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03/07/24

Neil Young & Crazy Horse "Early Daze"

 


Neil Young é um arquivista compulsivo. Dessa característica resultam factos positivos e  menos positivos, dependendo ambos naturalmente da abordagem e  ponto de vista de cada um.

No que estritamente respeita à divulgação do vastíssimo catálogo, umas vezes serão menos positivos pois ficamos dependentes dos humores, decisões e timings do canadiano, os quais nem sempre, para não dizer quase sempre, coincidem com os nossos desejos. Positivos nas restantes situações porque, quando os astros surgem alinhados, somos presenteados com pérolas que o dito arquivista compulsivo decide finalmente libertar.

Dito isto, olhemos para o recente “Early Daze”, um conjunto de gravações datadas de 1968 e 1969.

Como é suposto inferir a partir das datas, acompanham Young os Crazy Horse originais ( Danny Whitten, Billy Talbot, Ralph Molina e Jack Nitzsche ), a melhor formação da banda de apoio de que o canadiano dispôs ao longo da sua longa carreira ( se se derem ao trabalho de escutar ou reescutar o primeiro álbum dos Crazy Horse perceberão o que se pretende salientar ).

Nove temas, ou melhor nove versões, uma vez que não está presente nenhum inédito. Exceptuando “Dance Dance Dance” e “Everybody’a alone” ( ambas já publicadas no Volume I dos “Archives” ), as restantes sete são versões alternativas Mono ou Stereo, mas até à data inéditas.



Escute-se por exemplo “Look at all the things” para se conferir o que atrás se disse sobre a primeira formação dos Crazy Horse e sobre a perda gigantesca que foi o desaparecimento precoce de Danny Whitten, neste particular enquanto compositor.

No que diz respeito ao Whitten instrumentista bastará atentar aqui nas versões “imperfeitas” de “Cinnamon Girl” ou “Down by the river” para se aquilatar da dimensão da perda.

Quanto ao mais “Early Daze” é momento de puro gozo, sabemos que não iremos encontrar ali um novo mapa da mina. Porém a atmosfera “work in progress”, descontraída e despretensiosa que emerge das sessões será porventura o ambiente onde o talento dos protagonistas melhor flui.

Estas gravações são contemporâneas do período em que a Band gravou “Music from  Big Pink” e “The Band”. Pode até parecer uma comparação abusiva, mas não me recordo de nenhuma versão de “Helpless” em que Ralph Molina tenha feito tão bem de Levon Helm como aqui.

Se puderem não percam!

30/05/23

David Blue "The Lost 1967 Elektra Recordings & More"

 

“… He has lots of friends, most of them dead…” ( David Blue, in “The Street” )


 Um artista que escreve esta frase para uma das suas canções não merece ser negligenciado.

E no entanto, apesar de em vida ter publicado sete álbuns, Stuart David Cohen permanece um semi desconhecido. Contemporâneo e “compagnon de route” de Dylan na Greenwich Village dos mid 60s, Blue gravou as suas primeiras três canções para a Elektra, publicadas em 1965 no álbum “Singer Songwriter Project”,  uma edição com formato pioneiro e que além daquelas integrava também temas de Richard Farina, Patrick Sky e Bruce Murdoch.

Convidado a prosseguir, no ano seguinte o autor gravaria “David Blue” um disco icónico e muito interessante. Embora retratasse ( musical e socialmente ) o espírito da Greenwich, não logrou à época obter grande adesão em matéria de vendas.

No decorrer de 1967, David Blue grava um derradeiro álbum para a Elektra.  Por vicissitudes várias as fitas nunca veriam a luz do dia. Até agora.



“The Lost 1967 Elektra Recordings & More” são onze canções, oito gravações inéditas a que se juntam os três temas inicialmente incluídos em “Singer Songwriter Project”. Suportado musicalmente pela The American Patrol, Blue gravou na ocasião um conjunto de canções que só critérios editorias obscuros e ou de índole mercantil justificam a sua não publicação em tempo.

Colocando de lado o lirismo, quase sempre soberbo e inspirador, do ponto de vista estritamente musical estas canções poderiam ser primas direitas daquelas outras que Dylan gravava quase simultaneamente em Woodstock;  e sim é de  “Basement Tapes” que falamos.

“Vaudeville Blues”, “King of Spain” ou “Dr. Smith’s Electrical Light Machine”, estilisticamente a anos luz do álbum de estreia, poderiam ter sido compostas e gravadas na casa “Big Pink” em West Saugerties com a trupe da The Band.

