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03/11/25

Trimdon Grange Explosion "Dreams Buried Under The Sea"

 


Oito anos após um primeiro álbum homónimo e vinte após o fabuloso trabalho da banda progenitora – The Eighteenth Day Of May – os Trimdon Grange Explosion regressam com “Dreams Buried Under The Sea”.

Trata-se de uma espécie de espelho sonoro que nos conduz a imagens de um pretérito quase perfeito onde o eixo The Byrds / Big Star / R.E.M. removia os destroços do pós-punk e do synth-pop.

Porque “Dreams Buried Under The Sea” é mesmo isso, uma montra sonora que tendo algo de nostálgico, não se esgota naquela matriz.

Atente-se em “World turning round”, a abrir. No evoluir do tema é difícil não rever mentalmente “Murmur”, imediatamente antes da canção explodir num mar de guitarras fuzz.

O jingle-jangle de “September Falls” evoca The Byrds enquanto “Swim on your back in the water” traz à memória os Wolf People de Jack Sharp e P.G. Six de Pat Gubler, outros dois expatriados do eixo acima citado.


“Breaking the wheel”, um mini épico irresistível, é talvez o título âncora do álbum. Byrdsiano na essência surpreende quando é introduzida a viola de Alison Cotton; o efeito é hipnótico, como se a viola de arco de John Cale regressasse das catacumbas do Velvet Underground para nos encantar uma vez mais.

A fechar “As the world rises to fall”, competente e obviamente cúmplice do Neil Young de “Harvest”.

“Dreams Buried Under The Sea” está para além deste tempo. Ostenta um charme muito próprio e, talvez por isso, não é expectável que venha a frequentar as famigeradas listas dos melhores do ano.

Nada que surpreenda e muito menos incomode o Atalho. Como já alguém afirmou: "a história está pejada de exemplos de maiorias que não tiveram razão".

10/08/20

VelvetNirvana


Museu da Cidade, Campo Grande, Lisboa








 



29/07/19

Robert Kirby



Recentemente  perguntaram-me qual o real significado de “Englishness” na música. Estranhamente, hesitei. E no entanto convivo há décadas paredes meias com esse sentimento peculiar, onde se compaginam características tão diversas como sentido de humor, respeito pela tradição, inteligência e estoicismo.

Em simultâneo concreto e abstracto é, na sua magnitude e ambivalência, um estado de espírito difícil de definir com exactidão por um latino. Imagino que seja algo de muito parecido como tentar explicar a “saudade” a um inglês.

Socorri-me primeiramente de Edward Elgar para ilustrar a tentativa de explicação. Depois ocorreu-me que talvez Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) pudesse ser um exemplo mais próximo da contemporaneidade. Uma parcela significativa dos seus arranjos e orquestrações definem as virtudes daquela identidade cultural na perfeição.

Hoje, vista ao retrovisor, a impressionante lista de músicos com quem colaborou, tem tradução no que de melhor a música inglesa ofereceu entre 1969 e 2009. Nick Drake, Shelagh McDonald, John Cale, Spriguns, Richard Thompson ou Sandy Denny são disso exemplos perenes.


22/07/18

Nico "Evening of Light"



Cicatrizes Interiores

04/07/18

Trappist Afterland "SE(VII)EN"



“I worked on this album exclusively with my great buddy and engineer Anthony Cornish. Anthony and I have played together on and off for twenty years. We recorded ‘Se(VII)en’ on  2 tape in his studio over about 6 months and it is my favourite Trappist album yet. Working with Anthony is just so easy and enjoyable and he is a fantastic musician. Anthony played harmonium, violin and mellotron and he is a now full-time member of the live band.” ( Adam Geoffrey Cole )

Desde 2011, mais coisa menos coisa, que a partir de Melbourne ( Australia ), Adam Cole começou a enviar as suas mensagens ao mundo. Sob a forma de canções, bem entendido. No inicio tratavam-se “apenas” de CDRs artesanais; depois, com o decorrer do tempo e da procura, o formato passou a vinil, limitado.

“Se(VII)en” é, se a memória não me falha, o sétimo capítulo desta extraordinária saga. E dele se poderá dizer sem grande margem de risco, que se trata do melhor de todos eles.

