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05/11/17

Elkhorn "The Black River"



A chegada do outono convida à audição de música mais de acordo com o espírito do tempo, contemplativa e vizinha do intimismo.
Oriundo de Seattle, Jesse Sheppard tem tudo para integrar o pelotão dos novos porta estandarte da chamada “american primitive guitar music”. Como videógrafo trabalhou com Glenn Jones, Jack Rose, Daniel Bachman, Chris Forsyth e Steve Gunn. Enquanto músico tem desenvolvido a sua acção a solo ou com Drew Gardner.
O mais recente projecto do duo chama-se Elkhorn e “The Black River”  constitui um passo mais no consolidar da reputação de ambos.


Sheppard trabalha a guitarra acústica com o detalhe e perfeição de um artesão, desenha as melodias que mais à frente a guitarra eléctrica de Gardner vai colorir, preenchendo com invulgar mestria os espaços vazios.
O tema título – “The Black River” – é disso um exemplo óbvio, mas quase tudo o que lhe vem a seguir demonstra que o talento não se confina a meras fronteiras escolásticas. O “finger picking” permanece a trave mestra, mas a inspiração catapulta esta música para além do tempo, de qualquer tempo.
Para escutar como se contempla uma pintura ou se devora uma obra literária.

26/03/17

Michael Chapman "50"



Após uma extensa carreira de cinco décadas, o veterano e dificilmente catalogável guitarrista britânico Michael Chapman decidiu-se finalmente por fazer o seu “disco americano”. “50” é o tipo de trabalho que há muito se esperava do autor.
Desde que começou a ser falado no circuito folk britânico de Cornish, Chapman assinou um extraordinário conjunto de álbuns a solo e tocou com artistas tão díspares como  Mick Ronson, Elton John, Rick Kemp, Thurston Moore, Bill Callahan, Jack Rose ou Ryley Walker.
Partindo das raízes folk, abraçou o ecletismo e os limites deixaram de ser possíveis. Inovou, desconstruiu,  raramente imitou. Daí que os seus álbuns sejam hoje tão referenciados quanto os de outras lendas como Roy Harper, Wizz Jones,  Mike Cooper, Richard Thompson ou Bert Jansch.
Comemorando os 50 anos de carreira, “50” é a reinvenção do próprio autor. À excepção de três originais, os restantes temas foram recuperados ao seu cancioneiro. Steve Gunn ( que toca guitarra e produz ), Nathan Bowles, James Elkington e Bidget St. John são as âncoras que permitem a Chapman libertar-se de “tarefas administrativas” e concentrar-se apenas na cromaticidade de sons que a sua guitarra propicia.
Sonoridades americanas, parentes próximas das detectadas nas obras de Steve Gunn, Black Twig Pickers, William Tyler ou Jack Rose. Uma pintura sonora.

06/10/16

Nathan Bowles "Whole & Cloven"



Depois do desaparecimento de Jack Rose, Nathan Bowles é hoje olhado por muitos como o “maverick” da chamada “american primitive guitar music”. 

Glenn Jones é excelente, mas “sofisticado”; William Tyler joga nos “sub 21”; Jack Fussell nos juniores e Daniel Bachman ainda tem muitos frangos para virar. Bowles por seu lado tem quase tudo o que Rose tinha, excepto, talvez, o apetite pelo bourbon.

Militou no colectivo Pelt ( tal como Jack Rose ), andou pelos Pigeons e pelos appalachianos Black Twig Pickers. Actualmente integra a banda de suporte de Steve Gunn, com o qual já gravou dois álbuns soberbos.

Depois de “Nansemond” em 2014, “Whole & Cloven” é o novo disco para a editora da Carolina do Norte Paradise of Bachelors. E tem dentro tudo o que nesta altura se poderia esperar de Nathan Bowles. A sonoridade inóspita que os vales das Blue Ridge Mountains albergam, a vertigem desafiadora que só os Appalaches propiciam, a desconstrução da música tradicional que os Black Twig Pickers perseguem a cada prestação e, claro, o virtuosismo de um instrumentista notável que, como poucos, utiliza banjo e guitarra acústica para dar som à iconoclastia.


“Gadarene Fugue” é um carrocel acústico que, entre o banjo, a guitarra e uma percussão primitiva, recua até um pretérito quase perfeito que, entre outras coisas, nos deixou “Deliverance”, o emblemático filme de John Boorman.  Em “Chiaroscuro”, sensorial, o piano substitui os instrumentos presentes no tema anterior, mas é igualmente avassalador na interacção que estabelece com o ouvinte.