“You need a change”, “23 Days in September”, “Anna” e “Scales for a window thief” por seu turno definem o estilo futuro do autor e não foi certamente por mero acaso que as quatro, embora objecto de versões diversas, integraram “These 23 Days in September” ( 1968 ) o primeiro álbum para a Reprise e que é a par de “Stories” ( 1971 ) um dos grandes discos de David Blue.



A carreira do autor prosseguiu diversificada e intermitente até à sua morte em 1982. O capítulo maior que faltava conhecer aí está, finalmente. No espaço cinzento dos “live bootlegs” habitam ainda duas canções: “Tell me what it’s like when you get back, Jack” e “Anything you find on the floor is yours”. Restará saber até quando …

29/05/21

Richard Thompson "Beeswing"

 

Há muito que o homem é credor da admiração do Atalho. Mas depois de ler isto:

“In Fairport we loved the response to the Beatles by bands such as the Byrds, the Left Bank and the Lovin’ Spoonful. The great singer-songwriters, like Dylan, Cohen, Ochs and Mitchell, were our true inspitation, as were the Band, with their blend of roots styles that were so familiar to us from records. All around the world, people had grown cynical about American politics, but they loved american music – especially the blues and country music of the Southern poor and the tougher, electrified sounds of the urban disillusioned and disenfranchised.”

 Ou, sobretudo, depois disto: “Later that year ( 1968 ), Sandy ( Denny ) and I received invitations in the post to Paul McCartney’s  birthday party. It shows how much of a musical snob I was at the time that I decided not to go – to me, the Beatles were a ‘pop’ band and not to take seriously.”

Rapidamente o estatuto passou de admirado a venerado.

Um pouco mais a sério: “I saw Bert ( Jansch ), Davey ( Graham ) and Martin ( Carthy ) all play around this time ( 1968 ). There is nothing like seeing someone live and not quite grasping what they are doing, If you understand it, you might just try to copy it; not understanding might lead you to experimente and maybe arrive at something diferente and original. I’m glad i didn’t just slavishly copy any of them, or I might never have crawled out from under their influence.”

E, com isto, fica tudo ou praticamente tudo dito, acerca da personalidade e talento deste verdadeiro tesouro vivo da música britânica.

“Beeswing, Fairport, Folk Rock and finding my voice 1967-75” escrito com a ajuda de Scott Timberg, é um livro essencial não apenas para os convertidos, mas acima de tudo para aqueles outros que conhecem menos bem um dos períodos mais fulcrais e estimulantes da música das ilhas britânicas.

Época renascentista, quase arriscaria a escrever. Acrescentando sem grande risco de falhar que, depois de “Whyte Bicycles” de Joe Boyd e do que se espera vir a ser a biografia definitiva de Nick Drake ( a ser preparada por Richard Morton-Jack ), este é um dos mais completos e coerentes testemunhos da época.

Todas as pedras são reviradas e nada fica por contar. Como nasceram, cresceram, viveram e “morreram” os Fairport Convention ( e os Fotheringay já agora ); a forma como foram escritos e gravados os grandes temas;  a personalidade e carácter dos vários talentos que foram passando pela banda; os inevitáveis choques de egos; as amizades e cumplicidades que perduraram independentemente dos caminhos futuros.


Por último a fase da conversão ao sufismo, a ligação familiar e profissional a Linda Peters ( Thompson ), os discos que enquanto Richard & Linda Thompson gravaram entre 1974 e 1979 …

Um testemunho absorvente a que a plenitude e rigor cronológico dos detalhes não são seguramente alheios.

Nota: Aconselha-se vivamente manter por perto todos os álbuns. Com cansativa regularidade, torna-se necessário interromper a leitura para ir escutar ( conferir ) muito do que é referido.

20/07/20

Neil Young "Homegrown"



No ano em que “After The Gold Rush”, uma das obras primas de Neil Young, completa meio século de existência, o canadiano acordou finalmente conceder-nos o privilégio de aceder a “Homegrown”, o álbum que gravou entre 1974 e 75 e cuja publicação, à época, preteriu em favor de “Tonight’s The Night”.

Depois de escutado, à luz do que se sabe hoje, não se descortina a razão que terá levado Young a impedir a sua edição em tempo.

Pode naturalmente especular-se sobre o factor Carrie Snodgress, a quem “Homegrown” surge agora dedicado. É verdade que “Separate Ways” ou “Try” são canções pessoais, auto biográficas seguramente, mas essa condição nunca foi um motivo inibidor para Young, ainda que como é sabido, em matéria de questões de carácter sentimental, seja por vezes necessário comprar tempo.

