, Lester Bangs depois da Rolling Stone e da Creem, Peter Holsapple, Richard Lloyd …

“Ork Records: New York, New York” compila 49 temas com história. Desce à mais obscura das caves, trazendo à superfície pedaços de memórias que, doutra forma, nunca se conheceriam. O formato pode ser em vinilo ou cd; o fundamental é mesmo a música e as 109 páginas do livro que explica porque e como foi criada.

26/12/14

Chris Forsyth & The Solar Motel Band "Intensity Ghost"



Há coisas que nunca mudam.
Ainda que rara, a conjugação entre o talento e o bom gosto, permanece uma combinação explosiva. Do norte-americano Chris Forsyth tem vindo a ser profusamente referida a aprendizagem com Richard Lloyd, logo a colagem à arquitectura e ao paradigma Television.
Mas, sendo o estudo dos clássicos meritório e francamente aconselhável,  a linguagem do guitarrista de Filadélfia está muito longe de habitar apenas o edifício sonoro construído por Tom Verlaine e Lloyd. Não existisse por ali talento e gosto irrepreensíveis e “Intensity Ghost” não seria nunca aquilo que é.  Um tremendíssimo disco de guitarras, escorado na tradição é verdade, mas simultaneamente irrequieto e dinâmico como se resultasse de uma daquelas inspiradas e irrepetíveis “late night jam sessions”.

“Solar Motel” de 2013 já dizia ao que vinha, porém de “Intensity Ghost” emana uma “intensidade” e um lirismo que não raras vezes atinge patamares épicos. E não é fácil nos tempos que correm encontrar uma colectânea cujos primeiros três temas possuam a dimensão arrasadora de “Tha Ballad of Freer Hollow”, “Yellow Square” ou “I ain’t waiting”.
O primeiro, uma longa jam de 11 minutos, evolui sobre uma tapeçaria tricotada pelas guitarras gémeas de Paul Sukeena e Chris Forsyth que, em conjunto, obrigam a secção rítmica a um esforço sobre-humano para que nenhum detalhe ou subtileza se perca. O hipnótico “Yellow Square”, sediado na fronteira do hard-blues, tem dentro a mais inesquecível slide-guitar desde Lowell George e, quando se pensa que o zénite já foi atingido, eis que “I ain’t waiting” surge cósmico, atmosférico, para ir crescendo em intensidade e lirismo até se transformar num sublime mini épico vestido por  texturas simples mas convincentes.
Há muito que não se escutava nada assim.

15/02/14

Chris Forsyth "Solar Motel"


Ao que se sabe, Chris Forsyth teve como professor Richard Lloyd e isso é patente em “Solar Motel”.
Constituído por quatro extensos temas – “Solar Motel I, II, III e IV” – o mais recente registo do guitarrista mantém a matriz habitual – fusão de conceitos art-rock, com o  blues, o rock, o psych, a improvisação e, todos, com a tradição instrumental da guitarra americana.

No abstracto pode até parecer megalómano, mas o talento de Forsyth faz com que resulte, e na perfeição.
“Solar Motel I” começa sereno como se as guitarras de Lloyd e Verlaine trocassem arpejos numa descontraída sessão de “Marquee Moon”; termina incandescente, come Ben Chasny ali ao lado, no palco, digladiando-se com Ethan Miller e restantes Comets on Fire.

O mote está dado. “Solar Motel II e III” alinham pela mesma bitola. Peças âncora do disco, vão mais longe e recuperam muita da iconoclastia e hipnotismo que no passado emergiram das prestações de John Fahey e Robbie Basho. “American Primitive Guitar Music” chamam-lhe. Talvez sim. Mas feita de sons quentes e multicores, como só os grandes artesãos conseguem. Um disco de muitos anos.