Na verdade, é virtualmente impossível escutar a musica de Trappist Afterland sem estabelecer um quase instantâneo paralelo com o legado dos persistentemente  ignorados  Timothy Renner ( Stone Breath ) ou  Prydwyn ( a conferir em “Song for Sundog”, “The Blood in the Wood” ou “Trace your Root”).


Nos últimos vinte anos, quer estes, quer agora Adam Cole, captaram como poucos a essência emocional e espiritual do folk e do folk-rock dos finais dos 60s, princípio dos 70s. Na altura catalogavam aquela vertente musical de iconoclasta, experimental, esotérica, pagã … hoje chamam-lhe “weird folk”. Espuma dos tempos, apenas e só.

Atente-se ainda na melodia estratosférica e intensidade dramática que a intervenção do violino confere a “Burning Bushes” e facilmente se poderá concluir  estarmos perante um caso raríssimo de talento e sensibilidade artística. Se John Cale e Nico pudessem regressar ao passado, é provável que, juntos, parissem algo de não muito diverso.

No que concerne ao Atalho, este é um disco sem mácula. De e para muitos anos.

Nota: para aqueles a quem o detalhe possa interessar, a edição em vinil é absolutamente fabulosa.

19/03/18

"When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby"



  
“A college friend of Nick Drake, Robert Kirby’s first commissioned works as an arranger were his unique autumnal orchestrations for Drake’s “Five Leaves Left”. The sound was English and melancholic, closer to Vaughan Williams than Phil Spector. He was soon in demand and by the end of the 70’s had worked with the cream of the British folk rock world.”

Paul Buckmaster e Robert Kirby são dois nomes fundamentais na música popular britânica dos 70s. Num patamar também habitado por Sandy Robertson, Joe Boyd, Peter Eden ou Tony Visconti; ainda que estes num registo diferente: o da produção.

Enquanto orquestrador, Buckmaster ficou para a história fruto do seu monumental trabalho nos primeiros álbuns de Elton John, aqueles que verdadeiramente interessam: “Tumbleweed Connection”, “Elton John”, “Madman Across the Water”, além de “Space Oddity” de Bowie ou “Songs of Love and Hate” de Leonard Cohen, entre outros.


Kirby, colega de Nick Drake em Cambridge, partilhava com este os mesmos gostos musicais e interesse pela poesia, enquanto planeava ser professor de música. Em 1969, quando da gravação do álbum de estreia “Five Leaves Left”, Nick Drake mostrou-se insatisfeito com os arranjos de Richard Hewson  e convenceu Joe Boyd a chamar o antigo colega. O que daí resultou sabemos hoje todos.  Os discos de Nick Drake nunca seriam o que são e Kirby por seu lado nunca teria tido acesso às oportunidades seguintes.

Ao lirismo do referido Paul Buckmaster, Kirby acrescentava um misto de melancolia e “englishness”. Algo que por um lado o distinguia de todos os outros e, por outro, o mantinha perto da tradição, fosse a de Edward Elgar ou a do folk tradicional.

“When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby” é a primeira colectânea a debruçar-se sobre o trabalho do músico.  Naturalmente opinativa como todas as compilações, agrega uma vintena de títulos oriundos do chamado “underground” britânico dos 70s, folk-rock sobretudo, mas também alguma música de inspiração progressiva.


Melhor ou pior, a grande maioria dos temas era já familiar a todos os que se interessam por estas coisas; não obstante alguns deles não eram imediatamente identificados com Kirby.

Os trabalhos com Nick Drake, Keith Christmas, Andy Roberts, John Cale, Shelagh McDonald, Spriguns, Sandy Denny ou Vashti Bunyan são clássicos perenes, não acrescentam portanto nenhum espanto. Porém, a subtileza dos arranjos nas canções de Tim Hart and Maddy Prior, Gilliam McPherson e Steve Ashley; a vertente celta conferida a “First Light” de Richard and Linda Thompson, ou as credenciais art-rock  (  resultantes muito provavelmente da experiência de Kirby nos Strawbs, quando episodicamente substituiu um Rick Wakeman de saída para os Yes ) patenteadas nos trabalhos com Audience e Illusion são esses sim distintivos.