Todo o modo, “Homegrown” não é apenas um álbum unipessoal. Instrumentalmente escorado em alguns dos suspeitos do costume ( Ben Keith, Tim Drummond, Karl T. Himmel, Emmylou Harris, Levon Helm, Robbie Robertson ), trata-se de um disco diverso que mescla os característicos temas “rough” ( “Vacancy”, “We don’t smoke it no more” ) com os também característicos temas “redondos” ( “White Line”, “Little Wing” ou “Love is a rose” ).

No total são doze peças, parte das quais já anteriormente conhecidas de outros álbuns : “Love is a rose” ( “Decade”), “Homegrown”,  “Star of Bethlehem”( “American Stars’n’Bars” ) e “Little Wing” ( “Hawks and Doves” ). “Separate ways”, “Vacancy” e “Mexico”, serão das restantes, aquelas que mais facilmente permanecerão na agenda dos incondicionais do canadiano.

Quarenta e cinco anos volvidos, dir-se-à que “Homegrown” talvez não logre atingir os patamares de genialidade  que a lenda alimentada pela recusa da sua publicação foi construindo ao longo do tempo. É porém um bom disco de Neil Young, fruto de ter nascido naquele que é porventura o seu período mais criativo.

16/01/19

The Choir "Artifact: The Unreleased Album"



Mentor, Cleveland / Ohio, 1964. Influenciados pela chamada “British Invasion” um grupo de miúdos forma uma banda. Auto denominam-se The Mods. Gravam dois singles imberbes. Dois anos volvidos decidem mudar o nome para The Choir.

No período compreendido entre 66 e 70 a formação sofreu meia dúzia de alterações. Por lá passaram entre outros Joe Walsh ( futuro guitarrista de James Gang e dos Eagles ) e Eric Carmen ( membro fundador dos Raspberries, mais tarde solo mainstream pop singer ). O resultado foi a publicação de um conjunto de singles de entre os quais um que ficou para memória futura: “It’s Cold Outside”.

Estabilizados na forma de um quinteto:  Phil Giallombardo ( órgão ), Randy Klawon ( guitarra ), Denny Carleton ( baixo ),  Jim Bonfanti ( bateria ) e Kenny Margolis ( piano ), em Fevereiro de 1969 os The Choir gravam um conjunto de canções destinadas à publicação do seu primeiro álbum. Do resultado daquelas sessões não houve noticias durante cerca de 48 anos; até que alguém recentemente escutou as fitas e decidiu avançar para a respectiva publicação.


E a pergunta que hoje se coloca é: what if … ? Sim, o que teria acontecido se  “Artifact: The Unreleased Album” tivesse sido dado a conhecer a seu tempo?

Acantonadas entre  clássicas harmonias pop / rock, o vaudeville pop dos Kinks ( não é surpreendente a versão de “David Watts”, um original de Ray Davies para o álbum “Something Else” ), o pop escorreito dos Bee Gees da época e as teclas ( órgão sobretudo ) roubadas aos primeiros discos dos Procol Harum ou The Band, as 10 canções que integram “Artifact” são um puro deleite, qualquer que seja a perspectiva escolhida para a abordagem.

“Anyway I can” ou “If these are men” antecipam o power pop dos Raspberries ( banda que uma parte dos The Choir viria a formar em 1972 ), “Ladybug” é Procol Harum em estado puro, “For Eric” um tema jazz incrustado por óbvia latinidade e, “It’s All Over” um   mini épico que Robin Gibb não se teria importado de assinar.

Tudo somado, “Artifact: The Unreleased Album” é constituído por um conjunto de canções de mão cheia, com as “bridges” e “chorus” no devido sítio, repleto de cativantes melodias, arranjos por vezes complexos mas sempre apelativos.

“What If …?” é de facto uma pergunta pertinente.

03/12/18

Artefactos ( 85 )











Observados com atenção e critério, os 60s / 70s guardam na letra B, cinco das mais emblemáticas bandas da história: The Band, Beach Boys, Beatles, Buffalo Springfield e The Byrds.   

De todas elas, os Byrds são aqueles onde o Atalho passou e passa mais tempo, pese embora a importância da Band ou a genialidade dos Buffalo Springfield.

Em 2004 a Sundazed publicou "Cancelled Flytes" uma caixa que compila, reeditando, alguns dos mais significativos singles dos Byrds. Dir-se-à, faltam aqui "Mr. Tambourine Man" ou "Eight Miles High". Verdade, mas o grafismo, a qualidade áudio e a atenção aos detalhes abundam neste magnifico artefacto.