30/06/21

The Fallen Angels "Paradise Lost"

 


A pandemia para além de desestruturar e colocar no fio da navalha a vida de milhões, vá-se lá saber porque, ajudou também a dinamitar as rotinas do Atalho. “Paradise Lost” – constato-o agora -, um extraordinário disco duplo de uma das bandas favoritas deste espaço, esteve encostado / selado mais de um ano, sem nenhuma razão aparente, à espera de uma oportunidade para ser escutado e devidamente  apreciado.

Numa limitada e luxuosa edição da Sunbeam que inclui booklet explicativo, poster e folheto com as letras, “Paradise Lost” expõe pública e pela primeira vez prestações ao vivo e as demos que tinham como destino o abortado terceiro álbum dos Fallen Angels.

O primeiro LP revela a prestação da banda de Washington DC num concerto organizado pelo jornal underground “Washington Free Press”. Evento cujo objectivo era apoiar a luta pelos direitos civis, das mulheres e o movimento anti-guerra ( Vietnam, entenda-se ). Data de 1969, na ressaca do comercialmente falhado “It’s a Long Way Down”.

Inicia-se com dois temas ( mantras diria ) interpretados a solo por Jack Bryant. Seguem-se uma versão imaculada do clássico “A Horn Playing On My Thin Wall”, “Look at the Wind” e, àquela data, o inédito “Everything Would be Find”. No lado B estão plasmadas versões notoriamente criativas de originais de Dylan, Donovan e Love. O áudio é excelente, a competência dos músicos e o lirismo que emana quer dos textos de Bryant quer das melodias, não sofre do habitual síndrome de palco.



O segundo LP inclui sobretudo demos. No lado A, uma versão sofrível de “Who do you love” provando que o talento e a sensibilidade do colectivo não era compaginável com o blues/rock praticado na época, e um conjunto de temas que foram ou viriam a ser publicados em formato single, entre eles “Everytime I Fall in Love” e “Hello Girl”.

Para o fim, no lado B, a surpresa. Nove demos gravadas a solo por Jack Bryant em 1969, as tais que tinham como destino o tal terceiro álbum cuja gravação a Roulette optou por não patrocinar.

Aqueles que como o Atalho avaliam “It’s a Long Way Down” como uma das grandes “anomalias”  do psicadelismo americano do final dos 60s ( e é nestas alturas que “A Gift From Euphoria” vem  à memória ), ao escutar estas demos, irão inevitavelmente ser tentados a imaginar como teriam soado, caso tivessem beneficiado de arranjos apropriados e da magia criativa que emergia do quarteto.   

24/06/21

Artefactos ( 112 )

 


TIME, 12 Fevereiro 1973


TIME, 16 Dezembro 1974

22/06/21

Joni Mitchell "Blue"



O Atalho não tem por hábito prestar-se a efemérides mas hoje, no dia em que "Blue" completa as suas bodas de ouro, abre uma excepção que todos por certo compreenderão. As demos abaixo substituem quaisquer adjectivos de circunstância. Era só!



20/06/21

Lost Nuggets ( 154 )

Ray Fisher "The Bonny Birdy" ( Topic Records LER 2038 ) UK, 1972

- "Johnnie Sangster"

- "Mill o' Tifty's Annie"

- "Bonny at Morn"

- "Forfar Sodger"

- "Pride of Glencoe"

- "Silkie of Sul Skerry"

- "Shipyard Apprentice" ( Buchan / Campbell / Fisher )

- "Bonny Birdy"

Adaptações de temas tradicionais, à excepção do indicado.

Ray Fisher ( voz e guitarra ), com: Martin Carthy ( guitarra ), Peter Knight, Bobby Campbell e Colin Ross ( violino ), Tim Hart  ( dulcimer ), Ashley Hutchings ( baixo eléctrico ), Alistair Anderson ( concertina ), Liz Sobell ( harmonium ), Stefan Sobell ( guitarra ) .

Produção de Bill Leader

Capa de Janet Kerr

15/06/21

Richard & Linda Thompson "Hard Luck Stories 1972 - 1982"

 


Aparentemente nos antípodas um do outro, Bob Dylan e Richard Thompson poderão muito bem ser as  duas faces da mesma moeda.

A dimensão dos dois talentos encontra consonância perfeita na iconoclastia militantemente praticada por ambos durante décadas. Percorreram sempre o “seu” caminho, imunes a pressões exógenas e provavelmente também endógenas. Borrifaram-se para as opiniões das trupes de oportunistas a que hoje eufemisticamente chamam de “influencers”. Criaram e gravaram grandes discos num passado mais ou menos longínquo, outros, de qualidade questionável, mais adiante. Souberam envelhecer amparados numa dignidade sem paralelo ( lembrar o triste espectáculo dos Stones por exemplo ), para já não referir a opção mais ou menos polémica de ambos a dada altura da vida terem procurado abrigo na espiritualidade ( cristianismo e sufismo )  as respostas que entenderam necessárias para seguir em frente. 