No mais e concluindo, “When the Day is Done” é um trabalho notável e indispensável, ponto de partida para a descoberta de muitas outras preciosidades que a carreira de Robert Kirby ( 1948 – 2009 ) seguramente encerra.



09/03/18

John Cale


No dia em que Cale completa 76 anos, uma pequena nota a propósito de uma das canções mais apreciadas aqui pelo Atalho: "I Keep a Close Watch". ( seja o original de "Helen of Troy" com arranjos de cordas de Robert Kirby ou na versão minimalista de "Music for a New Society" ) 

"John Cale's "Helen of Troy" álbum has had a chequered history, first issued by Island in 1975, apparently against Cale's wishes, and not in the States until recente years. Cale began recorded it  early that year before heading to New York to produce the Patti Smith Group's "Horses", and then attempted to finish it in three manic days when he got back to Britain.
During an italian tour in November, he discovered that Island 'had gone ahead and released what amounted to demo tapes. The trouble was that Island had their own ideas of what that álbum should sound like. They wanted to include songs i don't particular like, but it was also an impertinent assumption on my part that i was capable of managing myself ... It could have been a great álbum.'
It wasn't exactly a bad one. With Sandy Denny's section of Pat Donaldson ( bass ) and Timi Donald ( drums ) and guitarrist Chris Spedding, it was generally a tough álbum: a cover of Jonathan Richman's 'Pablo Picasso' was brooding, almost thuggish; and 'Leaving it up to you' had a reference to Sharon Tate which meant it was withdrawn after the first run and replaced by the gentler 'Coral Moon'. Kirby's work on the dark 'I Keep a Close Watch' made it a highlight, although it's possibly one of the songs Cale was unhappy with - he later recorded a stripped-back version for 1982's 'Music for a New Society'"

( do booklet de "When the Day is Done, The Orchestrations of Robert Kirby" )



26/12/17

John Wonderling "Day Breaks"



Took a plain to Lisbon not too long ago / I stayed in a big hotel on the beach in Estoril / I heard them singing Fado in a small café / and the sounds of New York City were so far away”. Estas as primeiras palavras de “Long way Home”, o tema que abre “Day breaks”.

Durante largos anos catalogado de “disco impossível” o primeiro e único álbum de John Wonderling foi publicado pela Paramount em 1972, cerca de um ano após ter sido concluído. Estima-se que a edição tenha sido igual ou inferior a 100 exemplares, daí a extrema dificuldade em encontrar cópias originais.

Nascido em França em 1945, Wonderling chegou aos EUA ainda criança. Aos 22 anos escrevia canções para vender. Uma delas,  “Midway down” foi gravada pelos Creation em Inglaterra. Seguiu-se-lhe “Ask the children”, pelos Cherry People e pelos Cowsills.

Uma coisa leva a outra e após  um single numa subsidiária da Warner Brothers, Wonderling entrou em estúdio para gravar “Day breaks”. O estrepitoso “cast” que o acompanhava transbordava talento: Tim Rose, Aynsley Dunbar, Jim Gordon, Jim Keltner, Danny Kortchmar, Paul Harris …

O resultado final é absolutamente brilhante. A cena dos “singer songwriters” estava no auge mas, com uma edição tão escassa, a distribuição foi inexistente, Wonderling não deu concertos e o disco morreu à nascença.

Oficialmente disponível por fim, “Day breaks” recupera todo o seu esplendor: no intimismo das baladas ( “Someone like you” ), na solidão dos retratos quotidianos ( “Reach the ground” ), no psicadelismo soft que embrulha os temas ( “Man of Straw”, “Shadows” ).

Permanecendo ligado à música ( tocou por exemplo no mítico “Music for a New Society” de John Cale ), John Wonderling faleceu em 2003 sem nunca ter assistido à reedição da sua obra prima.

09/07/17

"English Weather"



Qualquer idiota, mesmo o mais imbecil, receberá toda a minha atenção; bastará para tal que mencione “Refugees” dos Van der Graaf Generator.