“Blank Range: Hog Jank II” e “I miss my dog” regressam ao banjo appalachiano e caso fossem vocalizados por Steve Gunn poderiam ter sido incluídos no álbum que gravou com Black Twig Pickers. “Moonshine is the sunshine” ( uma versão do esquecido Jeffrey Cain ) e “Burnt Ends Rag” ( inspirado em Jack Rose ) encerram um disco que, juntando o melhor de dois mundos maravilhosos – “american primitive guitar” e o “avant-garde” –, se encontra muito perto da perfeição.

11/05/16

Glenn Jones "Fleeting"



Ainda que Glenn Jones venha colaborando com as irmãs Laura e Meg Baird, a música deste veterano de Cambridge no Massachusetts está hoje longe das avalanches psicadélicas dos Heron Oblivion.

Na verdade estão também distantes os tempos do experimentalismo vanguardista dos Cul de Sac ( a banda que liderou entre 1991 e 2004 ), um dos segredos musicais melhor guardados da música da costa este.

Desde há uma dúzia de anos, Glenn Jones abraçou a tradição da guitarra acústica americana e, dos seis álbuns a solo que gravou, transparece uma profunda paixão, quer pelo riquíssimo legado sonoro da cordilheira dos Apalaches, quer pelas reinterpretações que daquele fizeram talentos como John Fahey, Peter Walker, Robbie Basho, Harry Taussig ou Jack Rose.

“Fleeting”, captado e produzido por Laura Baird, é o mais recente capítulo desta interessante saga. “Apenas” com recurso a uma guitarra acústica de seis cordas e um banjo, Jones conta-nos dez histórias singelas, inspiradas nos recantos, sons e paisagens do Rancocas Creek, um dos afluentes do Delaware River. E nada podia ser mais natural e tranquilo.

15/04/15

Steve Gunn and Black Twig Pickers "Seasonal Hire"




Um dos últimos testemunhos artísticos de Jack Rose teve a colaboração dos Black Twig Pickers. Um facto cujo significado não pode ser ignorado, tendo sobretudo em conta que Rose era oriundo da escola “avant-folk” e  o colectivo da Virginia um interprete da “old time music”.

Seis anos volvidos a importância dos Pickers não pára de crescer. Agora é Steve Gunn outro produto do avant-folk reconvertido ao tradicional, procurar o apoio da banda de Nathan Bowles e Mike Gangloff para se aventurar no território do psychedelic Appalachian. Porque é exactamente disso que se trata em “Seasonal Hire”, um disco onde a sonoridade tradicional das Blue Ridge Mountains  se funde com a vertigem psicadélica do guitarrista da Pensilvânia.

“Dive for the pearl” foi recuperado de “Melodies for a savage fix” uma colaboração de Gunn com Gandloff e “Trailways Ramble” teve a sua estreia em “Time off”, ambos de 2013. São aqui completamente reinventados, atingindo uma dimensão que não conheceram nas respectivas estreias.

“Don’t let your deal go down” é um tradicional a que o violino e voz de Sally Ann Morgan conferem uma estranha actualidade, enquanto o tema título, “Seasonal Hire”, escrito a meias entre Gunn e os Twigs, é um mantra que se desenvolve harmoniosamente a partir da guitarra acústica de Steve, do banjo de Isak Howell e da harmónica de Gangloff. Seguramente uma das melodias que ficará quando o ano terminar.

Por paradoxal que possa parecer, o que esta colaboração nos ensina é que não existe nada de mais visionário e arrojado do que a música tradicional quando trabalhada pelos artesãos certos. Atente-se em “Cardinal 51”. 16 minutos de um raga que bordeja o drone, sustentado pela guitarra slide de Gunn enquanto o violino iconoclasta de Sally Morgan revisita John Cale nos momentos sublimes dos Velvet.

Estará “Seasonal Hire” deslocado em 2015? Talvez, mas Pelt, Jackie-O Motherfucker ou Vibracathedral Orchestra também o estavam no seu tempo e hoje são locais de peregrinação obrigatória.

09/06/14

Glenn Jones "Welcomed wherever I go"



Após o prematuro desaparecimento de Jack Rose, Glenn Jones afirma-se como um dos mais proeminentes elos de ligação entre o passado e o presente da guitarra tradicional americana.

Os discos e sobretudo os concertos, serenos mas musicalmente intensos, sucedem-se a um ritmo constante e coerente. No seguimento de “My Garden State” de 2013, Glenn Jones comemorou o último Record Store Day com a edição de “Welcomed wherever I go”

Trata-se de um EP que reúne três peças, momentos fulcrais no percurso do autor. A primeira – “Medley” –, gravada ao vivo em Dezembro de 2011, acopla “Island” e “Against my Ruin”, dois temas publicados em “Against which the sea continually beats” ( 2007 ), e constitui prova do talento e inspiração do antigo mentor dos Cul de Sac. A atmosfera é mágica e os acordes libertam-se, ocupando os espaços como se nada mais existisse para os preencher.