Todos estes factores ( coincidência não se afigura aqui o termo mais adequado ) dizem muito das similitudes idiossincráticas destes dois membros do top five de génios do Atalho ( refiro-me apenas aos  que ainda se encontram entre nós ). E para que conste, os restantes são Peter Hammill, John Cale e Neil Young.



Hard Luck Stories 1972 – 1982” apesar de incluir seis CDs, compila apenas uma parte do espólio acumulado por Thompson até à data. Incide no período em que viveu / colaborou com Linda Peters ( Thompson ), deixando de fora a fase Fairport Convention, as dezenas de sessões / participações em discos de outros artistas ( seria certamente notável um trabalho incidindo apenas neste particular ) e todos os discos a solo, desde logo o primeiro e fundamental “Henry The Human Fly” ( os dois temas e o inédito incluídos no CD1 não espelham a grandeza do disco ) .

O CD1 aborda os primeiros anos com Linda, 72/73. Gravações episódicas de palco e parte dos temas que constituíram esse equívoco artístico que se chamou “The Bunch” e que colocou a família Fairport Convention, Sandy Denny incluída, a recriar temas de rock and roll.

O disco seguinte é preenchido pelo brilhante “I Want To See The Bright Lights Tonight” a que acrescem 5 demos ou versões alternativas. “Hokey Pokey” segue a linha cronológica; as novidades residem na inclusão de uma versão ao vivo do tema título e uma demo de “A Heart Needs a Home” onde o piano do Mighty Baby Ian Whiteman assume assinalável delicadeza e protagonismo.



Relativamente a “Pour Down Like Silver” não haverá muito a  acrescentar. É, a par de “I Want To See The Bright Lights Tonight” o disco mais inspirado do duo. As canções são superlativas e o habitual grupo de fiéis acompanhantes é agora reforçada por esse extraordinário baterista que dá pelo nome de Dave Mattacks. Dúvidas …? Escutem os temas extra deste CD4, em particular os 13 m e 24 s que dura a interpretação de “Calvary Cross” no palco do Oxford Polytechnic a 27 de Novembro de 1975 e tirem conclusões próprias. A prestação não é inédita, foi publicada em 1976 na compilação “Richard Thompson ( Guitar and Vocal)” mas, fruto do trabalho de remasterização, adquire aqui a sua versão definitiva.

A verdadeira surpresa, ou a cereja no topo do bolo se preferirem, chega com o CD5 intitulado “A Madness of Love”. Após terem vivido anos entre comunidades sufi, os Thompson regressaram aos palcos. Os dez temas, captados entre 1975 e 1977 e aqui divulgados pela primeira vez, encantam e hipnotizam em igual medida. Seis deles minimalistas: guitarra acústica de Thompson e as vozes, simplesmente as vozes. “Never Again”, “Dargai”, “Dark End of The Street” e “Beat the Retreat” brilham muito para além do que já lhes conhecíamos. Os restantes títulos são na sua maioria sustentados por ex- membros dos Mighty Baby, à época também eles membros activos da comunidade sufi de Londres. A versão de “Night Comes In” é soberba e “Layla” ( nada a ver com a composição de Clapton ) assume subtil e rara beleza. Não fora tudo o resto e que é muito, dir-se-ia que só este CD justificava a edição.



Os dois álbuns que menos consenso geram – “First Light” e “Sunnyvista” – e convenhamos mais desequilibrados, notoriamente o segundo, são aqui reeditados pela primeira vez. E se “First Light” tem os seus momentos: o tema homónimo, “Strange Affair”, “Pavanne” ou “Street Surrender”, já quanto a “Sunnyvista” não se nos passa pela cabeça contradizer Thompson quando na autobiografia se lhe referiu: “The wrong musicians, the wrong songs”.

A redenção essa, acabaria por chegar já perto do final da carreira artística do duo, através de “Shoot Out The Lights”. As gravações começaram em Londres em meados de 1980 com Gerry Rafferty no papel de produtor. Porém a química entre os criadores e o produtor não terá funcionado e após a conclusão das misturas os Thompson não autorizaram a edição do álbum.

Dois anos volvidos o antigo “anjo da guarda” surgiu de novo. Joe Boyd, velho conhecido do período pré e pós Fairport Convention, soube da história, gostou das canções e ofereceu-se para produzir novas gravações e publicar o resultado na sua editora, a Hannibal Records. Um tiro certeiro e profissional como foi sempre apanágio de Boyd pois, sendo “Shoot Out The Lights” o último testemunho da dupla Richard & Linda, acaba por ser um dos seus legados mais felizes e consistentes.



Sintetizando, “Hard Luck Stories 1972-1982”, entre álbuns originais  e as dezenas de bónus tracks, guarda tudo o que interessa escutar e saber sobre uma das duplas mais relevantes da música britânica no período em apreço.