Desde há muito considero que o tema de Peter Hammill - a par por exemplo de “Laughing” de David Crosby, “Spanish Guitar” de Gene Clark, “Keep a close watch” de Cale, “Revolution Blues” de Neil Young, “Late November” de Denny, “Day is done” de Drake ou “Road to Cairo” de Ackles - , constitui um padrão a partir do qual se mede o bom gosto musical ou a ausência deste.

Assim uma compilação que inclua qualquer uma das misturas de  “Refugees” merece destaque.  “English Weather” porém, justifica-o muito para além disso.

Curado pelos Saint Etienne  Bob Stanley e Pete Wiggs, “English Weather” é o chamado “labour of love”. Por outras palavras, não era possível chegar a este resultado caso não se gostasse genuinamente destas músicas

O tema mais antigo ( Caravan ) data de Janeiro de 69 e o mais recente ( Daevid Allen ) de 1976. Entre eles desfilam mais 16 composições do período iluminista da música inglesa. Umas razoavelmente conhecidas no circuito underground, outras nem tanto.

Stanley conta no booklet que um dia, retido numa discoteca devido a uma intempérie, ( daí o título desta colectânea ) escutou pela primeira vez um disco que o cativou de imediato: “Shape of the rain”, o álbum homónimo da banda de Sheffield. Impressionado, o dono da loja deu-lhe a conhecer de seguida Parlour Band, Aadvark e T2. E, como não há amor como o primeiro, estas bandas têm lugar na compilação. Shape of the Rain, ficamos sem saber porquê, não.

Britânicos até à medula, abaixo são descriminados os 18 títulos de uma edição que se reputa de essencial para quem se interessa pela matéria ou para aqueles para fazem do bom gosto uma forma de estar.


Quanto a “Refugees”, a opção aqui incluída, faz a ponte entre as versões do single e do do álbum “The least we can do is wave to each other”; a mistura no entanto retira algum protagonismo ao sax de David Jackson e evidencia as prestações dos instrumentos de sopro e dos arranjos de cordas. Sumptuoso.

- Caravan “Love song with flute”

- The Roger Webb Sound “Moon bird”

- The Parlour Band “Early morning eyes”

- Scotch Mist “Pamela”

- The Orange Bicycle “Last cloud home”

- T2 “JLT”

- Bill Fay “Til the Christ come back”

- Van der Graaf Generator “Refugees”

- Aardvark ”Very nice of you to call”

- John Cale “Big White cloud”

- Belle Gonzalez “Bottles”

- The Way We Live “Watching White Stars”

- Offspring “Windfall”

- Camel “Never let go”

- Daevid Allen “Wise man in your heart”

- Matching Mole “O Caroline”

- Prelude “Edge of the sea”

- Alan Parker and Alan Hawkshaw “Evening Shade”


10/02/16

John Cale "Music for a new society / M:Fans"




Reconhecendo embora o enorme talento de Lou Reed, devo confessar que “o meu Velvet” foi e será sempre John Cale. Uma opinião evidentemente. Mas, do que se trata aqui  é realmente saber se falamos de talento ou se falamos de génio. E não, não é uma mera  questão semântica, existe de facto uma diferença entre o talento e o génio. O primeiro é constante, previsível; o segundo é absolutamente o oposto de ambos.

Comprei a minha cópia original de “Music for a new society” numa FNAC de Paris, em 1982. Produziu em mim o mesmo efeito hipnótico que os glaciares “Marble Index” e “Desert Shore”  ( coincidência, ambos produzidos por Cale ); uma espécie de mimetismo que se prolongava muito para além do tempo que duravam as canções/elegias que os integravam. Como todas as obras maiores “Music for a new society” não deixa ninguém indiferente. É o caso típico do clássico que, ou se ama, ou se detesta.

Há um par de anos, levei a capa do meu original a um “backstage” para que, entre o encantado e o surpreendido, o “big man himself” a autografasse.  Desde então não mais escutei o disco. Regressei agora, a propósito da reedição remasterizada do álbum original, acompanhada de “M:Fans” a transformação/recriação dos temas e a forma como Cale os olha hoje, 35 anos depois de terem sido escritos e gravados pela primeira vez.