“From a forgotten Session” resulta de uma incógnita sessão de gravação com Jack Rose, num daqueles momentos especiais em que tudo parece parar no tempo excepto a fita, que indiferente a tudo o que se passa em redor, vai percorrendo o seu caminho em direcção à posteridade.

Por fim “The Orca Grande Cemente Factory at Vitorville”, a ‘pièce de resistance’ do cd “The Wanting”, aqui numa tricotada versão captada num palco de Montreal com a colaboração de Cian Nugent na segunda guitarra. Uma edição absolutamente colecionável.

11/02/14

Cian Nugent & The Cosmos "Born with the Caul"


Cian Nugent vem de Dublin, transparece da sua música, mas integra sem esforço a cena musical que se norteia pela herança musical da Takoma Records e que nos anos mais recentes  teve como principal guru o saudoso e excessivo Jack Rose.
“Born with the Caul” o cd que Nugent acaba de publicar com The Cosmos é pouco menos que uma delicia. Formalmente integra apenas três temas ( o mais curto com 6m e 30s ), mas é um daqueles discos que quando se escutam, fazem parar os ponteiros do relógio.

A abrir,  “Grass above my head” é um espaço solitário. A guitarra introspectiva de Cian aguarda pelos restantes Cosmonautas; estes uma vez chegados, transformam o tema num folk-blues o qual, percebe-se, está ali apenas para aquecer os motores, preparando o que vem a seguir.
“Double Horse” principia acústico, mas a guitarra de Nugent  rapidamente abandona o finger picking para se mirar no espelho reflector dos acordes iniciais de “The End”. E por entre o serpentear de uma guitarra Robbie Krieger em silencioso crescendo, damos por nós à espera que a voz de Jim Morrison irrompa das colunas e a ferocidade das palavras nos venha de novo inquietar. Soberbo.

Mas não tanto quanto os 23m e 20s que dura “The Houses of Parliament”. Dir-se-ia que as guitarras angulosas de Richard Lloyd e Tom Verlaine decidem aqui conflituar com os sons caleidoscópicos arquivados no tempo por Bob Weir e Jerry Garcia. Television cruza-se com Grateful Dead. E “Dark Star” como que regressa elegante, abrasivo e psicadélico até às entranhas. Como sempre foi. 

06/12/09

Jack Rose


( 16/02/1971 - 05/12/2009 )

Um extraordinário guitarrista. Dos melhores da sua geração.

16/10/09

Jack Rose & The Black Twig Pickers


“Jack Rose & The Black Twig Pickers” é o companheiro perfeito para juntar a “Barbecue Bob in Fishtown”, o mais recente de Glenn Jones já aqui comentado no Atalho.

Longe vão os tempos dos delírios atonais dos Pelt de “Empty bell einging in the sky” ou das florestas de ragas cósmicos que Rose protagonizou com Jason Bill em “Via St. Louis”. Hoje Jack Rose coloca o virtuosismo instrumental ao serviço da música tradicional americana. O “finger-picking” é o veículo, o “bluegrass” e o “appalachian” os enquadramentos.

De certa forma este registo com os The Black Twig Pickers - Mike Gangloff (Pelt, Spiral Joy Band ) , Nathan “Sean” Bowles (Spiral Joy Band) e Isak Howell - , apresenta-se como um trabalho versátil e diversificado, se comparado com os anteriores “Jack Rose” e “Dr. Ragtime & Pals”.



Maioritariamente constituído por temas tradicionais o disco sugere uma atmosfera absolutamente rural ( o “redneck” anda por perto ), sibilinamente definida quer pelo bluegrass de abertura (“Little Sadle”), quer pelo appalachian “Sail away ladies/I shall not be moved” que lhe sucede. “Hand me down my walking cane”, meio cantada meio rosnada, apenas confirma os territórios que já anteriormente delimitados.

“Soft steel Piston” introduz pela primeira vez o “slide picking” e a silhueta de Leo Kottke volta a perfilar-se na nossa memória, como se nunca se tivesse desvanecido. Um ambiente que se repete em “Some Happy day” onde uma sublime guitarra slide em glissando recebe a ajuda cúmplice da harmónica de Isak Howell.


“Revolt” e “Kensington Blues”, os dois únicos originais de Rose, miscigenizam as linguagens utilizadas nos temas anteriores e “Special Rider” concede algum espaço ao “country-blues” . Por seu turno, “Bright sunny South” tem aqui um tratamento muito diverso do que recebera em 2001 no álbum” Ayahuasca” dos Pelt.

Em síntese, este é um daqueles CDs que ao terminar nos compele a voltar ao inicio, sem nenhuma espécie de hesitação. Pela simplicidade dos meios e pela atmosfera que sugere. Também porque Jack Rose é hoje o instrumentista que se encontra mais próximo de Leo Kottke, depois do próprio Leo Kottke.