Produzido num período complicado da vida do autor, “Music for a new society” é um disco denso e perturbador. A  frase “It’s a loving world to die in”, a encerrar essa extraordinária peça que é “Sanctus” e a ironia do cinzento “Damn life” incorporar notas da “Ode of Joy” de Beethoven, quase poderiam resumir toda a atmosfera do álbum.  Algures em 1983 Cale confidenciou numa entrevista que optou pelo título porque “The record is so dark, you’ve got to have something optimistic”.  


Distante, quer  de registos mais “amigáveis” como  “Paris 1919” ou “Caribbean Sunset”  ( aqui a maior proximidade reside no melódico “Close watch”  recuperado de “Helen of Troy” ) quer de brutais incinerações como “Honi Soit” ou “Sabotage”, “Music for a new society” está repleto de melodias envergonhadas que as colagens e os “overdubs” tornam quase imperceptíveis.

Inesgotável, este é um daqueles discos cuja audição nunca se pode afirmar completa. A cada nova investida existe sempre um detalhe, uma nesga de criatividade, que se descobre e   surpreende.  Tal como algumas das muitas curiosidades que encerra: a guitarra de Alan Lanier ( Blue Oyster Cult  ) em “Changes made”; a adaptação de “If you were still around”,  um poema publicado por Sam Shepard em “Motel Chronicles”, ou a colaboaração de John Wonderling,  muito provavelmente o autor do raríssimo “Daybreaks” ( 1973 ), um disco em cujo tema de abertura - “Long way home” - , são feitas elogiosas referências a Lisboa e ao Estoril.

“Music for a new society” não é um disco para todas as horas nem para todos os dias. Antes um disco para sempre, porque na vida existirão sempre aqueles momentos de estranha cumplicidade, os quais nos conduzirão de novo até ele.

Nota: “M:Fans”, embora partindo das mesmas canções, é outra coisa muito diferente. Quem sabe, talvez um dia me sinta suficientemente confortável para sobre ele dissertar.

01/12/15

Bataclan


Uma desgraça não pode nem deve erradicar as boas recordações.
( Jornal Expresso, 21 de Novembro, cortesia de João Lisboa )
Pode ler-se mais aqui e aqui .


20/11/12

Nico, A Tribute


Convidados previstos, para além de John Cale: Kim Gordon, Joan as Police Woman, Mark Lanegan, Magnetic Fields, Sharon van Etten, Nick Franglen, Peaches e Meshell Ndegeocello.

Wish I could be there! 

05/10/12

John Cale "Shifty Adventures in Nookie Wood"


O respeito e admiração enormes que o Atalho tem pelo passado de John Cale, impedem-no de fazer qualquer comentário acerca deste novo CD.

25/08/12

Velvet Underground


Rigorosamente nada a acrescentar ao título ... ( clicar na imagem para ler texto )

09/02/12

John Cale "EP: Extra Playful"


John Cale, o meu iconoclasta favorito, tem prometido um novo cd lá mais para a primavera. Para o bem ou para o mal, só mais tarde o saberemos, trata-se de um dos discos mais aguardados do ano.

Entretanto, há um par de meses, circula já por aí “EP: Extra Playful” o qual inclui 5 novos temas na melhor tradição vintage do autor. Ou, por outras palavras, canções marcantes, alinhadas com a vida, logo intemporais.

Todos aqueles que assistiram aos concertos portugueses da passada primavera irão reconhecê-los de imediato. “Say hello to the future and goodbye to the past” (“Catastrofuk”) é apenas mais uma prova da lucidez, de um eterno inovador, que não hesita em recorrer à violência verbal e ao caos sonoro para nos fazer sair da nossa letargia e zonas de conforto pequeno burguesas; e aqui é pelo menos legitimo suspeitar se Cale não estará já, ainda que metaforicamente, a antecipar o nosso próximo futuro.


“Whaddya mean by that” retoma a faceta mais melódica e amigável do galês, mas “make no mistake”, o texto é tudo menos inócuo, porque isso Cale não conseguirá nunca ser. O espelho é o interlocutor da alma e aquilo que vemos através dele nem sempre é o que mais gostaríamos. Sem remissão, resta-nos continuar para um “Hey Ray” algo desalinhado musicalmente, embora fiel aos eventos que a personagem, fictícia ou não, testemunhou nos últimas 40 anos.

“Pile a l’heure” e “Perfection” oscilam entre a herança de “Fear” e a atmosfera proto-funk de “BlackAcetate”. E no fim “EP: Extra Playful” deixa a pairar uma expectativa boa relativamente ao que poderá vir por aí. Se o álbum alinhar por este diapasão, é mais do que legítimo começar a sonhar com um novo “Honi Soit”. Isto porque “Paris 1919” ou “Music for a new society” embora diferentes e porventura até contraditórios, estão muito mais lá para cima. Algures na estratosfera.

13/03/11

Six Organs of Admittance "Asleep on the floodplain"

O homem possui tanto talento que por vezes, para o comum dos mortais, chega a ser irritante. Não contente com isso, raramente se repete.

“Asleep on the floodplain” é mais um opus a juntar aos vários que Ben Chasny já produziu. E desta vez, para além das sempre presentes referências a Robbie Basho, John Fahey e Richard Thompson, é possível detectar ecos emanados das pautas de John Cale para “Marble Index” ( “S/Word and Leviathan” ), do harmónio de Nico em “The End” ( “Brilliant blue sea between us” ) ou da inconfundível guitarra acústica de Bert Jansch ( “Poppies” ).

No primeiro – “S/Word and Leviathan” – percorrendo o drone, o cósmico e o épico, Chasny assina uma das suas mais vibrantes composições. 12 m e 25 s de puro deleite que, ou muito me engano, ou irá em breve constituir um “case study” nas diversas madrassas do psicadelismo.

28/02/11

John Cale em palco

Paris, 15 Abril 1981. Naquele fim de tarde invulgarmente ameno para a época do ano no local, o João Lisboa e eu atravessámos a cidade em direcção ao “11º arrondissement”. O destino era o número 50 do Boulevard Voltaire. O objectivo, assistir ao concerto parisiense da tournée de suporte ao recém-editado “Honi soit”.

Ao transpor o átrio do Bataclan nenhum de nós podia imaginar o que se iria passar a seguir no palco do velho teatro.

Quando “Dead or alive” e, logo a seguir, “Strange times in Casablanca” explodiram, estilhaçando acorde atrás de acorde, numa atmosfera absolutamente insana, suportada por uma secção rítmica em chamas e por um John Cale verdadeiramente possesso, foi como se todo aquele público estupefacto, ao contrário do que minutos antes imaginara, se desse conta que afinal não estava preparado para encaixar um tão violento soco no estômago.


Durante cerca de 1 hora, entre o piano eléctrico e a guitarra, Cale não se preocupou em fazer prisioneiros. “Fighter Pilot” e “Wilson Joliet” seguiram o rasto das chamas e a coisa só “amenizou” – relativamente - com “Streets of Laredo” e “Riverbank”.

Quando a prestação terminou, a audiência, a totalidade da audiência, encontrava-se absolutamente K.O. A tal ponto que durante cerca de meio minuto, o silêncio foi a única reacção possível; até que na plateia, alguém mais corajoso ensaiou umas tímidas palmas, rapidamente transformadas numa ovação ensurdecedora e interminável.

Depois disso, assisti a vários concertos do “big man”, todos diferentes e meritórios. Porém não me recordo de nenhum que se tenha sequer aproximado do cataclismo que o Bataclan esteve perto de sofrer naquele fim de tarde primaveril. Talvez por que uma tal performance seja irrepetível.



Não obstante, no passado sábado assisti em Torres Novas a um grande concerto de John Cale. Passaram 30 anos desde aquela tarde louca do Bataclan. O homem carrega nos ombros 68 anos de lenda. Uma realidade física que já não é possível disfarçar. Naturalmente a energia não é nem podia ser a mesma. No entanto a intensidade, aquele sentimento que o galês coloca em tudo o que faz, está lá mais presente do que nunca.

A abrir “Heartbreak Hotel” surgiu algo descaracterizado, mas as coisas cedo entraram no trilho com “Hush”, “Mailman” e “Hey Ray”. “Catastrophic” e “Whaddya mean by that” foram excelentes surpresas e “Amsterdan” esteve majestosa como de costume. “Guts” e, sobretudo, “Pablo Picasso” mostraram como é fácil a um grande músico retirar o melhor de três instrumentistas jovens ( banda de suporte ) e promissores. “Chorale” foi o encore surpresa , quando o Teatro Virginia esperava “Close watch”.

Cale demonstrou uma vez mais que não é um artista como os outros. É algo mais. Esperemos por ele de novo em 2012.

21/02/11

Artefactos ( 13 )


Na altura em que John Cale se encontra de novo entre nós para uma vez mais nos provocar com uma série de concertos imperdíveis - em 2011 Portugal é o único país a ser contemplado com uma digressão - , o Atalho recupera o número 41 de Les Inrockuptibles ( Dezembro de 1992 ), quando a revista era bimensal e ainda fazia justiça ao título escolhido pelos seus fundadores.

Na sequência do notável solo piano “Fragments of a rainy season”, Cale concedeu a Christian Fevret uma das melhores entrevistas da sua carreira. A foto da capa é da autoria de Renaud Monfourny.

A primeira foto em que John Cale e Lou Reed aparecem juntos, The Primitives em 1964 ( Tony Conrad é o primeiro da esquerda )

Os Velvet Underground em 1965, ainda com Angus McLise, o segundo a contar da esquerda ( foto Donald Greenhaus )

John Cale em Nova Iorque, no Verão de 1992 ( foto Renaud Monfourny )

22/12/10

Killers, Angels, Refugees ( 22 )


"Child's Christmas in Wales" ( John Cale )

"With mistletoe and candle green
To Halloween we go
Ten murdered oranges bled on board ship
Lends comedy to shame
The cattle graze bold uprightly
Seducing down the door
To saddle swords and meeting place
We have no place to go

Then wearily the footsteps worked
The hallelujah crowds
Too late but wait the long legged bait
Tripped uselessly around
Sebastopol Adrianapolis
The prayers of all combined
Take down the flags of ownership
The walls are falling down

A belt to hold
Columbus too, perimeters of nails
Perceived the Mamma's golden touch
Good neighbours were we all"



John Cale
de novo ( nunca é de mais ). Em "Child's Christmas in Wales", inspirado na obra do compatriota Dylan Thomas, compôs uma belissima melodia e a partir daí escreveu uma extraordinária bizarria, vagamente relacionada com os Natais da sua infãncia em Gales.

Quanto ao álbum, "Paris 1919" ( 1973 ), o mínimo que se pode dizer é que todas as casas deveriam possuir um exemplar.

16/12/10

Killers, Angels, Refugees ( 21 )


"Risé, Sam and Rimsky Korsakov" ( John Cale / Sam Shepard )

I knew a guitar player once, who called the radio friendly
He felt a kinship, not with the music so much as with the radio's voice,
It's synthetic quality,
It's voices distinct from the voices coming through it.
Its ability to transmit the illusion of people at a great distance.

He slept with the radio,
He talked to the radio.
He disagreed with the radio.
He believed in four way radio land.
He believed he would never find this land.

So, he reconciled himself to listening to it only.
He believed he had been banned from the radio land,
And was doomed to vault the airwaves forever
Seeking some magical channel
That would reinstate him to his long lost heritage.



Uma absoluta obra-prima, "Music for a new society" ( Ze RecordsILPS 7019 ), é "O" álbum maldito de John Cale. E o mais secreto também ( foi objecto de uma fugaz reedição em cd há um par de anos e encontra-se desde então fora de catálogo).

O texto de "Risé, Sam and Rimsky Korsakov" é vulgarmente atribuído a Sam Shepard, embora o Atalho não tenha localizado provas inequívocas do facto.

Explicando melhor:

1 ) relativamente a este tema, o meu vinil original inglês não menciona Sam Shepard. No entanto atribui a co-autoria de "If you were still around" ao actor e dramaturgo americano.

2) à data da publicação, as críticas ao álbum, quer no New Musical Express quer no Melody Maker ( esta reproduzida abaixo ), também não faziam qualquer referência ao tema.

3) o sítio oficial de Sam Shepard é omisso quanto ao assunto.

4) para além do MySpace, John Cale não tem página oficial na net.

Não obstante, porque o álbum e o tema o merecem amplamente, aqui fica a referência.